A reformada Dona Lília (ou, como todos a chamavam, Lila) Dmitrieva suspirou profundamente e, com grande esforço, conseguiu virar-se para o outro lado. As articulações doíam-lhe, as pernas estavam muito inchadas. Ela estava cansada de ir a consultas nos hospitais, cansada de tantos tratamentos.

A dona Hermínia Rodrigues, como todos a conheciam no bairro, soltou um suspiro profundo e virou-se, com dificuldade, no sofá da sala antiga. As articulações doíam-lhe, as pernas estavam inchadas, parecia-lhe já não aguentar mais idas ao Centro de Saúde, nem tratamentos que nunca acabavam.

Vivia sozinha. Nunca casara. O filho nascera muitos anos atrás, fruto dum amor de juventude. Nessa tarde, enquanto recordava saudosa os tempos antigos, ouviu a campainha da porta. Custou-lhe levantar-se, mas foi abrir.

À entrada estavam o filho, Álvaro, e a nora, Margarida. Entre eles, Miguelito, o netinho de quatro anos, agarrava com força um carrinho pequeno. E, junto deles, um cão enorme.

Mãe, é só por uns dias. Temos de ir ao Porto resolver tudo de vez. O Miguel e o Fidalguinho vão ficar contigo, daqui a cinco dias voltamos e levamo-los, está bem? explicou o filho depressa.

Mas eu estou doente, nem consigo sair balbuciou dona Hermínia, apoiando-se à ombreira.

Não havia outra hipótese. O Miguel e o cão não podiam passar oito horas de viagem connosco, até o Porto. A minha mãe já lá está disse Margarida, e desatou a chorar.

O neto também chorou, e o cão suspirou. E foi aí que Hermínia percebeu: “Tenho de fazer um esforço!”

A doença tinha-se declarado há cerca de meio ano.

Ainda só contava sessenta anos, mas era frequente ver gente de idade com bengalas pelas ruas da cidade. A saúde às vezes trai de um dia para o outro.

Hermínia soube que a sogra da nora, Dona Irene, falecera de doença grave. O sogro, senhor Joaquim, partira havia muito. Agora, a mãe de Margarida também partia assim, de repente, tão mais nova que ela.

Álvaro e Margarida partiram. E Hermínia ficou com o pequeno e o cão.

O neto enlaçou o pescoço do cão gigante, que o limpava com lambidas cuidadosas.

Oh Miguelito Este não morde? Porque escolheram um cão tão assustador? Não podiam ter trazido um caniche? Que raça é esta? perguntou Hermínia, atrapalhada.

Avó, ele é bulldog inglês. Chama-se Fidalguinho! É muito amigo! disse Miguel, acariciando o cão.

E terá de o passear, não? teve um aperto no peito.

Hermínia nunca criara cães. Só gatos, mas já há muito que tinham partido.

Sentiu tristeza pela Dona Irene, mas o pensamento de lidar com uma criança cheia de energia e um cão enorme deixava-a inquieta.

Ele come carne, come arroz E temos de sair agora, avó! É hora do passeio! insistiu Miguel, já a calçar as botinhas.

Hermínia nem se recordava de como saiu à rua. O neto pôs-lhe a trela na mão, pegou-lhe na outra e assim foram.

Já não saía à rua havia uma semana, de tão mal que se sentia. Mas agora avançava, apesar da dor, e rezava baixinho por forças. Só ela podia cuidar deles. Só ela.

O Fidalguinho caminhava sereno. Nem uma vez puxou a trela, não ligava aos outros cães que ladravam ou corriam.

Hermínia acabou por admirar o cão. E sentiu-se orgulhosa ao passar, de coluna direita, junto de vizinhas sentadas no banco a comentar a vida alheia.

Ora, tens visitas? Mas não disseste que estavas doente e quase sem andar? Como consegues tratar de um miúdo pequeno e desse bicho? Vais acabar por piorar, mulher! berrou a Zézinha do terceiro andar, de janela aberta.

Hermínia sentiu a mão do neto apertar mais, e o Fidalguinho pareceu até lançar-lhe um olhar reprovador.

Calem-se, línguas de trapo! Não é inveja por não terem netos convosco? Pedi ao Miguelito para vir para cá! E olhem que o cão é um campeão de exposições, é de raça! Não falem do que não sabem. O meu filho e a Margarida foram ao Porto despedir-se da sogra, não foram de férias, se tanto querem saber! atirou Hermínia, apressando o passo, esquecendo as dores.

Não ligues a essas conversas, Miguel! A avó está sempre feliz por te ter aqui! disse-lhe depois, abraçando-o, ao subir para casa.

Avó Prometes que não vais para o Céu como a Dona Irene? A Mãe e o Pai disseram que ela vive agora lá. E também já está o avô Só ficas tu Avó, não me deixes! Gosto tanto de ti! pediu, chorando, o Miguel, agarrado às pernas da avó.

