Arrenda-se o meu apartamento

Arrendo o meu apartamento

Beatriz da Conceição Duarte, e agora, depois de casada, Fernandes, sempre acreditou que o pior na vida era quando as coisas boas começam devagar, quase imperceptíveis, e acabam por se ir embora com o mesmo silêncio, mas de forma inevitável. Como as flores que se tem na janela: regas, parecem firmes e um dia, sem dar por ela, as folhas amarelecem e já não há regresso.

Aquele cheiro ela sentiu logo nas escadas do prédio.

Forte, pesado, adocicado. “Tabu”. O mesmo, impossível de confundir, pois era com isso que cheirava o ar na casa da Dona Graça cada vez que lá iam. Entranhava-se na roupa, no cabelo, na memória.

Beatriz parou frente à porta, chave na mão.

Quatro da tarde. Saiu do escritório mais cedo: a Dona Madalena do Recursos Humanos disse-lhe que estava com um semblante pálido e mandou-a para casa. A cabeça pesava desde manhã, a latejar como se alguém fosse apertando as têmporas com uma fita elástica. Só queria tomar um comprimido, deitar-se, e tapar-se com uma manta.

Mas aquele cheiro dizia outra coisa.

Abriu a porta.

No hall havia três caixas de cartão, enormes, do hipermercado Continente, com dizeres vermelhos na lateral. Uma já estava fechada com fita adesiva. As outras duas estavam meio abertas, tapadas com jornais.

Da cozinha ouvia-se rumorejar de loiça misturado com um murmúrio baixo.

***

Dona Graça, disse Beatriz, sem sair do mesmo sítio. O que é isto?

O barulho parou. Da porta da cozinha apareceu a sogra. Mulher alta, robusta, com 57 anos, de avental florido por cima do vestido cinzento. Cabelo bem apanhado, mãos enluvadas. Ar decidido, cerimonioso.

Ó Beatriz! saudou-a Dona Graça com aquele tom entre o paternalismo e uma notícia amarga mas para teu bem. Vieste cedo. Sentes-te mal?

O que se passa aqui? Beatriz não se mexeu.

Não te enerves, Dona Graça tirou uma luva, depois a outra, pousando-as com perfeita ordem. Faço isto por ti e pelo Miguelinho. Senta-te, que eu explico.

Prefiro ficar de pé. Diga.

Os olhos da sogra estreitaram-se. Habituada a que o que dizia fosse logo acatado. Enfermeira-chefe no Hospital de São José há vinte e três anos. Manda e é ponto final.

Está bem, fez sinal para a cozinha. Mas entra, não fiques à porta. Faço-te um chá.

Não quero chá. O que está nas caixas?

Dona Graça suspirou, impaciente.

A loiça. Panelas, frigideiras. Os copos de cristal já os envolvi em plástico-bolha, não te preocupes. Pratos ficam cá para os inquilinos.

Beatriz ouviu isto cada sílaba. Para os inquilinos. Sentiu essas palavras passarem-lhe pelo corpo, ficando-lhe pesadas no peito.

Que inquilinos? perguntou, tentando manter a voz neutra.

Arranjei inquilinos, disse Dona Graça numa voz como quem anuncia uma grande notícia. Casal jovem, com um filho de cinco anos. Ele trabalha nas obras, ela está em casa. Boa gente, já falei com eles, gostei. Mudam-se sexta.

Sexta? Isso é daqui a três dias.

Pois. Já tratei do sinal. Pagam logo dois meses adiantados.

Beatriz pousou o saco na mesinha, tirou o casaco com gestos pesados, pendurou-o. As mãos estavam geladas apesar do aquecimento central.

Dona Graça, disse numa calma tensa. Falou disto com o Miguel?

Claro que sim. Discutimos há três meses, quando ele perdeu o prémio no trabalho. Fui eu quem sugeriu: arrendam a casa, vêm para cá, poupam dinheiro. Faz sentido.

Não chegámos a acordo Beatriz abanou a cabeça. Eu disse que não concordava.

Disseste que ias pensar, corrigiu a sogra suavemente.

Não. Disse mesmo que não queria. O Miguel pediu para não criar complicações, e eu calei-me. Mas não é um acordo.

