– Agora a tia será sua nova mãe – papai declarou com ares de grandiosidade, como se estivesse no palco.

– Agora a Tia Lúcia será a tua nova mãe, – disse o pai com um tom solene, como se estivesse num palco.

– Não! Não será! – gritou rapidamente a Inês, segurando as lágrimas enquanto corria para longe da mesa.

A nova esposa e agora dona da casa mal teve tempo de abrir a boca quando a menina voltou com um retrato que arrancou da parede:

– Esta é a minha mãe! Não preciso de outra! Comam o vosso bolo sem mim!

– Volta já para a mesa, – o pai enfurecido ordenou.

Mas a Lúcia simplesmente riu alto:

– Fantástico! Não é necessário gritar com a menina. Para esta miúda teimosa, serei apenas a Tia Lúcia. Mas para você, exclusivamente Lúcia Encantada…

– Combinado, – sorriu o Pedro. – E a Inês, tenho certeza, vai derreter o coração aos poucos e também vai gostar de ti.

– Nunca! – gritou novamente do corredor. – Nunca irei gostar de ti.

O pai imediatamente se levantou, indo atrás da filha. Ela já havia batido a porta do quarto. Quando ele entrou, Inês estava a chorar enquanto abraçava o retrato:

– Vais-me bater por amar a mamã?

Pedro ficou desconcertado. A sua raiva esvaiu-se. Sentou-se na cama e começou a explicar:

– Inês querida, eu sei que sentes saudades da mamã. Não passou muito tempo. Mas também entenda – eu preciso passar mais tempo no trabalho. Precisamos de uma mulher aqui que te ensine sobre todas as coisas femininas.

– Como a Clara nas histórias?

– Sim, sim, exatamente! Como a Clara.

– Mas tu não sabes essas coisas?

– Não, os homens têm outras coisas para aprender. Lembras-te da promessa que fizeste à tua mamã de que irias me obedecer?

– Lembro, – a Inês soluçou.

Aquele dia estava fresco na sua memória. A mamã estava doente há bastante tempo, e ela e o pai foram visitá-la no hospital. Inês mal reconheceu a mãe. Estava tão magra, tão pálida, não dizia quase nada, apenas olhava para Inês, acariciava-lhe a cabeça e, ao despedir-se, pediu que obedecesse sempre ao pai.

Inês nunca mais viu a mãe.

Começaram a viver sozinhos. O pai levava-a ao jardim de infância, lia-lhe histórias antes de dormir, passeava com ela. Às vezes, a avó vinha visitá-la, a mãe da sua mãe. Quando isso acontecia, o pai trabalhava até tarde, mas nos fins de semana estavam sempre juntos.

Mas depois tudo mudou.

Apareceu a Tia Lúcia. Falava alto, ria frequentemente, pintava os lábios e unhas de cores vivas – Inês não se lembrava de as mãos da mamã serem assim. A avó passou a aparecer raramente, e agora o pai dizia que aquela Tia Lúcia era a sua nova mãe.

Tudo isto passou pela cabeça da menina num segundo. Ela olhou nos olhos do pai e viu uma lágrima… Respirou fundo, limpou as suas próprias lágrimas e as do pai, e acenou lentamente:

– Certo, pai, eu vou obedecer-te.

– E à Tia Lúcia?

– Vou tentar. Vou obedecer, – esclareceu a Inês. – Mas amar vou a mamã.

– Está bem. Obrigado.

O pai abraçou-a e foi até à sala – onde estava a Lúcia Encantada. Ela estava olhando pela janela. Voltando-se, disse:

– Ui, vamos penar com ela.

– Não acredito. Apenas espera. Não invadas o seu íntimo. Precisa de tempo, perdeu a mãe cedo, e, sabes, ela já é adulta apesar da idade.

– Pois, não sei. Veremos.

A vida seguiu o seu rumo normal.

Lúcia realmente teve um ótimo relacionamento com o marido, e quanto à enteada, decidiu não insistir: bem, se não gosta de mim, que se há de fazer? O essencial era que não houvesse mais histeria.

Para surpresa da madrasta, a seis anos, Inês acatava todas as suas ordens sem hesitação, não discutia mais, não fazia birras. Mas mesmo após um par de anos, o calor não surgiu entre elas, embora Lúcia cuidasse da menina, vestisse-a como uma bonequinha, comprasse brinquedos e livros. Inês secamente dizia “obrigado”, mas mantinha a distância – evitava tocar, só fazia perguntas quando absolutamente necessário, partilhava todas as notícias com o pai.

Não houve problemas na escola também.

Desde o primeiro ano, a menina tornou-se a favorita da professora – diligente, calma, inteligente. Também era querida pelos colegas. Em casa também não causava problemas. Não pedia nada, ajudava Lúcia nas tarefas domésticas, primeiro em pequenos serviços, depois em grandes. Lúcia começou a gostar cada vez mais dela, ao ponto de querer abraçá-la, confidenciar, mas apenas não conseguia ultrapassar a barreira de gelo que se erguera entre elas.

No quinto ano, a menina passou a chamar a madrasta de Dona Lúcia, o que só as distanciou ainda mais. Àquela altura, contudo, Inês já não sofria de ciúmes da madrasta em relação à mãe. Ela gostava que a Lúcia Encantada – como o pai ainda a chamava – estivesse sempre contente e bem-disposta. Gostava que ela cozinhasse bem, que não discutisse com o Pedro, que o pai estivesse feliz. E especialmente, Inês valorizava que ela não fizesse sermões.

Lúcia sonhava em ter um filho. Fez tratamentos, ficava ansiosa. Quando finalmente conseguiu, passou muitos meses em repouso. Preocupava-se bastante sobre como a enteada acolheria o irmão mais novo. Até sugeriu que ela escolhesse o nome do bebé. Inês sugeriu que o menino se chamasse Pedro – como o pai.

Quando o Pedrinho finalmente chegou a casa com a mãe, a menina tornou-se a primeira ajudante de Lúcia. Ela cuidava do irmão com tanta habilidade e carinho que o coração da madrasta se apertava: «Meu Deus, como fui fria com esta menina que perdeu a mãe, – repreendia a si mesma. – Fiquei ressentida com ela, até mesmo a ignorei, como se eu fosse uma criança. Nem sequer tentei encontrar a chave para o seu coração ferido. Agora poderia ter uma filha maravilhosa…»

Cerca de um ano depois, o Pedrinho ficou gravemente doente. Começaram as noites sem dormir, e Inês ajudava a madrasta sempre que podia. Certo dia, entrou no quarto e viu que a Dona Lúcia tinha adormecido sentada na cadeira ao lado da cama do filho.

O menino estava a dormir. A menina tocou suavemente na testa dele e percebeu que a febre tinha passado. Tocou de leve no cotovelo de Lúcia:

– O Pedrinho está melhor.

Lúcia despertou, levantou-se, verificou a temperatura do menino com os lábios, e então, de repente, abraçou Inês e começou a chorar:

– Filha, perdoa-me! Tenho tanto arrependimento, minha menina, tanto arrependimento. Perdoa-me, perdoa-me.

A menina retribuiu o abraço:

– Ora, não chores mais, mamã. O Pedrinho já está melhor, e agora tudo vai ficar bem.

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– Agora a tia será sua nova mãe – papai declarou com ares de grandiosidade, como se estivesse no palco.