Bagagem Perdida

A Mala Perdida

A mala pesava de forma estranha, diferente daquela a que Inês estava habituada.

Ela percebeu logo junto à passadeira de bagagens. Os doze quilos de sempre, de repente, transformados em algo mais denso, pesado, o centro de gravidade deslocado. Mas, de fora, a mala era igual: cinzenta, plástica, quatro rodas, o mesmo risco no canto esquerdo. Inês agarrou a pega e saiu do aeroporto.

O Aeroporto Francisco Sá Carneiro cheirava a café e azulejo molhado. Pela vidraça, a chuva de março caía miúda chuva friorenta do Porto, sem aquela alegria de verão e Inês pensou que o congresso sobre espaços verdes urbanos era, claro, boa razão para voar de Lisboa para o Porto. Mas não suficientemente boa para dar contentamento.

Tinha trinta e um anos. Investigadora júnior no Instituto de Urbanismo, apartamento alugado de vinte e oito metros quadrados, livros empilhados contra as paredes. A mãe, em Évora, ligava aos domingos e perguntava sempre a mesma coisa: E então? Ainda sozinha? E Inês respondia: Mãe, tenho trabalho. Como se isso justificasse tudo.

O táxi até ao hotel demorou vinte minutos. O motorista perguntou-lhe se estava de férias. Inês respondeu: Em trabalho. Ele assentiu, como se outra resposta fosse impossível.

O quarto era pequeno mas limpo, com vista para uma faixa de mar cinzento. No parapeito, uma flor de plástico uma begónia, mas falsa, sem se dar sequer à aparência. Inês pousou a mala em cima da cama, abriu os fechos e levantou a tampa.

E congelou.

Lá dentro, estavam roupas de homem.

Uma camisola grossa de lã verde escuro, cheirando a algo terroso e distante de perfume. O tamanho, definitivamente não era o dela: os ombros quase uma vez e meia os seus. Calças de ganga. Ténis dentro de um saco de supermercado, tamanho quarenta e três. Um carregador de telemóvel, daqueles que ela nunca usou. Um pequeno saco de sementes com inscrições estrangeiras, algo botânico. E um caderno, volumoso, de capa de couro, preso por um elástico laxo.

Não era a sua mala. Inês sentou-se na beira da cama a olhar para as coisas alheias. Por fora, igualzinha: cinzenta, quatro rodas, risco no mesmo canto, mas estranhamente alheia. Alguém levou embora as coisas dela do aeroporto os livros, o vestido do congresso, o portátil com as apresentações, a foto da mãe na moldura. E ela ficou com uma vida trocada.

Durante cinco minutos ficou assim, sem saber o que fazer. Depois ligou ao aeroporto. A gravação disse para aguardar. Esperou onze minutos, associaram-na a uma assistente que anotou o voo, o número da etiqueta, e pediu para aguardar. Iriam ligar de volta. Prometiam que sim.

Largou o telemóvel e olhou novamente para a mala aberta. O caderno estava mesmo ali, parecia ter sido a última coisa a entrar. A capa de couro gasta dos lados, o elástico molenga.

Ela sabia que não devia. Coisas alheias, vida alheia, palavras alheias. Era como espreitar pela janela dos outros. Inês levantou-se, andou pelo quarto, bebeu um copo de água do jarro. Olhou de novo para o caderno.

O ombro esquerdo, baixinho de anos a carregar o portátil, esticou-se como se tivesse vontade própria. Os dedos já lisos do ecrã tocaram a capa, quente e macia.

E ela abriu o caderno.

***

A letra era estranha. Inclinada para a esquerda, redonda, rabos longos nos “g” e nos “p”. Não era uma letra apressada, mas refletida. Quem assim escrevia, provavelmente também falava devagar.

A primeira nota começava sem data:

Coimbra. Subi a pé ao Jardim Botânico de manhã. A cidade vista de cima é como um jardim gigante esquecido, árvores entre as casas, arbustos nos varandins. Desenhei um plátano à entrada. O tronco parece um mapa de país desconhecido: manchas claras, ilhas escuras. Fiquei ali três horas, até arrefecer.

Inês virou a página.

Lisboa. Desenhei a figueira na Estufa Fria. Não era uma figueira verdadeira era uma espécie estrangeira, miniatura. Mas as raízes pareciam querer fugir do vaso. Uma árvore séria em tamanho de brincar. Talvez seja como eu.