Dona Graça cruzou os braços. Esse gesto era-lhe familiar. Era o ponto final quando já não esperava argumentos contrários.

Beatriz, tu és uma rapariga esperta. És contabilista, sabes fazer contas. Vejamos: quanto é a prestação ao banco por mês?

Isso não lhe diz respeito.

Beatriz.

Não. A voz era firme, baixa. Isso é da nossa família.

Fez-se silêncio, só se ouviam carros a passar na rua, lá em baixo no Areeiro.

Tens direito à tua opinião, disse Dona Graça por fim, numa voz já cortante, despida do quotidiano cuidado. Mas família não és só tu. O Miguel concordou.

Vou ligar ao Miguel, disse Beatriz, sacando do telemóvel.

***

Miguel atendeu ao terceiro toque. O ruído de fundo era o dos transportes.

Beatriz, que se passa? Saíste cedo…

A tua mãe está a empacotar a nossa casa. Arranjou inquilinos. Diz que entram sexta.

Silêncio. Dois ou três batimentos de coração.

Queria falar contigo primeiro…

Tu sabias?

Ontem ela ligou-me, disse que arranjou pessoas. Achei que ainda discutíamos…

Miguel, chegamos a casa e está tudo em caixas. Entendes o que é isto?

Entendo que te tenha abalado…

Vem a casa.

Tenho reunião às seis…

Miguel. A voz de Beatriz saia baixa, firme, como água parada. Vem agora.

Ele chegou pelas cinco e meia. Beatriz já estava na cozinha, à mesa, o chá frio. Dona Graça ficou na sala, a arrumar as estatuetas de porcelana, heranças do Cartaxo que trouxe para dar ambiente.

Miguel era alto, cabelo claro, cansado. Trabalhava como engenheiro de projeto numa fábrica em Loures, ia de comboio, chegava estafado. Beatriz sabia e normalmente facilitava. Hoje, não.

Beatriz, começou ele, à porta.

Senta-te.

Sentou-se. Ela fixou-lhe o olhar.

Diz-me: como é que decidiram isto tudo sem mim?

Não decidimos nada… parecia procurar uma saída A minha mãe só veio com uma solução. Pensei que ias discutir com ela…

Já discuti. Está a empacotar a cozinha. Isso é só uma solução?

Não percebes como estamos…

Explica.

Perdi o prémio. Já foi há mês e meio. Desde aí todos os meses ficamos no vermelho. Casa, luz, supermercado. Ainda pago o carro. Não está fácil, Beatriz.

Ela escutava. Era verdade, sentiam o aperto, mas não era o fim do mundo. Ela trabalhava, tinham meios.

Sugeri cortarmos gastos. Adiar férias. Passar sem ginásio. Lembras-te?

Lembro.

Chegava.

A mãe acha que não.

E tu?

Silêncio. Disse tudo.

Miguel, Beatriz aproximou-se. De quem é esta casa?

Bem, está em teu nome, mas somos família…

Não é só no papel. Foi o meu pai que ma deixou. Três meses antes do casamento. É meu. Por lei. E ninguém pode arrendar sem meu consentimento escrito. Isso é crime. Sabias?

Miguel empalideceu. Nunca tinha pensado nisso.

Não vais chamar a polícia…

Não é disso. É por estares a deixar que a tua mãe mande no que não é dela. E não dizes nada. Porquê?

Passos vindos da sala. Dona Graça na porta da cozinha, como esperado.

Miguel, então? Fala com a Beatriz, explica que é o melhor. Ela não está a ver bem a situação.

Mãe, espera…

Esperar para quê? Os inquilinos têm pressa. Digo sim ou não?

Dona Graça, Beatriz respondeu. A resposta é não. Não arrendo a casa. Não vamos mudar-nos. Isto é definitivo.

O olhar da sogra demorou-se nela e virou-se para o filho.

Miguel…

Mãe… talvez seja melhor…

O quê?! O tom subiu. Tratei disto três dias! Combinei tudo! Mudam-se amanhã! Vão destruir tudo só porque ela não quer?

Não é ela. Miguel baixou a cabeça. Explica, Beatriz…

Beatriz levantou-se, pôs a chávena na banca, virou-se.

Não há visita amanhã disse. Não há entrada de inquilinos sexta. Se vierem cá, explico-lhes que não podem ficar. Boa noite.

