O meu diário
Não, Rui, ainda bem que vieste! Dona Helena sentou-se à frente do filho, apoiando o rosto nas mãozinhas, e sorriu. Que saudades, meu querido Vá, come, come mais um pouco. Queres outra almôndega?
O Rui abanou a cabeça devagar.
Não estava bom? perguntou a mãe, com um susto na voz. Endireitou-se, o seu rosto, antes tranquilo e enrugadinho, ficou tenso, os olhos arregalados. Fiz como sempre Eu avisei ao teu pai que já não gostas de porco Avisei! Que, há algum sabor estranho?
Dona Helena ficou aflita. Tinha preparado comida suficiente como se fosse receber uma equipa de futebol, na esperança de ver o filho satisfeito e sentir-se útil. Agora, com a recusa dele, sentiu o coração apertado
Oh mãe, não comeces Está tudo óptimo, está mesmo. Só já não aguento mais!
Rui pousou delicadamente o garfo, pequeno demais para as suas grandes mãos, ajeitou o guardanapo diminuto ao lado do prato. Sempre foi estranho ver um filho tão corpulento sair de uma mãe tão pequena. Mas o Rui puxava ao pai, o António, também ele um homem imponente. Ao lado dele, Dona Helena parecia uma miúda.
Estava uma delícia, como de costume! disse Rui, levantando-se para abraçar a mãe, apertando-lhe os ombros como se lhe vestisse um casaco. Sentia-se sempre seguro, protegido com ela. O que é que querias mesmo falar? Agora, antes de eu ir embora. Combinei com a Matilde ir ao centro comercial, temos de comprar roupa para o Manel.
Matilde, como Rui gostava de lhe chamar, era a sua esposa uma mulher organizada, educada, muito bonita e cheia de tranquilidade.
Desde o primeiro dia em que Rui a viu, ficou paralisado, embateu num poste na rua de tão vidrado ficou. Acabou a abrir a sobrancelha, sangue a escorrer pelo rosto. Ela, assustada, ficou a olhar para o barulho, olhos espantados, boca aberta. E Rui a esfregar o poste, receando tê-lo partido
Foram juntos ao centro de saúde. Matilde, tão novinha e divertida, perguntou cem vezes se a cabeça dele não rodopiava. E claro que rodopiava! Porque tinha uma Matilde ao lado, linda que só visto.
Acabaram por casar. Agora, têm o Manel, um miúdo castiço. Matilde trabalha como terapeuta da fala normalmente atende os alunos em casa, o que dá jeito, pois assim pode tratar das lides domésticas. Rui, todas as manhãs, sai cedo para o emprego e deixa o Manel na escola, mas não numa escola qualquer Matilde conseguiu para o filho um lugar num colégio com vocação para as ciências. No fundo, a vida é boa, cheia de rotinas e amor.
E a Matilde, porque não veio? perguntou Helena, tirando a mesa. Sabia bem que Matilde tinha alunos marcados nunca parava nem ao fim-de-semana , só queria prolongar a conversa, hesitava em pedir um favor ao filho.
Já disse, mãe, ela hoje tem dois alunos. E o Manuel, Rui gostava de tratar o filho pelo nome completo, Manuel Ribeiro está a acabar os trabalhos. Mas está tudo bem.
Rui pegou nas chávenas delicadamente, como se fossem de cristal, pô-las na pia, virou-se de frente para a mãe, fitando-a nos olhos.
Estás a assustar-me, mãe. Passa-se alguma coisa com o pai? Está deprimido? Meteram-se em dívidas? Foram enganados? Ou, quem sabe, descobriram que tenho um irmão gémeo perdido na maternidade?
Rui sorria, satisfeito pelo seu humor e pelo ambiente bem-disposto da casa.
Obediente ao gesto da mãe, sentou-se, tocou no estômago empanturrado, espreguiçou-se, bateu com o braço no móvel da cozinha. Pois O apartamento dos pais era bem pequeno. Nada a ver com a casa em que vivia com a Matilde três divisões amplas, uma varanda, cozinha espaçosa, tudo conseguido graças à família de Matilde. Os tios tinham-lhe deixado o apartamento como herança, depois de terem ido viver para o interior. Costumavam mandar batatas, beterrabas, topinambo todo manhoso e maravilhosos ramos de ásteres no Outono. Os ásteres eram um verdadeiro espetáculo, cheios de cor e vida! Chegavam no carro do tio Francisco Rui sempre ajudava com a carrinha, andava de calções pelo apartamento, feliz da vida.
