Meio-morta, a cadela cobria com o corpo um pequeno novelo, enquanto as pessoas faziam de conta que não viam nada e passavam ao lado
Miguel, como sempre, ia a correr. Era aquele tipo de pessoa que está sistematicamente atrasada, faz promessas solenes ao domingo de noite de organizar o tempo, mas invariavelmente falha. E naquele dia, mais do que nunca, não podia mesmo atrasar-se a Francisca esperava-o no restaurante, e se havia coisa com que ela não lidava era à espera alheia.
A paragem ficava ali a dois passos, o autocarro estava mesmo quase a chegar. Miguel tirou o telemóvel, olhou para as horas e fez uma careta: já ia com cinco minutos de atraso. Imaginou logo aquela cara da Francisca, carregada, que gritava sem som: És só mais alguém na minha lista.
Então? O que é que se passa aí à frente? resmungou uma voz irritada atrás dele.
Miguel virou-se. Na paragem juntava-se uma bela multidão e, curiosamente, toda a gente fazia um desvio cuidadoso ao pé de um banco. Uns torciam o nariz de nojo, outros simplesmente fingiam que não viam. Ele avançou mais um passo, travou de repente.
Ali, estendida no chão, mesmo junto ao banco, uma cadela. Grande, ruiva, a sujidade e as nódoas tornaram o pelo num amontoado castanho indefinido. As costelas espetadas, de dar dó, de dar medo. Os olhos fechados. Respirava? Mal se via um sopro. E debaixo daquele corpo um minúsculo novelo negro: um cachorro. Miudinho, a tremer, escondido debaixo da mãe como quem esconde o último tesouro da vida. A cadela, com as poucas forças que lhe restavam, usava o corpo para o abrigar do frio e da fome.
Então mexam-se lá, senhores! voltou a insistir a voz. Estão aqui a fazer o quê, estátua?
Miguel ficou pregado ao chão. Olhava para a cadela, para o cachorro e para toda aquela multidão que passava, impávida, como se, vá-se lá saber porquê, estar ali uma cadela a morrer e um cachorro nem fosse da conta deles.
O autocarro chegou. As portas abriram-se com um chiado impaciente.
E então, amigo? Vem ou fica? perguntou o motorista a bufar.
Miguel olhou para o autocarro, depois para o relógio e voltou à cadela.
Não, não vou respondeu tão baixo que só ele ouviu.
As pessoas entraram, meia dúzia a bufar, passaram as portas que se fecharam, o autocarro arrancou sem cerimónia. Miguel agachou-se ao lado da cadela.
Ei, vá lá, aguenta, ouviste? murmurou.
A cadela ergueu a cabeça com esforço, e dois olhos amarelos, assustadoramente humanos na tristeza, encontraram os dele. O cachorro piou baixinho.
Miguel, a engolir em seco, tirou o telemóvel e ligou à Francisca.
Olá, Miguel, onde é que andas? Estou aqui à espera!
Franci, vou-me atrasar Apareceu-me aqui uma cadela a morrer. Tem um cachorro. Não consigo simplesmente deixá-los.
Estás a gozar comigo?! Uma rafeira?! Já pedi a ementa! Não podes perder tempo com isso!
Entendo, mas
Nada de mas! Telefona ao canil e vem já! Não vou ficar sozinha!
Toque. Francisca desligou.
Miguel pousou o telemóvel devagar, suspirou, olhou mais uma vez para a cadela e o cachorro, e depois foi direito ao supermercado mais próximo. Voltou três minutos depois com uma carcaça e uma salsicha. Rasgou pedaços e tentou oferecer à cadela.
Toma, tens de comer sussurrou.
Nada. Nem um movimento. O cachorro civava baixinho. Miguel, já sem saber o que fazer, mal ouviu a voz atrás dele:
Precisa de ajuda?
Virou-se. Uma rapariga morena, de cara cansada mas simpática, segurava um saco de compras. Acocorou-se ao lado dele, acariciou a cadela.
Pobrezinha está nas últimas. Tem de ir ao veterinário, e depressa.
Não faço ideia onde confessou Miguel, meio perdido. Nunca tive cães.
Eu conheço uma veterinária ali na Rua do Alecrim. Vou já ligar. Mas como é que a levamos? Ela mal respira.
Miguel tirou o casaco, estendeu ao chão, e juntos ela e Miguel conseguiram levantar a cadela para cima do tecido, o cachorro embrulhado no cachecol da rapariga.
Chamo-me Mariana disse ela finalmente.
Miguel.
E agora, como é que se vai chamar ela?
Ruiva saiu-lhe sem pensar.
O telemóvel voltou a tocar. Francisca. Miguel rejeitou a chamada.
Chegados a casa da veterinária uma senhora de meia idade chamada Dra. Judite , despachou-se a avaliá-la, pôs-lhe um soro, deu-lhe uma injecção.
Está desidratada, desnutrida, quase com pneumonia. Mais um ou dois dias e era o fim. Mas com cuidado vai lá anunciou.
Quando ficaram sozinhos, Miguel sentou-se ao lado da Ruiva. O cachorro aconchegou-se debaixo dela. Mariana sugeriu um café; sentaram-se ambos no sofá, apenas a olhar para os bichos.
A minha namorada estava à minha espera num restaurante resumiu Miguel, melancólico. Bom, estava.
Deve estar fula, não? arriscou Mariana.
Ex-namorada Disse que estraguei a noite por causa de uma rafeira. Mas não consegui ser mais um a fingir que não vi. Ela aquela cadela lutou pelo filho e todos a evitaram, como lixo.
