A sogra da amiga…

A segunda sogra

Quando Ana entrou no apartamento, viu imediatamente as sandálias da sogra no meio do corredor. Ficou claro que não haveria descanso.

Fátima Vítoria apareceu da cozinha com a expressão de quem está prestes a fazer um interrogatório.

Voltou a incomodar essa velha? perguntou. Casa, marido, filho tudo isso parece estar a seu favor. Ainda bem que eu entrei, senão ficariam só com fome.

Fátima Vítoria, o Nuno sabia que eu iria me atrasar hoje. Preparei o jantar e ele só precisa esquentálo. Ele se vira bem sozinho, mesmo sem a sua ajuda respondeu Ana.

Nos dez anos de casamento com Nuno, Ana já tinha aprendido que a sogra nunca se contentava e que suas palavras passavam como rádio que toca o dia inteiro, sem que ela respondesse.

No início foi complicado. Fátima Vítoria tornouse a segunda sogra de Ana. A primeira, Maria Simões, era uma pessoa discreta. Nunca se intrometia na vida do filho, não dava conselhos não solicitados e não se impunha.

Mas, quando era preciso ajuda, estava presente. Ana lembravase de como a sogra ficava noites em noite ao lado da neta de três meses, Catarina, quando a menina confundia dia e noite; como vinha buscar a neta para passear e dizia:

Não faças mais nada agora, dorme. O Luís virá e preparará o jantar sozinho.

Quando Catarina completou cinco anos, o filho de Nuno sofreu um acidente na fábrica e Ana ficou viúva.

Maria Simões, que havia perdido o único filho, não abandonou a nora nem a neta. Nos três primeiros meses após a perda, moraram juntas, apoiandose mutuamente.

Ana propôs a Maria que continuassem a viver assim, mas a senhora mudouse para o seu próprio apartamento:

Ana, tens apenas vinteeoito anos. Ainda tens tempo de encontrar a tua felicidade. Por que eu deveria ficar aos teus pés?

Ana saiu de casa com Nuno há três anos, mas não se afastou de Maria. Os pais de Nuno viviam longe, então a primeira sogra tornouse quase uma mãe para ela, enquanto a avó de Catarina já não se ouvia mais.

Assim, o comportamento de Fátima Vítoria, que decidiu que tinha o direito de mandar na casa da nora como quem manda em casa própria, chocou profundamente Ana.

Depois da primeira visita da segunda sogra, Ana pediu ao marido que explicasse à mãe que ela só vinha como convidada e que, portanto, as visitas deveriam ser combinadas e o comportamento adequado.

Ao ouvir que Fátima Vítoria queria ajudar e agir com boas intenções, Ana respondeu:

Já não tenho dezoito anos. Quando deixei os pais, já era bastante independente.

E depois de sete anos de casamento, não preciso que me ensinem a cozinhar ou a limpar. Eu mesma posso ensinar muito a outros.

Se vieres, Fátima Vítoria, e percorreres os cantos com um pano branco, farei de ti uma auditoria.

Nuno sempre apoiou a esposa e, se a mãe, por vezes, confundisse as coisas, ele resolvia a situação.

Em suma, Ana ensinou a segunda sogra a não interferir na forma como conduzia a casa e criava os filhos. Quando, um ano após o segundo casamento, Ana tornouse mãe de um menino, Fátima Vítoria já não lhe impunha conselhos. Mas ainda assim, a sogra desejava intervir.

A sogra tinha uma amiga que lhe contava constantemente como educava a esposa do filho mais novo.

É claro que Fátima também queria partilhar algo com a amiga, mas não tinha o que ostentar. Contudo, havia um defeito: ela reclamava continuamente a Ana por visitar Maria Simões e ajudála.

Se ao menos essa velha fosse uma parente próxima! Quando a Catarina era pequena, a enviava ao campo da avó no verão dizia. Mas agora a menina está a estudar e a Ana ainda vai lá e volta, mesmo depois de tantos anos! Ela aparece duas ou três vezes por semana repetia à amiga.

No último ano, Ana esteve mais frequentemente na casa da primeira sogra. Fátima chamava Maria de velhinha, embora a diferença de idade fosse de apenas sete anos.

Mas a doença não tem piedade; Maria ficou gravemente enferma. Ana visitavaa tanto no hospital quanto em casa.

Gastas o dinheiro da família em pessoas alheias reprovou a sogra.

