Hoje, neste meu diário, quero registar os eventos surpreendentes do meu primeiro dia disfarçado como novo funcionário na empresa que adquiri. Quando cheguei, o rapaz atrás do balcão, sem desviar o olhar do seu telemóvel, lançou a pergunta sem rodeios: “A quem veio?”
O seu penteado moderno e o pullover de marca proclamavam ao longe a sua autoimportância e o total desinteresse pelo mundo à volta.
Eu, António Rodrigues, endireitei a minha pasta simples mas de qualidade no ombro. Tinha-me vestido intencionalmente de modo a passar despercebido: camisa modesta, calças compridas, sapatos confortáveis de sola plana.
O diretor anterior, o fatigado Miguel de cabelo grisalho, com quem finalizei a aquisição da empresa, sorriu ao ouvir o meu plano.
“Cavalo de Troia, António Rodrigues”, disse ele com admiração. “Vão cair na armadilha sem notarem a isca. Nunca descobrirão quem você realmente é, até ser tarde demais.”
“Sou o novo membro da equipa. Vim para o departamento de documentação”, disse eu com voz calma e baixa, omitindo deliberadamente qualquer tom de comando.
O rapaz finalmente levantou os olhos para mim. Avaliou-me da cabeça aos pés: dos sapatos gastos até ao cabelo grisalho bem penteado e no seu olhar surgiu uma zombaria clara e sem disfarce.
Nem tentou ocultá-la.
“Ah, sim. Disseram que vinha alguém novo. Já apanhou o cartão de acesso com a segurança?”
“Sim, aqui está.”
Apontou languidamente para a catraca, como se mostrasse o caminho a um inseto desgarrado.
“A sua estação de trabalho está algures no fundo. Já se desenrascará.”
Eu assenti. “Vou desenrascar-me”, repeti mentalmente, enquanto entrava no escritório aberto que zumbia como uma colmeia.
Há quarenta anos que me oriento nos meandros da vida.
Depois da morte súbita da minha esposa, recuperei um negócio que estava quase falido.
Lidei com investimentos complexos que multiplicaram a minha riqueza.
E descobri como não enlouquecer com o tédio e a solidão na grande casa vazia aos sessenta e cinco anos.
Esta empresa de TI florescente mas apodrecida por dentro pelo menos era assim que a via representava o desafio mais excitante para mim nos últimos tempos.
A minha secretária ficava no canto mais recôndito, logo ao lado da porta do arquivo.
Era antiga, com tampo arranhado e cadeira que rangia parecia uma pequena ilha do passado no oceano da tecnologia reluzente.
“Já se está a adaptar?” ecoou atrás de mim uma voz enjoativamente adocicada.
Diante de mim estava Catarina, a diretora de marketing, vestida com um fato-pantalona cor de marfim, perfeitamente engomado…
Um perfume caro e o aroma do sucesso envolviam-na.
“Estou a esforçar-me”, sorri eu com doçura.
“Terá de analisar os contratos do ano passado do projeto ‘Altair’. Estão no arquivo.
Não creio que seja complicado” na sua voz transparecia uma superioridade condescendente, como se atribuísse uma tarefa simples a alguém com limitações intelectuais.
Catarina observou-me como a um fóssil estranho e extinto. Quando se afastou com passos marciais, ouvi uma risadinha abafada às minhas costas.
“Os recursos humanos enlouqueceram de vez. Em breve vão contratar dinossauros também.”
Fingi não ter ouvido. Ainda precisava de explorar o local.
Dirigi-me ao departamento de desenvolvimento e parei perante uma sala de reuniões com paredes de vidro, onde alguns jovens discutiam vivamente algo.
“Senhor, procura alguma coisa?” interpelou-me um rapaz alto, ao sair de trás da sua mesa.
Pedro, o desenvolvedor principal. A futura estrela da empresa pelo menos segundo a sua própria avaliação. Uma avaliação que, ao que parece, ele mesmo redigira.
“Sim, meu caro, procuro o arquivo.”
