Olha, deixa-me contar-te o que tem acontecido cá por casa, que até já virou assunto nas nossas conversas. O nosso filho, o Tiago, desde que se casou com a Matilde, parece que esqueceu completamente de nós. Só quer saber da sogra dele, a dona Teresa, que vive ali em Lisboa, e é sempre aquela urgência atrás de urgência. Às vezes eu pergunto-me como é que ela vivia antes de a Matilde casar com o Tiago.
O Tiago está casado há mais de dois anos. Depois do casamento, eles foram morar juntos num apartamento que comprámos para o Tiago quando ele começou a faculdade, por lá em Coimbra. Sempre demos tudo ao nosso filho, acompanhámos cada passo e nunca faltou apoio. Antes mesmo do casamento, ele já vivia sozinho porque o apartamento era perto do trabalho e era prático.
Sobre a Matilde, não vou dizer que nunca gostei dela, mas sempre achei que era um bocadinho imatura para uma vida a dois, mesmo que o Tiago só fosse dois anos mais velho. Ela parecia um pouco mimada, como se fosse ainda uma miúda, e às vezes fazia birras sem razão. E o Tiago, sempre aquele coração enorme, eu ficava a pensar como é que ele ia aguentar viver com uma criança assim ao lado.
Conheci a família, e percebi logo o perfil. A dona Teresa, mãe da Matilde, apesar de ter a mesma idade do que eu, comporta-se como se fosse uma adolescente. Já viste pessoas assim, que nunca crescem? Infantis, completamente perdidas, sempre a precisar de alguém que resolva tudo por elas. Para terem uma ideia, quando a filha casou com o Tiago, a dona Teresa já ia no sexto divórcio.
Nunca tive grande conversa com ela, porque ela vive no próprio mundo, mas pelo menos nunca se impôs. As nossas trocas resumiram-se a felicitar-nos pelo casamento dos filhos e pouco mais.
Antes do casamento já começaram os sinais de que o Tiago ia ser transportador oficial cá da família. A Matilde arrastava-o para a casa da mãe, ora era a torneira estragada, ora era a tomada a precisar de mudança, ora era o armário da cozinha que caía. No início fechei os olhos, compreendi que não tinha lá nenhum homem para ajudar, então o Tiago que desse um jeito.
Mas isto só foi piorando. A dona Teresa arranjava sempre problemas novos em casa, e o Tiago começou a aparecer cada vez menos, com a desculpa de que tinha de ir ajudar a sogra. De repente, todas as festas eram na casa da sogra, e cá em casa ficávamos só eu, o meu marido o Manuel, e a minha sogra, a dona Júlia.
Senti-me magoada quando o Tiago deixou de vir às festas de família, mas pior ainda foi quando passou a ignorar os nossos pedidos.
Lembro-me que nessa altura, comprámos um frigorífico novo e pedimos ao Tiago para nos ajudar a trazer, e ele aceitou, mas depois telefonou e disse que não podia porque ia com a Matilde à casa da sogra, pois a máquina de lavar dela estava a deitar água.
Quando liguei ao Tiago, ouvi a Matilde a dizer: Os teus pais não podiam contratar uma equipa de mudanças? E lá veio o Tiago, mas vinha aborrecido como tudo.
Ó pai, então não podias contratar alguém? Agora tenho de carregar eu!
Fiquei sem palavras e perguntei comigo mesma porque é que a sogra não tratava de chamar alguém especializado? Será que ela vive num universo onde não existe serviços desses em Lisboa? O Tiago diz que ela prefere pedir a ele porque diz que os profissionais ali só querem sugar dinheiro e não resolvem nada.
O Manuel, já sem paciência, mandou logo uma boca: Se calhar a sogra é péssima com eletrodomésticos mas é ótima a pastora, porque saber conduzir ovelhas é com ela! O Tiago ficou logo incomodado com o pai e saiu porta fora. Eu nem tentei meter-me, porque achei que o Manuel tinha razão; estão sempre às custas do Tiago, que já virou técnico de tudo para a família da Matilde, mas para nós esquece-se completamente, nem tempo tem de cá vir.
Depois desta discussão, o Tiago não falou com o pai durante mais de duas semanas. O Manuel recusa-se a ser ele a dar o primeiro passo, e eu sinto-me ali, presa, entre a vontade de apoiar o Manuel e o medo de perder o Tiago por uma parvoíce. O Manuel está magoado, mas eu acho que podia ter dito as coisas ao Tiago de forma mais suave. Agora o Tiago está magoado, não quer ver o pai, e eu não quero perder o filho por isto.
O Manuel não quer falar com o Tiago, e o Tiago diz que só volta a falar com o pai quando este pedir desculpa. E quem sai a ganhar na história? Pois, a sogra. Está ótima, sempre com alguém a ajudar e nunca lhe falta nada! Eu cá continuo a sofrer, mas nem sei onde isto vai parar…







