Biruk: Uma Lenda dos Montes Portugueses

Puxa, como és duro, Vítor Manuel! Não é à toa que te chamam de Lobo Solitário! Olha, um sorriso teu é coisa rara. E quando alguém te olha, até dá um certo receio, não sei se congelaste ou se simplesmente a vida não te agradou mais, pá.

A Benedita ainda dizia qualquer coisa, mas o Vítor já tinha desligado. Pegou nas suas compras no único mini-mercado da aldeia e dirigiu-se à porta em silêncio.

Ouviste, Vítor Manuel? A tua Leninha veio cá à mãe dela estes dias. Trazia o miúdo. E se for mesmo filho teu? Vais deixá-lo andar aí perdido pelo mundo? Aquilo sim, é tua cara chapada!

Estas palavras ainda ecoaram nos ouvidos do Vítor junto à porta tropeçou no limiar baixo, mas não chegou a olhar para trás. Para quê? Ninguém prova nada a ninguém. Aqui todos sabem tudo, ou se não sabem, inventam. E ele nunca foi de lavar roupa suja em praça pública. Era assunto dele e da Helena, mais ninguém.

O sol lusitano, já quente para a primavera, bateu-lhe no rosto, provocando até um arrepio bom. De olhos semicerrados, deu dois passos e quase esbarrou em alguém ao ouvir uma vozinha:

Cuidado!

Um rapazinho apressou-se a apanhar dois cachorrinhos que brincavam ao pé dos degraus da mercearia.

Não os calque, se faz favor!

Nariz esfolado, olhos escuros e puxados como os de toda a gente por ali, e aquelas orelhas ligeiramente salientes Parecido, sim senhor! As mulheres da aldeia falavam e não era à toa. Só que Vítor sabia, lá no fundo, que aquele miúdo, que o olhava tao atento, não era filho dele. Talvez família, mas tão chegado não era.

Não quer um, senhor? Veja que patas! Quase que parece um lobo! Vai ser bom cão, aposto!

Vítor só conseguiu negar com a cabeça e virar para a rua mais próxima, mesmo sabendo que não era o caminho habitual para casa. Parou encostado ao muro alto dos Silveira, sentiu o ar a faltar e não percebeu bem como respirar de novo.

Porquê aquilo tudo? Porque é que ela voltou de repente? E com o rapaz? Devia ser mesmo o Olegário a ter deixado, não?

As ideias rodopiavam-lhe, e o coração batia descompassado, como há sete anos atrás. Aquilo doía tudo outra vez. E não havia ordem, nem força, para o mandar calar.

A Lucinda Silveira entrou pelo portão, viu-o assim, largou as compras no chão e veio ter com ele.

Ó Vítor! Estás bem? Sentes-te mal? Ajudo, ou chamo o Manel?

As mãos da Lucinda eram quentes, cuidadosas, e, quando Vítor abriu os olhos, ela já lhe segurava no braço.

Não chames ninguém, Lucinda. Obrigado. Passa-me

Passa nada! Agora vens comigo, encostas-te a mim e vais andando devagarinho, vá lá. Olha que estás pesado, homem, santo Deus! Tu queres dar cabo de ti, é? E depois eu é que levo com as culpas! Ainda és meu doente, não te esqueças! Não me faças passar vergonhas, ouviste? Vou medir-te a tensão, dar-te uma injecção, e ficas como novo, fresco como um pepino! Vá, anda lá!

As pernas nem respondiam, mas Lucinda era rija, quase que o levou a arrastar. Empurrou a cancela com o pé e chamou:

Manel! Dá-me uma mãozinha!

Depois, Vítor perdeu-se um bocado no tempo. Só se apercebeu de si já no sofá, em casa da Lucinda. Sentia peso no peito, pensou que fosse mesmo o fim ataque cardíaco, se calhar. Abriu os olhos, respirou melhor e percebeu

A gata Fofa, cinzenta, estava a lamber um dos seus gatinhos, bem junto à sua barriga, enquanto os outros se enrolavam por cima do peito do Vítor.

Esta Fofa sabe bem escolher as pessoas a quem confiar os filhos! Se trouxe os dela para ti, é porque tens bom coração, Vítor. Não fazia isso a qualquer um!

Lucinda pôs de parte os cadernos das filhas, pousou o estetoscópio e organizou tudo à volta.

Pronto, está melhor! Ritmo cardíaco normal agora. Vê lá, Vítor, assusta-me assim não, que as ambulâncias só cá chegam dias depois, nestes caminhos E tu, que pensas? Morrer antes de tempo? Ainda há tarefa para acabares!