Foi para o quarto. Fechou a porta com calma. Não bateu.

***

A noite correu mal. Miguel deitou-se depois das dez. Estavam afastados, cada um do seu lado. Beatriz ouvia-lhe a respiração, regular. Talvez a fingir dormir. Não conseguia fechar os olhos.

O pai dizia-lhe: Olha os problemas de longe, menina. De perto parecem sempre piores.

O pai, que já cá não estava há quatro anos. Deixou-lhe a casa como protecção, não como bem; foi sempre assim que ela entendeu. Sabia que só tinha a filha. Que precisava de âncora.

Agora as âncoras eram caixas.

Não, não eram. As caixas eram apenas loiça. A âncora era o dossier azul no móvel da sala, com os documentos: certidão do registo, escritura, tudo.

Sabia que a sogra apareceria com os inquilinos, tal como sabia que de manhã o café seria amargo. Dona Graça não abandonava terreno facilmente. Não sabia recuar.

Beatriz sabia. Mas só quando fazia sentido.

Esta vez, não fazia.

Do outro lado da cama, Miguel mexeu-se. Ela permaneceu quieta. Assim ficaram dois seres com uma história em comum, a sua primeira árvore de Natal, e duas cópias da chave da mesma porta.

Beatriz pensou que o amor não é só nos bons dias. O amor revela-se nas escolhas. E ali estava ele, em silêncio. O que significava isso?

Não sabia.

Mais assustador do que caixas.

***

De manhã levantou-se às sete. Miguel dormia. Fez café e bebeu à janela. Lá fora, um manto de chuva. O Areeiro em Março era triste: neve suja, árvores nuas, passeio molhado.

A dor de cabeça tinha passado.

Pegou no dossier azul, pôs na mesa e conferiu: certidão, escritura, tudo no nome Beatriz Duarte. Tudo certo.

Voltou a guardar os papéis.

A mãe ligou às dez, do Cartaxo. Beatriz demorou a atender, receosa de não conseguir esconder a voz.

Filha, como estás?

Tudo bem, mãe.

Estás diferente ao telefone…

Está tudo bem.

Pausa.

O Miguel ligou ontem confidenciou a mãe. Disse que se está a passar algo aí com a tua sogra.

Beatriz fechou os olhos.

Ele ligou-te?

Sim. Está aflito. Diz que não sabe o que fazer.

Mãe, ele vai ter de escolher o lado dele.

Ele não é má pessoa. São trinta anos de ligação à mãe, filha. Não é fácil.

Eu sei.

Aguentas?

Aguento.

Diz se precisares de mim. Vou num instante.

A garganta apertou. Tossiu.

Não preciso, mãe. Agarro-me.

Está certo. Mas lembra-te: é tua, filha. Ponto final.

Não esqueço.

Desligou. Miguel saiu do quarto às dez em ponto. Serviu-se de café, em silêncio. Ela estava à janela com um livro, sem o ler.

Beatriz…

Diz.

A mãe disse que vem ao meio-dia com os inquilinos. Para verem a casa.

Ouvi-te ontem.

Não queres pelo menos conhecê-los? Pode ser que gostes…

Beatriz afastou-se da janela.

Estás a tentar convencer-me a arrendar a minha casa a pessoas com quem nunca falei, com um acordo feito sem mim?

Só… A mãe fez tanto esforço.

Ela olhou-o.

Escuta-te: não fizeste tu, não acordámos, mas a mãe fez. É dela? A decisão é dela?

A chávena tilintou na mão dele, esfregou a testa.

Só não queria magoá-la.

E magoar-me a mim pode ser?

Não respondeu.

Beatriz voltou ao livro, que não lia.

***

Chegaram às doze e meia.

O intercomunicador tocou. A voz energética de Dona Graça, cómoda. Elevador.

Miguel encostado à porta da varanda, Beatriz no sofá. O dossier arrumado.

Toque à porta.

Miguel ia apressar-se.

Não te mexas, disse Beatriz.

Ele fixou-a, entre o constrangimento e o alívio.

Toque de novo.

Beatriz abriu.

Dona Graça no melhor casaco, cinzento, de festa. Atrás, um casal perto dos trinta, ele de jaqueta, ela de blusão vermelho, e um miúdo de cinco anos com gorro de orelhas. O rapaz fitou Beatriz com seriedade.