Não se preocupe, Fátima Vítoria, quando Maria ficou doente vendeu a sua casa de campo; tem recursos para o tratamento e não precisará pedir dinheiro a ninguém respondeu a nora.

Quando Maria ficou muito debilitada, Ana contratou uma cuidadora e tirou licença para ficar ao seu lado meiodia, enquanto o marido trabalhava e o filho estava na escola.

Mesmo assim, a situação só adiou a partida de Maria, que acabou por falecer.

Foi então que Fátima Vítoria manifestou grande interesse na herança da primeira sogra.

Ela vendeu a casa de campo, mas ainda tem dinheiro guardado. A pensão dela não é ruim; deve ter alguma poupança.

E o apartamento de dois quartos certamente ficará aos herdeiros refletia Fátima, mas Ana não lhe fez perguntas, temendo o que poderia ouvir.

Em vez disso, perguntou ao filho, que deu uma resposta pouco animadora:

A quem está o testamento? Naturalmente, à Catarina ele respondeu, pois é a neta biológica.

E a Ana? Por que luto tanto pela velha? exclamou a mãe, surpresa. Imagino o choro que virá!

Não se preocupe comigo afirmou Ana à sogra. Eu já sabia que Maria Simões deixaria tudo à Catarina; leveia ao notário há um ano.

Por que então te esforçaste tanto se nada te cabia? indagou Fátima Vítoria. Deixa que a Catarina cuide dela.

Eu explicaria, mas temo que não compreenderia respondeu Ana.

No tempo certo, a herança foi formalizada; Catarina recebeu toda a documentação do apartamento e a parte do capital.

Decidiuse que, enquanto a jovem estudasse e vivesse no dormitório, o apartamento seria alugado e o dinheiro transferido para a sua conta.

Quando Catarina terminasse a universidade, decidiria o que fazer: regressar à cidade natal e instalarse ali, ou permanecer no centro da região e vender o imóvel para comprar outro.

Ao saber que o apartamento seria alugado, Fátima Vítoria propôs:

Por que deixar estranhos entrarem? Só vão estragar alguma coisa. Que a Xúlia, a minha filha, viva lá enquanto isso.

Xúlia, de trinta e cinco anos, era a filha mais nova de Fátima e ainda morava com a mãe. Era bonita, com boa figura, tinha graduação, trabalhava e, de vez em quando, tinha romances, mas ainda não havia casado.

Fátima, naturalmente, preocupavase muito com a filha.

Por que Xúlia nunca encontra a felicidade? A Ana, viúva com filho, conseguiu atrair o meu Nuno! pensava a mulher.

Ela acreditava que, se a filha tivesse o seu próprio apartamento, conseguiria casar.

Não importa que agora o apartamento seja da Catarina ponderava. Em três ou quatro anos, pode acontecer de a Catarina encontrar um marido com casa, e então poderemos persuadila a dar o imóvel à Xúlia. Mas mantinha esses planos em segredo.

Que decepção sentiu quando Catarina recusoulhe a entrada no apartamento!

Ela não pagará o mesmo que os outros inquilinos dizia Catarina. Eu pretendo, no futuro, contrair uma hipoteca. Talvez me mude para Lisboa depois da universidade. Assim, os fundos serão acumulados.

Gananciosa, Catarina, só pensa em si! criticou a sogra. Se a Xúlia tivesse um apartamento, teria casado há três anos.

Mãe, a tua própria casa tem três quartos. Vendea, compra um de um quarto e dá à Xúlia sugeriu Nuno.

Interessante, não? irritouse a mãe. Este trêsquartos é meu, não há parte nenhuma de vocês nele. Por que devo viver apertada na velhice? Sempre vivi aqui e não pretendo mudar.

Não é o Nuno que está a ser interessante, mas vocês interveio Ana. Não querem sacrificar o seu próprio apartamento para a filha e ainda falam mal dos outros.

Assim, Xúlia ficou com a mãe. Catarina alugou o seu apartamento enquanto estudava, depois o vendeu e comprou outro no centro da região.

Ela também viajou à capital, mas apenas por uma semana. Como dizem, o belo está onde não estamos.

E assim termina a história, lembrandonos de que, embora os laços familiares possam ser complicados, o respeito mútuo e a generosidade são o verdadeiro alicerce para uma vida harmoniosa.

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