Manuel viaja de comboio numa tranquila quarta-feira, e o vagão está quase vazio. Uma senhora idosa sobe e senta-se ao seu lado, trazendo consigo o típico chapéu de palha, claramente a caminho da sua horta na aldeia, tal como Manuel e vários outros passageiros do comboio. Recordações da sua falecida esposa, Maria do Carmo, invadem-lhe a mente. Costumavam ir juntos à pequena quinta, mas desde que ela adoecera, Manuel evitava passar por lá, assombrado pela solidão e pela saudade.
Quando o comboio pára na estação de Évora, a senhora vira-se para Manuel e diz palavras que lhe arrepiam a espinha: “Hoje vai ser um dia bonito e cheio de sol. Vamos ter tempo de sobra para fazer tudo.” Eram exatamente as palavras que Maria do Carmo costumava dizer-lhe. Surpreso, Manuel acena e os dois começam a conversar, comentando sobre a fraca colheita daquele ano, sobre o inverno rigoroso e sobre as esperanças para o próximo verão.
Quando chegam à paragem do autocarro, Manuel percebe que nunca tinha visto aquela senhora antes. Caminham juntos durante uns metros, depois cada um segue o seu caminho. Ao chegar ao seu terreno, Manuel encontra tudo coberto de ervas daninhas, fruto da sua ausência prolongada. Contudo, a conversa com a senhora do comboio enche-lhe o espírito e inspira-o a explorar o espaço.
Com energia renovada, Manuel dedica-se a cavar os canteiros e arrancar as ervas. O prazer de ver a terra fértil leva-o a decidir não vender o terreno, pelo menos por agora. Aproveita a pausa para se sentar num banco e deliciar-se com umas sandes e um chá. A vista das suas flores favoritas, a balançarem ao vento, e as maçãs maduras debaixo da nova macieira, trazem-lhe agradáveis memórias.
O ânimo de Manuel melhora bastante e decide que vai voltar mais vezes à quinta. Ao apanhar cogumelos na mata, sente-se como se uma carga tivesse desaparecido dos seus ombros. Decide continuar, pois o trabalho dá alegria e propósito à sua vida.
No regresso, encontra novamente a senhora, com quem partilha maçãs e risos enquanto falam sobre as tarefas do campo. Ela assegura-lhe que ainda tem muita vida pela frente, incentivando-o a procurar no trabalho uma fonte de felicidade e sentido. Ao sair na sua estação, Manuel sorri para o pôr do sol, sentindo-se sereno, livre da tristeza que antes o dominava.