Beatrizinha! Dona Graça entrou sem convite. Conheçam o Nuno e a Carla. Boa gente. O Nuno é das obras, a Carla fica em casa com o Martim.

Bom dia, murmurou Carla, tímida. Desculpe aparecer sem avisar…

Não faz mal, respondeu Beatriz. Entrem.

O rapaz não sorria.

O Miguel está?

Está na sala.

Ótimo. Nuno, venham ver bem a casa. Duas frentes, muito prático, e o metro mesmo aqui ao lado.

Percorreu a casa como dona. Falava de pé-direito, eletricidade. Beatriz ia por trás.

Na sala, Miguel sem olhar. Notava-se-lhe o desconforto.

Quanto ao preço, começou Dona Graça, cinquenta mil euros…

Um momento.

Beatriz abriu o móvel, pegou no dossier.

Todos olharam.

Nuno, Carla, antes de decidirem, mostro-vos isto.

Deu-lhes o primeiro papel.

É a certidão de registo predial. Veem o nome Beatriz da Conceição Duarte?

Carla leu, devolveu o papel.

De solteira, sou eu. Beatriz mostrou o segundo. E a escritura de doação do meu pai, dois anos antes do casamento. Sou proprietária. O meu marido não consta. Dona Graça não tem qualquer direito legal sobre este apartamento.

Beatriz… arriscou Dona Graça.

Nuno, para se arrendar uma casa precisa da assinatura do proprietário e do contrato válido. Nunca dei esse consentimento. Se assinarem com outra pessoa e vierem, é ilegal. Aviso.

O olhar do casal ia dos papéis a Beatriz. O miúdo puxou a mãe.

Não sabíamos… Carla murmurou.

A dona está aqui. E não consente.

Longo silêncio.

Pois, desculpe incomodar.

Devolveram os papéis. Beatriz agradeceu.

Esperem! Dona Graça irrompeu, voz muito aguda. Isto é uma confusão. Eu…

Mãe, disse Miguel.

Todos olharam para ele. Estava junto à janela, de mãos nos bolsos.

Eles têm razão. Vão-se embora.

Dona Graça perdeu o tom.

O quê?

Vão. A casa é da Beatriz. Deviam ter dito logo.

O silêncio era de pedra.

O casal saiu, despedindo-se com um aceno. A porta fechou com estrondo.

Ficaram três.

***

Dona Graça fixou o filho.

Miguel. Tens noção do que acabaste de fazer?

Tenho, mãe.

Ficaste do lado dela contra mim.

Fiquei do lado da verdade.

Verdade… Estou errada então, é?

Neste caso, sim.

Dei-te tudo. Sozinha, desde os teus seis anos. Sempre me privei…

Sei disso.

Sabes? E só quis o melhor. Para não lhes faltar nada! Eu tratei de tudo…

Sem perguntar, mãe. Nunca perguntaste.

Agora é da proprietária? Vocês são casados! É de ambos!

Dona Graça, interveio Beatriz, discuto tudo com o Miguel. Na nossa família. Sem imposições a preceito.

Eu quis ajudar!

Eu acredito. Mas ajuda que não é pedida, é intromissão.

Intromissão! virou-se para Miguel. Ouve? Ou escolhes a mãe ou escolhes esta mulher! Agora ou nunca!

Beatriz não moveu um músculo. O marido estava entre a mãe e ela, na sala das cortinas tortas que escolheram juntos, da fotografia do casamento.

Ele olhou para a mãe.

Fico. disse baixo.

O quê?

Fico. Aqui. Com a Beatriz. Amo-te, mãe, mas isto não pode continuar. Assim, não.

Não pode?

Não. Não podes entrar sem avisar. Nem empacotar tudo. Nem marcar inquilinos sem falar com o dono. Devia ter dito antes. A culpa é minha também.

Ela vestiu devagar o casaco. Apanhou a mala.

Vais-te arrepender.

Talvez. Mas é o que está certo.

Ela saiu, a porta bateu.

Ficaram frente a frente.

***

Miguel à janela, Beatriz junto ao móvel com o dossier. Uma caixa fechada no canto, as outras na entrada.

