A Saída da Tia (Conto)

Com isso, não vais tu, disse o Victor, sem sequer olhar para trás. Estava em frente ao espelho do hall, a ajeitar a gravata nova, azul-escura, de seda, comprada no mês passado por um preço que a Beatriz só ficou a saber porque procurava o talão do frigorífico. A sério.

Victor, é o aniversário da tua empresa. Dez anos. Sou tua mulher.

Pois, precisamente. Finalmente olhou para ela, e naquele olhar passou-lhe qualquer coisa que lhe cortou a respiração. Não era ternura. Era reconhecimento. Já tinha visto aquele olhar antes, há muito tempo. Só nunca lhe tinha dado um nome. És minha mulher. Por isso mesmo peço-te que fiques em casa.

Porquê?

Ele suspirou, lento, com aquela paciência de quem se sente obrigado a responder a perguntas estúpidas.

Bia. Vai estar lá malta importante, os sócios, empresários, talvez até jornalistas.

E então?

Tu Hesitou à procura da palavra e, quando a encontrou, doeu. Tu és uma senhora. Estás a perceber? Uma senhora normal. E olha para esse vestido azul com botões Lá vão estar mulheres com outro ar.

A Beatriz ficou de pé na soleira da cozinha, com um pano de loiça na mão, velho e desbotado. Olhou para o marido e interrogou-se em que momento é que aquilo se tornou normal. Quando foi que palavras dessas deixaram de exigir explicação?

Vais com a Leninha?

Ele nem pestanejou. Isso era o que metia mais medo. Nem zanga, nem atrapalhação. Só um olhar firme.

A Leninha é minha assistente. Está a tratar da organização.

Victor.

Bia, não comeces.

Só perguntei.

Não disseste só isso. Pegou no casaco com aquele jeito polido de sempre. Estás com insinuações. Como de costume. Estou farto.

A Beatriz assentou o pano de loiça no braço do sofá. Lentamente. Sentia as mãos a tremer um bocadinho e detestava que ele percebesse.

Está bem, disse. Pronto, Victor.

Assim é que é. Olhou-se ao espelho uma última vez, satisfeito com o que via. Os miúdos estão em casa?

A Marta está em casa da amiga. O Tomás anda na faculdade, chega por volta das oito.

Diz-lhe para não fazer barulho quando chegar, que eu entro tarde.

A porta fechou-se. A Beatriz ficou no hall, rodeada pelo cheiro do perfume dele, que em tempos gostava e que agora lhe parecia caro e estranho.

Foi para a cozinha. Pôs água a ferver para chá. Ficou a olhar para o vapor, a lembrar-se de há vinte e três anos atrás, de quando casou com um homem que a via de outra maneira. Gostava do riso dela, dizia-lhe que parecia um sino. Ela ficava sem jeito com isso.

A água ferveu. A Beatriz verteu-a para a caneca, deitou o saquinho de chá e seguiu com os olhos os laivos escuros que se diluíam na água.

Senhora. Chamou-a de senhora.

Tinha cinquenta e dois anos. Não cem, nem oitenta. Cinquenta e dois, e estava, enfim, aceitável. Não era capa de revista, mas não era aquela sombra que ele agora pintava. Tinha bom cabelo, castanho escuro, quase sem fios brancos graças ao cuidado que tinha com ela própria. Tinha mãos que sabiam fazer tudo: desde fazer bolos, a remendar cortinas, a acalmar filhos às três da manhã, a tratar da papelada da empresa dele quando andava todo perdido nos inícios do seu Monólito.

Quem lhe dava a mão nessa altura? Quem lhe fazia as contas de madrugada?

Senhora. Ora pois.

Não chorou. As lágrimas estavam ali perto, sentia uma pressão no peito, mas não vinham. Talvez porque não era a primeira conversa assim. A primeira foi há uns três anos, quando ele disse: Podias vestir-te melhor. Ficou magoada. Depois habituou-se. Depois aceitou. E hoje, ali estava, sozinha na cozinha, enquanto ele foi ao aniversário da empresa sem ela, mas com a Leninha, de vinte e oito anos, sem bolos no forno, sem panos velhos, nem vinte e três anos de vida em comum.

Estava a anoitecer devagar, naquela noite quente de Maio, com cheiro a jacarandás do pátio. Beatriz acabou o chá, lavou a caneca e foi ao roupeiro.