Ora, meu querido! Não chores! Ainda te vou fartar de ouvir! Não vou a lado nenhum! Levo-te à escola, ao liceu, espero por ti da tropa! Avó estará sempre ao teu lado, Miguelito! apertou o neto junto ao peito.

Com esforço, fez o jantar. Foi ao minimercado. À noite passeou com o Fidalguinho, que andava com a mesma fleuma de sempre.

Quando tudo estava em silêncio e o neto e o cão dormiam, foi tomar os remédios. O corpo doía como se tivesse andado a cavar todo o quintal. Ainda assim, lembrava-se das palavras do neto, do medo dele ficar sozinho.

Ó meu Deus, ajuda-me! Alivia a minha dor, não por mim, mas por este miúdo, peço-te! rezava Hermínia.

No dia seguinte, brincaram aos carrinhos. Hermínia deu consigo a gatinhar pelo chão com Miguel, coisa que já não fazia há anos. Cozinhavam juntos papas para o cão. Depois deram banho ao Fidalguinho, que se sujara nas poças.

Hermínia, sem dar por isso, beijou o focinho do cão.

E eu que achava que eras assustador! Que beleza e meiguice! És um verdadeiro companheiro! dizia, limpando o cão.

Miguelito, por que este nome? perguntou, curiosa.

O neto riu.

Ele adora almôndegas, avó! E na verdade o nome dele é Tadeu, mas Fidalguinho fica melhor! replicou, com graça.

Os dias passaram a correr. Ouviram histórias, o Miguel até mostrou à avó no tablet como ver contos animados.

Aprenderam letras, formavam palavras, e o cão adorava dormir na poltrona, pedindo gelado ou queijo.

Mãe, como vais aí? Desculpa termos-te deixado assim Vamos demorar mais uns dias. Nem sabemos como conseguiste aguentar o Miguel e o cão! disse Álvaro, numa mensagem aflita.

Estou ótima! Nem digas disparates! Eu sou avó, tenho de aguentar. Fiquem quanto precisarem. Dá força à Margarida, ela precisa agora. Quanto a mim, não te preocupes. Com boa vontade tudo se resolve! respondeu Hermínia, animada.

Quando Álvaro e Margarida regressaram a Lisboa, imaginavam uma mãe acabada, arrasada. Como teria ela suportado aquilo?

Vê, Álvaro Não é a tua mãe ali? Mas está a correr! exclamou Margarida, incrédula.

É mesmo ela! Que surpresa! balbuciou Álvaro.

No pátio, Hermínia corria desajeitada atrás da bola, coisa que já não fazia há gerações. Atrás dela, aos risos, Miguelito e o Fidalguinho.

Na hora de ir embora, o pequeno agarrou-se à avó e chorou.

Miguelito! Avó vai ver-te daqui a duas semanas, combinado? Vamos ao café, às diversões, anda lá! Espera por mim! disse Hermínia, pegando-o nos braços, braços que até há poucos dias mal conseguiam levantar uma chaleira.

Mãe! Ele é pesado! reclamou Álvaro.

Deixa estar! Espera por mim, Miguelito! Hás de ver que tudo vai correr bem! Até breve, Fidalguinho! riu-se Hermínia.

Ela é minha vizinha. Contou-me tudo isto, muito tempo depois. Durante muito ficou sem andar, gravemente doente. Mas, um dia, levantou-se e voltou a mexer-se até hoje todos no bairro se espantam.

Fui curada pelo Miguel e pelo Fidalguinho. Ainda tenho uns achaques, mas nada de mais. Não nos devemos deitar à espera de milagres: o segredo é não ter pena de si. Os médicos ajudam, mas o amor faz milagres. Pensei: se cair na cama, quem vai cuidar deles? E assim, levantei-me e comecei a andar de novo! Porque eles precisam de mim!

Tenho por quem viver! Por isso, mesmo quando custa, levantem-se e caminhem! Pelas mãozinhas dos netos pousadas com confiança nas vossas. Não há nada melhor!

Façam-no pelos vossos filhos, maridos. Pelos vossos animais, também precisam de vocês!

Peçam a Deus, reúnam coragem, não há impossíveis! E não deixem de saborear cada dia da vida! aconselhou dona Hermínia, para todos nós.

Se gostarem das nossas histórias, deixem um comentário e um gosto é o que nos faz continuar a escrever!

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A reformada Dona Lília (ou, como todos a chamavam, Lila) Dmitrieva suspirou profundamente e, com grande esforço, conseguiu virar-se para o outro lado. As articulações doíam-lhe, as pernas estavam muito inchadas. Ela estava cansada de ir a consultas nos hospitais, cansada de tantos tratamentos.