Amor Sem Condições
Beatriz caminha pela sala de estar quando, de repente, repara numa meia preta espreitando por baixo do sofá. Não resiste ao riso e comenta:
Afinal o teu marido não é assim tão arrumadinho como parece!
Depois, ela dobra-se ágil, puxa a meia e, abanando-a no ar com jeito brincalhão, acrescenta:
Quem diria! Sempre de camisa engomada e com ar de capa de revista, mas afinal
Naquele preciso momento, Mafalda aparece vinda da cozinha, a limpar as mãos ao pano de louça com ar surpreendido pela graçola da amiga:
O que é que te deu para dizeres isso?
Beatriz, sem conter o sorriso malandreco, aponta silenciosamente para a meia como se aquela peça fora a prova definitiva.
Mafalda cora levemente e apressa-se a justificar:
Ah… isso foi o Tobias a brincar. Ele tem o vício de tirar coisas do cesto da roupa na casa de banho. Ainda é um bebé, só consegue arrastar coisas pequeninas.
Os olhos de Beatriz iluminam-se ela sempre adorou gatos.
Tobias? Ah, o vosso gatinho, não é? Só o vi em fotos, parece tão fofinho, dá vontade de apertar ao colo!
Já está a pensar como é possível estar ali há quase dez minutos e ainda não ter dado festas ao pequeno peludo.
Mafalda sorri, deliciada com o entusiasmo da amiga.
Espreita ali, na poltrona perto do aquecedor, diz ela. É aí que ele gosta de dormir. Mas cuidado com as unhas, que estão bem afiadas! E ele não gosta muito de estranhos. A farmácia de primeiros-socorros está na casa de banho, entretanto vou fazer-nos um café.
Beatriz aproxima-se da poltrona em bicos de pés. Lá, num cobertor felpudo, repousa Tobias um novelo de pelo branco com riscas cinzentas. Dorme feito bola e só as orelhas se mexem ligeiramente, a captar qualquer som longínquo. A ponta da cauda estremece de vez em quando.
Ai que coisa mais linda sussurra Beatriz, esticando a mão devagar para tentar uma festa.
Tobias entreabre um olho, lança-lhe um olhar avaliativo, e volta a fechar. Mas assim que Beatriz lhe passa os dedos pelo pelo, o gato sobressalta-se e arranha-lhe ligeiramente o pulso.
Ai! Bem, isto deve ser o teu cumprimento ri ela.
Ignorando a dor, arrisca passear a mão entre as orelhas. Desta vez, Tobias aquece e começa a ronronar baixinho, voltando a adormecer de imediato.
Quando Mafalda regressa da cozinha, equilibrando duas canecas com café creme quente e uma taça de rebuçados, encontra a amiga com um sorriso rasgado, a coçar a barriga do Tobias, que se revira de satisfação, roncando alto como um pequeno motor. A arranhadela ainda se nota no pulso de Beatriz, mas nem lhe leva o ânimo.
Tão fofo! quase canta Beatriz, coçando-lhe o queixo. O gato espreguiça-se, mostra o ventre, pedindo mais. Um dia tenho de arranjar companhia para a minha Amêndoa, que anda sempre sozinha.
Se quiseres, conheço o abrigo municipal, têm lá verdadeiras ternuras à espera de um lar sorri Mafalda, pousando as chávenas ao lado do sofá e admirando o ar feliz da amiga, tão genuíno que parecia uma miúda.
Ainda não responde Beatriz num tom repentino melancólico, pausando os mimos ao gato. Este mia de imediato, exigindo atenção, ela ri e recomeça os afagos. Sabes que penso casar em breve. E acho que o Vasco não aceitaria outro bicho em casa. Já a Amêndoa ele só tolera a custo.
Não aprecia animais? pergunta Mafalda, sentando-se ao lado com a chávena entre as mãos, absorvendo o aroma forte e quente do café recém-feito.
Não é de não gostar é que detesta pelos, odeia ver enchimento de areia fora do tabuleiro, e as bolas de brincar deixam-no doido. Vasco é obcecado pela ordem. Tem tudo sempre de estar impecável, nem um grão fora do sítio.
A expressão de Mafalda muda. Num instante, esfrega o pulso direito como se sentisse um desconforto, o olhar perde o brilho e retraia-se para outras memórias como se de repente nem estivesse ali, na sala acolhedora, mas anos atrás, noutro destino.
Mafalda? preocupa-se Beatriz, pousando Tobias na poltrona e virando-se totalmente para a amiga. O que se passa? Estás estranha…
Nunca antes vira Mafalda assim. Em três anos de amizade, ela fora sempre vibrante, de sorriso aberto, irradiando luz e simpatia. Agora, quase parecia perder a cor.
Estou bem, responde Mafalda, tentando um sorriso forçado, a voz levemente trémula enquanto tenta voltar ao presente. Só lembrei-me dos maníacos da ordem que conheci. Deixo-te um conselho: antes de casares ou pensares em filhos, vive com ele no mesmo espaço pelo menos um ano. Vê se consegues aguentar a pressão do dia-a-dia ao ritmo e às regras dele.