Sorriu. Primeira vez no dia.

Virou outra página. E outra.

As notas amontoavam-se: Funchal, Braga, Aveiro, Faro. Sempre sobre o lugar e as plantas. Alguém viajava, desenhava árvores, pensava alto em papel. Nunca uma palavra sobre hotéis, restaurantes, pontos turísticos. Só verde. Troncos, folhagens, raízes, copa. Entre as linhas, esboços rápidos e cheios de precisão. Um ramo com três folhas. Uma raiz a abraçar a pedra.

No Funchal, vi uma laranjeira no mercado, pendurada de sacos e etiquetas. A árvore ali, velha de mais de duzentos anos. Sobreviveu a feiras, pandemias, vendedores. Desenhei-a, mãos a tremer do calor.

Em Braga, as glicínias descem tão baixo nos jardins que batem nas cabeças. Os portugueses desviam-se, os turistas fotografam. Fiquei a pensar: aqui está uma árvore que ignora fronteiras. Cresce para onde quer. Se eu pudesse

Inês percebeu que lia há mais de quarenta minutos. Lá fora, escurecera. A chuva batia no vidro suave e miudinha.

Vira mais uma página.

Aveiro. Entrei num parque abandonado nos arredores. Tílias tão grossas que duas pessoas não as abraçam, as raízes rebentam o alcatrão. Antigamente passeavam pessoas, agora só as árvores. E eu. Desenhei uma tília sólida, firme, não mexia folha sequer. Pensei: assim deve ser a fidelidade. Ficar à espera que alguém regresse.

E percebeu que, em cada frase, o autor falava com as árvores como quem conversa com um amigo. Com naturalidade, sem reservas nem pudor. E Inês sentiu-se tentada a descobrir porquê.

Depois uma nota que a fez fechar o caderno e fitar a parede.

Faro. Dois anos após o divórcio. Andei com a Teresa catorze anos desde a faculdade até ao fim. Ela disse: Gostas mais de árvores do que de gente. Talvez tenha razão. Talvez nunca tenha sabido gostar de gente como elas precisavam. Já não acredito que vou encontrar. Não outra árvore: uma pessoa. Alguém que perceba porque desenho raízes.

Inês fechou o caderno. Pousou-o na mesinha. Levantou-se, foi à janela.

Chovia ainda. O mar além era escuro e achatado, sem uma luz. Uma porta bateu em baixo, risos de gente nova, alegres e estranhos a ela.

Trinta e um anos. Estúdio alugado. Livros em pilhas. E então? Ninguém? Os últimos amores tinham acabado há mais de um ano. E Inês nem deu conta de ter deixado de procurar. Um dia, depois do trabalho, sentou-se na cozinha e percebeu que estava bem sozinha. Ou melhor: não estava feliz, mas estava habituada, e o hábito substitui a felicidade se não se pensar nisso.

Voltou à mala e começou a arrumar, devagar, as roupas daquele desconhecido. E só então se lembrou.

Da carta.

A mesma que começou a escrever no avião de aborrecida. O voo atrasado duas horas, ela tira folha e caneta só para ocupar as mãos. Não era um diário, nem um desabafo. Só um disparate que uma mulher adulta não devia escrever. Caro desconhecido, sonho encontrar alguém Não acabara. Enfiara a folha no bolso lateral da mala e esquecera-a.

E aquela folha agora estava com outro alguém. Com o homem deste diário de viagens.

Inês sentou-se na cama. As faces ardiam.

***

Na manhã seguinte voltou a ligar para o aeroporto.

Perdidos e achados, fala Matilde, a voz cansada, no fundo, um rumor de bolachas.

Ontem preenchi uma reclamação. Lisboa-Porto, etiqueta número…

Aguardem um momento Estalido de bolacha. Sim, a sua reclamação está em processamento. Entraremos em contacto.

Quando?

Por ordem de chegada. Três a dez dias úteis, em geral.

Dez?

Úteis. Pode ser menos. Fique atenta.

Desligou. Olhou para a mala alheia. Precisava de roupa. O congresso era dentro de dois dias. O único vestido decente, o portátil tudo nas mãos de um estranho, algures.

Saiu para a rua. Um centro comercial apareceu quinze minutos depois. Comprou umas calças, uma blusa, roupa interior e um carregador novo. Na caixa, a empregada pergunta:

Perdeu a mala?

