Assinaturas no Prédio: Quando o Barulho do Andar de Cima Vira Caso de Justiça e Solidariedade entre …

Assinaturas no patamar

Olha, vou-te contar o que se passou aqui no prédio, porque ainda me está atravessado na garganta.

O António, sabes aquele do quarto andar, parou no átrio logo à entrada, junto aos correios, porque apareceu uma folha nova no placard. Normalmente aquilo tem avisos sobre mudanças no lixo ou gatinhos perdidos, mas desta vez era diferente: Recolha de assinaturas. Medidas urgentes. Por baixo, vinha o nome de alguém do quinto andar e um resumo curtinho das queixas: barulho durante a noite, pancadas, gritos, violações da lei do silêncio, risco para a segurança. Já havia várias assinaturas umas desenhadas com calma, outras apressadas, mas aquilo estava a avançar.

Ele leu duas vezes, mas percebeu tudo logo à primeira. Até esticou a mão ao bolso à procura da caneta, mas acabou por não assinar. Não é que discordasse, só que nunca gostou dessa coisa de ser encostado à parede para decidir. Já vivia ali há doze anos e habituou-se a ficar à margem destas guerras de vizinhos tem mais que fazer. O trabalho na oficina, os turnos que mudam todas as semanas, a mãe já velhota e doente do outro lado da cidade, o filho adolescente que passa dias calado e às vezes deita faísca por nada.

No patamar, estava tudo calmo. Só ouviu, lá em cima, o elevador bater com força. O António subiu até ao quarto andar, tirou as chaves e, antes de abrir a porta, olhou escadas acima. Lá, no quinto, mora a Dona Celeste. Deve andar pelos cinquenta, parece uma daquelas mulheres duras, sempre com o cabelo curto e olhos que nunca se dispersam. Nunca é a primeira a cumprimentar e, quando responde, nota-se que gostava que a deixassem em paz. O António ia-a vendo muitas vezes com sacos das compras do Continente ou com o balde a limpar a entrada da porta. Também é verdade que, de vez em quando, se ouviam barulhos vindos dali à noite: umas pancadas estranhas, uns gritos rápidos, ou parecia mesmo que arrastavam qualquer coisa pelo chão.

Ele só usava o grupo do prédio do WhatsApp quando não havia alternativa. Aquilo era discussões sem fim sobre estacionamento e o lixo. Mas ultimamente, o grupo só tinha um tema.

Outra vez barulho às duas da manhã! O meu filho acordou em pânico!

Eu trabalho às seis, depois ando um zombie. Até quando isto?

Não é só barulho, ela mexe na mobília, ouvi claramente.

Chamem a polícia. A lei não é para todos?

O António lia e não respondia. Sinceramente, não era nenhum santo. Também acordava a meio da noite quando havia estrondo, ficava acordado a ouvir o coração ficar impaciente. Nessas alturas, só queria que outro resolvesse a situação e ele de manhã encontrasse, pronto: O assunto está tratado.

Mesmo assim, à noite lá perguntou no grupo: Quem está a recolher as assinaturas? Onde está a folha?

A dona Marília, do terceiro andar, que é quase a chefe do prédio, respondeu logo: No rés-do-chão, no placard. Amanhã às sete da tarde, reunião em minha casa. Isto tem de se resolver antes que piore.

O António pousou o telemóvel. Aquele desconforto antigo sabes quando te chamavam para as reuniões da escola e tu sabias que já estava tudo decidido, só tinhas de lá ir assinar de cruz? Igualzinho.

No dia seguinte, cruzou-se com a Dona Celeste nas escadas. Trazia dois sacos pesados, respirava com esforço, mas não pedia ajuda. O António foi buscar um dos sacos, sem pedir licença.

Não é preciso, atirou ela, seca.

Eu levo, respondeu, subindo ao lado dela.

Foram calados até à porta dela. Ela puxou os sacos.

Obrigada, disse num tom que parecia mais marcar presença do que agradecer.

O António ia virar costas, mas ouviu um som estranho vindo lá de dentro, como alguém a respirar com dificuldade e a gemer. A Dona Celeste ficou parada, a mão no trinco já a tremer.

Está tudo bem? perguntou o António, sem pensar.

Está. encerrou o assunto e fechou-se logo.

Ele desceu, mas ficou com aquele som a martelar. Não era um barulho de obras, nem música era humano, pesado.

