Em meu sonho estranho, Inês era órfã, crescendo nos corredores enevoados de um lar de crianças em Coimbra, onde os relógios marcavam horas às avessas e os gatos falavam em sussurros. Aos dezoito anos, ela casou-se com Rui, sem saber o que era ser esposa, pois nenhuma amiga sua tinha experimentado o caminho da união. Ao entrar no apartamento do marido, em Porto, deixou-se inundar pelas informações que absorvia nos azulejos dançantes e nas receitas escritas com letras que escapavam das paredes. Quem lhe ensinava era Dona Odete, a mãe de Rui, que parecia ao mesmo tempo cheia de bondade e de regras inexplicáveis, como se estivesse a cozinhar tudo num grande tacho de sonhos.
Inês já ouvira frequentemente os fados e lendas sobre sogras terríveis, mas achava que, por não ter mãe, Dona Odete se tornaria sua mãe substituta, repartindo amor e conselhos de sabedoria antiga. E, de forma curiosa, Dona Odete não desejava o mal à nora, mas tudo acontecia de modo inesperado, como só acontece nas noites com nevoeiro sobre o rio Douro. A sogra, animada, começou a ensinar-lhe as doutrinas da família e disse-lhe: Uma esposa é sempre a culpada quando o marido comete adultério.
Por quê? Inês sempre pensou que o verdadeiro culpado era aquele que escolhia trair. No entanto, no mundo de Odete, a esposa era culpada pela simples razão de talvez se ter esquecido de si própria, deixando de ser atraente para Rui. Dona Odete aconselhou a nora a nunca perder a cintura fina, nem na velhice. E assim, Inês anotou no seu diário: Não engordar! Decidiu inscrever-se num ginásio em Lisboa, onde as esteiras voavam e os pesos eram leves como nuvens.
Inês era magra, mas, com medo de ser criticada, começou a emagrecer, tornando-se quase transparente. Quando Dona Odete percebeu, lançou outra pérola: Numa família normal, trabalham ambos.
Inês aceitou, pois desejava muito contribuir, preparada para qualquer trabalho que o mundo surreal lhe apresentasse. Quando perguntou como deveria proceder durante a licença de maternidade, Dona Odete respondeu: Licença parental é problema teu, depende de ti resolver!
Inês não anotou essa lição, mas quando chegou à licença, anos após o casamento, arranjou um emprego a meio tempo e cuidava de crianças. Sentia-se feliz, porém Rui e Odete começaram a murmurar que ela ganhava pouco, pouco mais que uns trocados de euros que giravam pelo chão.
Achando que não era grave gastar em cabeleireira, Inês foi surpreendida por outra regra de Odete: Durante licença parental, não há razão para te vestires bem! Quando voltares ao emprego, aí sim, arranja-te, pinta-te, agora deves poupar cada euro!
A cada mês, Inês entregava o salário ao marido, enquanto uma linha de sabedoria da sogra guiava as suas ações: Uma boa esposa faz as tarefas domésticas sozinha!
E assim era. Inês fazia tudo sozinha, caía de cansaço como se afundasse num mar insondável, mas mantinha o lar em ordem. Desmaios tornaram-se comuns, como se fossem apenas outra paisagem do sonho. Às nove, depois de pôr os filhos a dormir, ia limpar e preparar o pão de amanhã, enquanto Rui já dormia pela décima vezafinal, ele trabalhava e estava sempre exausto.
Ir ao hospital parecia inevitável. Inês nunca tinha tempo para ouvir as dores que batiam no seu corpo, não reconhecia o começo da doença sombria que se escondia nos corredores. Ficou internada mais de duas semanas; Rui e Odete não estiveram nunca à cabeceira. Mesmo assim, Inês teve a sorte de manter ao seu lado o telemóvel, que ligou à sua amiga Ana, que trouxe tudo que ela precisava: livros, comida quente e palavras de conforto.
Ao sair do hospital, já com os olhos abertos para o mundo real e surreal, foi direta ao tribunal, onde entregou o pedido de divórcio, com letras que se erguiam e dançavam como se o sonho nunca quisesse terminar.







