Quando avistei o cão caído ao lado do banco da praça, corri logo até ele. No mesmo instante, entrou na minha visão a correia que a Benedita tinha largado de mansinho. O cão, chamado Marte, lançava um olhar melancólico ao seu dono, como quem pede compreensão
Lurdes e eu, que somos irmãos, já faziam quase dois anos que mal nos falávamos. Até hoje Lurdes não entende como um pequeno desentendimento acabou virando uma guerra de proporções inimagináveis.
Lurdes e Vítor Silva nasceram com um ano de diferença. Desde pequenos foram inseparáveis, sempre defendendo um ao outro. Qualquer travessura que cometiam, a responsabilidade partilhavam por igual, nunca se escondendo atrás do outro.
O nosso povoado, São Martinho, prosperava ano após ano. Tivemos a sorte de ter como presidente da junta o Paulo Monteiro, nascido ali mesmo, um exímio administrador agrícola.
Depois de terminar o curso de Engenharia Agrícola, voltei para São Martinho e mergulhei no trabalho comunitário. O meu esforço foi rapidamente reconhecido e, dez anos depois, Paulo Monteiro assumiu a direção da administração do concelho.
Na vida pessoal, tudo também corria bem. Lurdes, ao concluir a Escola Técnica de Saúde, começou a trabalhar na clínica da aldeia como enfermeira. Paulo não pôde ignorar tamanha beleza; Lurdes correspondeu ao interesse dele. Casaramse e a aldeia inteira celebrou o casamento. Vítor ficou feliz por ver a irmã contente, embora o seu próprio matrimónio com Benedita fosse tudo menos tranquilo.
Enquanto Lurdes se mostrava calma, Benedita, de vez em quando, a criticava como inútil ou presunçosa. Mas, depois do casamento, a inveja tomou o lugar da crítica. Benedita passou a exigir cada vez mais de Vítor casa maior, carro mais potente, melhores luxos
Vítor, cada vez mais irritado, repetia: Os outros têm tudo, a nós não sobra nada! O homem dava o seu melhor, mas não conseguia atender às pretensões de Benedita nem em dinheiro nem em força.
Benedita também não era feliz: não podia ter filhos, e, enquanto isso, Lurdes seguia a vida, casouse, teve um filho e depois uma filha, construiu uma casa espaçosa, e Vítor ganhou um cargo respeitável
Os encontros familiares terminavam cada vez mais em discussões. Sempre que Vítor visitava a casa de Lurdes, Benedita imediatamente começava a repreendêlo.
O último escândalo aconteceu no aniversário de Vítor. Lurdes presenteouo com um filhote de labrador, que ele desejava há tempos. Paulo, por sua vez, deulhe uma motocicleta nova.
Tudo correu bem, até que a Benedita, embriagada, perdeu o controlo e descarregou sobre Lurdes a sua raiva acumulada:
Então, Lurdes? O cão isto é um insulto? Se já não temos filhos, vamos, ao menos, comprar um cão, não?!
Lurdes tentou acalmar a situação:
Benedita, calma. Mais tarde vais arrependerte
Mas as palavras não surtiram efeito. Uma grande discussão eclodiu, dividindo os convidados em dois grupos. Paulo sussurrou ao ouvido da esposa para saírem, e assim fizeram, abandonando a festa.
Dois anos se passaram. Naquela noite, Vítor começou a evitar a irmã; o contato limitouse a breves e raras visitas. O atrito entre ele e Benedita também crescia.
Ao entardecer, Vítor passeava cada vez mais vezes à beira do rio com Marte. Os dois pareciam felizes: Vítor lançava um bastão, Marte corria atrás e, ao cansar, deitavase aos seus pés, ouvindo silenciosamente as histórias que o pai lhe contava.
Lurdes sabia disso pelos vizinhos, mas nada fez Vítor mantevese obstinado.
Depois da triste discussão, Benedita passou a odiar Lurdes e até ao seu querido Marte. Sempre que Vítor não estava em casa, ela expulsava o cão, maltratavao e, por vezes, até lhe dava um tapa.
As vizinhas curiosas não deixavam de comentar:
Ouve lá, Benedita, o teu marido está outra vez à beira do rio com o cão
Ontem encontraram Lurdes, o marido e os filhos riram e brincaram!
A inveja consumia Benedita. Um dia Vítor perguntou:
Benedita, não vais magoar o Marte?
Que preciso do teu cão?! respondeu, furiosa, e saiu da sala.
Marte começou a fugir da presença de Benedita, tremendo quando ela aparecia.
Tudo acabou quando, numa manhã, Vítor, furioso, soltou:
Já não aguento esta competição constante!
Sozinho, a raiva a consumir, Benedita puxou Marte para o quintal, amarrouo ao banco e deu-lhe um chicote. O pobre animal, ferido, chorou. Quando a fúria passou, Benedita largou o chicote, empacotou as coisas e saiu de casa para sempre.
À noite, Vítor chegou a casa e não encontrou o cão na porta. A casa estava em desordem. No banco, avistou Marte, preso num canto. Librouo rapidamente e, carregandoo nos braços, correu para a clínica.
Lurdes estava a prepararse para sair quando viu o irmão, sujo de sangue, segurando o cão:
Lurdes, ajudame implorou Vítor.
Levaram Marte ao consultório. Lurdes examinouo detalhadamente:
Quem lhe fez isto?
Benedita Vítor abaixou o olhar.
Lurdes assentiu em silêncio. Sutou as feridas, limpou os olhos, deulhe água.
Mais tarde, no corredor, Vítor sussurrou arrependido:
Desculpa, Lurdes
Já chega respondeu ela com um sorriso cansado. E a Benedita?
Não, Lurdes. Nunca mais.
Lurdes telefonou a Paulo:
Paulo, vem aqui, por favor.
Ao ouvir a voz exausta da esposa, Paulo já estava a caminho.
Meia hora depois, apareceu no corredor. Ao ver o casal abraçado, com Marte a gemer suavemente, ele disse:
Vamos, meus heróis.
Levaram Vítor para casa e lhe deram instruções para cuidar do cão.
Quando Lurdes contou à mãe o que havia acontecido, esta apenas suspirou:
Já deviam ter se separado há muito.
Com isso, levantouse e foi ao filho ajudar a pôr ordem na casa.
No ginásio, Vítor sentavase, acariciava Marte. A mãe aproximouse, acariciou os dois:
Ainda estão vivos?
Vivos respondeu Vítor.
Um aroma suave de carne assada e legumes frescos invadiu a casa. Marte abanou o rabo, cheirou o ar. Vítor sorriu, levantouse.
A vida continuava.
