“Anna é jovem, ainda poderá ser mãe de novo!” – prometeu ela. No fim, ninguém quis a criança. Anna …

Bárbara ainda é jovem, poderá ser mãe de novo! disse ela com voz fria e calculista. No fim de contas, ninguém realmente queria aquela criança.

Bárbara e Tiago cresceram juntos num vilarejo no interior de Portugal, frequentando desde sempre a mesma escola. Depois, foram estudar para a Universidade de Coimbra. Quando terminaram os estudos, seguiram juntos para Lisboa em busca de trabalho. Alugaram um T1 modesto em Arroios, arranjaram empregos diferentes e viviam juntos, mas sem casar. Quando Bárbara engravidou, Tiago saiu de casa. Nunca pensara em ser pai.

Perturbada e de coração partido, a jovem decidiu voltar para a terra natal, onde poderia contar com o apoio da mãe. Dona Fernanda, mãe de Tiago e mulher influente na vila, rapidamente tratou de espalhar o rumor: dizia a toda a gente que a criança não era do filho dela, que Bárbara trazia um filho de outro qualquer. A situação intensificava-se ainda mais, pois as duas famílias moravam a escassos metros uma da outra.

Entre cochichos e olhares atravessados, todos sabiam a verdadeira história. Bárbara deu à luz uma menina lindíssima e, mesmo sem apoio do pai, jamais se queixou da família de Tiago. Só queria criar a filha em paz. Mas Dona Fernanda nunca desistiu de gritar aos quatro ventos:

Olhem bem para esta criança! declarava ela, ferina. Tem cabelo louro e na nossa família somos todos morenos! O nariz dela? Não tem nada de nosso! Nós somos bonitos, esta menina não tem a nossa graça. Ela não é das nossas, querem só meter-se na nossa família. Gente dessa não presta!

Farta das maledicências, Bárbara sugeriu um teste de paternidade para acabar de vez com as dúvidas. O resultado saiu depressa: comprovava que Tiago era mesmo o pai. Assim que soube, Dona Fernanda mudou de atitude, convidando Bárbara e a neta a irem a sua casa e enchendo-as de presentes caros: roupinhas de marca, brinquedos, até um berço novo. Bárbara, que vivia apenas com a pequena reforma da mãe, ficou agradecida.

Passados uns meses, Dona Fernanda quis levar a neta a passar uns dias consigo. Bárbara recusou a menina mal tinha um ano, não podia ficar longe da mãe. A avó ficou ofendida.

Num tom severo, alertou Bárbara de que iria recorrer ao tribunal para reivindicar visitas e até a guarda da neta. Disse que a menina estaria melhor com ela, pois teria boas condições o pai tinha casa própria, podia provar que ajudava financeiramente (com declaração do banco), e Bárbara nem emprego fixo tinha. És jovem, Bárbara. Irás ter outros filhos, aconselhou a senhora. E rematou: Os juízes todos desta vila são meus conhecidos, nem vale a pena lutares. Mas Bárbara agarrou-se ao direito de criar a filha. E assim começaram anos de batalha judicial.

A menina que, antes, todos rejeitavam, virou a preciosidade adorada da família rica. Chamaram testemunhas, seguiram Bárbara, fizeram-lhe fotos às escondidas, montaram armadilhas. Por fim, viu-se obrigada a mudar de casa, fugir para longe, proteger-se. Foram anos conturbados que só serenaram quando Tiago se casou de novo, teve um filho, e Dona Fernanda dedicou-se ao novo neto. Entretanto, a filha de Bárbara entrou para o primeiro ano. As duas mudaram-se para Lisboa. No entanto, precisavam regressar frequentemente à aldeia para visitar a mãe de Bárbara e a menina.

Em Lisboa, Bárbara conheceu outro rapaz, e a mãe aconselhou-a: Faz a tua vida, minha filha. Eu fico com a menina, vai ser melhor para todas. Bárbara prometeu que, assim que tudo assentasse, levaria a filha novamente para si.

Bárbara casou-se de novo. Arrendaram um T2 em Benfica e aguardavam o primeiro filho em comum. Tudo parecia finalmente entrar nos eixos. Mas Bárbara hesitava em levar a filha consigo não tinha espaço em casa, o marido não queria saber de criar filha alheia, e a menina estava bem: com avó, amigos próximos e a escola antiga. Quando o bebé nascesse, não teria tempo nem quem ajudasse. Assim, a avó cuidava da neta, e Bárbara seguia a nova vida.

Só que a mãe de Bárbara começou a adoecer, safando-se com frequência por pouco ambulâncias, internamentos no hospital de Santarém, tratamentos difíceis. A menina passou alguns períodos com os vizinhos idosos. Dona Fernanda, a avó abastada e de tantas promessas, já nem ligava ao destino da neta loura, e um dia, cruzando-se com a mãe de Bárbara na rua principal, comentou:

Deviam ter-me dado aquela menina! Se mo tivessem entregue, hoje estaria em colégios de línguas, saberia francês, inglês, cantaria ao piano! Agora está ao abandono, a mãe largou-a… Esta, sim, viveu para nada. Agora é que trato do meu neto verdadeiro ele sim, terá tudo! Escolas boas, atividades, vai ser alguém. O que será da tua neta? Menina largada…

Tiago nunca se interessou pela filha. No fim de tantas lutas encarniçadas pelos tribunais, aquela criança por quem tanto se batalhou acabou por não servir a ninguém. Ninguém saberá que futuro esperará aquela menina.

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“Anna é jovem, ainda poderá ser mãe de novo!” – prometeu ela. No fim, ninguém quis a criança. Anna …