Abandonada por Amor

Abandonada por Amor

A mãe chegou a casa, vinda do escritório no centro de Lisboa, estranhamente leve, com as faces coradas e um sorriso novo e luminoso tão claro que Mariana não via assim há muito tempo. O coração da menina disparou, inquieto a mãe parecia realmente feliz!

Marianinha, hoje conheci uma pessoa maravilhosa! disse ela, pendurando o casaco no cabide e agachando-se diante da filha, envolvendo as suas pequenas mãos nas dela. Chama-se Augusto. Trabalha numa empresa de construção civil, é muito sério, confiável.

Mariana apenas acenou que sim, ainda sem perceber porque aquilo era tão importante. Mas aquela felicidade nos olhos da mãe a maneira como brilhavam, o sorriso quase mágico era suficiente para que também ela sentisse uma alegria tímida a acender-lhe o peito.

Nas semanas seguintes, a mãe não se cansava de contar histórias sobre Augusto: como ajudou uma velhinha a levar as compras, organizou um peditório para o lar de crianças, sabia arranjar qualquer coisa partida. Mariana escutava, fazia que sim, mas sentia por dentro qualquer coisa inquieta, como quem sabe que a vida está prestes a mudar e não obrigatoriamente para melhor.

O primeiro encontro com Augusto deu-se num café pequenino perto de sua casa, nos Olivais. Era um homem alto, de porte direito, cabelo cortado rente, boca dura. Raramente sorria e, quando sorria, o sorriso era forçado, distante, pairando nos olhos claros e frios.

Esta é a minha Mariana, disse a mãe, acariciando-lhe o cabelo. O carinho familiar tranquilizou-a, nem que fosse por uns instantes. Tem oito anos, está a acabar o segundo ano.

Augusto anuiu, lançou-lhe um olhar fugaz e avaliador como quem vê uma simples peça de mobília e voltou o olhar para a mãe:

É jeitosa. Quantos anos tem?

Oito, já tinha dito, a mãe sorriu, sem notar a indiferença grosseira, sem perceber o tom gelado.

Toda a conversa foi dominada por Augusto, que se dirigia à mãe e atirava apenas frases secas e rápidas para Mariana quase a despachar: Não barulhes. Quando pediu para ir ver o aquário de peixes junto à entrada, ele franzia logo o sobrolho:

Faz pouco barulho, ouviste?

A mãe, encantada, nem reparava estava demasiado absorvida pelo deslumbramento daquele novo romance. Mariana, porém, entendeu ali: aquele homem não era nem seria o pai carinhoso que secretamente imaginava. Nunca leria histórias para ela à noite, nunca a abraçaria com ternura ou a ensinaria a andar de bicicleta. Nada

Com o tempo, Augusto começou a aparecer cada vez mais em casa das duas. As prendas eram sempre para Teresa, a mãe de Mariana; nem uma única guloseima para a menina! Nem conversar fazia questão. Se ela falava, ele quase nem escutava, e se se aproximava demasiado, Augusto afastava-se, como se a presença dela o incomodasse profundamente.

Certo dia, Mariana acertou sem querer com o cotovelo na chávena de Augusto e entornou o chá no punho da camisa dele. Ele afastou a mão com brusquidão:

Tem mais cuidado, Mariana! És tão desastrada!

A mãe correu logo a desculpar-se:

Desculpa, Augusto. Mariana, vai buscar um guardanapo!

Mariana correu para a cozinha. Da sala ouviu, fria como gelo, a voz dele:

Teresa, a miúda é muito ruidosa e desengonçada. Anda sempre a estorvar! Já me está a cansar!

Mas ela é só uma criança, Augusto defendeu a mãe, mas Mariana percebeu o medo por baixo da voz. Faz-lhe falta uma figura masculina. Precisa de um pai!

Quem te disse que quero ser pai dela? disse Augusto, implacável. Não tenho intenção de criar filha de ninguém!

Teresa devia prestar atenção a estas palavras, mas estava apaixonada, hipnotizada por Augusto.

Depois do casamento celebrado seis meses mais tarde numa simples cerimónia em Campo de Ourique , tudo piorou. O apartamento, antes cheio de histórias e risos, transformou-se numa casa vazia, abafada.