A chuva caía igual.

Beatriz guardou os papéis, sentou-se. Ele também, sem se aproximar.

Devia ter dito logo não, ontem. A minha mãe liga, devia ter dito: Isso não. Não consegui.

Porquê?

Demorou a responder.

Nunca consegui. Ela olha de uma forma… como se a matasse. Desde miúdo cedo-a. É mais fácil.

Sei. Vejo isso. Mas já não tens seis anos.

Ele acenou. Sei. Hoje foi diferente. Não sei se certo, mas é a minha mãe.

Ela vai continuar a ser tua mãe.

Agora vai magoar-se muito.

Vai, provavelmente.

E dói.

Dói.

E agora?

Não sei. Temos de conversar. Não hoje. Sobre dinheiro, sobre a vida. Isso fica para depois.

E a mãe?

Outro assunto. Mas esse é entre vocês.

Silêncio.

Estás zangada?

Ela pensou. Não para mentir, mas para saber.

Estou cansada. Já passou.

Eu…

Fizeste o que devias. Só por hoje. Percebes?

Ele percebeu.

Percebo.

Pronto.

Olhou para os livros na prateleira torta, para a caixa por abrir.

Desencaixotamos?

Sim.

***

Tiraram a loiça das caixas em silêncio. Beatriz voltou a arrumar panelas e pratos, Miguel cuidou dos copos de cristal.

O cheiro do perfume persistia. Beatriz abriu a janela para o ar fresco de Março.

O Martim, de gorro de orelhas, já ia provavelmente noutro autocarro, de regresso, sem imaginar a cena que entrou sem querer.

Beatriz lembrou-se do que a mãe dissera. Trinta anos não mudam depressa. Era verdade. Hoje Miguel disse não. Uma vez. Pela primeira vez.

Não garantia que fosse sempre assim.

Nem tornava tudo simples.

Mas aconteceu.

Arrumou a última panela. Dobrou o jornal.

Faço café? Miguel.

Faz.

Ele foi. Beatriz pegou na moldura branca do peitoril da janela. Olhou para a fotografia. Estavam os dois com algum embaraço, ela num vestido menos perfeito, ele no fato, já de gravata folgada ao final do dia. Sorriam, genuínos.

Passou um ano.

Pôs a moldura outra vez no sítio.

Cheiro a café fresco. Bom cheiro. Da casa deles.

Foi para a cozinha. Miguel pôs-lhe a chávena à frente. Sorriram, tímidos.

Lá fora a chuva abrandava.

Beberam em silêncio. Um silêncio denso mas não vazio. Havia ali ainda muito por dizer. Beatriz sentia esse espaço.

Mas naquele momento não eram precisas palavras.

Só café quente. A janela aberta. A prateleira torta de livros.

E o dossier azul no sítio.

***

É bom pensar que o mais difícil já passou. Seria um final bonito. Mas trabalho há cinco anos em contabilidade. Sei que os balanços não fecham sempre à primeira. Às vezes é preciso corrigir, insistir, antes de encaixar tudo.

Com as famílias é igual.

Dona Graça vai telefonar. Amanhã, ou daqui a uma semana. Não é pessoa de desaparecer. É de ir, mas à espera que venham atrás.

Miguel vai sentir-se dividido. Sei. As dificuldades continuam: dinheiro, o prémio, o crédito. Não desapareceram.

Os diálogos que faltam, sérios, duros, estão para vir. Mas hoje alguma coisa mudou.

Não sei explicar o quê.

Miguel pousou a chávena.

Beatriz…

Sim.

Ainda bem que ficaste. Mesmo quando eu disse disparates. Ficaste e disseste o que precisava de ser dito.

Olhei para ele.

Não sei fazer diferente, apenas. Esta é a minha casa.

Ele acenou.

Nossa, corrigiu.

Hesitei.

Nossa, admiti.

Lá fora a chuva parou. O céu do Areeiro estava menos cinzento, embora distante do azul.

Peguei na chávena, fria. Bebi o resto.

O que aprendi? O respeito por mim mesmo e pela minha casa defende-se com calma – mesmo que seja difícil no momento. Às vezes, defender fronteiras tranquilamente é o melhor que se pode fazer por um amor. E hoje, finalmente, consegui.

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