Adam, eu não quero te magoar, querido: Um menino português, a dor da perda da mãe, a chegada da nova…

Lisboa, 14 de agosto

Hoje, dei por mim sentado no parapeito da janela do quarto, a olhar para a rua e à espera do meu pai. Nestes momentos, penso muito na vida. Já passaram dois anos desde que a minha mãe nos deixou. “Ela fez uma nova família para ela”, disse o meu pai um dia, com tristeza nos olhos. Porque é que abandonou o filho? Ninguém sabe ao certo. Para mim, continua a ser um mistério. Aos poucos, fui-me habituando à ausência dela.

O meu pai sempre tentou ser tudo para mim. Faço dez anos este outono, já entendo muitas coisas e nunca houve segredos entre nós. Fui aprendendo a lavar a loiça, a arrumar a casa e já poucas vezes pego nos brinquedos antigos. Sinto-me cada vez menos criança e mais rapaz. Sinto, acima de tudo, uma grande solidão.

O meu maior desejo sempre foi ter um cão. Mas o meu pai recusou sempre esse pedido.

E quem cuidaria dele? Estou sempre a trabalhar. Tu estudas e és ainda novo demais.

Em vez de um cão, um dia apareceu em casa com uma mulher. Chama-se Matilde. Começou a viver connosco. Escolhi manter-me afastado. Para mim, ela era a mais. O meu pai, no entanto, logo a tratou como mulher e queria muito que eu a visse como uma mãe.

Não preciso dela! respondi-lhe, decidido. Assim, os dias foram passando. Via o meu pai feliz ao lado da Matilde. Eram carinhosos, riam juntos, davam-se bem. Mas continuava zangado, sentia uma espécie de dor por dentro.

Pai, quero que ela vá embora.
Roque, mas eu quero que ela fique. É difícil viver sem uma mulher ao lado uma esposa, uma mãe.

Chegaram os dias quentes e as férias grandes. Brincava na rua com os miúdos do bairro. Uns amigos novos começaram a dizer que o meu pai e a Matilde me iam pôr num colégio interno.

Fiquei aterrorizado. E se estivessem mesmo a pensar abandonar-me? Talvez quisessem ter um filho deles e eu só atrapalhava. Decidi preparar-me para o pior.

Um dia, ouvi bocados de conversa: “Lá vai ser melhor para ele, temos de o levar para lá.”

Foi demais. Passei a noite toda sem dormir. De manhã, decidi que tinha de afastar a Matilde. Comecei a fazer-lhe a vida negra pus sal no chá, deixei o fogão aceso com um tacho vazio. Fui malcriado. Ela percebeu logo quem era o responsável. Por isso, chamou-me para conversar.

Precisamos de falar. Estás zangado.
Não estou nada, não é nada disso… tentei escapar-me, sem jeito.
Roque, não quero magoar-te nem fazer-te sofrer, querido…

Ela continuou:

Alugámos uma casa de campo só para o verão. Queríamos fazer-te uma surpresa, mas está na altura de sermos sinceros. O teu pai encontrou um cão e vamos hoje buscá-lo. Se quiseres, vens connosco.

A sério? Fiquei entre surpreso e desconfiado, mas queria mesmo acreditar. Senti uma vontade imensa de a abraçar, e assim fiz.

A Matilde ficou de lágrima no olho:

Vá, fica feliz, tudo vai correr bem, não há razão para chorar disse ela, fazendo-me uma festa na cabeça.

Quando o meu pai chegou do trabalho, lá fomos os três buscar o cachorro. Toda a zanga desapareceu, dei por mim a gostar da Matilde. Fizemos as pazes. O cachorro adormeceu-nos nos meus braços. Todos estávamos felizes.

Hoje aprendi: às vezes, o que parece o fim é só o início de algo bom, se abrirmos o coração e não julgarmos antes de entender.

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