Queres contar-me? Só se quiseres mesmo questiona Beatriz, hesitante, temendo mexer em feridas antigas. Se custar, não digas nada.
Não faz mal. Deixa-me partilhar. Pode ajudar-te a não repetir erros, não é? Mafalda puxa um sorriso triste, mas nos olhos vê-se vontade de pôr finalmente o peso cá fora.
****
Mafalda tinha dezanove anos quando conheceu Henrique. Ele era nove anos mais velho, charmoso, atencioso, com maneiras de verdadeiro senhor. Dava flores sem razão, memorizava que chá ela preferia verde com limão , e escutava horas seguidas as histórias da universidade. Ela nunca antes sentira alguém tão interessado nela. Por isso, ao fim de três meses, aceitou casar.
Ninguém a tentou dissuadir. O pai há muito refizera a vida e raramente ligava. A mãe já só queria viver por ela própria, sentindo dever cumprido: educou, criou, agora cada uma na sua vida. Mafalda não a recriminava. Até agradecia esta liberdade.
Os primeiros dois meses foram perfeitos. Mas aos poucos apareceram exigências: tudo tinha de estar exatamente como ele queria. Se a casa ganhava um mínimo pó, discutia. Mafalda estava em época de exames, noites inteiras a estudar matemática. Não conseguia manter tudo sempre perfeito. Uma vez, para dormir, Henrique parou-a a meio do corredor.
Tem de haver ordem! disse frio, apontando para uma nesga de pó no hall. Limpa já!
São quase uma da manhã, amanhã tenho exame. Posso fazer de manhã?
Se não tivesses passado o dia ao telemóvel Faz agora.
Resignada, limpou até o chão brilhar, apesar do cansaço.
A rigidez crescia. Bastava uma almofada fora do sítio, uma chávena na pia, e reagia mal. Um dia, ao perceber que uma camisa não estava passada, Henrique perdeu a cabeça apesar de haver várias limpas e engomadas no armário. Puxou-lhe o pulso com tanta força que ficou negro e doeu dias. Ela passou a usar mangas compridas, e ninguém percebeu.
Nunca a atingiu na cara, talvez para evitar suspeitas. Muitas vezes, agarrou-lhe o braço ferozmente, deixava marcas verdes e roxas. Por vezes, puxava-lhe o cabelo com violência até lágrimas surgirem, sempre em silêncio. A casa era tão limpa que até visitantes comentavam, mas nada o satisfazia.
A ansiedade crescia. Dia após dia, inspecionava tudo: copos, mobília, chão, filas dos livros. Dormia mal, acordava várias vezes por noite a verificar mil detalhes, não fosse faltar rigor na manhã seguinte. Chegou a desmaiar de exaustão num dia de aulas.
Acordou no hospital. A enfermeira media a tensão, o médico fazia perguntas. Naquele teto branco, Mafalda questionou de repente: porquê tudo isto? Por amor? Amor, pensou, já desaparecera só restava medo. Queria fugir, recomeçar.
Um dia, durante o internamento, Henrique apareceu. Mafalda, por um momento, iludiu-se: podia vir preocupar-se com ela. Mas não. Estava era incomodado pelo estado do seu robe de hospital e da trança desalinhada no cabelo.
Vê bem como estás! Cabelo despenteado, bata suja, tudo fora do sítio!
Ela não acreditava no que ouvia. Sentada na cama, muito pálida, só conseguiu perguntar:
Achas normal preocupares-te com isso, aqui?
Henrique bufou, mas antes que pudesse continuar a reclamar, entrou decidida a auxiliar de enfermagem, senhora de feições doces mas olhos duros naquele momento:
Sai já daqui. Sai, senão dou-te com a esfregona! ameaçou ela, brandindo o cabo.
Mafalda não segurou o riso nervoso. Quando Henrique saiu, a auxiliar ajeitou-lhe o cobertor e falou baixinho.
Oh filha, para quê aguentar isso? Há tantos homens por aí O teu sorriso merece melhor, acredita. Vives sozinha se for preciso, mas com paz.
Naquele momento, ouviu pela primeira vez que podia escolher: tinha uma pequena casa herdada da avó, modesta, mas sua. Dinheiro não abundava, mas conseguia trabalho a dar explicações de matemática e a fazer trabalhos académicos. Melhor pouco, mas em liberdade, do que vergonha e medo.
Mafalda olhou pela janela, onde as árvores ondulavam ao vento e o sol entrava tímido, e sentiu por fim que podia mudar de vida.
Obrigada, murmurou, sentindo acender-se dentro de si uma réstia de esperança.
A auxiliar apertou-lhe o ombro: Lembra-te sempre, tu mereces mais. Ninguém devia fazer-te pequena. És forte, acredita só em ti.