O que eu te queria pedir Helena respirou fundo, hesitou e empurrou-lhe um prato de broas. Lembras-te da Dona Conceição?
Rui ficou pensativo.
Claro, mãe, como não? acenou por fim. O cheiro de mel das broas irresistível. Levantou-se, serviu mais chá, agarrou a maior broa.
É que a Dona Conceição vai ser operada aos olhos e foi-lhe marcada a consulta no hospital central aqui do distrito Nem sei ao certo qual o problema, mas pelos vistos é complicado
Rui ouvia com atenção. Lembrava bem a Dona Conceição, vizinha do andar, sempre ajudou a mãe, tomou conta dele em pequeno. Rui recordava-se dos seus óculos enormes, que a faziam parecer um besouro simpático.
E então? perguntou quando o silêncio se instalou, vendo a mãe nervosamente limpar farelos da toalha, sinal de aflição.
O que eu queria perguntar-te É se ela podia ficar em vossa casa com a Matilde enquanto dura o tratamento. Arrendar um quarto ou um hotel lá é muito caro, uma chatice andar de um lado para o outro E ela já não tem forças. Sei que é pedir muito, mas ela criou-te ao colo seria só por uns tempos.
Rui parou de mastigar, limpou a boca, encolheu os ombros.
Bem resmungou, pouco convencido. Não fazia parte dos planos receber a senhora em casa, guardar os calções de praia por umas semanas Também coitada da Matilde, vai ter de se privar de ir à cozinha de camisola de dormir! Mas precisa-se, ajuda-se. Claro que sim! Se ela cuidou de mim, agora retribuo! sorriu, sentindo-se altruísta. Ia orgulhar a Matilde e a mãe. A Dona Conceição merece cuidado na velhice! concluiu, radiante.
Lá fora, o sol apareceu, dourando os olhos felizes da mãe, espalhando faíscas pela parede. Os sinos da igreja tocaram festivos.
A sério, Rui? Estou tão feliz! suspirou Helena, indo acariciar os cabelos do filho, como em criança.
Se a Matilde visse a cena, torceria o nariz, a imitar a sogra. Sempre brincou com a adoração de Helena pelo filho.
Mas, sem Matilde ali, podia ser de novo o menino da mamã
Rui relaxou, pousou as mãos na mesa.
Mas talvez devesses perguntar à Matilde sussurrou de repente Helena, assustada. Rui murmurou qualquer coisa sobre a mulher não se importar, aninhou-se no braço da mãe, quase adormeceu de tão confortável. Vou chamar a Conceição, então. Resolvem o que for preciso
Helena saiu a correr da cozinha, ouviu-se o pai mexer em papéis na sala, Rui tirou o telemóvel e ligou à mulher.
Matilde ouvia, a maquilhar-se.
Por quanto tempo? perguntou finalmente.
Duas semanas, acho. Amor, é preciso ajudar Rui soava a desculpa. A senhora tem operação marcada e não tem onde ficar.
Mas não há quartos no hospital? Matilde começou, mas Rui interrompeu.
Sim, mas depois precisa vir para consultas, controlos Não vai andar uma hora de transportes, coitada. Matilde, uma mulher impecável, higiênica, vais dar-te bem! Vai correr tudo bem
Olha, não gosto disto Lembro-me dela no casamento: olhou-me de lado, de cima para baixo. A tua Dona Conceição não gosta de mim.
Não digas isso! Gosta de ti! E até pode ajudar o Manel, ela é
Tem dezasseis anos o teu filho! Em que o pode ajudar? Matilde fez beicinho e largou o baton.
Em tudo, Matilde. Ela é experiente, viveu muita coisa. Não és contra, pois não?
Matilde era, mas não o quis dizer para não magoar o marido.
Está bem. Para quando é?
A voz de Rui animou-se, respondeu que seria domingo.
Já este? Amanhã?! Matilde olhou ao redor, o caos familiar ameaçava mostrar-se à visita!
Só ela e os seus conheciam a casa naquele estado. Os alunos eram recebidos na sala de jantar, bem iluminada, arrumada quando era preciso. O resto ninguém via. Para visitas, a limpeza era de cima a baixo. Matilde sempre se envergonhara do desalinho, das camisolas largadas, das toalhas atiradas na casa de banho. Queria sempre encobrir as imperfeições.
