Arriscar pelo Futuro
Mas por que raio queres ir para Lisboa?! explodi, virando-me para Leonor. O que é que há de mal aqui? O Instituto de Coimbra deixou de servir? Por que é que tomas decisões destas sem falar sequer comigo?!
A mágoa e a surpresa brilhavam-lhe no olhar. Eu não queria acreditar que a Leonor podia encarar algo tão importante sem sequer me consultar. Sentia-me traído, como se me tivesse deixado para trás.
Ela esforçava-se por se controlar, comprimindo os lábios. Tentava falar num tom calmo, mas a voz já tremia. Sabia de antemão que a conversa ia ser difícil, mas a discussão já era inevitável.
Antes de mais, trata-se da minha vida, do meu futuro respondeu ela. E depois, não voltámos a esta conversa no ano passado, antes de eu acabar o secundário? Foste tu que me convenceste, lembras-te? Que aqui em Coimbra tinha tudo mas eu sempre sonhei ir para Lisboa!
Ouvi-lhe a dor, o desalento, aquela mistura de desilusão e uma infância cheia de sonhos adiados. Nos olhos humedecidos já surgiam lágrimas que a Leonor tentava a todo o custo disfarçar.
Parei junto à janela, apertando o beiral com tal força que os dedos ficaram brancos. Lutava comigo próprio para dominar a revolta que borbulhava.
Convenci-te, pois murmurei, com frustração. Só que não percebo para quê gastares rios de euros numa renda em Lisboa, se aqui temos casa nossa
A minha cabeça fervilhava. Tinha projectos: uma casinha acolhedora, família, estabilidade. Mas agora parecia tudo um castelo de cartas e a simples ideia de ela ir para outro lugar deixava-me sem chão. Como fazíamos? Era suposto esperar cinco anos, a ver se ela algum dia voltava?
Eu ganho muito bem, não te falta nada ao pé de mim tentei mostrar o que sentia. Não precisas de trabalhar, Leonor! Para quê então ir tão longe?
A minha voz soava desesperada. Queria que ela percebesse o meu ponto de vista, os meus receios.
Leonor saltou do sofá, bochechas vermelhas de irritação, olhos a brilhar.
Porque é que achas que vou ser dependente de ti?! atalhou, ofendida. Não nasci para ser dona de casa! Quero poder ganhar o meu próprio dinheiro!
Sempre fui defensor do trabalho e da independência. Em criança vi a minha mãe batalhar sozinha quando se separou do meu pai e o ordenado dela mal chegava para comer. Aprendi cedo que confiar demasiado nos outros podia sair caro. A Leonor também não o dizia em voz alta, mas sabia que pensava igual, talvez ainda mais profundamente.
Via na minha companheira aquela força de quem sabe que tudo pode mudar de um dia para o outro. Eu considerava-me insubstituível na empresa onde trabalhava, via colegas com arrogância e planeava o futuro como se tudo já estivesse garantido. Ela via o mundo de forma diferente.
Leonor aprendera desde cedo a importância da independência. O pai não pagou pensão, a mãe manteve a casa às costas, ela a vestir roupas herdadas das primas mais velhas, a desejar ténis novos em vão. Mais tarde a mãe voltou a casar, mas o padrasto nunca a aceitou bem. Acabou por ir viver com a avó, também ela a contar tostões. Isso marcava uma pessoa.
Tudo isso moldou a decisão de Leonor. Não queria voltar a sacrificar sonhos: queria mais, queria uma vida construída por ela.
E se viesses tu para Lisboa comigo? arriscou com esperança, pousando a mão no meu braço e fitando-me nos olhos, suave.
E recomeçar tudo de novo? Pelas ruas de Lisboa, sem ninguém? arremessei, afastando a mão. Aqui tenho carreira, colegas que me conhecem, chefes que me valorizam. Em Lisboa era só mais um, a competir por lugar. Que sentido faria abandonar tudo? Aqui talvez em dois anos já seja chefe de equipa.
Explicava-me com dureza, cada palavra a marcar bem a diferença entre a segurança de Coimbra e o desconhecido de Lisboa.
Para mim, as oportunidades estão em Lisboa! respondeu ela, a voz embargada. Não te peço para largares tudo. Só para veres, informares-te se seria possível transferires-te. É pedir assim tanto?