Mariana acenou, compreensiva.
Sabes? Quando me divorciei, também achei que ninguém queria saber. Cada um por si. Cheguei a pensar: será que somos todos mesmo assim?
O telefone tocou. Francisca, a insistir pela décima vez. Miguel atendeu.
Perdeste o juízo?! Três horas à espera de explicações! Ou vens agora, ou acabou!
Miguel olhou para a Ruiva, o cachorro e Mariana, e respirou fundo.
Então acabou disse, calmo. Desligou.
Mariana ergueu as sobrancelhas:
Tens a certeza?
Tenho, sim senhora sorriu Miguel.
Ela devolveu-lhe o sorriso, um daqueles de quem entende.
A noite foi longa. Ruiva respirava com dificuldade, às vezes parecia que parava, e Miguel ficava ali, a espreitar se ainda estava viva. Às vezes choramingava, outras vezes calava-se por completo. Ele e Mariana revezavam-se nas vigílias. Miguel tentou heroicamente manter-se sozinho, mas Mariana apenas abanou a cabeça:
Sozinhos é sempre mais difícil. É melhor a dois.
Ficou.
Três da manhã. Miguel tropeçou na cozinha, encontrou Mariana a aquecer leite para o cachorro.
Ela notou-lhe o ar aflito.
Está pior?
Nem sei respira cada vez menos. Tenho medo que não chegue à manhã.
Mariana aproximou-se.
Sabe uma coisa? disse. Para mim, ela já venceu.
Venceu?
Podia ter desistido lá fora. Ficar deitada, simplesmente esperar. Mas não usou tudo para abraçar o cachorro, acreditou que alguém ajudava. E alguém apareceu. Tu.
Miguel ficou mudo, a olhar o chão.
Agora está quente, protegida, com o filho. Mesmo que não sobreviva é mais feliz do que ontem. Entendes?
Miguel ergueu os olhos.
Como é que tu apareceste aqui?
Mariana sorriu, triste.
Já soube o que é sentir-me inútil. Depois do divórcio, foram meses: casa, trabalho, casa. Não ligava a ninguém; ninguém ligava para mim. Uma noite, vi um gatinho sujo. Passei adiante, mas voltei. Levei-o comigo Pela primeira vez em meses senti que era precisa para alguém. Ao gato não lhe importava se eu era ou não bem sucedida; só queria companhia.
Miguel assentiu, devagar.
Hoje percebi também. Sempre a tentar ser filho modelo, funcionário exemplar, bom namorado. Tudo planeado, mas depois aparece uma cadela a morrer… e todo o resto parece ridículo. Todos com pressa, todos com planos só ela a dar tudo pelo filho. Podes seguir como eles ou podes parar. E tudo muda.
Ficaram ali, na cozinha, em silêncio e penumbra.
Obrigada por ficares comigo murmurou Miguel. Sem ti não me safava.
Mariana apertou-lhe a mão.
Não tens nada que agradecer. Eu também precisava de perceber que não estou sozinha.
O cachorro gania da sala, e os dois foram ter com a Ruiva. Ela deitou um olhar para eles. Miguel fez-lhe festas na cabeça.
Aguenta, Ruiva, já falta pouco, ouviste?
Ruiva agitou levemente o rabo. O cachorro foi-se aninhar a ela. Nesse momento, Miguel sentiu qualquer coisa dentro dele a partir-se: anos de vida ao serviço de calendários e listas de tarefas e de sorrisos que nunca eram para ele. E percebeu finalmente que se era para recomeçar, tinha de ser ali.
De manhã, a luz do sol encheu o apartamento. Ruiva dormia tranquila, respirava fundo. Contra tudo e todos, ela sobreviveu.
Uma semana depois apareceu Francisca, com aquela pose de culpa disfarçada:
Miguel estive a pensar talvez tenha exagerado. Salvar animais é bonito. Se calhar devíamos tentar de novo?
Miguel encostou-se à porta. Da sala vinham latidos: Ruiva já recuperada brincava com o cachorro, agora feliz.
Franci, não guardo rancor, mas somos diferentes. Muito diferentes.
Por causa da cadela? a voz dela soava aguda. Tantos planos, um ano juntos!
Não foi por ela. Quando te liguei podias ter dito: Vem cá, resolvemos juntos. Escolheste o restaurante. Escolha tua.
Francisca fez beicinho, depois deu meia-volta e foi-se embora.
Miguel fechou a porta e voltou à sala. Mariana estava sentada no chão a fazer festas à Ruiva, o cachorro dormia-lhe no colo.
Ela foi-se embora? perguntou Mariana sem olhar.
Foi.
Arrependes-te?
Miguel sentou-se ao lado delas.
Nem por sombras. Se não fosse a Ruiva, continuava na mesma: trabalho, Francisca, fins de semana programados mas nunca teria percebido quão vazio era isso.
Ruiva ergueu-se, olhou para ambos, depois voltou a deitar-se, soltando um suspiro de pura satisfação canina. O cachorro rosnou baixinho, a sonhar.
Pela primeira vez em muitos anos, Miguel sentiu-se realmente em casa, ao lado de quem importava.
Mariana tocou-lhe na mão. Sorriam os dois.
Lá fora, o inverno seguia firme no seu cinismo. Mas naquele pequeno apartamento português, onde uma cadela quase morta ganhou lar e dois humanos se encontraram, a primavera já tinha chegado.
