Quando revelei ao meu namorado que estava grávida, vi tudo estampado no rosto dele. O Paulo claramente não esperava por uma criança e duvido que alguma vez tenha sequer querido casar-se tão cedo
Apaixonei-me quando ainda nem tinha dezoito anos feitos. O Paulo, rapaz da nossa aldeia, agradava-me há muito tempo, e passámos juntos toda a primavera, a passear pelos campos, a ir ao rio, a admirar o pôr-do-sol.
Tinha planos de entrar num instituto na cidade. Mas, num dia inesperado, percebi que estava grávida. Não sabia o que fazer, estava sem chão.
O que dirá a mãe, a irmã, as pessoas lá da aldeia?..
Fiquei perdida
Decidi, então, que não teria aquele filho. Entre lágrimas, contei à minha mãe e fui para Lisboa. Ela não tentou impedir-me, apenas baixou a cabeça.
Vivíamos só nós três a minha irmã mais nova crescia numa família sem pai, e a minha mãe mal conseguia sustentar-nos, e agora eu trazia mais este presente
Na cidade, tudo correu como era preciso. Rompi todos os laços e encontros com Paulo. Ele, por sua vez, nem parecia fazer questão de continuar.
Instalou-se um amargo vazio dentro de mim. Nem estudar conseguia, pois já não podia contar com o apoio da minha mãe, ainda magoada comigo.
Precisava urgentemente de trabalho e de quarto, só para poder sobreviver. Não queria voltar à aldeia todos cochichavam sobre mim.
Talvez o destino me tenha levado ao painel de anúncios de empregos, na rua. Alguém, com letra bem desenhada, anunciava uma vaga de ama para um menino de três anos, com alojamento incluído. Era mesmo o que precisava!
Aceitaram-me numa família de professores. O pequeno Romeu, filho único e tardio, rapidamente ficou afeiçoado a mim e sentia logo a minha falta quando eu, de vez em quando, ia ver a minha mãe e a minha irmã à aldeia.
O tempo foi passando e fui-me enraizando naquela família citadina. O senhor Joaquim da Silva e a dona Inês Maria, ambos universitários. Fui assumindo quase todas as lides da casa: lavava e passava a roupa, arrumava tudo, ajudava Romeu com a escola, fazia as compras e cozinhava muito bem.
Quando Romeu cresceu e já não precisava de ama, acabei por ficar como empregada interna, ajudando noutros afazeres.
O salário não era alto, mas como tinha cama, roupa lavada e comida boa, não me queixava. Encontrei naquele lar paz, abrigo e carinho.
Só uma coisa me entristecia. Uns meses antes, conheci o Hugo, que morava no prédio ao lado. Os nossos encontros ao fim de tarde tornaram-se cada vez mais intensos e, após três anos juntos, compreendi que não poderia ter filhos.
Não consegui esconder a verdade do Hugo e, mais uma vez, fui deixada para trás. Fiquei com o coração partido e, uma vez mais, sozinha.
Assim, o trabalho na família Silva tornou-se o meu único refúgio. Cuidava de dona Inês Maria e do senhor Joaquim como se fossem meus familiares de sangue.
Na verdade, já era parte daquela família. Depois desta segunda desilusão amorosa, a minha alma acalmou. Deixei de esperar um dia casar.
Passaram-se mais alguns anos sossegados. Romeu terminou o curso, falava inglês com fluência e recebeu boas propostas de trabalho fora de Portugal. Acabou por escolher uma vaga no estrangeiro.
Entretanto, dona Inês começou a adoecer. Cuidei dela durante anos, enquanto o senhor Joaquim trabalhava sem parar, para sustentar a casa e ajudar o filho, já a viver fora.
Mas tudo tem um fim. Nos seus últimos minutos, dona Inês sussurrou-me:
Não deixes o Joaquim sozinho Promete-me, Leonor
Quando perdemos a dona Inês, a casa ficou ainda mais silenciosa. O senhor Joaquim quase não falava, jantava calado, a olhar para o prato.
Foi aí que comecei a sentir-me a mais, sem rumo. Tinha de tomar uma decisão: procurar outro trabalho, para o qual sabia fazer pouco ou nada, ou regressar à aldeia Mas, lá também as oportunidades escasseavam.
Numa dessas noites, depois do jantar, dirigi-me ao senhor Joaquim:
Penso que está na altura de eu me ir embora, senhor Joaquim. Já não faço falta Agradeço-lhe por tudo.
Foi como se ele acordasse. Levantou a cabeça e, surpreendido, olhou-me nos olhos.
O quê? Para onde? Porquê? Tencionas também tu abandonar-me, assim, de repente, tal como todos os outros? Queres mesmo deixar-me sozinho?
Suspirei. Ele levantou-se, aproximou-se e pegou-me na mão; pela primeira vez, beijou-me a mão.
Leonor, tu para nós nunca foste apenas empregada. És família, entendes? Não te vou deixar ir, entende?
Assenti, emocionada.
E, para ser sincero, continuou a Inês pediu-me que te mantivesse perto de nós. Já nos habituámos uns aos outros ao longo destes anos, Leonor. Fica. Não me abandones. Deixa tudo tal qual está Cuida de mim, que eu cuido de ti.
Ficámos em silêncio, abraçados na cozinha junto à janela, ambos a chorar baixinho. Depois disso, sentimo-nos mais leves.
Vieram então dias calmos. Esperava pelo senhor Joaquim a regressar do trabalho, arrumava a casa, de vez em quando o Romeu ligava a prometer uma visita
Assim passaram mais dois anos. À véspera do meu aniversário, o senhor Joaquim falou comigo: eu era demasiado importante para ele e queria casar-se. Não éramos propriamente um casal, mas, legalmente, queria garantir-me algum conforto e cuidar de mim.
Fiquei grata e decidi não dizer sim sem falar primeiro com o Romeu. Quando ele veio de fora, o pai voltou ao assunto.
Romeu concordou: tinha carinho por mim quase maternal. Nessa altura, Romeu já estava bem, com carreira e casa própria, casado, feliz.
E assim, acabei por me tornar esposa Eu e o senhor Joaquim gostávamo-nos tanto quanto qualquer outro casal.
Chamei-lhe sempre senhor Joaquim, nunca consegui tratar por menos, e ele a mim, de Leonor, sempre com o mesmo carinho. Nunca fui tão feliz.
Rezo todos os dias pela saúde dele, desejando que a vida lhe seja longa.
E quem nos via passear no jardim dificilmente adivinharia a nossa história, o tempo e os sentimentos sinceros que nos unem.
A vida ensinou-me que nem tudo corre como desejamos e, às vezes, o amor e o lar encontram-nos onde menos esperaríamos.