Fiz uma pausa, a olhar para ela cheia de nervosismo. Trêmula, os olhos fugiam e voltavam aos meus seria só pelo curso? Ou havia outra razão? Uma pontada de ciúme incomodou-me. Quis afastar esse pensamento, mas não consegui. A dúvida corroía-me.
Achas mesmo que é assim tão simples? perguntei, já mais sereno mas tenso. Ir, tentar uma transferência, arriscar, sem garantias? E se não resulta? E se ficamos sem nada?
Leonor olhou para mim calmamente.
Não quero que deixes tudo, só peço que penses murmurou. Quero construir o futuro contigo, mas vejo as coisas de forma diferente.
Voltei-me para a janela. No parque lá em baixo, crianças brincavam. Ali estava tudo, parecia, tão certo, tão quieto. Lembrei-me de novo do ano anterior, quando a tinha convencido a ficar. Bastou conversar, encontrar argumentos, acalmar-lhe o medo. Desta vez, porém, ela parecia determinada.
Comecei a pensar em alternativas. E se falasse com a mãe dela? Ou um amigo em comum, para que lhe explicassem que não valia o risco? Ou será que, afinal, ela queria obrigar-me a pedir-lhe em casamento e tudo isto era só para me desafiar? O medo de perder tudo corroía-me.
Tinha de fazer qualquer coisa. Não podia deixar a situação fugir do meu controlo.
Olha, é assim: disse, sem olhar para trás. Esforcei-me para soar firme, talvez mesmo frio Se levares avante esta ideia e fores para Lisboa, acabou. Acabou de vez, sem retorno. Não fico à espera, não quero viver à dúvida, imaginando com quem estarás tu por lá. Ou escolhas o sonho do diploma, ou a nossa família.
Custou-me dizer aquilo, mas queria mostrar que falava a sério.
Virei costas e bati a porta. O quadro caiu e o vidro estalou, mas nenhum de nós notou sequer.
Leonor ficou no meio do quarto, perplexa. Como podia eu, logo eu, reagir como um miúdo inseguro? Será que eu achava mesmo que bastava mudar de cidade para ela me trair? Depois de tantos anos, de tanta confiança, um simples ultimato
E o casamento, então? Era isto que ela esperava? Não, nem de longe. Desejava algo terno, natural não uma chantagem para calar um conflito. Só sentia raiva e mágoa. Porque razão eu ignorava os seus sonhos, recusava uma alternativa tão óbvia? O meu chefe elogiava-me tantas vezes, o próprio sugerira que, se eu quisesse, poderia ir para o escritório central em Lisboa. Mas nem quis ouvir.
Pensei no quanto ele queria que eu abdicasse dos meus sonhos para garantir a sua estabilidade. Mas rapazes, ainda assim, há muitos; já a oportunidade de crescer profissionalmente só surge uma vez. Rapariga decidida, Leonor sabia o que tinha de fazer.
Endireitou as costas e, apenas para si, murmurou:
Vou para Lisboa
***
Leonor arrumava as roupas na mala, reunia livros e cadernos, evitava ao máximo chorar. Eu assistia, de braços cruzados, encostado à ombreira da porta. Nos meus olhos só havia incompreensão: como podia ela não me ter escolhido? Como podia preferir sonhos à nossa vida juntos?
Ela limpava uma lágrima e continuava a empacotar, tudo com método. Não precisava de mais conversas: o que havia a dizer, já fora dito. Punha em causa tudo, temia não estar à altura, duvidava do futuro. E se falhasse? E se tivesse de regressar derrotada, sem diploma, sem trabalho, e eu, entretanto, já com outra?
Foi, mesmo assim. Fechou a mala, ergueu-se e virou-se para mim. Eu continuei calado.
Preciso disto. É o meu futuro disse ela, segura.
Agarrou na mala e saiu. Algo dentro de mim soube que não haveria volta.
***
Dez anos depois, a Leonor regressou a Coimbrao aniversário redondo da mãe era boa ocasião. Saiu do carro, olhou à volta, e viu tudo mais pequeno ruas, praças, até as árvores do bairro pareciam encolhidas. Mas o peito aqueceu-lhe: a infância estava ali.