E agora a Dona Conceição ia circular por toda a casa! E se achasse Matilde má dona de casa?..
Casa limpa, cabeça sã! repetia-lhe sempre a mãe. Primeira impressão conta!
Matilde fechou os olhos, abanou a cabeça, via-se outra vez pequena e repreendida pela mãe, sentia-se a menina descuidada
Para o próximo corrigiu Rui.
Menos mal suspirou. Vou já dizer ao Manel
Ainda ia a tempo de atacar o caos caseiro, lavar, limpar, passar, esfregar tudo, até reluzir
O Manel, ao saber da vinda da velha ama do pai, ficou impassível. Que viesse, não fazia diferença.
Deixa lá, mãe! Vivemos à nossa maneira, ela é que se adapte. Isto é a nossa ecossistema! gracejou o jovem aspirante a biólogo. Se aguenta, aguenta. Senão, paciência.
Não é crescer, Manel, é encher E esta semana mal tenho tempo Anda, pega no aspirador. Não quero que ela pense mal de mim e vá contar à avó Helena!
A avó sabe tudo sobre ti e nunca se queixa desvalorizou o rapaz, sumindo-se.
Matilde começava a stressar, mas logo bateu à porta o André, o seu aluno mais falador e fofinho. Entre elogios e exercícios de pronúncia, a dona da casa espreitava ora para os copos, ora para a mesa: o que há a arrumar, o que falta limpar?
As janelas! caiu-lhe a ficha subitamente.
Janelas limpas, Dona de casa de verdade! Deixas tudo com manchas! ecoava a mãe na cabeça.
Rui chegou e interrompeu o serviço. No caminho para o shopping, falava do quanto a Dona Conceição o criou, Matilde apenas acenava e encolhia os ombros.
Pai, já percebemos, vai lá vir a tua segunda mãe. Podias era mudar de assunto! pediu Manel.
Matilde agradeceu-lhe em silêncio.
O tempo voou até ao domingo seguinte.
No sábado, Rui foi buscar Dona Conceição, Matilde cancelou todas as sessões e preparou-se para a chegada.
Manel foi ao barbeiro, o cão Tóbi foi lavado e ficou cheiroso, e até as janelas brilhavam, como sempre exigiu a mãe.
Bem Matilde, chegamos por volta das três, não te stresses anunciou Rui. Não quer que se mude a vossa vida por causa dela.
Está bem, conto convosco para o almoço.
Matilde pensou em fazer frango assado, batatas, uma salada Receber a visita, como devia ser.
Às sete da manhã, pôs Manel a passear o Tóbi, e foi tomar um banho quente, cantando baixinho E o sonho comanda a vida. Quando estava a escovar os dentes, ouve-se o barulho da porta vozes na entrada: era Rui, um tom fino de mulher envergonhada, Tóbi a ladrar, Manel a suspirar ao fundo.
O espelho embaçado revelou a Matilde a figura improvisada com que ia receber a convidada
Ora nós aqui estamos disse Rui, de sorriso triunfante, carregando a mala encarnada e enorme da Dona Conceição, que vinha atrás, bochechas rosadas, de olhar brilhante, cheia de palavras simpáticas para a dona da casa. Tudo lhe parecia encantador, elogiava cada detalhe. Só que Matilde continuava em modo pânico: ainda de robe, cabelo despenteado, frango por assar e Tóbi com as patas sujas Pronto, má dona de casa, pensou. Dona Conceição já franzia o sobrolho a olhar para as pegadas do cão na entrada, enquanto Matilde fugia para compor a figura.
Aqui tens o teu quarto Rui abriu a porta. Sente-te à vontade, vou preparar algo para comermos. Só vou trocar de roupa.
Dona Conceição agradeceu, fechou a porta.
Chegaram cedo! barafustou Matilde à pressa, Não estava pronta! Não é justo, Rui, fizeste-me passar vergonha!
Rui, sentado na cama, via o reflexo da mulher no roupeiro de vidro, deliciava-se com as curvas e os ombros dela
Quê? distraiu-se.
Por que tanta pressa em chegar? ela vestia o vestido, ajeitava o cabelo. Fecha lá o fecho.
