– A quem você se dirige?

Querido diário,

Hoje, enquanto o sol se espalhava sobre a varanda da casa da minha avó, Dona Maria da Silva, eu e o meu primo Nicolau saímos para observar a figura que se aproximava. Quem é? perguntei-lhe, curiosa, enquanto a brisa da primavera soprava suave. Sou a neta da Dona Maria, melhor dizendo, a bisneta. Sou a filha de João, filho mais velho da Dona Maria.

Dona Maria estava sentada num banco de ferro, banhada pelos primeiros raios de calor da estação. Finalmente chegou a primavera, e só Deus sabia como ela havia sobrevivido ao inverno rigoroso que se passou. Não aguentarei mais um inverno! pensou ela, soltando um suspiro de alívio. Não temia mais a caminhada; ao contrário, aguardava este momento com ansiedade. Já tinha colhido muitos feijões, comprou roupas novas e, de fato, já nada a prendia ao mundo.

Um dia, ela refletiu sobre a família que um dia teve: o marido, o senhor Fernando Pereira, um homem alto e trabalhador; quatro filhos três rapazes e uma rapariga chamada Filomena. Viviam em harmonia, ajudandose mutuamente, raramente discutindo. Aos poucos, cada um cresceu e seguiu o seu caminho.

Os dois filhos mais velhos foram para a universidade e depois dispersaramse por Lisboa, Porto e Faro, em busca de emprego. O filho do meio, que na escola não se destacara, acabou por fundar um pequeno negócio de artesanato que o levou ao estrangeiro, onde ainda reside. A filha, Filomena, também deixou a aldeia, mudouse para Lisboa, casouse e estabeleceuse numa rua cheia de azulejos.

No início, as visitas à casa da avó eram frequentes. Escreviamse cartas, depois, com a chegada dos telemóveis, começaram as chamadas. Um a um, os netos foram se mudando. Dona Maria, de vez em quando, empacotava a sua velha mala surrada e partia para visitar algum dos filhos como babá de emergência.

Com o tempo, as crianças cresceram e tornaramse independentes. As chamadas tornaramse raras, e os convites para visitas, ainda mais escassos. O trabalho, as próprias famílias e as preocupações diárias mantinhamnos distantes. O único motivo que fez alguém regressar à casa da avó foi a notícia do falecimento do pai de Fernando, o senhor Joaquim. Parecia que um homem tão vigoroso viveria até cento e poucos anos, mas a realidade foi outra.

Depois do funeral, os filhos se dispersaram novamente. A mãe tentou telefonar, mas os contactos foram desaparecendo. Dona Maria tentou ligar sozinha, mas percebeu que já não era mais o seu lugar; então recuou. Esse foi o padrão dos últimos dez anos: um filho, de vez em quando, lembravase dela e fazia uma chamada, e ela passava a semana a sorrir para si mesma.

Num certo dia, enquanto descansava na mesma varanda, ouvi um jovem à porta: Boa tarde, tia Maria! exclamou ele, sorrindo. Lembrase de mim? Perguntou ele. Dona Maria piscou: Nicolau! É isso mesmo? respondeu, confusa. Sim, tia! exultou o rapaz e entrou no quintal.

Nicolau era filho de vizinhos que nunca passavam fome. Sempre lembravase dele como a criança eternamente faminta que eu alimentava com pedaços de pão e roupa que sobrávem dos filhos. Quando os pais de Nicolau faleceram, ele foi recolhido por um orfanato e, depois, alistouse ao serviço militar e estudou. Agora, regressava à pequena pátria com a intenção de reviver a aldeia.

O que há de fazer lá? gesticulei, meio descrente. Todos foram embora! respondeu ele, firme. Não se preocupe, não vou desaparecer!

Assim começou uma nova fase para a avó. Nicolau encontrou trabalho com o senhor António, o maior agricultor da região. Nos tempos livres, reparava a casinha que herdara dos pais e ajudavaa nas tarefas do pomar. Dona Maria, que nunca se referia a ele como filho, começou a chamálo meu netinho. Passaramse três anos tranquilos.

Um dia, Nicolau chegou à varanda, dizendo que precisava partir: Vou embora, tia Maria. O senhor António está a exigir mais trabalho, mas não paga. Vou procurar outro emprego. Não se magoe! disse ele, despedindose. Vai com Deus, meu rapaz! respondi, tentando não demonstrar tristeza.