Pedro sorriu e voltou-se para os colegas, que seguiam a cena com curiosidade, como se assistissem a um espetáculo circense gratuito.
“Avô, acho que está no departamento completamente errado. O arquivo fica para ali”, gesticulou vagamente na direção da minha secretária.
“Aqui realizamos trabalho a sério. Coisas que você nem sonha.”
O grupo atrás dele riu baixinho.
Eu senti uma raiva fria e serena a emergir.
Observei os rostos presunçosos, o relógio dispendioso no pulso de Pedro.
Tudo aquilo fora adquirido com o meu dinheiro.
“Obrigado”, respondi com tom equilibrado. “Agora sei precisamente para onde ir.”
O arquivo era uma sala diminuta, sem ventilação e sem janelas.
Comecei o trabalho. A pasta “Altair” foi localizada rapidamente.
Pus-me a examinar os documentos de forma sistemática. Contratos, anexos, comprovativos de execução. No papel, tudo parecia impecável.
Mas o meu olhar experiente detetou de imediato alguns pormenores suspeitos.
Nos dossiês relativos ao subcontratado “Ciber-Sistemas”, os valores estavam arredondados para milhares redondos podia ser descuido, mas também podia ser deliberado, para ocultar a verdadeira prestação de contas.
A descrição dos trabalhos realizados era vaga: “serviços de consultadoria”, “suporte analítico”, “otimização de processos”.
Métodos clássicos para desviar fundos eram-me conhecidos desde os anos noventa.
Passadas algumas horas, a porta rangeu. No vão surgiu uma jovem de olhar amedrontado.
“Bom dia. Chamo-me Inês, da contabilidade. Catarina disse que estava aqui… Deve ser difícil sem acesso eletrónico? Posso ajudar.”
Na voz da jovem não havia qualquer vestígio de desdém.
“Obrigado, Inês. Seria muito amável da sua parte.”
“Não é nada. É que eles… enfim… nem sempre percebem que nem toda a gente nasceu com um tablet na mão”, gaguejou Inês, e corou.
Enquanto Inês explicava de forma clara a interface do programa, pensei que mesmo no pântano mais sujo se encontra uma nascente pura.
Logo que Inês se foi embora, Pedro surgiu na entrada.
“Preciso urgentemente de uma cópia do contrato da ‘Ciber-Sistemas’.”
Falava como se desse ordens a uma criada.
“Bom dia”, respondi serenamente. “Estou justamente a rever estes documentos. Dê-me um instante.”
“Um instante? Eu não tenho tempo. Tenho uma chamada daqui a cinco minutos. Porque é que isto ainda não está digitalizado? O que é que fazem aqui afinal?”
A arrogância era o seu calcanhar de Aquiles. Estava persuadido de que ninguém e menos ainda este ancião se atreveria ou saberia inspecionar o seu trabalho.
“Hoje é o meu primeiro dia de trabalho”, respondi com voz serena. “E estou a tentar arrumar o que os outros não arrumaram antes de mim.”
“Não me interessa!”, interrompeu-me, e aproximando-se da mesa, sem qualquer polidez arrancou-me das mãos a pasta desejada. “Vocês, os velhos, são sempre fonte de problemas!”
Depois precipitou-se para fora e bateu a porta atrás de si.
Eu não o segui com o olhar. Já tinha visto o suficiente.
Retirei o telemóvel do bolso e liguei para o número do meu advogado particular.
“Carlos, bom dia. Por favor, investigue uma empresa. O nome é ‘Ciber-Sistemas’. Tenho a sensação de que o seu grupo de proprietários pode ser bastante interessante.”
Na manhã seguinte, o telemóvel vibrou.
“António, tinha razão. A ‘Ciber-Sistemas’ é uma empresa fantasma vazia. Está registada em nome de um tal de Silva. Primo de Pedro, o desenvolvedor principal. Um truque clássico.”
“Obrigado, Carlos. Era precisamente isso que eu queria saber.”