A diferença na Leonor era notória: fato elegante, postura firme, sorriso calmo. Viam-se homens a admirar o seu ar distinto; mas ela nem reparava. Já não havia sinais de dúvidas ou insegurança. Tinha ao seu lado o homem da vida, uma história partilhada de companheirismo e amor.
Ter ido para Lisboa foi, de facto, a melhor decisão. O diploma, brilhante, abriu-lhe as portas certas. Logo depois de se formar recebeu uma proposta irrecusável de uma empresa internacional. Progrediu depressa: agarrou responsabilidades, aprendeu, cresceu. Hoje vive num apartamento cheio de luz com vista para o Campo Grande, toma o pequeno-almoço a admirar o verde, conduz um automóvel de sonho e, o mais importante, gere o seu dinheiro com independência, mesmo tendo um marido.
O Miguel não era rico nem empresário, mas ocupava um alto cargo no escritório e sustentava o lar. Foi mestre, depois parceiro, depois marido. A relação era baseada no respeito e na igualdade cada um livre no seu sucesso individual. Conheceram-se logo no início em Lisboa e isso transformou tudo: apoio, empatia, amor. Leonor recorda sempre aquele gesto cândido em que ele ofereceu ajuda, o olhar sincero, o sorriso discreto, a voz cheia de compreensão que, aos poucos, se tornou amor.
Ao lado de Leonor estava a filha, Matilde, de cinco anos, olhos brilhantes e mãos a segurar um embrulho: uma caixinha pintada à mão, presente para a avó. A pequena saltitava, impaciente.
Mãe, quando posso dar o presente à avó?
Leonor sorriu, reconhecendo em Matilde a determinação de quem acredita nos sonhos.
Quase, meu raio de sol. A avó vai adorar!
Matilde aninhou-se à mãe, e Leonor fechou os olhos. Conseguira. Arriscara. Conquistara tudo: carreira, família, felicidade.
***
Duarte? O que fazes aqui? surpreendeu-se Leonor ao reconhecer-me entre os convidados. O coração dela quase parou, memórias antigas subiram à tona, mas ela manteve-se serena.
Fui eu que convidei o Duarte interveio a mãe dela, subtilmente. Nos últimos cinco anos, damo-nos bem. Ele casou com a Anita, filha de uma grande amiga.
Não sabia Leonor ergueu uma sobrancelha, num misto de curiosidade e indiferença. E não me dedico a seguir a vida dos ex-namorados Não faz sentido.
Fiquei ali, meio de lado, mãos nos bolsos, a tentar reprimir a azia. Vi a Leonor cheia de presença, sucesso, com uma filha feliz ao lado. Mesmo depois de tantos anos, doía-me admitir: ela tinha conseguido. Eu, não.
Depois que o escritório regional fechou, nunca mais recuperei o patamar antigo. Andei de trabalho em trabalho, mal a ganhar metade do ordenado de antes. Cheguei a pensar: se tivesse ido com ela para Lisboa, como seria? Talvez pudesse ter ido atrás de um sonho, construído algo maior, com ela a meu lado. Mas preferi o seguro, apresentar um ultimato.
Assisti de longe à aquela família: Leonor arrumada, sorriso verdadeiro, Miguel a colocar-lhe a mão no ombro. Vi-lhes nos gestos a cumplicidade dos anos, a serenidade dos que, mesmo com dificuldades, escolheram arriscar juntos. Senti-me, de repente, um intruso num filme do qual já não era personagem; alguém a mais numa história alheia.
Olhei uma das mesas, vi uma fotografia de nós ainda estudantes, tão crentes na vida. Sorri, mas era um sorriso triste: que ingenuidade a nossa, acreditar que a vida seria sempre aquilo que planeávamos.
Dei mais uma volta pelo salão, ouvi risos de crianças, música, conversas animadas. Tudo o que eu poderia ter tido, mas deixei escapar, por medo de recomeçar do zero. Sabia, no fundo do peito, que nunca mais teria aquela oportunidade.
Quando cruzei o olhar com a Leonor, ela já só me ofereceu um aceno cordato, sem ressentimento. E percebi, afinal, o maior ensinamento de todos estes anos: não se pode prender quem quer voar. E às vezes, para seguir em frente, é preciso ter coragem de arriscar ou arrisca-se a perder quem mais se ama.