Uns dias depois, apareceu um bilhete colado com fita adesiva na porta da Dona Celeste. O António viu quando ia deitar o lixo. JÁ CHEGA DE BARULHO ÀS NOITES. NÃO TEMOS DE AGUENTAR. Letras bem vincadas, com raiva. Ficou ali um bocado a olhar. A fita estava luzidia, parecia ferida fresca. E lembrou-se de quando era miúdo, também escreviam na porta dele, por causa do pai estar sempre a berrar e a beber. António nunca soube se odiava mais o pai ou os vizinhos que fingiam não ver até começarem a bisbilhotar pelos cantos.

Subiu ao quinto e ficou a ouvir, encostado à porta. Silêncio. Não tocou. Pegou devagar no bilhete, dobrou-o e pô-lo no bolso. Foi pôr o lixo lá fora, não no do prédio, para ninguém ver.

Entretanto, o grupo de WhatsApp aquecia.

Ela faz de propósito, pouco lhe importa quem mora ao lado.

Assim devia ir viver para o campo, não num prédio.

A polícia disse que precisa de queixa coletiva.

O António reparou como barulho e problema começaram a virar gente assim. Como se já não fosse uma questão de noites mal dormidas, mas uma pessoa vista como problema em si.

No sábado, chegou tarde do trabalho. No elevador cheirava a spray de pinho ainda por cima alguém tinha fumado ali. No seu andar, ouviu dois estrondos lá em cima não era som de obras, era som de queda. Depois, uma voz de mulher, cansada mas firme:

Aguenta… já vai…

O António subiu ao quinto. Luz acesa debaixo da porta da Dona Celeste. Bateu.

Quem é? perguntou ela, tensa.

António, do quarto andar. Precisa de alguma coisa…?

Ela abriu com a corrente posta. Vestia um roupão, uma mancha vermelha na cara, como se tivesse acabado de chorar ou esfregar a cara.

Não. Não é preciso. E fechou.

Lá dentro ouviu-se um gemido. O António ainda insistiu:

Quer ajuda?

Ela olhou para ele como se tivesse oferecido esmola.

Não é preciso. Tenho tudo sob controlo.

Mas tem lá alguém…

É o meu irmão. Está acamado. Disse quase a cortar perguntas. Agora vá.

Fechou-se.

O António ficou ali, dividido entre ir-se embora, porque foi pedido, e ficar, porque já tinha percebido demais para fingir que não sabia.

Foi-se embora, mas não dormiu. Aquela palavra acamado, batia na cabeça. Imaginou levantar gente do chão, chamar a ambulância a meio da noite, arrastar camas, levar bacias de água, enquanto lá em baixo todos bufam.

No dia seguinte, foi à reunião da Dona Marília, não por curiosidade mas porque sabia que se não fosse, ia-se sentir mal. Às sete em ponto já lá estavam alguns vizinhos uns de pantufas, outros de sobretudo, como se fosse só por uns minutos. Falava-se baixo, o clima pesado.

A Dona Marília sentou-os à volta da cozinha minúscula. Em cima da mesa, a folha das assinaturas, um print da lei do silêncio, números da polícia.

Isto assim não pode continuar, começou ela. Temos filhos, o emprego, a saúde. Eu própria já ando com tensão alta de não dormir. Nós não somos contra ninguém, mas há regras.

O António reparou no jeito de dizer não somos contra ninguém, e como vários ficaram mais aliviados ao ouvi-lo.

Eu ontem às duas da manhã ouvi um estrondo. O meu bebé tinha acabado de adormecer. Passei o resto da noite a embalá-lo. contou a vizinha do sexto, esgotada.

O meu pai teve uma operação. Não pode ter sustos. disse outro, já mais velho.

Deviam chamar sempre a polícia, não há outra maneira!

O António estava calado, percebeu que não estavam a inventar. Estavam cansados. E isso dava-lhes razão, de certa forma.

Alguém já falou com ela? perguntou ele.

Falei eu, respondeu a Dona Marília. Foi mal-educada. Não gostam, mudem-se. E bateu a porta.

Ela é sempre assim, disse a do sexto, faz de conta que nós é que estamos a atrapalhar.

O António quis contar do irmão, mas hesitou. Era assunto dela. E ficou-se pelo silêncio.

Se calhar ela tem problemas… arriscou.

Toda a gente tem problemas, cortou logo a Dona Marília. E não andamos a fazer barulho.