Novamente, a casa ficou vazia. Às vezes, a solidão apertava o coração, e quisesse chorar, mas algo sempre a sustentava.

Então, numa manhã de outono, ouvi novamente a voz familiar: Boa tarde, tia Maria! O mesmo tom alegre ecoou. Olhei por sobre a cerca e vi Nicolau, agora alto, bem vestido, a entrar na casa. Voltei! exclamou ele, radiante. Cheguei!

Correndo para a cozinha, gritei: Venha, venha, Nicolau! Já preparo o chá! E ele respondeu, rindo: Chá vai bem! Não trouxe nada, mas já estou a caminho de casa.

Sentámonos à mesa, com chá servido em xícaras de porcelana decoradas, e falámos sem parar. Estou a pensar em partir para o outro mundo, Nicolau disse a avó, com uma lágrima a escorrer. Não pense nisso! replicou ele, de modo brincalhão. Vou ficar aqui, avó, e juntos vamos prosperar! Vou investir o que ganho e expandir o nosso pequeno negócio. Não há razão para me ir.

Nesse momento, ouvimos um som delicado: Alguém está em casa? A voz pertencia a uma jovem vestida com um casaco curto e sandálias de salto. Era a minha prima Vera, neta de João, filho de Maria. Ela havia ligado antes, mas o telemóvel estava desligado, então decidiu vir a pé, esperando que a sorte a guiasse até aqui.

Entre, entre disse a avó, ainda um pouco aturdida, enquanto Nicolau apanhava a mala da moça. Vera, com um sorriso tímido, explicou: Não gosto da vida na cidade. Quero viver no campo! Os meus pais não entendem, mas o meu avô, o João, sugeriu que eu ficasse aqui alguns meses. Ele disse que se eu gostasse do campo, ficaria para sempre. Ele, o meu pai e eu tentámos ligar, mas a linha estava sempre ocupada. Tenho dinheiro, e o avô enviounos uma quantia para me sustentar. Vou estudar à distância e depois partirei.

Fique o quanto quiser respondeu Dona Maria, com um brilho nos olhos. Para mim já basta ver você feliz!

Passouse um mês. Vera cavava o solo com destreza, mostrando que a vida na aldeia não a assustava. Com a ajuda de Nicolau, revirou o pomar abandonado, dividiuo em canteiros, instalou uma estufa e comprou mudas aos vizinhos, plantando tudo com entusiasmo.

Nicolau, por sua vez, usou o dinheiro que ganhara para iniciar a construção de uma quinta moderna, contratando trabalhadores para reparar o telhado da casa da avó e instalar aquecimento central, substituindo o velho fogão a lenha.

Dona Maria não desgrudava o sorriso. Sentiase novamente parte de algo maior, não mais sozinha. Só de vez em quando, uma sombra de melancolia passava quando lembrava que Vera estava prestes a partir de volta para a cidade. Já se acostumara ao carinho da bisneta.

Como vou ficar sozinha com o pomar, Vera? suspirou a avó, embalando uns pãezinhos para a viagem da neta. Não se esqueça de encher o barril de água. O Nicolau regará tudo! disse Vera, rindo. E eu volta

Vais voltar, não vais? perguntou a avó, esperançosa. Claro que volto! Não consigo sair daqui! Ameite, avó, de todo o coração. E o Nicolau fezme um convite! Casamento no outono! Onde eu estaria sem ele? Ele é gente do campo!

Um ano depois, a avó descansava ao sol, balançando um carrinho de bebé com o bisneto a dormir tranquilamente. Vera e Nicolau estavam a trabalhar na quinta, que florescia e ajudava a aldeia inteira a prosperar.

Observando o pequeno que dormia, a avó pensou: Ainda não chegou a hora de partir. Ainda preciso de ajudar os meus filhos, os meus netos e a terra que me sustenta.

Assim concluo, querido diário, que a vida, como o ciclo das estações, traz novos começos quando menos esperamos. Aprendi que, mesmo quando tudo parece escuro, um gesto de bondade ou o retorno de quem amamos pode reacender a esperança. A lição que levo comigo é: nunca subestime o poder da união familiar e da perseverança; são elas que mantêm nosso coração aquecido, mesmo nos invernos mais rigorosos.

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