No fundo, atrás dos casacos de inverno, estava um vestido. Vinho escuro, de veludo. Comprara-o em saldo há três anos no Solar, o grande armazém, e vestira-o só uma vez em casa. O Victor viu-a, torceu o nariz e disse: Onde vais tu assim? Muito chamativo para a tua idade. Brega. Ela enrolou o vestido, guardou-o no fundo do armário, pensou em dá-lo a alguém. Nunca deu.

Agora foi buscá-lo. Sacudiu. O veludo era macio, quente, parecia vivo nas mãos. Beatriz encostou o vestido ao corpo e olhou-se ao espelho.

Não. Não era uma senhora qualquer.

Ouviu as chaves vindas do hall. O Tomás chegou. Ouviu-o descalçar os ténis, largar o casaco no sofá em vez de pendurar, ir até à cozinha.

Mãe, há jantar?

Tens hambúrgueres no frigorífico. Aquece.

O que fazes aí com o vestido?

Beatriz virou-se. O Tomás, alto e magricela, tinha as maçãs do rosto do pai e os olhos dela cinzentos, sempre um pouco cansados. O primeiro ano de faculdade estava-lhe a custar, dava para notar porque andava mais curvado, como se carregasse um fardo.

Estou a experimentar.

Fica-te bem, ele disse, mexendo nas panelas. Vais sair?

A Beatriz ficou em silêncio uns segundos.

Não sei ainda. Talvez não vá lugar nenhum.

O Tomás voltou, já com o prato e sentou-se, fitando-a com aquele olhar adulto, demasiado sério para a idade.

O pai foi ao jantar?

Sim.

Sozinho?

Não respondeu logo. Pendurou o vestido nas costas da cadeira.

Tomás

Mãe, eu sei. A voz foi baixa, sem raiva, só um facto. A Marta também. Nós já sabíamos.

Aí sim. As lágrimas vieram, não em choro, mas formaram um nó na garganta. Beatriz ficou a respirar, a olhar para a noite fechada fora da janela.

Como soubeste? Murmurou.

Vi-os na Primavera no café ao pé da Praça. Ele não me notou. E ele comia, sem levantar os olhos. Pensei que eram negócios, mas não. Percebe-se logo.

E não me disseste nada.

E tu o que farias?

Boa pergunta. O que teria feito? Simular que não sabia como fez tantas vezes. Três anos a notar coisas estranhas, a convencer-se que era imaginação. Psicologia de quem, depois dos cinquenta, começa a temer a verdade. Dá para escrever um livro.

Não sei, admitiu ela.

Nem eu.

Olhou para ela.

Mãe, ficas bem com esse vestido. A sério.

Beatriz olhou para o filho, o miúdo a quem ensinou a dar os atacadores, lia histórias, mandava para a escola com lancheira. Já com dezanove, já adulto, já via mais do que ela gostaria.

Obrigada.

Depois do jantar, Beatriz telefonou à Marta. A filha chegou já perto das dez, entrou como um furacão, rasto de perfume e de mochila cor-de-rosa debaixo do braço.

Mãe, que cara é essa? A Marta parou, analisando a expressão da mãe com aquela rapidez típica das miúdas de quinze anos. O pai disse-lhe alguma coisa?

Senta-te. Temos que falar.

As três sentaram-se à volta da mesa da cozinha, com chá. Beatriz contou. Não tudo, mas o suficiente. Do que Victor disse, do vestido, do que achava sobre a Leninha e a cara dos filhos dizia-lhe que estava certa.

A Marta ouviu a morder o lábio fazia isso desde pequena sempre que queria não chorar.

O pai chamou-te senhora? Perguntou, quando a mãe se calou.

Chamou.

Isso a Marta abanou a cabeça isso não se faz.

Não se faz, não.

E tu, mãe? Vais sair? Vais a algum lado?

Beatriz olhou para o vestido, pendurado.

Ainda não sei.