Quais tarefas, Lucinda? Só a Vaquinha e o Reizinho, meu cão. É o que me resta.

A vaca é boa, merece bons cuidados. E se tu te acomodas à cama, o que é feito dela?

Só então Vítor reparou nos cortinados corridos, a casa na penumbra com luz acesa.

Que horas são, Lucinda?

É tarde. Deita-te. Nem penses em sair hoje. Ficas a dormir cá. Não temas, passei pela vaquinha, está bem.

Lucinda fez um carinho ao marido de relance, e foi à cozinha. O Manel sentou-se ao lado.

Mal disposto, pá?

Nem sei. Qualquer coisa aqui dentro…

É da Helena, não é?

Deixa isso, Manel… Vítor desviou o olhar, mas deu com os olhos atentos da gata.

Até a Fofa sente! Manel riu, coçou-lhe a cabeça. Ela percebe quando falta companhia. Trouxe todos cá para te animar. Ficou sentada ao pé de ti até a Lucinda te trazê-lo de volta. E depois, pois, andou a buscar os filhos e pô-los aqui. Os bichos, Vítor, têm muito mais sentido que a gente. Vão pelo coração, por instinto. Não devias guardar tanto para ti. Eu entendo que és homem reservado, mas às vezes parte-nos por dentro. Vejo-te e bem que estás mal.

E que podes tu fazer, Manel? Lá problemas teus não faltam.

Isso é verdade. Mas olha, quando precisei de ti também não me pediste licença. Um favor merece outro. Se te posso ajudar, deixa-me ao menos tentar.

Como? Não há nada a fazer.

A minha avó dizia: Tristeza não é para guardar. Se não há quem te ouça, vais para o monte, gritas o que for preciso. Se não, come-te por dentro.” Anos a fio e tu calado… Talvez faça sentido pôr fim nesse silêncio. Somos humanos, homem, não lobos. Vivemos melhor juntos. Conhecemo-nos desde o sexto ano, não? Ui… já estamos carecas e ainda com estas reservas todas! Deveríamos ter conversado há muito tempo Mas pronto, se quiseres falar, eu ouço. Se não espero e continuo por cá.

Sei Vítor afagou devagar os gatinhos, respirou fundo e, finalmente, falou. O que queres tu que te diga? Dói, envergonha. Houve tempos em que só a Helena fazia sentido. Viste-me atrás dela, no liceu, à espera do serviço militar para casar Sabes tudo. Mas não sabes porque é que isto tudo descambou.

Não sei, pois não. Só de repente ela foi para Lisboa, tu sumiste Lembro-me de ver a tua mãe a vender a vaquinha. Chorava, não dizia porquê.

Ela não sabia. Disse só que já não amava a Helena, tinha de partir Fui quase deserdado

Vá lá, Vítor, ninguém acaba um grande amor assim sem razão. Tu ainda a amas!

Vítor ficou em silêncio. As lágrimas queriam saltar, mas não podiam já tinha chorado sozinho pela mata, como um bicho ferido, depois daquela noite que vira o indescritível. Gritou o nome dela vezes sem fim, caiu de joelhos e chorou até não poder mais. E nunca foi capaz de esquecer.

Eu só imagino uma razão Mas não consigo acreditar que a Helena te tenha traído. Não é coisa dela, nunca foi.

Vítor fitou Manel, olhos de negro forte como poucos na aldeia.

Vi-os, Manel. Se me contassem, não acreditava. Mas vi. Com os meus olhos.

Manel arregalou os olhos.

O quê? Conta lá…

Era com o Olegário, o meu primo direito. Tinham vindo com a mãe dele para o campo, ficado lá em casa meses… Íamos abrir uma queijaria juntos. A Helena sempre a apoiar, entusiasta dos animais, sabes como é. Foi ela a incentivar-me a ir negociar lá para a cidade. Deixei-lhe tudo, confiei, e fui… E então…

Nunca ouvi tal, nem se cochichou cá nada. E se houvesse, a Lucinda logo me dizia, ou qualquer uma das vizinhas!

Claro que não souberam… foi lá em casa. No nosso ninho. Nem vou contar detalhes, mas pronto, é suficiente saber que os vi juntos. Prendi tudo cá dentro. Morro devagar por isso.

Manel ficou calado, também ele espantado.

Eu conheço a Helena… Não é capaz. Eras tudo para ela!