Nisto, toca à porta. Quem entra? A Dona Celeste. Já de casaco escuro, cabelos penteados, com uma pasta debaixo do braço e o telemóvel na mão. Olhar duro, mas sem medo.

Vejo que falam de mim, constatou.

A cozinha ficou apertada, ninguém quis ser o primeiro a falar.

Estamos a discutir a situação, disse a Dona Marília. Está a perturbar os outros.

Eu, a incomodar. repetiu ela, acenando com a cabeça. Ok. Escutem então.

Pôs a pasta na mesa, tirou uns papéis, um atestado, uns relatórios, e o telemóvel.

É o meu irmão. Primeiro grau de invalidez. Ficou assim depois do AVC. Não anda, não se senta. Tem crises à noite. Fica sem respirar, cai da cama se eu não corro. Viro-o de duas em duas horas, senão faz feridas. Não é “mudar móveis”. É levantar um homem adulto, mais pesado que eu.

Falou sem tremer, mas percebia-se o cansaço na voz. O António viu as nódoas negras nos braços.

Chamei o INEM três vezes este mês, vejam aqui, mostrou o ecrã. Aqui está o relatório médico. Não vos devia mostrar isto, mas vocês fizeram uma folha de assinaturas como se fosse uma discoteca.

Alguém tossiu. A vizinha do sexto baixou os olhos.

Não sabíamos, disse ela, quase num sussurro.

Não sabiam porque nunca perguntaram, disparou a Dona Celeste. Escreveram-me na porta. Fizeram queixa no grupo. Querem medidas. Quais? Que eu o ponha nas escadas para fazer menos barulho?

Ninguém disse isso, reagiu a Dona Marília. Mas existe uma lei. Não se pode fazer barulho depois das onze.

Lei é lei, sorriu triste a Dona Celeste. Pois, vamos lá: sempre que houver crise, chamo o INEM e a polícia ao mesmo tempo, para registarem que estou a virar o meu irmão. Vão assinar cada vez que ouvem o barulho? Vão servir de testemunhas?

Agora temos de aguentar? disse o do casaco de treino, a voz quase a tremer. O meu pai está doente, entende? Não posso todas as noites ouvir quedas.

Pois, e eu posso? atirou ela. Acham que durmo bem? Que não queria que tudo isto fosse diferente?

Seguiu-se silêncio. O António sentiu vontade de dizer algo simples, mas não tinha nada simples à mão.

A Dona Marília, mais branda:

Perceba que também nos custa. Se tivesse avisado

Avisava o quê? Que o meu irmão pode morrer a qualquer noite? Apertou a pasta. Eu não sei pedir E, honestamente, não tenho a quem.

O António de repente percebeu que era mesmo isso: viviam todos ao lado uns dos outros, mas distantes. Cada um atrás da sua porta.

Olhem, disse ele finalmente, voz grave, ou acabamos todos chateados, ou tentamos fazer com que isto corra menos mal para todos.

Todos olharam para ele. António nunca gostou de ser o centro já era tarde de mais para se esconder.

Não assinei e não vou assinar. Aquela folha não resolve nada, só arranja inimigos. Mas fingir que o barulho não existe também não resulta há gente doente a sério.

Dona Marília cerrou os lábios.

E então? Soluções? perguntou.

António lembrou-se de como ficou parado à porta, de noite.

Olhem, para começar: se houver barulho à noite por causa de uma crise, a Dona Celeste pode, se conseguir, avisar no grupo: “INEM” ou “crise”. Não precisa de se justificar, só para sabermos que não é má vontade.

Não sou obrigada. respondeu ela, olhando para ele com mais atenção. Mas vou tentar, se der.

Depois, virou-se para os outros, se ouvirem pancada, em vez de irem logo ao telemóvel escrever “chamei as autoridades”, batam à porta e perguntem se precisa de ajuda. Se ela não responder, tomem as decisões que tiverem de tomar. Mas pelo menos tentem ser pessoas antes de serem inspetores.

E se ela responder mal? perguntou a do sexto.

Ficam a saber que tentaram fazer o certo. Vale mais para vocês próprios.

Dona Marília bufa, mas não protesta.

E também podemos pensar em pôr tapetes, protetores de borracha nas pernas dos móveis, afastar a cama da parede. Eu posso ajudar.

A Dona Celeste hesitou, depois respondeu mais baixa:

A cama não pode. Tem um guincho caseiro, está preso à estrutura. Mas os tapetes, aceito. E se alguém conseguir, durante o dia, ficar lá um bocado para eu poder ir à farmácia de vez em quando, era uma ajuda… Calou-se, a voz quase a falhar.