O clímax ocorreu depois do almoço. Todo o escritório foi convocado para a reunião semanal.
Catarina brilhava enquanto relatava os sucessos.
“Ai, parece que me esqueci de imprimir o relatório de conversão. António”, falou ela pelo microfone, a voz a retinir de forma venenosamente doce, “faça o favor, traga a pasta do quarto trimestre do arquivo. Mas tente desta vez não se perder.”
Um riso abafado percorreu a sala.
Levantei-me em silêncio. O ponto sem retorno tinha sido atingido.
Minutos depois, regressei.
Pedro estava junto de Catarina, sussurrando-lhe algo.
“E aqui vem o nosso salvador!”, proclamou Pedro em voz alta. “Podia ser um pouco mais rápido. O tempo é dinheiro. Sobretudo o nosso dinheiro.”
E esta palavra única “nosso” foi a última gota.
Endireitei-me.
A anterior postura curvada desvaneceu-se sem deixar vestígios. O meu olhar tornou-se duro.
“Tem razão, Pedro. O tempo é de facto dinheiro. Principalmente o dinheiro que foi branqueado através da empresa ‘Ciber-Sistemas’.
Não acha que este projeto lhe foi muito mais rentável a si pessoalmente do que à empresa?”
O rosto de Pedro alterou-se. O sorriso desvaneceu-se.
“Eu… eu não compreendo o que está a dizer.”
“É verdade? Então talvez possa explicar aos presentes qual a ligação familiar que mantém com um certo senhor Silva?”
Caiu um silêncio gélido na sala de reuniões. Catarina tentou remediar a situação.
“Desculpe, mas com que direito é que este… nosso colaborador se mete nos nossos assuntos financeiros?”
Eu ignorei-a. Rodeei lentamente a mesa e parei na cabeceira.
“O meu direito é o mais legítimo. Permitam que me apresente. António Rodrigues. O novo proprietário da empresa.”
Se uma bomba tivesse detonado na sala, o choque teria sido menor.
“Pedro”, prossegui com voz glacial, “está despedido. Os meus advogados contactarão consigo e com o seu primo. Recomendo-lhe que não abandone a cidade.”
Pedro desabou e sentou-se calado numa cadeira.
“A senhora Catarina, está igualmente despedida. Por incompetência profissional e por envenenar o clima laboral.”
O rosto de Catarina corou. “Como se atreve!”
“Atrevo-me”, repliquei secamente. “Tem uma hora para arrumar. A segurança acompanhá-la-á à saída.
Isto aplica-se a todos quantos consideram a idade motivo para escárnio. O jovem da receção e alguns desenvolvedores do departamento podem retirar-se.”
O pavor instalou-se na sala.
“Nos próximos dias, iniciar-se-á uma auditoria integral na empresa.”
O meu olhar captou o rosto amedrontado de Inês, refugiada no canto distante da sala.
“Inês, faça o favor de vir cá.”
Inês aproximou-se a tremer da mesa.
“Em dois dias, foi a única colaboradora que revelou não só competência profissional, mas também a humanidade essencial.
Estou a formar um novo departamento de auditoria interna, e gostaria que integrasse a minha equipa. Amanhã discutiremos as suas novas funções e os pormenores da integração.”
Inês abriu a boca estupefacta, mas não conseguiu articular palavra.
“Conseguirá”, afirmei com determinação. “Agora, todos regressem ao trabalho. A exceção são os despedidos. O dia laboral prossegue.”
Virei-me e saí, deixando para trás um mundo em ruínas, erguido sobre o orgulho e a arrogância.
Não senti triunfo.
Apenas uma satisfação fria e tranquila aquela que se sente após concluir bem uma tarefa.
Porque, para edificar uma casa sobre alicerces firmes, é preciso primeiro limpar o terreno da decomposição.
