Aguenta, minha filha! Agora estás noutra família, e tens de respeitar as suas regras. Casaste-te, não foste lá só para visitar. Que regras, mãe? Estão todos malucos! Especialmente a sogra! Ela odeia-me, é óbvio! Já ouviste falar de alguma sogra que fosse boa?
Anda na noite! Anda na noite! Olha só a frequência! Soraia Martins estava no meio da cozinha, o rosto vermelho de raiva, os olhos ardendo de fúria. Se o homem anda na noite, a culpa é da mulher. Preciso mesmo de te explicar tudo?
A sogra estava fora de si. Gritava com a nora, a Joana, como uma louca. Tudo porque a jovem suspeitava que o marido, o filho dela, o Rui, a traía.
Joana, uma rapariga frágil, de olhos grandes e inocentes, encostava-se à parede, tentando acalmar a mulher enfurecida.
Soraia Martins, mas isto não é normal. Ele tem família, filhos tentou justificar-se, mas a sogra cortou-lhe, afastando as palavras como se fossem moscas.
Tu é que és família? Ou o teu filho, que nem nos deixa chegar perto dele? bufou a sogra com desdém. E a educação que lhe dás!
Que educação, Soraia Martins? O Tomás só fez um ano. Ainda é um bebé respondeu Joana, suave.
Um bebé? A mulher torceu o nariz. O neto dos Silveiras é ainda mais novo. E vai ao colo sem chorar, ao contrário deste teu acenou para o quarto da criança.
Ele é o vosso neto disse Joana, a voz a tremer. E as crianças sentem as más energias. Talvez por isso ele se afaste.
Nós somos maus? Olha quem fala! a sogra elevou a voz. E quem é que vive aqui à custa dos outros? Quem come a nossa comida? Gasta o nosso dinheiro? Ingrata!
Joana já não queria discutir. Já tinha dito ao Rui mil vezes que queria viver longe dos sogros, mas ele, um menino da mãe, não via necessidade.
Adorava viver com os pais. Sentia-se protegido, como um pássaro no ninho. Ia trabalhar, e os problemas da casa resolviam-se sozinhos roupa lavada, comida feita. Um sonho!
Mas a Joana pagava o preço. A sogra exigia tudo dela. No início, tentou agradarajudava em casa, ouvia as queixas intermináveis. Mas depressa percebeu que era inútil.
Por mais que se esforçasse, a sogra odiava-a, e nem se dava ao trabalho de esconder.
Trouxe para casa esta inútil, como se não houvesse raparigas decentes contava Soraia à vizinha, enquanto Joana, ali ao lado, a apanhar os brinquedos do Rui, ouvia tudo.
Foi buscá-la a outra terra! Como se valesse a pena! As nossas raparigas são muito melhores, trabalhadoras e inteligentes.
Nem digas nada! confirmava a vizinha, a fofoqueira Dona Lurdes, que já tinha falado mal de toda a aldeia.
Se ao menos soubesse fazer alguma coisa. Mas tu, Soraia, disseste que ela não tem jeito para nada.
Nem imaginas! Não se pode confiar-lhe nada. Ou perde, ou estraga. E o filho não é normal.
O neto dos Silveiras é outra coisa. Um miúdo calmo, esperto. Este só sabe gritar. São os genes.
Quando a vida se tornava insuportável, Joana ligava à mãe, noutra aldeia, e chorava. A mãe respondia:
Aguenta, filha. Agora és parte doutra família, tens de respeitar. Casaste-te, não foste lá a passeio.
Que respeito, mãe? Estão todos malucos! Principalmente a sogra! Odeia-me, é óbvio!
Já ouviste falar de alguma sogra boa? Todas passámos por isso. O importante é não mostrares que sofres. Aguenta.
Sabendo que a mãe, medrosa, não a ajudaria, Joana ameaçou contar ao pai.
Poupa o teu pai! assustou-se a mãe. Sabes que ele está em liberdade condicional. Um passo em falso, e volta para a cadeia!
Joana sabia. O pai adorava-a. Fora condenado por uma briga no café, quando alguém a insultou. E ela sabia que ele não ficaria calmo se soubesse como maltratavam a filha.
Está bem, não digo nada cedeu Joana. Mas se continuarem assim não sei o que farei.
Tudo vai melhorar tentava acalmá-la a mãe. Daqui a semanas, nem te lembrarás disto.
Mas as coisas só pioravam. Soraia parecia mais furiosa, como se Joana fosse culpada de tudo. Até o marido, o senhor Manuel, cansado da vida, interveio.
Porque gritas sempre com a rapariga? perguntou, numa manhã de discussão. Ela vai-se embora! E com razão!
Que se vá! disparou Soraia, virando a fúria para ele. Levo-a a tribunal, que devolva cada cêntimo que gastámos! E fico com o neto, para não o criar numa família assim!
Joana sabia que era absurdo, mas assustou-se. Amava o Rui.
Os boatos de que ele via a ex, a Sandra, eram apenas fofocas da aldeia, espalhadas por mulheres como Soraia.
Tudo mudou quando a sogra, orgulhosa das suas “vitórias”, contou tudo à amiga, Dona Lurdes. Que, como sempre, exagerou, e espalhou. A história chegou ao pai de Joana, o senhor António.
Um homem severo, alto, de ombros largos, não pensou duas vezes. Pegou no machado, vestiu o casaco, e foi de mota para a aldeia ao lado resgatar a filha.
Nessa altura, a casa dos Martins era um pandemónio. Joana deixara o Tomás, por um instante, no sofá novo, amarelo-vivo, para ir buscar uma fralda.
Ao voltar, viu uma pequena mancha castanha. Mas, para Soraia, era um buraco negro, prestes a engolir a casa. Surgiu como um temporal, aos gritos.
Estragaste o sofá! O meu favorito! Sabes quanto custou? Arrancava-te as mãos!
Eu limpo tentou acalmá-la Joana, a tremer.
Vais limpar o quê? É novo! Mas tu não sabes o que é comprar coisas!
E a senhora sabe? Joana perdeu a paciência. Passou a vida às custas do marido!
Olha só a descarada! Soraia ficou vermelha. Limpa isso, e depois rua, com o teu filho! Vivam na rua, já que não sabem comportar-se!
Joana, em lágrimas, esfregava a mancha, que teimava em não sair. O Tomás chorava, sentindo o desespero da mãe.
Soraia gritava, até que, na porta, apareceu o senhor António. Parado, como uma estátua, o machado na mão.
Soraia virou-se, sentindo a presença. Viu o machado. Conhecia o passado do senhor António, a liberdade condicional. O medo subiu-lhe pela espinha.
Olá, António! Estava só a educar a tua filha
Ouvi como a educas disse ele, entrando sem tirar os sapatos.
Ergueu o machado, fazendo Soraia encolher-se







