Após a consulta, o médico discretamente colocou um bilhete no meu bolso: «Fuja da sua família!». Nessa mesma noite, percebi que ele acabara de salvar a minha vida… Mas o que aconteceu depois deixou todos em choque… É inacreditável…

Sabes aquele dia em que tu achas que vai ser como todos os outros, mas de repente tudo muda? Ouve só o que me aconteceu. Depois da consulta, o doutor, que já me seguia há anos o Dr. António Pires meteu-me discretamente um papelinho no bolso do casaco, enquanto apertava a minha mão e me olhava com uma expressão pesada. Só tive tempo de ver o gesto dele a pôr o dedo nos lábios, como quem pede silêncio. Quando saí do consultório, curiosíssima, abri logo o papel: Fujo da sua família! dizia apenas isso.

No início achei aquilo um disparate, quem sabe uma brincadeira sem graça pelo cansaço do homem. Mas ao fim da tarde, o significado daquela mensagem ganhou um peso diferente. Não me saía da cabeça. O Dr. António acompanhava-me desde que o Jorge, o meu saudoso marido, faleceu. Sempre foi atento, ponderado, nunca doido varrido ao ponto de pregar partidas destas. Eu até amassei o papel e enfiei no bolso do sobretudo, achando que ele talvez estivesse a precisar de descanso.

O meu mundo era calmo e previsível. Desde que o Jorge se foi, só me sobrava o meu filho Diogo. No ano anterior trouxe-me para casa a namorada, a Beatriz sabes aquela típica rapariga simpática, de sorriso fácil , e eu acolhi-a de braços abertos. Casaram-se e continuaram a morar comigo no meu T3 ali no Areeiro, em Lisboa. Oh mãe, nunca a vamos deixar sozinha! Você é o nosso tesouro! dizia ele, enquanto me apertava em abraços daqueles que só filho sabe dar, e eu derretia toda.

Cheguei a casa e fui recebida pelo aroma de bolo acabado de sair do forno a Beatriz deve ter estado a fazer a minha tarte de maçã preferida. Ela viu-me entrar e saltou logo da cozinha: Mãe, já voltou?! E então, o que disse o médico? Está tudo bem? Parecia mesmo preocupada, sabes? Eu, para não causar alarme, inventei: Está tudo bem, querida, só o coração meio descompassado, mandou uns comprimidos novos.

Ai, pois então beba este chá de ervas que preparámos, eu e o Diogo é ótimo para o coração, garantiu-me o amigo farmacêutico lá do Bairro. Ela agarrou-me carinhosamente pelo braço e levou-me até à sala. Apareceu o Diogo, deu-me um beijo na testa: Hoje queremos mimá-la. A Beatriz trouxe umas vitaminas especiais, dizem que fazem maravilhas. Bebe com o chá todas as noites. Deu-me um frasquinho bonito. Eu agradeci, meio comovida: Vocês são o meu ouro! E é verdade, às vezes sentia-me sufocada por tanta atenção, mas punha tudo nas costas do carinho que têm por mim.

O serão foi tranquilo, igual aos outros: eles a servirem-me os melhores pedaços do bolo, a encherem-me a chávena daquele chá reconfortante.

Deitei-me mais cedo, cansada, mas logo ouvi a porta do quarto abrir devagarinho. Era a Beatriz. Na mão trazia um pires com um comprimido branco, daqueles grandes, sem marca nenhuma, e o copo do chá aromático a fumegar. Sussurrou-me baixinho: Mãe, não se esqueça de tomar o vosso vitaminozinho e o chá antes de dormir, faz tão bem!

Ela esperou até eu fingir que engolia a pastilha interessei tanto, mas na verdade guardei discretamente o comprimido na mão fechada, como se fosse uma criança traquinas. Dei um golinho minúsculo no chá, agradeci e desejei boa noite. Suspirei de alívio e, já deitada, olhei para aquela pastilha estranha: tão branca, seca, sem graça nenhuma. Ia pôr no lixo de manhã, pensei eu. Mas acabou por me escapar da mão e rolou para debaixo do móvel antigo do quarto. Paciência E adormeci.

Nem imaginas o que aconteceu a seguir. Acordei com um barulho aflitivo: um guincho, assim baixinho, vindo debaixo da cómoda de madeira. Quando liguei o candeeiro e me debrucei, lá estava a nossa Trufa, aquela ratinha que o Diogo trouxe quando era adolescente. Coitadinha, nunca estava quieta, sempre a correr de um lado para o outro, mas ali estava estendida, ofegante, a tremer só de leve. Os olhos semicerrados, pêlo molhado. Senti um aperto enorme.

Peguei nela, ainda quente, e vi logo onde estava o comprimido que eu tinha deixado cair. Juntinho ao sítio em que a Trufa jazia, imóbil. E fez-se luz na minha cabeça: aquela pastilha as pretensas vitaminas era envenenada. A ratinha tinha-a comido e estava a morrer ali mesmo. Chorei baixinho, para não acordar os outros. Foi horrível.