Augusto nunca ralhou nem bateu em Mariana, mas o seu silêncio frio pesava no ar. Se ela ria com força, ele erguia uma sobrancelha de desaprovação e o riso morria-lhe de imediato na garganta. Se perguntava algo, respondia-lhe secamente, como se fosse uma distração indesejada um ruído no mundo perfeito dele.

Uma noite, Mariana fingia dormir na cama quando apanhou ouvir o diálogo dos adultos. A tensão, a dureza na voz de Augusto impedia que ela respirasse:

Teresa, não aguento mais isto. Cada vez que olho para a Mariana, sinto raiva. É igual ao teu ex-marido! Não tem nada de ti!

É uma criança, Augusto chorava a mãe. Não tem culpa.

Eu sei. Mas não consigo sentir nada por ela. Isto destrói-nos. Reflete.

Mariana prendeu a respiração, sentindo o mundo a fechar-se sobre ela percebeu, de repente, o que ia acontecer.

E o que é que propões? murmurou a mãe, a voz já vencida.

Ou ela vai viver com a tua mãe mora perto , ou eu saio. Não vivo com ela.

Mariana nem ousou mexer-se, como se o menor movimento pudesse trair a sua presença.

Está bem, acabou por responder a mãe. Vou falar com a minha mãe. A Mariana ficará com ela.

Perfeito, a voz de Augusto ficou logo mais suave, satisfeita. Uma miúda só atrapalha. Se quiser filhos, dás-me um filho, não é?

As lágrimas escorriam pelo rosto de Mariana, sem conseguir controlar. Como podia a mãe aceitar aquilo tão facilmente? Apercebeu-se: a filha deixara de ser prioritária.

No dia seguinte, a mãe, a evitar-lhe o olhar, comunicou:

Estrela, a avó está cheia de saudades. Vais ficar lá umas semanas. Vemo-nos todos os dias, está bem?

Mariana apenas assentiu, engolindo o choro quente. Por dentro, sentia um vazio tremendo como se lhe tivessem arrancado o peito.

Três dias depois, Mariana foi para casa da avó Arminda, que a recebeu nos Anjos com um abraço caloroso e com tarte de maçã ainda a fumegar. O aroma, que geralmente tornava Mariana feliz, nada aquecia agora. Sentia-se apenas deixada para trás dispensada, posta de lado.

A mãe visitava-a, conforme prometera, mas as visitas tornaram-se cada vez mais breves e espaçadas. Como se Mariana fosse, afinal, dispensável.

Só a avó lhe sussurrava ao ouvido à noite, acariciando-lhe o cabelo:

Vai ficar tudo bem, querida. Um dia a vida melhora.

Mas Mariana sabia, no fundo, que nada voltaria a ser igual. A ferida desse abandono ficaria aberta muito tempo.

*

Nos primeiros dias, a mãe surgia quase todas as noites, levando-lhe rebuçados, tentando sorrir, mas a tristeza nos olhos denunciava o embaraço e cansaço. Mariana, sentada ao colo da mãe, apercebia-se era como se tivesse ali uma boneca bonita mas vazia por dentro.

Então, filhota? A avó trata-te bem?

Claro, mãe. Faz bolos de maçã…

Ainda bem, respondia Teresa, olhando o vazio. Tenho tantas saudades. Mas, por agora, não te posso trazer de volta. Mais um pouco de paciência, está bem?

Com o tempo, a mãe passou a ir só de fim-de-semana. Certa sábado, ligou a desculpar-se:

Filha, o Augusto quer ir ao teatro comigo. Amanhã vamos almoçar juntas, prometo. Levo-te gelado.

Mariana conterá o nó na garganta e respondeu animada:

Sim, mãe, diverte-te.

Depois desligou e ficou a ver a chuva miudinha a varrer as árvores do bairro. Pela primeira vez percebeu sem dúvida: a mãe escolhera Augusto.

A avó Arminda fez tudo para animá-la: convidava-a ao Jardim da Estrela, oferecia-lhe chocolate quente, e tentava distraí-la em frente ao teatro de marionetas. Nada substituía a mãe. Aquela certeza de ser amada sem condições desaparecera.

