No outro lado da porta, estava um desconhecido.
Desde o tempo da escola, o Vasco era completamente apaixonado pela Mafalda. Escrevia-lhe bilhetinhos e tentava captar a atenção dela de todas as formas possíveis.
Mas a Mafalda gostava era do Diogo, um rapaz alto e loiro, que jogava voleibol com ela na mesma equipa.
Ao contrário do Diogo, o Vasco era desajeitado e tinha dificuldades nos estudos, por isso a Mafalda nunca lhe dava muita atenção.
Pouco tempo depois, o Diogo começou a namorar com a Andreia, uma rapariga da turma ao lado.
Depois do secundário, o Vasco tentou, novamente, aproximar-se da Mafalda.
Até teve a ousadia de lhe fazer um pedido de namoro no baile de finalistas…
Mas ela recusou de forma direta Não! Nem queria pensar naquela possibilidade.
Já depois da faculdade, a Mafalda arranjou trabalho como contabilista numa firma no Porto. O chefe dela era um homem bonito, já com uns quarenta e tal anos, cabelo escuro e voz firme.
Ela admirava-lhe o profissionalismo, a presença, a inteligência.
Os dois acabaram por se envolver e a Mafalda não se incomodava nada por ele ser casado e ter um filho ainda pequeno.
O Valter Ramos prometia-lhe várias vezes que se ia divorciar e jurava que era só a ela que amava.
Passaram anos. Mafalda habituou-se a passar fins de semana e feriados sozinha, sempre à espera que Valter tomasse finalmente uma decisão, para ficarem juntos.
Certo dia, Mafalda viu Valter com a mulher no supermercado.
Ela estava grávida e ele segurava-a pela mão com carinho. Depois pegou nos sacos e seguiram para o carro.
Mafalda viu tudo aquilo com lágrimas nos olhos.
No dia seguinte, pediu a demissão.
Aproximava-se o Ano Novo e ela não tinha vontade para ir às compras, decorar a casa ou receber a festa.
Voltou para casa e deu com um frio insuportável. O aquecedor da vivenda não funcionava.
Tentou arranjar um técnico que viesse arranjar o aquecedor, mas com as festas toda a gente pedia uma fortuna, especialmente quando diziam que tinham de ir para fora da cidade.
Desesperada, ligou à melhor amiga. O marido dela trabalhava na área talvez pudesse ajudar.
A Lara prometeu perguntar ao marido de imediato.
Duas horas depois, a Mafalda ouviu a campainha.
No limiar da porta, estava um homem inesperado, mas ao reparar atentamente, reconheceu o Vasco, seu colega da escola.
Olá, Mafalda! Então, queres contar-me o que se passa aqui?
Como é que tu soubeste disto?
O chefe ligou-me, pediu para vir cá ver, que aqui estava mesmo muito frio. Já despejaste a água do sistema para não rebentar com as baterias?
Não tenho ideia nenhuma de como se faz isso.
Ena… Assim ainda ficavas sem aquecimento por completo. Felizmente, isto não está noite gelada.
O Vasco rapidamente esvaziou a água do sistema, mexeu no aquecedor, depois foi comprar umas peças essenciais.
Não demorou muito até o calor voltar à casa da Mafalda. O Vasco lavou as mãos e comentou:
Mafalda, tens uma torneira a pingar e o candeeiro do corredor anda aos saltos… O teu marido não se chateia a consertar?
Eu não tenho marido nenhum
Não? Então ainda perguntavas tanto pelo homem ideal?
Isso já lá vai… Não tenho ninguém confessou, de repente.
Então porque me recusaste naquele dia? o Vasco sorriu.
Ela ficou sem resposta.
Depois de arranjar a torneira e trocar a lâmpada, ele despediu-se e foi à vida dele.
A Mafalda ficou ali parada, a lembrar-se do passado das brincadeiras da infância, e do rapaz rechonchudo que tanto gostava dela.
O Vasco tinha mudado muito. Agora era um homem alto e elegante, olhos castanhos vivos, mas o sorriso de sempre.
Nem lhe deu tempo para perguntar se era casado.
No dia 31 de dezembro, alguém tocou de novo à campainha.
Mafalda, surpreendida, foi abrir não esperava visitas.
O Vasco apareceu à porta, vestido de fato novo, com um ramo de flores na mão.
Mafalda! Pergunto outra vez. Queres casar comigo, ou preferes ficar à espera do príncipe até à reforma?
A Mafalda chorou e acenou, emocionada.
À segunda tentativa, o pedido foi aceite…
Hoje, percebo como a vida pode dar voltas inesperadas. Às vezes, o que procuramos há anos está bem à nossa frente, só precisamos de coragem para voltar a tentar.