Nessa noite dormiu mal. Faltava-lhe algo, como se nem tivesse direito à própria cama larga onde cabia toda a sua vida. Pensou no passado. Vinte e três anos, uma juventude entregue à casa, aos filhos, ao homem. Trocou a profissão depois do Tomás nascer. Trabalhava num bom atelier no centro de Lisboa, era das melhores costureiras e a chefe, D. Ivone, gostava dela, dizia-lhe que tinha talento. Depois o Victor disse: Para quê trabalhar? Eu trato de tudo. Acreditou. E naquela altura ele tratava mesmo. Pensou então: é isto, é a vida boa.

Boa vida. Deitou-se de lado e ficou a olhar o tecto escuro.

O que sabia agora? Costurar, cozinhar, gerir a casa Ser invisível. Isso sabia fazer.

Não. Não ia pensar assim. Sabia costurar e não era pouco. Tinha mãos, cabeça e vinte anos de experiência, mesmo interrompida, porque nunca deixou de costurar, para ela, para os filhos, para a vizinha D. Teresa que dizia sempre que os vestidos da Beatriz batiam aos da loja.

Pensamentos rodavam. Adormecia e acordava, adormecia e acordava. Às duas e meia ouviu a porta. O Victor chegou. Ouviu-o na casa de banho, o correr da água. Depois deitou-se, não lhe disse nada, e passados minutos dormitava num respirar pesado.

Beatriz ficou muito tempo a olhar o escuro.

De manhã ele saiu cedo, já a comer em andamento.

Esta semana estou ocupado, não me esperes para jantar.

A porta bateu. Silêncio.

Beatriz tirou café, sentou-se junto à janela. Caía uma chuvinha fina, os jacarandás lá fora escureciam de folhas molhadas. Bebeu café e pensou. Calma, quase fria: talvez a dor suba tanto que se transforme em outra coisa. Em algo firme, claro.

O jantar era na sexta. Era terça-feira.

Três dias.

Foi ao telemóvel e escreveu para a Teresa. Teresa Martins, antiga contadora da firma, depois mudou-se de empresa, mas continuaram amigas, às vezes iam tomar café. Mulher prática, já nos cinquenta, olhos perspicazes.

«Teresa, conseguimos tomar um café hoje?»

Resposta rápida: «Claro. 15h, na Pastelaria Primavera?»

Beatriz: «Combinado.»

Estavam as duas na salinha, duas ruas acima de casa dela. A Teresa, com casaco cinzento, cabelo curto, olhar atento, ouviu tudo. Só interrompeu uma vez, quando Beatriz chegou ao senhora.

Portanto, ele disse mesmo isso, Teresa murmurou.

Disse.

E sobre a Leninha, já sabias?

Suspeitava há muito. O Tomás confirmou ontem.

A Teresa rodou a chávena.

Beatriz, digo-te isto como amiga: não fiques ofendida.

Diz.

Eu sabia. Olhou-lhe nos olhos. Quando ainda estava no Monólito, há dois anos. Vi-os juntos mais do que uma vez. Pensei em contar, não contei. Achei que era convosco. Enganei-me. Desculpa.

Beatriz ficou segundos sem dizer nada.

Está tudo bem, Teresa. Já não importa.

E agora, o que vais fazer?

Beatriz olhou-a.

Vou ao jantar.

A Teresa estudou-lhe a cara, depois anuiu, devagar.

Com os miúdos?

Com os miúdos.

Sabes que vai ser constrangedor.

Sei.

Vais mesmo enfrentar aquilo?

Vou.

Nova pausa.

Então, diz-me: que precisas?

Beatriz sorriu pela primeira vez em dois dias.

Preciso de alguém que me ajeite o cabelo. Sozinha não consigo.

Na véspera, a Marta sentou-se com ela à frente do tocador, a pentear-lhe o cabelo devagar, com um cuidado de cerimónia. O cabelo castanho, puxadinho, tinta fresca para nivelar o tom.

Mãe, não tens medo?

Um bocadinho.

O pai vai zangar-se.

Se calhar.

E tu, o que dizes?

Nada. A Beatriz olhou-se ao espelho. Não preciso dizer nada. Só preciso entrar.

A Marta prendeu a última madeixa e afastou-se para ver o resultado.

Está lindo, mãe. És mesmo bonita, só te esqueceste disso.

A Beatriz virou-se e abraçou a filha, apertado e longo. A Marta correspondeu, surpreendida.

O vestido esperava na cama. Veludo vinho, suave. A Beatriz vestiu-o devagar, subiu o fecho atrás, pediu à Marta ajuda. Olhou-se ao espelho de corpo inteiro.