No silêncio, a do sexto foi a primeira:

Na quarta eu consigo. Tenho a minha mãe para ficar com o miúdo. Passo lá uma hora.

Eu também posso, disse o do casaco. Mas só de dia, de noite não dá.

O clima aliviou, mas não desapareceu.

A Dona Marília pegou na folha de assinaturas:

E isto, o que faço?

O António olhou:

Acho que deve sair do placard. Quem quiser reclamar, que escreva uma queixa formal, com data e tudo. E não esse tomem medidas.

Isso é ser contra a ordem? perguntou a Dona Marília.

Não. Só acho que a ordem não é uma arma de arremesso.

A Dona Celeste levantou os olhos:

Tire, sim. Não preciso de ver todos os dias que sou tema de conversa.

A Dona Marília guardou a folha. Não percebi se foi por respeito ou porque sabia que a maioria já estava menos segura.

No fim, cada um saiu pelo seu lado; escadas abaixo, piadas engasgadas. O António ia a descer e a Dona Celeste ao lado.

Não se devia ter metido, murmurou ela.

Talvez. respondeu ele. Só não queria que isto acabasse em polícia.

Ainda vai acabar, disse ela, cansada. Quando o meu irmão piorar.

O António teve vontade de perguntar o nome do irmão, mas não conseguiu. Só disse:

Se precisar de ajuda à noite, se for para levantar bata. Estou aqui ao lado.

Ela assentiu, sem olhar para ele.

No dia seguinte, a folha das assinaturas tinha desaparecido. Mas apareceu um novo texto no WhatsApp. Dona Marília escreveu: Combinado: em caso de emergência, a Dona Celeste avisa. Não se fazem discussões à noite. Quem puder ajudar de dia, diga-me.

O António estranhou aquela palavra turnos. Parecia coisa de hospital, mas sim, lá foi abrindo: havia logo mensagens com gente a combinar horários. Outros calaram-se.

Na primeira noite depois disto, houve barulho. O António acordou com o estrondo eram 02h17. No grupo pouco tempo depois apareceu Crise. INEM a caminho. Sem emoji, sem pedidos.

O António ficou deitado, a ouvir portas a bater lá em cima, passos apressados nas escadas. Imaginou a Dona Celeste a agarrar o irmão, a tentar não o deixar engasgar-se. A raiva não despareceu, mas fundiu-se com outra coisa, pesada e silenciosa.

De manhã, cruzou-se no elevador com a Dona Marília, com ar de quem dormiu mal.

Mais barulho, hem!

O INEM esteve lá em cima, explicou o António.

Pois vi, ela parou. Não sabia que era assim. Mas não consigo dormir. O coração não aguenta.

Talvez uns tampões para os ouvidos ajudem sugeriu o António, já a sentir-se ridículo.

Estamos mesmo velhos. E sorriu, sem azedume.

Uma semana depois, o António subiu de dia ao quinto andar, como prometeu. Levava um saco com protetores de borracha e um tapete grosso, comprado na loja do bairro. Tocou à campainha. Ela abriu logo, como se estivesse à espera.

Dentro, cheiro a medicamentos e àquele azedo dos hospitais. Na sala, uma cama encostada à parede. Lá estava o irmão magro, sereno, os olhos abertos mas ausentes. Uma engenhoca de tubos e correias prendia a cama. Era fácil perceber que não dá para mexer.

Trouxe aqui isto, disse o António ao mostrar o tapete. Pode ser que ajude a não passar tanto ruído para baixo. Também trouxe para o banco, se bater.

O banco bate quando eu pouso o alguidar. disse ela. Eu tento, mas as mãos já falham.

Ficaram os dois a olhar para as mãos dela cheias de gretas e vermelhões, de quem nunca para.

O António ajudou a arranjar tudo, mexendo com cuidado. Ela ficou sempre a vigiar para não desapertar o que não devia.

Obrigada, disse ela no fim. Desta vez soou diferente.

Quando ele ia a sair, ouviu o telefone.

Não, não posso agora. Sim. Não, é impossível.

Desligou, olhou para António:

Segurança Social. Só dão uma assistente duas horas por semana, e mesmo isso, está em lista de espera. Eu precisava todos os dias.

O António não soube responder. O turno do prédio não é sistema nenhum é só uma remendo.