E eu iniciei agora a grande limpeza. Esta experiência ensinou-me uma lição pessoal: a verdadeira força vem de enfrentar a podridão com calma, sem se deixar levar pelo orgulho alheio.Hoje, neste meu diário, quero registar os eventos surpreendentes do meu primeiro dia disfarçado como novo funcionário na empresa que adquiri. Quando cheguei, o rapaz atrás do balcão, sem desviar o olhar do seu telemóvel, lançou a pergunta sem rodeios: “A quem veio?”
O seu penteado moderno e o pullover de marca proclamavam ao longe a sua autoimportância e o total desinteresse pelo mundo à volta.
Eu, António Rodrigues, endireitei a minha pasta simples mas de qualidade no ombro. Tinha-me vestido intencionalmente de modo a passar despercebido: camisa modesta, calças compridas, sapatos confortáveis de sola plana.
O diretor anterior, o fatigado Miguel de cabelo grisalho, com quem finalizei a aquisição da empresa, sorriu ao ouvir o meu plano.
“Cavalo de Troia, António Rodrigues”, disse ele com admiração. “Vão cair na armadilha sem notarem a isca. Nunca descobrirão quem você realmente é, até ser tarde demais.”
“Sou o novo membro da equipa. Vim para o departamento de documentação”, disse eu com voz calma e baixa, omitindo deliberadamente qualquer tom de comando.
O rapaz finalmente levantou os olhos para mim. Avaliou-me da cabeça aos pés: dos sapatos gastos até ao cabelo grisalho bem penteado e no seu olhar surgiu uma zombaria clara e sem disfarce.
Nem tentou ocultá-la.
“Ah, sim. Disseram que vinha alguém novo. Já apanhou o cartão de acesso com a segurança?”
“Sim, aqui está.”
Apontou languidamente para a catraca, como se mostrasse o caminho a um inseto desgarrado.
“A sua estação de trabalho está algures no fundo. Já se desenrascará.”
Eu assenti. “Vou desenrascar-me”, repeti mentalmente, enquanto entrava no escritório aberto que zumbia como uma colmeia.
Há quarenta anos que me oriento nos meandros da vida.
Depois da morte súbita da minha esposa, recuperei um negócio que estava quase falido.
Lidei com investimentos complexos que multiplicaram a minha riqueza.
E descobri como não enlouquecer com o tédio e a solidão na grande casa vazia aos sessenta e cinco anos.
Esta empresa de TI florescente mas apodrecida por dentro pelo menos era assim que a via representava o desafio mais excitante para mim nos últimos tempos.
A minha secretária ficava no canto mais recôndito, logo ao lado da porta do arquivo.
Era antiga, com tampo arranhado e cadeira que rangia parecia uma pequena ilha do passado no oceano da tecnologia reluzente.
“Já se está a adaptar?” ecoou atrás de mim uma voz enjoativamente adocicada.
Diante de mim estava Catarina, a diretora de marketing, vestida com um fato-pantalona cor de marfim, perfeitamente engomado…
Um perfume caro e o aroma do sucesso envolviam-na.
“Estou a esforçar-me”, sorri eu com doçura.
“Terá de analisar os contratos do ano passado do projeto ‘Altair’. Estão no arquivo.
Não creio que seja complicado” na sua voz transparecia uma superioridade condescendente, como se atribuísse uma tarefa simples a alguém com limitações intelectuais.
Catarina observou-me como a um fóssil estranho e extinto. Quando se afastou com passos marciais, ouvi uma risadinha abafada às minhas costas.
“Os recursos humanos enlouqueceram de vez. Em breve vão contratar dinossauros também.”
Fingi não ter ouvido. Ainda precisava de explorar o local.
Dirigi-me ao departamento de desenvolvimento e parei perante uma sala de reuniões com paredes de vidro, onde alguns jovens discutiam vivamente algo.
“Senhor, procura alguma coisa?” interpelou-me um rapaz alto, ao sair de trás da sua mesa.
Pedro, o desenvolvedor principal. A futura estrela da empresa pelo menos segundo a sua própria avaliação. Uma avaliação que, ao que parece, ele mesmo redigira.
“Sim, meu caro, procuro o arquivo.”