Troquei-a.

Aqui no Porto é o costume. As malas são todas iguais. Cinzentas.

Inês acenou. Afinal, não estava sozinha. Sentiu-se um pouco reconfortada.

Foi à farmácia comprar escova de dentes e pasta. Depois entrou numa pastelaria, bebeu um galão ao balcão todas as mesas ocupadas por casais. No regresso ligou à mãe.

Chegaste bem? E o tempo?

Chuva.

Levaste guarda-chuva?

Mãe, perdi a mala.

Valha-me Deus. Roubaram?

Trocaram no aeroporto. Levaram a minha, deixaram-me esta.

A mãe ficou calada. Depois:

Alguém anda por aí com as tuas coisas. O que irá pensar dos teus livros?

Mãe.

Não é graça. Levas sempre livros como os padres levam a Bíblia.

Inês não falou do caderno de árvores. Nem da letra inclinada, nem da nota de Faro. Limitou-se a dizer “vai ficar tudo bem, mãe”, e desligou.

Depois voltou ao quarto e abriu de novo a mala.

Não para rever o caderno. Procurava uma pista nome, contacto, qualquer coisa. Explorou os bolsos interiores. Num deles, com fecho, uma visita.

Tomás Ribeiro. Arquitetura Paisagista. Projetos, manutenção, consultoria.

E um número de telemóvel.

Inês digitou no WhatsApp. Escreveu:

Bom dia. Parece que trocámos as malas ontem no Aeroporto do Porto. Tenho a sua. Cinzenta, com risco. Dentro estava um caderno e o seu cartão. Encontrei este contacto.

A resposta chegou nove minutos depois.

Bom dia. Só hoje é que abri a sua mala. Sim, evidentemente que não é a minha livros, bloco, vestido. Peço desculpa. Também estou no Porto. Podemos trocar?

Ela leu e releu. Livros. Bloco. Vestido. Ele tinha visto as suas coisas.

Sim, combinemos. Onde e quando?

Café Miramar, à beira-mar. Amanhã às dez? Levo a sua mala.

Combinado.

Pousou o telefone. Depois pegou e releu: livros, bloco, vestido. Ele abrira a mala dela. Vira-lhe a vida. Talvez tivesse visto o bloco das ideias para os artigos. Talvez a foto da mãe. Talvez a carta.

Inês fechou os olhos. Imaginou-o no quarto dele ou na varanda de alguém, ou numa esplanada a segurar o seu papel manuscrito. Linhas apressadas, que nunca quis mostrar a ninguém.

Abriu os olhos. Pegou no caderno da mesa e leu de novo a nota de Faro.

Já não acredito que vou encontrar.

Ela, porém, escrevera: caro desconhecido, sonho encontrar. E esse papel estava agora nas mãos de alguém que desenha árvores e procura quem as entenda.

Coincidência? Ou coisa de sonho, inexplicável, como as malas iguais.

Ou não.

Sentou-se e abriu o caderno na última página. Depois de Faro havia mais umas linhas.

Viseu. Primavera. A varanda está tão cheia que os vizinhos se queixam. Cento e catorze vasos contei. A Teresa diria: Estás tolo. Mas já não há Teresa. Ninguém se queixa, exceto o ficus. O ficus não fala. Ótimo confidente.

E, finalmente, a última nota:

Vou para o Porto. Jardim Botânico. Quero ver a magnólia centenária. Férias. Primeiras sem ser por trabalho, só porque sim. Estranho viajar só porque sim. Como se faltasse uma desculpa.

Inês fechou o caderno. Guardou-o na mala. Fechou o fecho.

Ele ia ao Porto por causa de uma árvore. Ela, por causa de um congresso de jardins urbanos. Ele desenhava árvores em cidades alheias. Ela escrevia sobre como trazê-las de volta às cidades. E algures, entre essas razões, as malas cinzentas trocaram de dono.

Foi para a cama, mas demorou a adormecer. Pensou como é bizarra a vida: vive-se, trabalha-se, fazem-se malas e fechos. Depois acontece um acaso bobo, minúsculo, e a vida de outro aparece, sem que um ano de amizade a revelasse mais.

***

O Café Miramar ficava mesmo à beira-mar, entre palmeiras e candeeiros. Paredes de vidro, mesas de madeira, cheiro a pão quente e canela. A empregada com avental enfeitado de gaivotas arrumava chávenas.