Uma mulher desconhecida, ou melhor, uma mulher esquecida, antes de ter começado a conformar-se.

A maquilhagem fez sozinha, sem exageros: máscara, um batom cor ferrugem pálido, já antigo mas favorito. Brincos de ónix negro, presente da mãe.

Mãe, o Tomás chamou, avisou da entrada. O táxi já está.

Vou.

Beatriz pegou numa mala pequena, preta, antiga mas boa. Foi para o hall.

O Tomás olhou-a.

Uau.

Uau mesmo, disse a Marta logo atrás.

Beatriz vestiu o casaco. As mãos ainda tremiam. Percebeu e obrigou-se a abrandar. Calma. Só calma.

Vamos, disse.

O Hotel Estrela do Norte era dos bons. Não o melhor de Lisboa, mas de gente importante. O Victor escolheu-o por questões de estatuto: sala grande, tecto alto, catering próprio. Beatriz tinha ido lá uma vez, há uns oito anos, num casamento, lembrava-se do chão de mármore, candelabro imenso.

O táxi parou à porta. Beatriz saiu, ficou um segundo nas escadas, puxando o ar fresco da noite de Maio com cheiro a tílias do jardim.

Mãe, murmurou o Tomás estamos contigo.

Eu sei. Pegou na mão da Marta. Vamos.

No átrio já havia alguns convidados atrasados, a correr para o andar de cima com crachás no peito. Beatriz avançou com serenidade. Um jovem porteiro veio ao seu encontro.

Boa noite. É para o evento do Monólito?

Sim. Sou mulher do Victor Mendes. Estes são nossos filhos.

O porteiro hesitou um instante, depois anuiu.

Por favor, segundo andar, salão Âmbar.

O salão estava cheio. Gente bem vestida, copos de vinho, perfumes caros, petiscos, risos, música baixa. Beatriz parou à entrada, sentindo olhares. Era estranha. Sabia-o. Aquelas pessoas conheciam o Victor Mendes e o seu estilo recente, muitos deles talvez já soubessem da Leninha. Mas ninguém conhecia a esposa.

Vês o pai? A Marta cochichou.

Ainda não. Olhou com calma. Vamos encontrá-lo.

O Victor estava no fundo, junto a uma mesa de petiscos. Conversava com dois homens de fato escuro; um deles, Beatriz reconheceu o Dr. Jorge Meireles, parceiro antigo do Monólito, homem grande e de respeito. O Victor temia-o ou admirava, nunca percebeu a diferença.

A Leninha estava lá também.

Beatriz viu-a pela primeira vez ao vivo, mas já sabia quem era. Nova, alta, num vestido azul justo, cabelo impecável. Bonita. A Beatriz observou quase como quem vê o tempo: uma miúda bonita, vinte e oito anos. A mão pousada no braço do Victor com aquela leveza habitual que fere mais que palavras.

Ali está o pai, disse a Marta, surpreendentemente estável. Está com aquela senhora de azul.

Beatriz avançou.

Caminhou pelo salão, pausada. Alguns olhavam-na. Alguém se afastou. Não desviou o olhar, fixou o Victor.

Ele viu-a a três metros. A cara dele mudou. Abriu ligeiramente a boca. Depois cerrada. Os olhos frios.

Bia, murmurou. O que fazes aqui?

Vim ao aniversário da tua empresa disse ela, suave. Dez anos. Data importante.

O Dr. Meireles olhou de um para o outro, e de novo para ela.

Dona Beatriz! disse, calor e surpresa na voz. Quantos anos! Está muito bem.

Boa noite, doutor Jorge. Sorriu-lhe. O mesmo para si.

A Leninha recuou discretamente. A mão saiu do braço do Victor.

A Marta, que vinha um pouco atrás, chegou-se à frente. Quinze anos, olhos escuros, postura direita. Olhou a Leninha com aquela franqueza de criança que os adultos não suportam porque é mesmo verdadeira.

Pai, começou a Marta, voz serena mas bastante audível. Porque é que estavas a abraçá-la? Não é mãe.

No espaço ao redor pareceu baixar o volume da música. Os homens com o Dr. Meireles trocaram olhares. Uma senhora com colar de pérolas virou-se.

