Acabei de pensar que nós dois somos, talvez, uma família realmente disfuncionalMas, ao olhar nos olhos um do outro, percebemos que esse caos também é a base da nossa força.

Que sorte a minha terte, disse Alexandre, abraçando a esposa.

E eu fico feliz por terte ao meu lado! respondeu Cláudia.

Mas com quem mais poderia estar? riu o homem. Só contigo, claro. És o meu destino. A melhor mulher do planeta.

Cláudia não respondeu; apenas beijouo na bochecha e correu à cozinha para tirar do forno o bolo de ficado.

Hoje o casal Silva celebrava o seu prataaniversário. Decidiram comemorar modestamente, só com a família imediata: eles e os filhos. Os dois filhos eram Tiago, estudante do décimo ano, e a rapariga Lurdes.

Lurdes acabara de concluir a universidade, tinha conseguido um emprego e haviase mudado para um apartamento perto do trabalho. Embora Cláuda insistisse que havia espaço suficiente na casa, a jovem queria viver à própria maneira.

Por que te gastar em casa alugada? questionou Cláudia. Tens um quarto teu, vivemos todos juntos, por que te separar? Quando fores casarte, então poderás partir.

Mãe, adorovos a ti e ao papá, e sei que não me expulsarão, mas ainda assim quero experimentar a vida independente. E, por falar nisso, mãe, não te zangues, mas os teus quitutes são tão bons que me sinto a virar um elefante. Tu és magrela, comes e não engordas, eu, ao contrário, não consigo ganhar peso! Preciso cuidar da figura, e não dá para fazer isso com vocês a comerem tudo o que quiserem.

Cláudia sorriu, observando a filha. Lurdes, ao contrário da mãe, não se parecia em nada com ela. Cláudia era baixa, esquelética, quase uma menina de dez anos ainda. O visual era simples, sem frescuras: quase nunca usava cosméticos, o cabelo ficava num rabo de cavalo e vestia roupas discretas. Lurdes, porém, era uma verdadeira beleza, teria herdado a genética do pai.

Alexandre era um homem de presença. Alto, de boa constituição. Com a idade ganhou uns quilinhos a mais nada estranho, visto os seus famosos bolos. Na juventude era ainda mais bonito; agora, aos quarentaeoito anos, ainda mantinha um charme indiscutível.

Cláudia sabia que ao lado dele não se destacava muito. Já estava habituada aos sussurros nas costas e não lhes dava atenção, porque para o marido era a melhor mulher do mundo. A mais bonita e desejada.

***

Quando Cláudia conheceu Alexandre, ela tinha vinte anos e ele vintedois.

Numa tarde de setembro, a estudante Alzira dirigiase ao aniversário da colega e amiga Violeta. Tinha preparado um presente com antecedência e, a caminho, decidiu comprar um pequeno buquê de flores.

Na florista onde entrou, só havia um jovem a escolher um arranjo. O vendedor, uma simpática moça chamada Margarida, mostravalhe várias opções, fitandoo com evidente interesse. Alzira também reparou na atenção da vendedora e percebeu que o rapaz era muito bonito.

Com essa cara, devia estar a fazer cinema, pensou Alzira. Talvez seja ator, parecese um.

O rapaz, por sua vez, notou Alzira e dirigiuse a ela.

Rapazinha, prefere este buquê de rosas vermelhas ou o de peônias?

Alzira ficou sem saber o que dizer; nunca imaginara que aquele galã lhe falaria, mas acabou respondendo:

Eu ficaria com as peônias, embora a maioria das garotas prefira rosas.

E à sua namorada, quais flores agradam? perguntou a vendedora.

À minha namorada? repôs o rapaz, confuso. Não, eu não compro flores para alguém em especial, nem sei para quem é o buquê.

Como assim? exclamou Margarida, olhando para Alzira.

O meu amigo vai ao aniversário da prima e persuadiume a ir com ele explicou o jovem, percebendo o espanto nos rostos da vendedora e de Alzira. Não podia chegar de mãos vazias, por isso decidi comprar flores. Mas a escolha foi tão grande que fiquei indeciso.

Se escolher rosas, nunca erra; todas as meninas adoram rosas sugeriu Alzira.

Também gosta delas? indagou o rapaz, meio tímido.

Alzira corou, abaixou os olhos e respondeu:

Eu adoro mais as flores de campo, mas rosas também. Acho que são as favoritas de todas.

Que interessante disse o rapaz , eu também gosto de flores silvestres. A minha mãe, quando vai para a aldeia, sempre traz um buquê das campinas próximas. Há uma beleza especial nos tons campestres: parecem insignificantes à primeira vista, mas se os observares bem, percebes o quão surpreendentes são.

O jovem acabou por comprar um ramo de rosas e saiu da loja, sorrindo para Alzira.

Que rapaz encantador, não? comentou Margarida. Um sorriso vale mais que mil palavras, parecese um artista.

E eu pensei que fosse um artista, respondeu Alzira.

Ela comprou um pequeno buquê de crisântemos, despediuse da vendedora e foi ao encontro de Violeta.

O espanto de Alzira foi grande ao encontrar na casa da amiga o mesmo rapaz sorridente da florista. Descobriuse que se chamava Sandro e estava ali com o amigo Artur, primo da aniversariante.