Inês chegou vinte minutos antes. Não que tivesse pressa mas não conseguia ficar no quarto. Escolheu uma mesa junto à janela, pousou a mala e pediu chá. As mãos tremiam um pouco a manusear o menu. Ridículo, era só devolver uma mala. Troca de bagagem. Ponto.

Mas dentro dela não era só isso. Era a leitura e quase apropriação de uma vida estranha, mas incrivelmente próxima.

Reconheceu-o ao instante.

O homem entrou pontualmente às dez, com uma mala cinzenta igual à sua. Alto, de casaco verde-escuro o mesmo da camisola na mala. No nariz e nas maçãs do rosto, uma faixa de bronze muito marcada: sinal de quem usa óculos escuros todos os dias. Parou, olhou a sala, viu a mala dela. Aproximou-se.

Inês? Voz calma, pausa na palavra, como quem seleciona cada termo.

Sim. Tomás?

Ele assentiu e sentou-se em frente. A mala dela ao lado da dele. Iguais, gémeas erradas.

É estranho, disse ele. Consultei a etiqueta.

Eu também.

Talvez trocadas. Ou ambos distraídos.

Ou a conspiração das malas.

Ele sorriu, só de um lado. Inês pensou que o sorriso dele era igual à letra contido, mas quente.

Devia pedir desculpa, disse Tomás.

Porquê?

Abri a sua mala. Pensei ser a minha. Depois vi os livros e percebi.

Eu também abri a sua. Demorei a perceber.

Silêncio. Ele mexia na colher entre os dedos. Mãos grandes, unhas curtas com terra entranhada não sujas: habituadas.

Li o seu bloco, murmurou. Os apontamentos dos artigos. O espaço urbano, a vegetação. Fiquei curioso. Não devia, mas

Também li o seu diário, disse Inês.

Ele ergueu o olhar.

Todo?

Todo.

Calou-se. Lá fora, as ondas batiam no paredão e recuavam. Um rapaz atirava pão às gaivotas.

Então leu sobre Coimbra

E Lisboa. E a figueira.

E Aveiro

E a tília. A que espera sem mexer folhas.

Ele baixou os olhos.

E Faro.

Inês acenou. Não precisava mais. Ele entendeu.

Sabe de mim o que nunca conto a ninguém, disse ele.

E você, de mim?

Ele hesitou. Depois tirou do bolso um papel dobrado. Inês reconheceu-o. A tal carta.

Encontrei isto no bolso da sua mala, disse Tomás. Li. Não devia, mas li.

As faces de Inês coraram outra vez.

Foi um disparate, murmurou. Escrevi por tédio, no avião.

Caro desconhecido, leu Tomás sem olhar para o papel, decorara. Sonho encontrar alguém com quem possa estar em silêncio. Não porque já não há nada a dizer, mas porque não é preciso falar. Estou cansada de explicar quem sou. Cansada de procurar palavras. Gostava que alguém olhasse para a minha estante e soubesse tudo. Gostava que alguém

Chega, murmurou Inês.

A carta acaba aí, disse ele. Gostava que alguém e mais nada. Não terminou.

Não sabia o que dizer a seguir.

Eu sei, disse Tomás. Porque escreveria o mesmo. Só que com árvores, em vez de livros.

Inês fitou-o. Aquela linha de bronze no rosto. Os dedos, as raízes de terra. Os olhos tão serenos.

Sabia da minha mãe em Évora, disse ela.

A foto na moldura. Bela mulher. Parecida consigo.

Sabia o meu trabalho.

Apontamentos de jardins nos bairros. Sou paisagista. Interesse académico, e depois não só.

Sabia que estou sozinha.

Sei que veio de Lisboa para um congresso com apenas um vestido. Que traz cinco livros para quatro dias. Que guarda a foto da mãe na mala, não no telemóvel, porque a quer ver de verdade. Que escreve à mão, ainda que trabalhe no computador. E que escreveu uma carta a um desconhecido que não existe.

Inês calou-se.

E eu, continuou Tomás, desenho árvores no bloco, divorciei-me há dois anos e a varanda tem cento e catorze plantas porque não sei manter conversas com pessoas que fiquem. Você já sabe.

Sei.

Então, lemos a vida um do outro pelas coisas. E encontrámo-nos já assim. Como se saltássemos os primeiros encontros.