O Victor ficou branco, mesmo com bronzeado.

Marta tentou ele isso é trabalho, eu explico

Pai, já não somos bebés, replicou a Marta, igual. O Tomás e eu já o percebemos há muito.

O Tomás estava calado, mãos pendentes, só a encarar o pai.

O Dr. Jorge pigarreou, largou o copo.

Victor disse, e naquele Victor cabia tudo: o aviso, a reprovação, o antes e o depois. Vejo que têm assuntos de família. Depois falamos.

Aplaudiu a Beatriz com aquela cortesia de outro tempo e afastou-se com os colegas.

A Leninha murmurou:

Vou ver do catering, desculpem.

E desapareceu pelo fundo do salão.

O Victor e Beatriz ficaram sós, sem contar os filhos. Ele olhava-a com um misto de raiva e confusão. Já não era cansaço agora Beatriz via claro. Perdera o controlo.

Bia, murmurou, tu viste o que fizeste?

Vim celebrar o aniversário da tua empresa, repetiu. Dez anos. Uma data importante.

Pegou num copo de champanhe do tabuleiro ao lado. Borbulhas a subir em fila.

Podiavas ter ficado em casa, disse ele, mais baixo. Como te pedi.

Podia. Mas não fiquei.

Olhou-o: naquele instante tudo ficou claro. Não era raiva, nem glória. Claridade. Olhava para o homem do fato caro, botões de punho e gravata que pagou sem ela saber, para aquele com quem dividiu a vida, a comida, os filhos, e só pensava: tantos anos perdidos.

Vou brindar à tua empresa, disse. E vou-me embora. Os miúdos estão cansados.

Virou-se para os filhos.

Vamos, chamou, baixinho.

Saíram pelo salão e Beatriz sentia os olhares todos nas suas costas curiosos, de pena, de crítica. E deixava-os ficar. Não era que não lhe doesse. Simplesmente, não doía mais que o que já tinha doído.

À porta, o Tomás passou-lhe o braço.

Foste corajosa, mãe.

Só vim, respondeu ela.

Vieste. Isso é ser corajosa.

Em casa, tirou o vestido com cuidado, pendurou-o bem. Lavou a cara, deitou-se. E, pela primeira vez em semanas, dormiu profundamente até às nove.

O que se passou depois foi lento, mas inevitável, como as primeiras chuvas na Primavera. Não no dia seguinte, mas nas duas semanas após o jantar. Beatriz foi sabendo ao poucos: por amigos comuns da Teresa, pelos comentários da Marta, que leu mensagens do pai enquanto carregava o telemóvel na cozinha.

O Dr. Jorge Meireles recusou assinar o novo grande projecto. Não disse logo que não, mas arranjou maneira de fazer chegar o recado, pela via diplomática. Depois do jantar ligou a dizer para já não, vai-se pensar. Homem de princípios família para ele significava alguma coisa e o que viu ali tirou-lhe o respeito por Victor Mendes. Não era a amante. Amantes, há. Mas levar uma para um evento público em vez da mulher isso, não perdoava.

Com o Meireles começaram os outros. A reputação demora anos, a perder-se são dois dias. O conselho da firma começou a fazer perguntas complicadas sobre decisões recentes. As contas, afinal, não estavam tão certas, contratos tinham ido por fora. Não era só sobre a Leninha e o vestido. Quando uma peça sai, tudo abana.

A Leninha saiu do Monólito três semanas depois do jantar. Calada, sem escândalo, só um papel de saída. Victor andou com ar perdido uns dias.

Depois, chegou a casa, sentou-se à mesa. Beatriz pôs-lhe um prato de sopa e saiu da sala. Ele ficou lá muito tempo, ela ouvia-o suspirar.

Nessa noite chamou-a:

Bia. Temos de falar.

Temos. Mas diz-me: queres falar mesmo, ou só que eu te ouça?

Ele demorou a perceber a diferença. Depois pareceu perceber. Baixou os olhos.

Desculpa, murmurou ele.

Beatriz estava sentada de frente, as mãos pousadas calmas no colo. Não tremiam. E pensava: demasiado tarde. Não por raiva. Porque o perdão precisa de algo vivo e isso há muito morreu entre eles. Secou durante os anos e desde aquele senhora.