Pedro sorriu e voltou-se para os colegas, que seguiam a cena com curiosidade, como se assistissem a um espetáculo circense gratuito.
“Avô, acho que está no departamento completamente errado. O arquivo fica para ali”, gesticulou vagamente na direção da minha secretária.
“Aqui realizamos trabalho a sério. Coisas que você nem sonha.”
O grupo atrás dele riu baixinho.
Eu senti uma raiva fria e serena a emergir.
Observei os rostos presunçosos, o relógio dispendioso no pulso de Pedro.
Tudo aquilo fora adquirido com o meu dinheiro.
“Obrigado”, respondi com tom equilibrado. “Agora sei precisamente para onde ir.”
O arquivo era uma sala diminuta, sem ventilação e sem janelas.
Comecei o trabalho. A pasta “Altair” foi localizada rapidamente.
Pus-me a examinar os documentos de forma sistemática. Contratos, anexos, comprovativos de execução. No papel, tudo parecia impecável.
Mas o meu olhar experiente detetou de imediato alguns pormenores suspeitos.
Nos dossiês relativos ao subcontratado “Ciber-Sistemas”, os valores estavam arredondados para milhares redondos podia ser descuido, mas também podia ser deliberado, para ocultar a verdadeira prestação de contas.
A descrição dos trabalhos realizados era vaga: “serviços de consultadoria”, “suporte analítico”, “otimização de processos”.
Métodos clássicos para desviar fundos eram-me conhecidos desde os anos noventa.
Passadas algumas horas, a porta rangeu. No vão surgiu uma jovem de olhar amedrontado.
“Bom dia. Chamo-me Inês, da contabilidade. Catarina disse que estava aqui… Deve ser difícil sem acesso eletrónico? Posso ajudar.”
Na voz da jovem não havia qualquer vestígio de desdém.
“Obrigado, Inês. Seria muito amável da sua parte.”
“Não é nada. É que eles… enfim… nem sempre percebem que nem toda a gente nasceu com um tablet na mão”, gaguejou Inês, e corou.
Enquanto Inês explicava de forma clara a interface do programa, pensei que mesmo no pântano mais sujo se encontra uma nascente pura.
Logo que Inês se foi embora, Pedro surgiu na entrada.
“Preciso urgentemente de uma cópia do contrato da ‘Ciber-Sistemas’.”
Falava como se desse ordens a uma criada.
“Bom dia”, respondi serenamente. “Estou justamente a rever estes documentos. Dê-me um instante.”
“Um instante? Eu não tenho tempo. Tenho uma chamada daqui a cinco minutos. Porque é que isto ainda não está digitalizado? O que é que fazem aqui afinal?”
A arrogância era o seu calcanhar de Aquiles. Estava persuadido de que ninguém e menos ainda este ancião se atreveria ou saberia inspecionar o seu trabalho.
“Hoje é o meu primeiro dia de trabalho”, respondi com voz serena. “E estou a tentar arrumar o que os outros não arrumaram antes de mim.”
“Não me interessa!”, interrompeu-me, e aproximando-se da mesa, sem qualquer polidez arrancou-me das mãos a pasta desejada. “Vocês, os velhos, são sempre fonte de problemas!”
Depois precipitou-se para fora e bateu a porta atrás de si.
Eu não o segui com o olhar. Já tinha visto o suficiente.
Retirei o telemóvel do bolso e liguei para o número do meu advogado particular.
“Carlos, bom dia. Por favor, investigue uma empresa. O nome é ‘Ciber-Sistemas’. Tenho a sensação de que o seu grupo de proprietários pode ser bastante interessante.”
Na manhã seguinte, o telemóvel vibrou.
“António, tinha razão. A ‘Ciber-Sistemas’ é uma empresa fantasma vazia. Está registada em nome de um tal de Silva. Primo de Pedro, o desenvolvedor principal. Um truque clássico.”
“Obrigado, Carlos. Era precisamente isso que eu queria saber.”