Inês riu-se, surpreendida. Tomás retribuiu um sorriso amplo, pela primeira vez.

Conheço-a melhor do que queria, disse ele. Você também a mim. Não é justo. Ou se calhar é a forma mais honesta possível.

Porque não escolhemos o que mostrar?

Mesmo. Uma mala é um retrato nu e cru. Não nos preparamos. Põemos o que é preciso. E fica lá, na crueza, quem somos.

Inês olhou para as duas malas encostadas. Cinzentas, com riscos no mesmo canto.

Quer passear? perguntou Tomás. O Jardim Botânico é já ali. Vim por causa da magnólia.

Eu sei. Última nota do diário.

Ele acenou. Bebeu o café. Levantou-se.

Deixamos as malas aqui? apontou ela para as cadeiras.

Deixemos. Têm muito para conversar.

Saíram. A chuva terminara e o passeio reluzia como vidrado. Palmeiras imóveis, folhas quietas, e Inês recordou a tília da nota. Fidelidade. Espera.

Conte-me algo que não está no diário, pediu ela.

Tenho pavor de pombos, disse ele sem ironia.

Pombos?

Em miúdo entrou-me um pela janela, pôs-se-me em cima da cabeça. Desde aí, fujo deles.

Inês soltou uma gargalhada. Ele imitou.

E você? Diga algo que não tenha na mala.

Falo com os livros. Às vezes contraponho os autores, em voz alta.

E quem ganha?

Quase sempre o autor. Mas eu não desisto.

Andaram à beira-mar e Inês pensava como era insólito caminhar ao lado de alguém que se conhece por letra, linhas, árvores esboçadas e se vê pela primeira vez. Como ler o livro e depois conhecer o autor.

Escreveu que já não acreditava, disse ela. Na nota de Faro.

Lembro-me.

Encontrou a minha mala.

E você, a minha.

Ficaram calados, mas era silêncio de entendimento, não de embaraço. Mesmo aquela pausa fazia sentido.

O Jardim Botânico surgiu após a curva a grade, copas mais altas que prédios.

A magnólia é aquela ali, apontou Tomás. Vê? Tronco como coluna, cento e vinte anos. Sobreviveu a guerras, ditaduras e mundança de cidades.

E floresce sempre.

E floresce, em maio.

Ele sacou um bloco pequenino outro, de bolso e um lápis. Começou a desenhar.

Inês olhava a mão dele, linhas firmes, rápidas. Tronco, ramos, contorno de folha. O bronze da pele, o semicerrar dos olhos no sol.

Posso perguntar? disse ela.

Pode.

Quando leu a minha carta, o que pensou?

Ele, sem desviar do desenho:

Pensei que queria saber como acabava.

Mas eu não sabia continuar.

Talvez agora saiba.

Inês calou-se, mas não desviou o olhar. O sol quebrava-se por entre folhas, desenhando pintas na sua cara, como sardas móveis.

Passaram três horas pelo jardim. Levantavam-se junto de cada árvore. Tomás falava, não como guia, mas como confidente de longo tempo das árvores. Desenhava. Inês falava dos seus projetos transformar pátios de cimento em jardins, da luta com a autarquia, de um velho teimoso que plantou vinte e três macieiras na rua e discutiu com a Câmara até conseguir.

Vinte e três?! admirou-se Tomás.

Todas com nomes de senhoras. Dizia que eram melhores do que os vizinhos.

Percebo-o. Tomás riu. Tenho um ficus chamado Álvaro. Sobreviveu ao divórcio.

Álvaro?

Tem ar de Álvaro. Sério, torto, mas resistente.

Inês riu. Há um ano que não falava tão facilmente com ninguém. Sem manias, sem sentir que tinha de impressionar. Só dois estranhos a conversar sobre árvores e nomes.

Sentados ao pé da magnólia, o espaço entre eles era metade de um banco. Nenhum se chegava mais perto.

O seu congresso é amanhã? perguntou Tomás.

Sim. Comunico às doze.

Tema?

O papel dos espaços verdes no conforto psíquico das pessoas. Temática aborrecida.

Para alguns. Eu, não.

Inês olhou de lado.

Quer assistir?

A um congresso?

Um aborrecido congresso sobre árvores.

Sempre fui a conferências aborrecidas de árvores. É a minha vida.

Riram juntos. Soou-lhe como um esboço, sincero, exato, sem pose.