Na escola, Mariana tornou-se mais silenciosa, distante dos colegas. Um dia, a amiga Marta perguntou: Porque moras agora com a tua avó? Não conseguiu responder. Limitou-se a dar de ombros, olhos marejados.

Depois de uma aula, cruzou-se com a mãe no Rossio quase sem querer.

Mariana! exclamou Teresa, atrapalhada. Ia fazer-te uma surpresa, trazer-te flores.

Caminharam juntas. A mãe falava do Augusto, de um casaco novo, mas Mariana só queria ouvir aquela voz, captar o olhar, a esperança de que tudo pudesse voltar a ser como antes.

Mãe, perguntou baixinho, apertando-lhe a mão , porque vens tão pouco?

A mãe ajoelhou-se à sua frente, os olhos confundidos:

É difícil, Marianinha. Quero tanto estar contigo mas também amo o Augusto. Parece que me estão sempre a rasgar ao meio. Toda a vez que me despeço, fico sem parte do coração.

Não precisavas ter-me mandado para a avó, resmungou Mariana, triste.

Teresa baixou a cabeça, lágrimas a cair:

Achei que ia ser melhor para todos. Enganei-me, filha

Vou tentar vir mais vezes, prometo, disse Teresa, apertando-lhe a mão.

Mariana acenou, sem grande esperança.

Mas durante um mês, a mãe manteve a promessa. Passeavam, iam ao cinema, faziam bolos. Mariana reanimou-se, começou a acreditar. Contudo, uma tarde a mãe veio diferente.

Tesouro, o Augusto está novamente insatisfeito Pede que eu te veja só aos fins-de-semana. Diz que passas a ser visita.

Por dentro, Mariana sentiu o gelo atravessar-lhe o corpo. Manteve-se firme:

Está bem, mãe.

Nos fins-de-semana, Mariana ia ao apartamento luminoso de Campo de Ourique, sentava-se no sofá, comportava-se tão bem quanto possível. Augusto mantinha-se frio, distante, a mãe esgotada a tentar agradar aos dois.

Os meses passaram. Mariana aprendeu a esconder as lágrimas. A escola, ajudar a avó, pequenas amizades formavam a sua defesa.

Só a avó era sempre constante ao adormecê-la:

Não tens culpa de nada, meu amor. Tu és o que tenho de mais precioso.

Mas a dor materna nunca desapareceu totalmente.

*

Anos passaram. Aos onze, doze anos, Mariana já não esperava milagres. Já não imaginava que a mãe a viesse buscar para voltarem a viver juntas.

Afastou-se dos colegas, preferindo a companhia da avó a aprender a fazer bolo-rei, bordar panos, cuidar dos manjericos na janela. As tardes perfumadas pelas tortas de canela eram o seu pequeno refúgio.

Avó, porque nunca ralhas comigo? perguntou-lhe um dia.

Arminda sorriu, puxando um caracol de cabelo atrás da orelha:

E para quê, filha? Só quem ama mesmo é que sabe ser manso. E tu já levaste pancadas suficientes da vida.

Mariana chorou em silêncio, grata. A avó era o porto seguro, a promessa de uma bondade constante.

Só um sábado de manhã a mãe chegou cedo, surpreendendo Mariana na cama.

Vamos ao Jardim Zoológico, Mariana! O Augusto arranjou bilhetes.

Ela mal acreditou Augusto nunca mostrara interesse algum. No Jardim Zoológico, ele comprou-lhe gelado, tirou-lhes até uma fotografia. Aquela esperança acendeu-se.

À noite, ouviu tudo. O tom de Augusto era factual:

Teresa, não consigo. Faz de conta que sou pai por um dia, não mais. Mariana só aos feriados.

A mãe aquiesceu.

No dia seguinte, Teresa veio sozinha ao apartamento da avó.

Mariana, o Augusto acha melhor vermo-nos raramente. Precisa de calma, de estabilidade.

E eu, mãe? perguntou Mariana, pondo toda a amargura no tom.

Já és crescida. Vais perceber.

Mariana anuiu. Sentiu-se apagada, como uma nota rasurada num caderno. Daí para a frente, foi só nos aniversários ou Páscoa. A menina habitou-se à ausência.

Por volta dos treze anos, confidenciou à avó:

Acho que já perdoei a mãe. Ela escolheu o caminho dela. A vida é mesmo assim, avó.