Ouvi, disse apenas.

Não era perdão. Ele entendeu.

Ela própria começou o divórcio, passado um mês, calma, com um advogado da zona recomendado pela Teresa. A casa foi partilhada. Os miúdos ficaram com a mãe. O Victor não discutiu isso, pela primeira vez.

Enquanto o processo seguia, Beatriz abriu o seu próprio atelier. Pequeno, duas salinhas, no bairro ao lado. Demorou a decidir. Uma padaria seria até mais fácil, mas as mãos queriam agulha e tecido mais do que bolos. A D. Ivone, a chefe do antigo atelier, já reformada, respondeu pronta à chamada: Bia, já devias era ter feito isso há anos.

Sabe bem e sabe a pena também. Há dez anos não tinha coragem. Agora tinha.

Os primeiros meses custaram muito. O dinheiro chegava devagar, clientes eram poucos, trabalhava das oito até às nove, chegava a casa com dores nas costas e giz debaixo das unhas. A Marta vinha às vezes depois das aulas, fazia os trabalhos num canto, almoçava sandes e perguntava sobre cores e tecidos. Revelou-se com olho para aquilo, escolhia tons instintivamente e às vezes dizia coisas certeiras para a idade. Beatriz guardava isso, sem decidir nada já.

O Tomás passava as dele. O Victor tentou algumas vezes convocá-lo, chamava-o para cafés. O Tomás ia, voltava calado. Uma noite comentou:

Ele quer que eu o compreenda.

E tu?

Não compreendo quem sente vergonha da própria mulher. E olhava pela janela. Mãe, tu sempre foste normal. Sempre.

Obrigada, filho.

Falo a sério.

Ficaram em silêncio.

Estou com problemas com a Raquel, disse-lhe, de repente. A minha namorada.

Beatriz ergueu o olhar.

Ela diz que depois disto tudo não sabe que tipo de pai serei. Que tem medo de repetir a história.

Isso não é teu fardo. Nem dela, na verdade.

Eu sei. Ela é que não.

Beatriz pensou, a escolher as palavras.

Dá-lhe tempo. Que veja por ela própria. As palavras não chegam, só o tempo.

O Tomás acenou, pouco convencido. Aquilo durou meses, com altos e baixos, e a Beatriz preferiu não se meter. Os filhos têm de ter espaço para cair e levantar-se. Isso aprendeu tarde mas aprendeu.

O atelier foi crescendo aos poucos. Ao fim de um ano, já tinha clientes fiéis. Um ano e meio depois, chegaram as primeiras encomendas de vestidos de noiva. Beatriz contratou uma ajudante, a Lena não confundir com a Leninha , miúda jeitosa, de mãos leves e feitio especial. Davam-se bem. Percebiam-se com um gesto.

A Teresa vinha às vezes, tomavam chá entre moldes e agulhas, falavam da vida, dos filhos, do que realmente interessa. Num desses dias, a Teresa disse-lhe:

Sabes porque gosto de ti? Não guardas rancor.

Às vezes zango-me, admitiu Beatriz.

Não. Ficas aborrecida. Rancor destrói e tu já passaste por isso.

Beatriz pensou. Concordou.

A Marta, aos dezassete, decidiu que queria estudar design. Não fez escândalo, não exigiu, só apareceu com uma pasta de desenhos e pôs à frente da mãe. A Beatriz demorou a folhear. Tinha ali algo vivo, tosco, mas com visão.

É isto, disse-lhe. É para isso que serves.

Não te importas?

Não. É teu. Sabes isso melhor do que eu.

A Marta sorriu, com reserva mas com aquele calor.

Mãe. Mudaste.

Mudei?

Antigamente perguntavas: E o que dirá o pai? E se as pessoas falam? Agora já não.

Beatriz olhou-a.

Aprendi tarde.

Não foi tarde. A Marta fechou a pasta. Está tudo bem contigo.

Talvez tenha sido o melhor que ouviu em anos. Melhor que elogios, melhor que flores. Apenas está tudo bem contigo dito olhos-nos-olhos.

O Victor, via-o pouco. Às vezes ia buscar os filhos, levava o que esqueciam. Tinha dias em que parecia ainda aguentar o ar de antigamente, outros nem tanto. Ela soube por conhecidos que o Monólito mudara de chefia. Agora, lá, fazia de gestor de projectos, de segunda linha. Foi uma queda. Mas Beatriz já nem pensava nisso. Tinha outras coisas.

