Sabes aqueles dias em que tudo parece diferente sem tu perceberes logo o porquê? O Mário andava completamente sem saber o que se passava com a Ana. Ele já não a reconhecia. Ela, que sempre arrumava a casa, cozinhava, tratava da roupa, de repente tinha deixado tudo de lado. O Mário, sem querer forçar, lá perguntou baixinho o que é que se passava. E a Ana respondeu, assim na lata:
Já estou há anos a servir-vos. Não posso descansar um bocadinho?
O Mário ficou logo desconfiado, achou que ela podia andar a interessar-se por outra pessoa, e decidiu ver se encontrava alguma coisa estranha entre as coisas dela. Vasculhou a mala dela e deu-o com uma carta velha, já meio desbotada.
Olha, eles já estavam juntos há dezassete anos, e durante esse tempo todo ela sempre foi a pessoa mais calma, compreensiva e dedicada. Era sempre ela que fazia o pequeno-almoço, fosse papa de aveia ou ovos mexidos, chegava a casa depois do trabalho e ia logo para a cozinha preparar o jantar. Ao domingo, lá estava ela a passar quinze camisas uma para cada dia do Mário e dos dois filhos, mesmo que os rapazes quase nunca usassem tantas. Ele sempre foi obcecado com roupa impecável, mas com os filhos, não era fácil incutir esse hábito.
Mas já há duas semanas que só havia cereais ou torradas ao pequeno-almoço, e mesmo isso, a Ana dizia-lhes para fazerem sozinhos. Ao jantar, na melhor das hipóteses, havia restos do almoço do dia anterior ou encontravam um bilhete: Regresso depois das nove, cozam os raviolis.
O Mário, ao início, pensou que era por causa do congresso no instituto onde ela trabalhava. Só que o congresso terminou, e o ritmo não voltou ao normal.
Tentou ser discreto e perguntou outra vez o que se passava, ao que ela respondeu:
Achas que eu não mereço ter vida própria? Anos a fio a servir-vos, sempre a mesma rotina Não posso ter um bocadinho de descanso?
Ele respondeu:
Claro que mereces, Ana. Não estou a dizer o contrário.
O Mário engoliu em seco, mas não teve coragem de perguntar quanto tempo iria durar esse bocadinho. E a verdade é que ela continuava a sair, ora ia ao cinema, ora ao teatro, ora dizia que ia a uma exposição de escultura. O que lhe caía mesmo mal era ver que agora até comprava vestidos mais ousados, e de manhã, em vez de preparar o pequeno-almoço, era ver a Ana de rímel e batom, como se fosse a um encontro. As más ideias começaram a crescer-lhe na cabeça será que a Ana estava com outro?
Sentiu-se até envergonhado de pensar nisso, mas começou a mexer nos pertences dela: consultava o telemóvel, via os gastos do cartão, revirava a mala. E foi ali, numa bolsinha interna, que encontrou a tal carta. Tão usada, claramente voltava a lê-la vezes sem conta, e pelo tom apaixonado, só podia ser de alguém muito próximo:
Ana, tenho tantas saudades tuas, nem encontro palavras para descrever o quanto espero poder voltar a estar contigo. O teu sorriso faz-me falta, procuro-te entre a multidão e não te encontro
Foi horrível de ler. E como estava toda amarrotada, o romance devia durar há muito tempo. Isso ainda doía mais do que se fosse só uma paixão de momento. Será que toda a vida deles era uma mentira?
Durante três dias, o Mário não disse nada, só matutou no assunto lembrou-se de todas as tentações que tinha evitado, de todas as oportunidades que teve de trair e nunca quis Mas ao terceiro dia não aguentou.
Eu sei tudo, disse com a voz rouca.
Sabes tudo o quê? perguntou-lhe a Ana, tranquila, só um pouco admirada.
O Mário não podia estar enganado. A carta era clara.
Tu estás com alguém, não é?
A Ana desatou a rir.
Mas que disparate, Mário! Espero que estejas a brincar.
Se ao menos ela chorasse ou se confessasse, seria mais fácil, mas assim
Li a carta! declarou ele. Achas que sou ingénuo? Não aguento esperar pelo dia em que estaremos juntos, nossas almas estão ligadas para sempre Quem escreve uma coisa destas?
E a Ana voltou a rir-se, desta vez ainda mais descontraída.
Estás a falar a sério?
Tu não conheces o meu sofrimento…
Portanto andaste a mexer na minha mala?
Andei.
E leste a carta?
Li.
E não te lembras que foste tu quem escreveu?
Eu? O Mário ficou branco.
Foste tu que a escreveste quando estavas em serviço no estrangeiro, e eu estava em casa com o Salvador bebé. Lembras-te?
O Mário até se sentou. Não podia ser. Não escrevia assim, pois reconhecia o próprio jeito.
A Ana suspirou, foi buscar uma caixa lá em cima ao armário, e tirou de lá um envelope.
Olha aqui. Tu, nessa altura, partiste o braço e tiveste de escrever à esquerda.
Quando viu o remetente, percebeu: era ele, mesmo endereço, mesmo cidade no Alentejo onde esteve em obra. E sim, aquela letra desajeitada vinha da mão esquerda. Até se lembrou do acidente numa obra.
Mas porque é que continuas com ela na mala? perguntou, meio amuado.
A psicóloga recomendou, respondeu Ana, serena.
A psicóloga?
Sim, Mário. Estou cansada, sabes? Anos e anos a servir-vos, viva para vocês os três, perdi minha identidade desde que nasceu o Salvador. A gratidão às vezes nem a sinto. Flores só recebo no dia da Mulher, e não me lembro da última vez que ouvi um amo-te. Sinto-me vazia. Pensei mesmo pedir o divórcio, acredita. Mas a verdade é que valorizo esta família. Por isso procurei ajuda. A psicóloga vai-me guiando e eu sigo algumas orientações.
O Mário ficou sem chão. Divórcio? Ela pensou mesmo nisso?
E essas orientações dão resultado?
Às vezes sim, sorriu a Ana.
E as cartas?
Para me lembrar do que já fomos. Para não esquecer o amor.
O Mário lá anuiu, mas precisava de processar aquilo tudo. Saiu para a varanda para respirar, e nunca mais falaram do assunto.
***
No outro dia de manhã, quando a Ana se levantou, estranhou o barulho e o cheirinho a baunilha pela casa. Só percebeu tudo quando entrou na cozinha.
O filho mais velho fazia ovos mexidos. O mais novo punha pão de ló e iogurte nas tigelas. E na mesa estava um jarro com as flores favoritas dela.
O que é isto tudo? perguntou, incrédula.
Bom dia, mãe! disse o mais novo Queres chá ou café?
A Ana mal acreditava no que via e ouvia.
Um café, por favor.
E queres ovos mexidos ou pão de ló?
Pão de ló
O Mário não estava ali, mas ela sabia que ele estava por trás disso. Quando deu a primeira dentada, entrou ele e pôs-lhe um papel dobrado à frente.
Bom dia, minha querida!
O que é isto?
Uma nova carta, sorriu o Mário, para ver se ajuda.
A Ana sorriu também, e a partir daí, a vida melhorou. Não tinham sempre aqueles pequenos-almoços de sonho, claro, há limites. Mas de vez em quando acontecia. Até para o cinema, o Mário agora já ia com ela, todo contente. O casamento foi salvo.