Sandro também ficou surpreso ao ver Alzira, a mesma com quem trocara ideias sobre buquês. Olhava para ela e sorria sem parar; Alzira devolvia o sorriso, embora timidamente, desviando o olhar. À medida que a noite avançava, Sandro sentouse ao seu lado e começaram a conversar.

Do que falaram, Alzira não se lembrava mais, já que se passaram anos. Sandro perguntava, ela respondia; ele contava, ela ouvia

Ela não entendia por que ele a acompanhava, por que lhe sorria e lhe dava atenção. Sentia o olhar enviesado de Violeta e percebia que a amiga estava a ficar irritada.

Quando a música começou a tocar e os convidados foram à pista, Violeta aproximouse de Sandro e convidouo a dançar. Ele lançou um olhar culpado a Alzira e foi dançar com a aniversariante.

Depois, voltou a Alzira e, ao despedirse, ofereceuse para acompanhála até casa.

No dia seguinte, Alzira chegou à universidade, encontrou Violeta e, sem nem dizer olá, ignorou o cumprimento.

Depois das aulas, Alzira abordou a amiga e perguntou o que se passava.

Não percebeste? respondeu Violeta, os olhos a brilhar de raiva. O Artur trouxe o Sandro para mim! Queria que nos conhecêssemos. Vio em fotos do Artur e gostei. O Artur decidiu trazêlo ao aniversário. E tu arruinaste tudo! Passaste a noite a flertar com ele e ainda o fizeste ficar contigo e ainda fingete de tímida!

Eu não flertei com ninguém disse Alzira, entristecida. Nunca soube flertar; não pensei nisso nem por um segundo. Ele foi quem se ofereceu para me acompanhar, eu não pedi.

Pois então, não flertaste Mas ainda assim, o que é que ele encontrou em ti? zombou Violeta, afastandose, deixando Alzira atônita.

Alzira sentiuse mal. Será que realmente tinha roubado o rapaz da amiga? Será que era uma traidora? Não, isso não podia ser.

Ela, que jamais chamava a atenção dos rapazes, com uma aparência comum, conseguiu despertar o interesse de Sand Sandro? Violeta era o par perfeito: bonita, divertida, cheia de vida, com inúmeros admiradores. Alzira, por outro lado, era discreta, recatada.

Não, Sandro não era o tipo de homem para ela. Achoua simpática e, como não conhecia muita gente na festa, decidiu passar o resto da noite a conversar com a rapariga que encontrara na florista.

Esses pensamentos correram pela cabeça de Cláudia enquanto regressava da aula ao lar.

Chegando a casa, encarouse no espelho e murmurou:

Será que sou realmente necessária a alguém?

Nesse instante o telefone tocou. Cláudia atendeu e ouviu a voz de Sandro. No dia anterior, ele tinha pedido o número dela, e ela pensara que jamais lhe devolveria a chamada.

Marcaramse para encontrarse à noite à beirado Tejo. Quando Alzira chegou ao ponto combinado, Sandro já a esperava com um buquê de flores de campo e um sorriso que a fez perceber que estava apaixonada.

Assim nasceu o romance de Cláudia e Alexandre. Muitos previram que se separariam rapidamente; ninguém acreditava que um rapaz tão bonito se apaixonaria de verdade por uma moça como Alzira. Claro que havia quem sentisse inveja e dissesse que o casal estava condenado, porque um homem tão galã deveria estar rodeado de atenção feminina e acabar por olhar para outras. Mas Sandro só tinha olhos para a sua Alzira. Logo, ela acreditou nos sentimentos dele e deixouse de lado os ciúmes e as críticas.

Um ano depois de se conhecerem, Alexandre e Cláudia casaramse. Não passou um dia em que ele não lhe dissesse que era a melhor. Cerca de dez anos após o casamento, Cláudia resolveu perguntarlhe por que a tinha escolhido.

Poderias ter agarrado qualquer outra beldade, então por que eu? Não tenho nada que agrade aos homens, sou apenas comum.

Alexandre ficou genuinamente surpreso e respondeu:

Como explicar o porquê de se apaixonar por alguém? Mas vou tentar. Apaixoneime nos teus olhos, porque são os mais belos, cheios de bondade e sinceridade Apaixoneime na tua voz, no teu perfume, na tua alma. Para mim, és a mulher mais linda do mundo Não é à toa que amas flores de campo; tu pareceste a elas. A tua beleza não grita, poucos a percebem, mas eu a vi e não trocaria a minha flor silvestre favorita por nenhuma rosa mais extravagante.

***

O jantar de celebração dos vinte e cinco anos de casamento decorreu num ambiente muito acolhedor. Os filhos disseram várias palavras carinhosas aos pais, o que se provou o melhor presente para Alexandre e Cláudia.

No centro da mesa havia um delicado buquê de flores de campo. Alexandre sempre presenteava a esposa com aquele ramo nos aniversários (o de Alzira era em julho) e no aniversário de casamento.

Sandro disse Alzira, quando se deitaram , agora penso que somos uma família meio estranha.

Porquê? surpreendeuse o marido.

Em vinte e cinco anos nunca nos zangamos. Isso acontece?

Queres brigar? riu Alexandre. Então vamos brigar!

E começou a fazer cócegas à esposa.

Não, não, não quero gritou Alzira, a gargalhada a ecoar, pois detestava cócegas.

Eu também não quero discutir contigo disse Sandro, beijandoa.

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