Voltaram a passo lento. Tomás falou de Viseu a varanda-jardim, a vizinha que rega e fica para o chá. Do pós-divórcio fechado em casa, até comprar o bilhete para Coimbra ao calhas.

E começou a desenhar?

Sempre desenhei. Mas em Coimbra comecei a escrever. Antes, só linhas. Lá, as palavras eram precisas.

Inês aceitou com um gesto. Sabia bem a sensação de encher-se por dentro, letras necessárias para dizer o que linhas já não chegam.

Junto ao Miramar, pararam. As malas estavam onde as deixaram. Dois gémeos reencontrados. Cada um pegou na sua.

***

À noite, Inês estava no quarto com chá frio. A mala encostada à parede finalmente sua, com livros, bloco, vestido do congresso. Abriu-a, inspeccionou: portátil, carregador, foto da mãe, os cinco livros, bloco de notas. Só faltava uma folha.

Na cadeira, o desenho.

Tomás entregara-o antes de se separarem nos hotéis. Folha do bloco, arrancada com cuidado. Ali uma árvore. Não magnólia, nem figueira. Uma inventada, copa larga e raízes como raios em todas as direções.

Que árvore é esta? perguntou ela.

Uma árvore para cidades sem verde, disse Tomás. Invenção minha. Ainda não existe, mas você, como urbanista, pode plantar.

E foi-se. Sem olhar para trás. Mas Inês reparou que hesitou por um segundo na esquina, quase olhou mas depois não.

Ficou de folha na mão, pensando que a pessoa com quem se pode fazer silêncio é, talvez, aquela com quem esse silêncio vale mais do que mil palavras. E que essa pessoa acabou de virar uma esquina. Com a sua carta no bolso.

Pegou no telemóvel.

Obrigada pela árvore. Vou plantá-la.

A resposta chegou logo.

A sério. Se desenhar um projeto para o seu bairro vê como especialista?

Sim.

Então, preciso da sua morada em Lisboa. Para enviar em papel.

Inês sorriu. Digitou o endereço. Mandou. E acrescentou:

Cuidado: a caixa de correio é pequena. Desenhos grandes só pessoalmente.

Resposta em segundos:

Não esquecerei.

Largou o telefone. No quarto ao lado, TV ligada, vozes abafadas. Uma noite normal. Um hotel anónimo. Mas algo mudara Inês levou momento a perceber, até perceber que estava a sorrir. Só porque sim. Ou talvez porque não era só porque sim. Tentar explicar à mãe seria ridículo: Troquei a mala e conheci alguém. Parecia início de romance barato.

Abriu a sua mala, tirou uma folha limpa do bolso lateral e uma caneta. O mesmo bolso da carta não acabada, agora nas mãos de Tomás. Não a pediu de volta. Ele não a devolveu.

Sentou-se e escreveu:

Caro desconhecido, sonho encontrar alguém com quem se possa fazer silêncio. Não porque não haja nada a dizer, mas porque tudo se entende sem palavras. Estou cansada de explicar quem sou. Cansada de encontrar frases. Quero que alguém olhe a minha estante e saiba tudo. Quero que alguém

Parou. Olhou o desenho da árvore, pendurado na parede.

E acrescentou uma palavra.

Tomás.

Dobra o papel, guarda no bolso da mala. Como fechar um círculo.

Lá fora o Atlântico ressoava. Março no Porto cheirava a terra molhada e promessa de flores. A chuva terminara, e o céu mostrava tira estreita de rosa entre nuvens e mar.

Inês apagou a luz. Amanhã apresentação. Ficaria em frente à sala, no vestido que esteve dois dias na mala errada, falando de espaços verdes. E talvez, na terceira fila, se sentasse alguém que desenha árvores para cidades sem árvores.

Depois passeio. Ele prometeu mostrar a alameda de ciprestes do outro lado da cidade. Disse que ali os ciprestes se encontram em cúpula, formando túnel de verde. Vai gostar como urbanista, escreveu ele, e não só.

Depois Lisboa. E Viseu. Cidades, vidas diferentes. Mas agora, entre elas, já há um projeto em papel. E uma morada num telemóvel. E uma carta que, enfim, ficou acabada.

A mala respirava encostada à parede. A mesma, risco no canto. Igual à de ontem mas tudo o resto à volta, mudado.

A bagagem reencontrou o seu lugar.

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