À noite, no grupo, alguém escreveu: Por que razão temos nós de ajudar? É família dela. Que trate tudo regularizado. Vieram respostas de vários lados. Uns explicaram como funcionam as listas de espera, outros revoltaram-se, outros só puseram ponto.

O António leu, mas nem respondeu. Só sentiu outra vez aquele cansaço não por Dona Celeste, mas porque cada passo em frente para ajudar alguém acaba logo em discussões sobre justiça e direito.

Dois dias depois, apareceu um novo papel no rés-do-chão. Não pedia medidas, era uma tabela organizada: dias da semana, horas, nomes. Em baixo, o número da Dona Celeste e a explicação: Em emergência durante a noite, aviso no chat. Se alguém puder ajudar a levantar ou acompanhar o INEM, diga. A folha estava direita e firme.

O António não gostou nada de ver aquela folha, quase tanto como da outra. Só que o desconforto era diferente: era como se o prédio aceitasse que a tragédia de alguém passa a fazer parte dos horários.

Numa dessas noites, o António subiu. O estrondo foi grande, ouviu-a murmurar pragas, não contra ninguém contra aquilo tudo. Tocou. Ela abriu logo, sem corrente.

Ajuda-me, pediu.

Ele tirou os sapatos e deixou-os de lado. O irmão dela estava caído no chão, a esforçar-se por respirar. O António e a Dona Celeste levantaram-no juntos, devagar, suando. Ao terminar, ela não chorou nem agradeceu, só ajeitou a almofada e certificou-se de que ele estava bem.

Na saída, António ouviu uma porta a abrir-se noutro patamar alguém viu de longe, fechou e não saiu. O prédio inteiro pareceu suster a respiração.

De manhã, no elevador, cruzou-se com o Vítor, que já tinha assinado a folha das queixas. Nem o encarou.

Epá, disse o Vítor, eu na altura assinei. Estava farto. Mas se soubesse Não teria

Entendo. respondeu António. Mas o importante é o que se faz daqui para a frente.

O outro assentiu, mas com aquele ar de quem custa admitir o erro até para si.

O compromisso foi funcionando. Não era perfeito, mas alguma coisa mudou. No chat, às vezes lá aparecia um INEM ou queda. Havia menos mensagens zangadas pela madrugada; a maioria, preferia escrever de manhã, já a frio. Alguns ainda iam ajudar à Dona Celeste, outros não voltaram lá mais. A Dona Marília manteve a tabela, mas às vezes tinham espaços em branco.

O António deu por si a reparar que se falava menos, de forma aleatória, no prédio. Cumprimentavam-se, mas com cautela, como se cada frase pudesse reabrir feridas. Já não havia ameaças nos cartazes, mas também já não era como antes. Até as conversas sobre a lâmpada do hall tinham um tom nervoso: Só não queremos voltar a isso.

Um dia destes, o António apanhou a Dona Celeste no elevador. Levava um saquinho das Farmácias Portuguesas e um termo pequenino. Tinha o rosto ainda mais pálido.

E o seu irmão? perguntou António.

Está vivo, respondeu ela. Esta noite não houve nada.

Subiram juntos. No quarto andar, ele saiu e ficou parado.

Se precisar… sabe onde estou.

Ela assentiu e, baixinho, arriscou:

No outro dia, na reunião… não queria

Calou-se, fez um gesto com a mão.

Eu percebi, respondeu ele.

O elevador fechou-se e ele ficou sozinho no patamar. Entrou em casa, tirou o casaco, arrumou os sapatos no tapete. Tudo sossegado. O filho estava de auscultadores no quarto, a mãe ao telefone, a perguntar quando ele ia lá.

O António olhou para o ecrã, depois para a porta e pensou nos papéis em que, de um lado, se assina contra, do outro lado, se escreve a favor de ajudar. E percebeu que, entre um e outro, a distância é sempre menor do que entre vizinhos que vivem separados por uma parede.

Nessa noite, alguém escreveu: Obrigada a quem ajudou hoje. Por favor, nada de discussões. Dúvidas, falem comigo diretamente. Rapidamente desapareceram em mensagens sobre lixo e manutenção do elevador.

O António desligou o telefone e foi pôr a chaleira ao lume. Sabia que talvez voltasse a acordar de noite por causa de algum barulho. E percebia que, da próxima vez, já não ia pensar só no seu sono. Não se tornou melhor por isso só mais presente. E, queira ou não, agora era um dos nossos.

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