Ah ela tinha uma consulta, já me esquecia. Viemos mais cedo, só isso Rui encolheu os ombros, foi ajudá-la.
Porque trouxe tanta coisa? Matilde torceu o nariz.
Mulheres Vocês levam sempre o mundo atrás! brincou Rui, satisfeito consigo mesmo.
Sentaram-se para o pequeno-almoço. Matilde fez ovos mexidos, Manel preparou sandes.
Dona Conceição entrou por último, inspeccionou tudo, ficou ao lado de Manel.
Bom apetite. Que casa tão acolhedora! Matilde, eu lembro-me de ter oferecido um serviço de chá com papoilas para o vosso casamento Não foi? Ou foi a outra pessoa
Matilde encolheu os ombros. O serviço de chá tinha-se estilhaçado no dia seguinte ao casamento, culpa de Rui.
Rui mastigava, distante.
Se calhar foi Matilde servia o café.
Matilde, aqui corre alguma ar posso sentar-me ali ao teu lugar? pediu Dona Conceição.
Manel arregalou os olhos, Matilde encolheu os ombros.
Rui tomou as rédeas:
Troca, amor, não queremos que ela fique constipada antes da operação! pegou nela gentilmente, sentou a convidada.
O Rui era difícil de alimentar em pequeno, mas agora tornou-se um bom garfo disse Conceição sorridente. Foi um menino dos complicados.
Matilde engasgou-se, Manel sorriu com ironia.
O jovem devia ir fazer os trabalhos. O Rui era certinho nisso. Dona Conceição levantou-se, arrumou a loiça de Manel, olhou para Matilde, que hesitou em reclamar.
Manel saiu da cozinha amuado.
Depois do pequeno-almoço, Conceição fechou-se no quarto, pediu a Rui para mudar o televisor.
Têm poucos livros O Manel devia ler clássicos, Eça de Queirós, Camilo Eu trouxe uns quantos comigo. Logo vamos ver o que ele lê e não lê.
Pois, Conceição, assim não é só futebol! Rui piscou o olho ao filho, deu-lhe a mochila de desporto.
Ele sabia que ela levava sempre Eça com ela, para parecer entendida, mesmo sem ter lido. Era o adereço intelectual, até para o hospital.
Despediu-se do Manel, saiu.
A que horas vai ter de sair? perguntou Matilde a Conceição.
Às dez, sim Matilde, o Manel já namora? O Rui começou cedo. Tinha uma namorada tão docinha, tão submissa. Isso é bom, não é? Ah, era bom tirarem o cão daqui espreitou o quarto da dona da casa. Esta sapateira está no sítio errado, um perigo. Olhem, já parti isto! tropeçou, caiu, espalhou sapatos pelo chão. E esses sapatos não fazem bem aos pés Pronto, vou andando. Obrigada por me receberem!
Fechou-se no elevador.
Matilde ficou a olhar, depois fechou a porta.
Mãe, ela já está a mandar em tudo! Obrigou o Tóbi a sair do sofá, quando nós deixamos reclamava Manel ao voltar.
Ela é assim, gosta de educar Vai ser só por uns dias, temos de aguentar.
Matilde sentia-se mal, como se deixasse de ser a dona do seu próprio lar. Mas como dizer que não à mulher que mudava as fraldas ao seu marido?
Ao jantar, Conceição organizou todos para ajudar a enrolar folhas de couve, Rui era só gentilezas.
No dia seguinte, segunda-feira, Conceição acordou todos cedo, pôs toda a gente a fazer ginástica.
Então, quando é a cirurgia? perguntou Matilde, sem fôlego.
Amanhã. Amanhã fico no hospital. Rui, vais lá visitar-me? perguntou Conceição tristemente.
És capaz de estar lá só dois dias! estranhou Rui, mas acenou.
O dia foi cansativo. Os alunos cancelaram aulas, Matilde atarefada, o telefone a tocar sem parar, corvos a crocitar lá fora, e Conceição no quarto a ouvir Carlos do Carmo cantar Lisboa, menina e moça. Dançava, fazia-se ouvir.
Matilde foi espreitar, suspirou
Ela está nervosa, sempre ouve fado quando está nervosa explicou Rui.
Ao fim do dia, Conceição quis ler Saramago com o Manel, mas ele recusou, explicou, bem explicado, que já lera aquilo há um ano e não apreciava visitas desconhecidas em casa. Depois Conceição chamou Matilde, que, atarefada ao telemóvel com uma mãe de aluno, tentava resolver logísticas.