Arminda abraçou-a forte:

Isso mesmo, minha querida. Não guardes rancor. A tua mãe é só uma alma assustada. Deus tome conta dela.

*

Aos quinze, Mariana sabia o que queria: adorava português, adormecia a desenhar. A professora, D. Rosa, elogiava-lhe a escrita.

Começou a escrever diários com pequenas histórias ali punha a dor que não sabia dizer em voz alta. Um dia, a avó encontrou o caderno.

Posso guardar, para o dia em que fores famosa?

Achas, avó?

Tenho a certeza. Tens o dom de sentir fundo.

Aos dezoito, Mariana entrou em Jornalismo, na Universidade de Lisboa. Falou com a mãe, que reagiu com orgulho falso:

És uma vencedora.

Num serão na Graça, Mariana perguntou, por fim:

Se voltasses atrás, mãe? Mandavas-me outra vez embora?

Teresa hesitou, com voz trémula:

Não. Agora faria diferente. Tive medo de ficar sozinha Mas tu eras mais importante.

Mariana acreditou num perdão sereno, uma leveza estranha. Sabia que o passado não mudava, só o modo de olhar para ele.

Arranjou emprego numa redação no Chiado, escrevia sobre histórias pequeninas do bairro. Um dia pediu-lhe que fizesse um artigo sobre um lar de órfãos. Ali, Mariana percebeu: a sua dor tinha-se convertido em humildade e compaixão pelos outros.

Ao regressar a casa, sentiu um silêncio doce e agradecimento: sobreviveu. Soube transformar dor em sabedoria.

*

Com o tempo, Mariana casou com Miguel, um homem simples, de sorriso terno, que conquistou a avó desde o início. Logo na primeira visita ofereceu-se para arranjar a fechadura da porta, lavou as mãos na torneira a pingar. Mariana percebera: finalmente, uma casa.

Quando nasceu a filha Inês, Mariana fez-lhe a promessa: nunca haveria dúvida sobre o amor dela. Todos os dias, embalava-a com histórias, abraçava-a forte, sussurrava: Tu és o meu mundo.

Num domingo visitaram a avó Arminda. A pequena Inês corria pela sala antiga a mexer em fotografias.

Avó, eras tu nesta foto?

Era, querida. Com o avô António, ainda jovens.

Mãe, também foste menina?

Mariana sentou-se no tapete ao lado da filha:

Claro, meu amor. E vivi aqui, com a avó.

E ela gostava de ti?

Muito Mariana abraçou-a, aspirando o cheiro doce , assim como eu gosto de ti.

Inês pensou um pouco:

Então sou mesmo sortuda. Tenho mãe, avó e pai.

Mariana sentiu o peito apertar mas, desta vez, de ternura rasa. Beijou-a no alto da cabeça.

Sim, Inês. Tu és muito, muito sortuda.

A avó trouxe chá e bolinhos. Arminda olhou Mariana demoradamente talvez pela primeira vez vendo a mulher inteira em que se tornara.

Falamos sobre felicidade, avó disse Inês.

Teresa sorriu. Naquele olhar estava, finalmente, o amor sem reservas.

É verdade, disse. Estamos juntas e isso basta.

Na solitude da cozinha, mais tarde, Teresa pediu desculpa.

Tive medo. Acabei por quase perder-te

Tu foste só uma mulher a tentar ser feliz, mãe. Agora podemos construir juntas, se tu quiseres.

*

Os anos passaram. Inês cresceu, brincou, estudou com segurança no colo da mãe, da avó, do pai. Mariana escreveu histórias, publicou livro, criou raízes.

Numa noite, Inês encontrou o livro dela na estante.

És tu na capa, mãe? Posso escrever um igual quando for grande?

Claro que sim, meu amor. Escreve sempre a verdade, escreve com o coração, e lembra-te que serás sempre amada.

Ela acenou, séria, como quem recebe um segredo.

Mariana olhou pela janela para a cidade a dormir sob as estrelas, sentiu gratidão por cada passo difícil, cada noite gelada, cada abraço. Finalmente, a sua vida era sua inteira, calorosa, portuguesa, feita de perdão, de laços que o tempo não apaga, e de amor.

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