Nessa altura, a mensagem do Dr. António fez todo o sentido. Só ele podia saber que alguma coisa estava errada. O meu coração batia tão depressa que quase me fugia do peito. Peguei num lenço, enrolei a trufa, guardei-a na estante depois enterrava-a com calma. Precisava era de fugir, e depressa.

Fui ao armário. Peguei numa mala já pronta sempre tive uma mala de urgência preparada, não me perguntes porquê. Documentos, dinheiro, duas mudas de roupa. As mãos tremiam, mas mantive-me focada para não fazer barulho. Antes de sair, reparei no frasco das vitaminas do Diogo e levei comigo, podia servir de prova. Também levei um pouco daquele chá quem sabe o que lá tinham posto?

Abri devagarinho a porta do quarto e, num silêncio só meu, atravessei o corredor escuro. Nenhum som. Deixei a porta da rua encostar-se atrás de mim e desci as escadas do prédio quase sem respirar. Lisboa estava calma, fria, escura. Olhei para a janela do meu apartamento: nada de luzes.

O único sítio em que pensei foi a casa do Dr. António, ali perto, na Alameda. Fui a pé, com o coração nas mãos, a olhar por cima do ombro a cada esquina, não fosse o Diogo ou a Beatriz terem percebido que fugi. Cheguei ao prédio dele e toquei à campainha.

Quem é? ouvi no intercomunicador.

Sou eu por favor, abra, percebi tudo. murmurei, aflita.

Ouvi o clique da porta, entrei e subi tão rápido quanto consegui.

O Dr. António recebeu-me num silêncio cúmplice, só me indicou a cadeira. Tirei o frasco das minhas mãos e a tal pastilha. Contei-lhe tudo, a voz a tremer. Ele analisou o comprimido com uns reagentes do laboratório portátil nunca o tinha visto tão sério.

Eu já suspeitava, disse ele baixo. Os seus exames indicavam substâncias que não batiam certo. Achei estranho, mas precisava de provas.

Aguentou uns minutos, depois olhou para mim: Isto é um neuroléptico, Alzira. Forte o suficiente para fazer muito mal a alguém da sua idade.

Fechei os olhos, tentei perceber. Os meus filhos como puderam?

De certeza que vai perceber um dia. Agora o importante é a sua segurança. Não pode regressar a casa.

Assenti, com lágrimas nos olhos desta vez de revolta. Sobrevivi. Ia descobrir a verdade, nem que fosse a última coisa que faria.

Epílogo

Meio ano depois, tudo veio a público, mas que custo

A investigação foi demorada. O Diogo e a Beatriz negaram tudo, jurando que eram suplementos naturais, que o chá era calmante de plantas, e que a morte da Trufa só podia ser azar. Mas os peritos não deixaram dúvidas: o frasco trazia doses perigosas de medicamentos, o chá tinha traços de sedativos e até os meus exames recentes mostravam toxinas acumuladas injustificadamente.

O Diogo cedeu ao segundo interrogatório, chorou, contou que foi a Beatriz que planeou tudo ela dizia que eu já era velha, que a casa lhes fazia falta, e achara o esquema todo, do contacto no laboratório ao plano de me ir dando doses pequeninas, para parecer um acidente. Ele garantiu que nunca pensou em matar-me, só não foi capaz de lhe dizer não e hoje odeia-se por isso.

A Beatriz manteve-se fria até ao fim: acusou-me de delírios, dizia que estava a inventar, que era da idade. Mas as provas eram tantas que acabou por ser condenada por tentativa de homicídio, e o Diogo apanhou pena suspensa pelo arrependimento demonstrado.

Agora estou noutra cidade, no Porto. O Dr. António ajudou-me com tudo: arranjou acompanhamento médico, uma casinha simpática a bons preços. Todas as manhãs passeio nos jardins do Palácio de Cristal, faço cachecóis para vender e às vezes vou ao centro de dia, aprendi até a jogar sueca com outras senhoras. Tenho uma paz que anos não sentia e durmo noites inteiras, sem pesadelos.

Às vezes penso no Diogo dói, mas é uma dor amarga, não de medo. Recordo aqueles abraços, os sorrisos. Mas sei: o meu filho já não é o mesmo, desapareceu ficou alguém que se deixou perder pelo mal. Não o perdoei, mas também não o odeio. A nossa família, essa, acabou muito antes daquela noite.

Guardo uma prateleira pequena para a Trufa com a foto dela e um ratinho de peluche. Todos os dias, deixo lá uma frutinha, tipo para ela. Ela salvou-me. Sem saber.

O Dr. António visita-me todos os meses, traz novidades, um livro que tenho mesmo de ler, e na última vez disse-me: Sabe, talvez o mais importante do nosso trabalho seja isto: não só diagnosticar doenças, mas perceber quando alguém está mesmo em perigo.

Sorri e concordei. Porque agora já sei: a vida continua. Mesmo depois da traição. Mesmo quando pensavas que tinhas perdido tudo. Sobretudo, depois, quando te sentes finalmente em paz.

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Após a consulta, o médico discretamente colocou um bilhete no meu bolso: «Fuja da sua família!». Nessa mesma noite, percebi que ele acabara de salvar a minha vida… Mas o que aconteceu depois deixou todos em choque… É inacreditável…