O clímax ocorreu depois do almoço. Todo o escritório foi convocado para a reunião semanal.
Catarina brilhava enquanto relatava os sucessos.
“Ai, parece que me esqueci de imprimir o relatório de conversão. António”, falou ela pelo microfone, a voz a retinir de forma venenosamente doce, “faça o favor, traga a pasta do quarto trimestre do arquivo. Mas tente desta vez não se perder.”
Um riso abafado percorreu a sala.
Levantei-me em silêncio. O ponto sem retorno tinha sido atingido.
Minutos depois, regressei.
Pedro estava junto de Catarina, sussurrando-lhe algo.
“E aqui vem o nosso salvador!”, proclamou Pedro em voz alta. “Podia ser um pouco mais rápido. O tempo é dinheiro. Sobretudo o nosso dinheiro.”
E esta palavra única “nosso” foi a última gota.
Endireitei-me.
A anterior postura curvada desvaneceu-se sem deixar vestígios. O meu olhar tornou-se duro.
“Tem razão, Pedro. O tempo é de facto dinheiro. Principalmente o dinheiro que foi branqueado através da empresa ‘Ciber-Sistemas’.
Não acha que este projeto lhe foi muito mais rentável a si pessoalmente do que à empresa?”
O rosto de Pedro alterou-se. O sorriso desvaneceu-se.
“Eu… eu não compreendo o que está a dizer.”
“É verdade? Então talvez possa explicar aos presentes qual a ligação familiar que mantém com um certo senhor Silva?”
Caiu um silêncio gélido na sala de reuniões. Catarina tentou remediar a situação.
“Desculpe, mas com que direito é que este… nosso colaborador se mete nos nossos assuntos financeiros?”
Eu ignorei-a. Rodeei lentamente a mesa e parei na cabeceira.
“O meu direito é o mais legítimo. Permitam que me apresente. António Rodrigues. O novo proprietário da empresa.”
Se uma bomba tivesse detonado na sala, o choque teria sido menor.
“Pedro”, prossegui com voz glacial, “está despedido. Os meus advogados contactarão consigo e com o seu primo. Recomendo-lhe que não abandone a cidade.”
Pedro desabou e sentou-se calado numa cadeira.
“A senhora Catarina, está igualmente despedida. Por incompetência profissional e por envenenar o clima laboral.”
O rosto de Catarina corou. “Como se atreve!”
“Atrevo-me”, repliquei secamente. “Tem uma hora para arrumar. A segurança acompanhá-la-á à saída.
Isto aplica-se a todos quantos consideram a idade motivo para escárnio. O jovem da receção e alguns desenvolvedores do departamento podem retirar-se.”
O pavor instalou-se na sala.
“Nos próximos dias, iniciar-se-á uma auditoria integral na empresa.”
O meu olhar captou o rosto amedrontado de Inês, refugiada no canto distante da sala.
“Inês, faça o favor de vir cá.”
Inês aproximou-se a tremer da mesa.
“Em dois dias, foi a única colaboradora que revelou não só competência profissional, mas também a humanidade essencial.
Estou a formar um novo departamento de auditoria interna, e gostaria que integrasse a minha equipa. Amanhã discutiremos as suas novas funções e os pormenores da integração.”
Inês abriu a boca estupefacta, mas não conseguiu articular palavra.
“Conseguirá”, afirmei com determinação. “Agora, todos regressem ao trabalho. A exceção são os despedidos. O dia laboral prossegue.”
Virei-me e saí, deixando para trás um mundo em ruínas, erguido sobre o orgulho e a arrogância.
Não senti triunfo.
Apenas uma satisfação fria e tranquila aquela que se sente após concluir bem uma tarefa.
Porque, para edificar uma casa sobre alicerces firmes, é preciso primeiro limpar o terreno da decomposição.
E eu iniciei agora a grande limpeza. Esta experiência ensinou-me uma lição pessoal: a verdadeira força vem de enfrentar a podridão com calma, sem se deixar levar pelo orgulho alheio.