Ora veja, se quer que o seu filho tenha sucesso com a melhor terapeuta da zona, traga-o cá em vez de esperar! Se não, a culpa será sua! trovejou Conceição pelo altifalante, desligou, olhando pela janela. Matilde estava por tudo.
Chega, Dona Conceição! Não se meta na nossa vida, nem no meu trabalho! E os gatos e cães ficam onde eu quero, e as conservas também! Esta é a minha casa, são os meus alunos, quem decide sou eu. Espero que fique bem e possa regressar depressa, sinceramente!
Manel bateu palmas, Tóbi choramingou e meteu o focinho nas pernas da dona. Conceição, virando-se da janela, sorriu.
Matilde até ficou sem reacção. Esperava raspanete, mas
Isso mesmo, Matilde. Nunca te deixes pisar. Diz que não, não te vergues, sê tu própria. Não queiras agradar a todos. É assim que se vive bem. Desculpa se exagerei. Sempre fui provocadora, o Rui sabe A ansiedade para a operação tirou-me do sério. Tóbi, és um cão bem-comportado! ela acariciou a cabeça ao animal. Querem marmelada? Trouxe um doce de maçã óptimo Manel, provas?
O rapaz revirou os olhos. Já percebeu que as mulheres são mesmo estranhas, mas enfim
Tocou a campainha, chegava a mãe do André, ansiosa por não ser riscada da lista. Matilde tranquilizou-a, piscou o olho à secretária.
À noite, Rui e Manel foram jogar consola, Conceição, instalada na poltrona, recordava histórias da infância de Rui: como lhe riscou as paredes, como quase se afogou num lago e ela o salvou. Falou da tal namorada sem personalidade. Ainda bem que partiram o serviço de chá, dava azar! gracejou, dando-se bem com tudo. O Rui perdoa-me sempre E tu também perdoa, Matilde. Obrigada pelo abrigo, és uma grande mulher
A marmelada derretia-se no prato, e ao fundo, o céu tingia-se de vermelho.
Está na hora sussurrou Conceição. Tenho de chegar antes das oito.
Rui levou-a de carro, pela cidade calma. Matilde foi com eles, sentiu o tremor da mais velha à sua beira.
Ligue-me à noite, prometo que não discuto! Depois volta para casa connosco!
Conceição acenou. Soube-lhe bem viver com os mais novos, tinha saudades do reboliço. O Manel fascinava-a, tão diferente do pai, tão seguro de si: é o seu mundo interior, como ele dizia não se muda, mas pode-se estudar, e ele está prontoNo silêncio do regresso, Matilde foi olhando o marido, uma ponta de orgulho a crescer por dentro. No banco detrás, Manel adormeceu, a cabeça a tombar nas janelas limpas. Rui, guiando devagar, cantarolava baixinho, sereno.
Em casa, Matilde não correu logo para arrumar, nem inspeccionou pegadas de Tóbi, nem resmungou por causa da sapateira. Em vez disso, acendeu uma luz suave, foi à cozinha buscar duas fatias da marmelada deixada por Conceição e, sentada à mesa, provou com Manel, que acordou esfomeado ao cheiro doce e quente.
Mãe, afinal até é porreiro quando a casa tem histórias novas murmurou ele, e sorriu-lhe com aquele jeito de menino grande.
Matilde sorriu de volta, surpreendida consigo mesma. Tinha medo de perder o seu espaço, as suas rotinas, mas percebeu ali, entre migalhas de broa e bocados de marmelada, que os dias ganham valor quando alguém deixa um bocadinho de si no nosso caminho.
Lá fora, as janelas brilhavam, mas era cá dentro, agora, que se respirava leveza.
Quando, mais tarde, chegaram notícias do hospital Conceição a rir-se do avental azul, prometendo voltar só para ensinar um novo truque de marmelada , Matilde desligou o telefone e sentou-se ao lado de Rui no sofá.
Ainda bem que vieste comigo naquela tarde à casa da tua mãe disse-lhe baixinho. Às vezes é nas surpresas que aprendemos a gostar do que não conhecíamos em nós.
E, ali, mãos entrelaçadas, ouviram, cúmplices, a noite descer lenta e doce como uma velha canção ao longe, como uma história transformada em lar.