Vítor tomou balanço:

Tive tempo para pensar. Fugi para o bosque, para a minha solidão. A certa altura, ela só queria ter filhos. Eu, teimoso, nunca fui ao médico, não aceitava que pudesse ser de mim. Ela foi procurar outra solução.

Não penses nisso assim! Manel protestou. Estás a juntar dois e dois e a dar cinco!

Não havia dúvidas, Manel

Mas será que o miúdo não é teu?

Sei fazer contas. E a mãe da Helena, quando a Lucinda foi lá, explicou tudo direitinho.

Conta o que viste, ao voltas da cidade, homem! Foi tão claro assim?

Vinham abraçados, ele a beijá-la e ela não resistiu. Pronto, para mim bastou. Morri por dentro.

Lucinda aproximou-se:

Deixa lá, Vítor, vou dar-te mais uma injecção para descansares. O resto fica para amanhã.

Vítor nem tentou esconder as lágrimas. Acabou por adormecer, pesado.

Manel chamou a Lucinda, foram à cozinha cochichar.

Ouviste tudo?

Tudo.

Que vais fazer?

Vou sair, preciso de resolver isto. Não aguento vê-los assim. Deixa que trato disto à portuguesa: vou à Tia Carminda primeiro. Depois, vou à Helena. O coração do Vítor está no fio da navalha. E eu, que sou médica, sei ler os sinais

Lucinda puxou o casaco e saiu. O Manel acendeu um cigarro nos degraus, inquieto.

A vida tem destas coisas, pá. Julgas agarrar a felicidade, e fica-te só uma penugem na mão… Ele e a Lucinda também tinham visto tudo: perderam familiares, choraram um filho, e até as filhas gémeas demoraram a vir. A Lucinda nunca se recuperou bem, a culpa de, sendo médica, não ter salvo o menino. E agora? Era ela que sentia aquela dor de mãe que só entende quem viu um filho crescer à sombra…

Manel ficou à espera até de madrugada. Só quando a cancela rangia se levantou. Apertou Lucinda nos braços e, ao ver-lhe a cara lavada em lágrimas, só perguntou:

E então?

É! É filho dele. Agora sei tudo. A tia Tamara, ou Carminda, acabou por confessar.

Como conseguiste, pá? Tantos anos calada…

Não sei bem, talvez por medo. Fiquei tão zangada quando ouvi a história… Fui logo à Helena, ouvi tudo. Não teve culpa nenhuma. Já estava grávida, só não teve coragem de contar ao Vítor antes de ele partir. E tinha tanto medo de outro aborto, já três lhe tinham roubado. Imagina! Eles os dois, duros como pedras, e sempre a calar tudo!

Lucinda chorava, Manel acariciava-lhe a cabeça.

E depois?

Fui à Carminda, à mãe do Olegário. Ela explicou tudo à Tati, mãe do Vítor. Tantas mágoas antigas, tudo por inveja! Em novas, as irmãs competiam por um amor, a Carminda perdeu e nunca esqueceu. Foi ela a plantar a discórdia, picar o filho, meter-lhe ideias. E tudo explodiu depois.

E a Tati?

Chamou-as, desabafaram, choraram, tudo. Expulsou a Carminda da aldeia, a ver se algum dia perdoa. Só quer refazer a família, a neto e a filha…

A Helena chamou ao rapaz?

Sim, Sérgio, em homenagem ao avô. Sabes, agora faz sentido. Vai finalmente ter o pai por perto.

O sol já escalava as casas quando o Vítor saiu, trôpego ainda, pró alpendre. Encandeado pelo brilho do quintal dos Silveira, ouviu:

És tu, pai?

O rapaz estava sentado, com o cachorro ao colo.

Olha aqui! Que patas! Vai ser daqueles de respeito, achas?

Vítor respirou fundo, sentou-se ao lado, afagou-lhe a cabeça.

Vai ser grande cão, sim senhor. Escolha em cheio.

O olhar negro do miúdo era igual ao dele, e Vítor, tremendo mas carinhoso, pousou-lhe a mão no ombro:

Sou, sim, Sérgio. Sou o teu pai.

Ainda bem! Vamos, a mãe está a fazer o pequeno-almoço. E a avó veio cedo, prometeu levar-me a ver os cavalos hoje. Posso ir?

De repente, sentiu que tudo o que tinha amarrado por dentro se soltou. Como se o arreio de tristeza explodisse, libertando uma alegria e leveza antigas. A voz saiu-lhe firme, como antigamente. Pegou o cachorro das mãos do filho, ergueu-se:

Podes, claro que podes! Anda, filho, temos tanto para fazer juntos. TANTO!

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