Naquela noite, Mafalda decidiu estava na hora de partir e reconstruir-se.
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O divórcio foi rápido. Henrique nem apareceu, enviou um advogado frio e apático. Ao ouvir a sentença, Mafalda não sentiu tristeza, mas um enorme alívio que a aquecia por dentro. Saiu do tribunal, inspirou o ar fresco da primavera junto à Avenida da Liberdade, em Lisboa, e teve vontade genuína de sorrir por inteiro.
Nos meses seguintes, a adaptação foi dura, mas revigorante. Instalou-se no pequeno apartamento com vista para a Praça de Entrecampos, aprendeu a apreciar os silêncios. Ganhou gosto em preparar café na varanda, ouvindo lisboetas despertarem, os cheiros a pão quente das padarias, a harmonia rarefeita da solidão.
Aceitou um part-time numa livraria no Chiado. O dinheiro não sobrava, mas bastava-lhe o ambiente dos livros e a simpatia dos clientes. Sentia que ali pertencia.
Certo dia, a arrumar novidades por ordem alfabética, esbarrou com um rapaz, alto e bem-disposto, que procurava livros de arte. Quase bateram cabeças.
Desculpe! apressou-se Mafalda, apanhando livros caídos.
Não faz mal, fui eu que tomei balanço a mais. Procurava algo sobre pintura portuguesa Pode ajudar-me?
Ela sorriu, primeiro tímida, depois mais confiante.
Claro, venha comigo. Acabámos de receber uns títulos novos com ótimas imagens…
Era o Ricardo olhar doce, covinhas ao rir. Passou a ir todas as semanas à loja, sempre com perguntas interessantes. Devagarinho, nasceu uma cumplicidade: trocavam impressões sobre romances, falavam da vida, um dia combinaram café depois do trabalho.
Mafalda hesitou em começar nova relação. O passado pesava. Assustava-se com sons bruscos, com gestos repentinos, com vozes altas. Mas Ricardo nunca forçou nada. Dava-lhe espaço, escutava, fazia-a rir, notava cada pormenor. Se ela se recolhia, ele respeitava. Se precisava de ânimo, ele encontrava uma frase gentil.
Numa tarde, sentados numa esplanada perto do Rossio, ela contou-lhe tudo. Ele ouviu, pacientemente, sem dar conselhos fáceis, só estando presente, segurando-lhe a mão.
Nunca te vou magoar, prometo. Se quiseres, arranjamos ajuda para a casa, só quero que sejas feliz, nunca precisas provar nada nem merecer afeto só sê tu.
As palavras tocaram profundamente Mafalda. Não eram promessas grandiosas, mas sinceridade pura. Ali, ela percebeu que encontrara, finalmente, alguém que lhe dava valor genuíno.
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Foi assim que tudo se passou, terminou Mafalda, com um sorriso tímido apesar dos olhos húmidos. Foram anos muito duros, mas ensinaram-me isto: ninguém deve sacrificar-se por uma fantasia de família perfeita. A felicidade verdadeira é sentires-te aceite como és, com virtudes e defeitos.
Como se sentisse o ambiente, Tobias saltou-lhe para o colo, ronronou ruidosamente e esticou a patinha até à sua cara. Mafalda riu-se, um som quente e libertador.
Vês? O Tobias também não é perfeito. Roubas-me meias, faz disparates, mas amo-o como é.
Beatriz entregou-lhe um guardanapo com cuidado, emocionada e admirada com a força da amiga.
És tão forte, Mafalda Nem imagino o que passaste, mas fico aliviada por te ver bem.
Agora sim, está tudo melhor olhando pensativa pela janela, espreitando as primeiras estrelas que já brilhavam no céu de Lisboa. Desejo o mesmo para ti, Beatriz. Não tenhas pressa. Experimenta viver com o Vasco, descobre-lhe as manias, observa como reage nas dificuldades. Amor não são só juras ou palavras bonitas. É respeito, apoio mútuo, capacidade de ouvir. É saber dizer hoje estou em baixo sem ouvires críticas, só um abraço e um como posso ajudar?
Beatriz ficou uns instantes calada, fazendo festas no Tobias, que, embalado, ronronava alto, enchendo o silêncio de conforto. O fôlego da noite, com o cheiro da lenha no ar e o tic-tac do velho relógio, pareciam guardar o momento.
Obrigada murmurou por fim Beatriz, levantando o olhar para Mafalda. Agradeço de coração pelo teu conselho. Agora vejo tudo de forma diferente.
Mafalda sorriu, deu mais um gole ao café, e achou-lhe um sabor mais doce talvez a serenidade desembaraçada pelo fim do medo e pelo direito de finalmente escolher a si própria. Ao seu lado, um gato branco, à frente uma amiga genuína, do outro lado do vidro, uma Lisboa calma, e dentro, o sentimento raro e precioso de uma vida que, pela primeira vez, era mesmo só sua.