O verão do terceiro ano pós-divórcio foi ótimo. Quente, longo. O atelier mudou para uma loja maior, agora com três costureiras. Beatriz sentava-se no fim do dia na varanda do apartamento novo, separado da velha casa, isso também foi um passo cheio de peso. Bebia chá, via o sol a pôr-se. Não sempre na maior parte das noites estava ocupada mas quando respirava, sentia só: está bem assim. Não era uma felicidade de novela. Era estar bem. Sossegada. Cansada. Mas bem.

Nesse outono, ele apareceu.

Viu-o pela montra do atelier, enquanto revia um esboço e bebia café. O Victor, à porta, hesitante. Percebeu logo que envelhecera não por tempo, mas por dentro, como os homens que perdem chão. Os ombros caídos. O fato bom, mas já fora de moda.

Ela saiu.

Victor, disse. Entra.

Sentaram-se na salinha para clientes, mesa, duas cadeiras, jarro de flores secas. Beatriz fez chá, ficou algum tempo em silêncio.

Estás bem? Perguntou ele.

Estou. Muito trabalho, mas bem.

Soube. Olhou-a de frente. Foste corajosa, Bia.

Ela não respondeu. Manteve a chávena nas mãos, modo que já era dela.

Bia Hesitou. Eu queria dizer pensei muito.

Pensaste, repetiu ela, neutra.

Fui injusto. Em muita coisa. Agora vejo.

Victor.

Espera. Olhou para ela. Foste boa mulher. Seguraste a casa. Os filhos. Eu não vi. Ou vi e achei que era garantido. Achei que tinha de ser assim. Pausa. Enganei-me.

Beatriz olhou-o: não era já o homem novo, nem só o que lhe chamou senhora, nem só o que depois ficou sentado em silêncio com o prato de sopa frio. Era tudo no mesmo rosto. Ela sabia.

Estou a escutar, disse.

Pensei que Parou. Não, é parvo.

Fala.

Pensei que talvez não era para começar tudo de novo, mas podíamos ver-nos. Falar. Estou sozinho, Bia. Mesmo sozinho.

Silêncio.

Beatriz pousou a chávena. Olhou para a janela: céu cinza, folhas no passeio, uma bicicleta presa ao poste. Olhou para ele, enfim.

Victor, disse. Já não estou zangada contigo. Já passou. Lamento foi os anos. Não por ti, mas pelos anos. Que fossem assim.

Bia

Deixa continuar. Suave, mas firme. Não estás sozinho, tens filhos. Eles vêem-te. Sabes isso. Continuam teus filhos. Pausa curta. Agora, eu não posso ser aquilo que procuras. Não sei o quê companhia, hábito, para não estares só. Mas não posso.

Porquê?

Ela pensou, não para o magoar, mas para ser clara.

Porque, pela primeira vez, sou eu própria. Disse-o simples, como deveria ser. E levou-me demasiado tempo para cá chegar. Não volto atrás.

Ele ficou a olhar para a chávena, que nem tocara. Depois fez que sim, devagar.

Entendo.

Sei que entendes.

E com os miúdos

Isso é contigo. A tua responsabilidade, não minha. Vai ter com eles. Fala com eles. O Tomás sofreu com tudo isto, mas está aberto. Se fores verdadeiro, ele perdoa-te.

O Victor levantou-se. Endireitou o casaco gesto tão familiar para ela. Tantos anos a vê-lo fazer isto.

O vestido fica-te bem, disse ele de repente.

Beatriz baixou os olhos. Hoje era outro vestido, azul-escuro com gola simples feito por ela, no inverno passado.

Obrigada, Victor.

Ele saiu. Ouviu a porta do atelier.

Ficou ali mais uns minutos. Silêncio leve naquela salinha pequena, os desenhos na ponta da mesa, chá quase frio.

Depois levantou-se, levou a chávena ao lava-loiça, lavou. Voltou à mesa, pegou no lápis e mergulhou num novo esboço.

A Lena apareceu à porta.

Dona Beatriz, chegou a próxima cliente.

Diz-lhe que já vou, respondeu, sorrindo.

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