Acho que o meu irmão não fez uma escolha muito feliz ao casar-se. Ao início, tentei manter uma relação cordial com a minha cunhada. O meu irmão e a mulher dele chegaram a viver comigo e com a minha mãe, em Lisboa, durante algum tempo. Acabei por mudar-me para um quarto mais pequeno, a minha mãe passou a dormir na sala e demos o quarto principal ao meu irmão e à esposa. Mas a Andreia, desde logo, fez questão de mostrar pelo comportamento que estava acima de nós. Era filha de um professor universitário, sempre fez questão de se gabar disso. A mulher do meu irmão nunca achou que fosse da sua conta limpar a casa ou cozinhar, justificando-se que não era nenhuma empregada. Quando Andreia engravidou, disse que precisava de sossego absoluto. A minha mãe é pacífica e nunca quis criar confusão, por isso aguentou tudo calada. Eu nem podia combinar de trazer amigos a casa, porque, segundo Andreia, a casa era dela.
Andreia exigia comida especial e silêncio total. Agora a minha mãe tinha de cozinhar pratos diferentes para ela e para nós. Várias vezes tentei convencer a minha mãe a não ceder tantas vontades à minha cunhada, que ficava cada dia mais arrogante. Quando a data do parto se aproximava, a esposa do meu irmão insistiu que o bebé tinha de ter um quarto próprio. Queria que eu fosse dormir para a sala com a minha mãe. Não aguentei mais. Andreia desatou a chorar, a gritar, como se alguém lhe tivesse provocado um parto prematuro. O meu irmão tomou logo o partido da mulher e ainda me chamou de imaturo. No fim, a minha mãe pediu ao meu irmão para resolver a situação da casa. Acabaram por se mudar. Não soube quando nasceu o filho deles, nem quando o menino foi batizado. A minha cunhada só avisou que não queriam presentes, mas que seria melhor oferecermos dinheiro. Até anunciou o valor pretendido.
A minha mãe disse logo que não podia dar tanto dinheiro. Resultado: proibiram-nos de visitar o bebé. A minha mãe ficou abalada, mas, mais tarde, começaram a trazer-nos o miúdo eles próprios. Por vezes, a própria Andreia deixava o filho connosco quando queria ir ao café com amigas ou fazer as unhas. Mas, ao buscá-lo, era sempre com críticas. Ou estava mal vestido, ou tinha comido o que não devia. Quando a criança fez um ano, o meu irmão e a cunhada vieram cá a casa. Disseram que tinham de resolver de vez a situação da casa. Como não conseguiam crédito para comprar um apartamento, a minha cunhada decidiu ir trabalhar e deixar o bebé comigo durante o dia.
Tu estudas na faculdade de educação, portanto até te dá jeito para prática. Está difícil vivermos só com o salário do teu irmão. Mas não temos como te pagar. E as aulas? Podes transferir-te para um curso pós-laboral, temos de nos ajudar, disse a Andreia.
Naturalmente, recusei.
Não consegui explicar ao meu irmão que os problemas de casa deles não eram da minha conta. Porque é que eu havia de sacrificar os meus estudos por causa de terceiros? Depois ainda tive de ouvir a minha cunhada reclamar que não queria saber do filho dela.
Andreia chamou-me egoísta e jurou que nunca mais punha os pés na nossa casa. Seis meses passaram sem notícias deles. Um dia, o meu irmão apareceu sozinho. Afinal, a mulher tinha arranjado trabalho e lá conheceu outro homem. Acabou o casamento e ainda lhe pediu a pensão de alimentos.
Agora, chantageia o meu irmão com o filho se ele paga a pensão, vê o menino. Se não paga, não volta a vê-lo. Só que esse segundo homem de Andreia também não queria casar-se com ela, porque já era casado. Por isso, a ex-mulher do meu irmão ainda mora num apartamento arrendado, que continua a ser pago pelo meu irmão. O meu irmão pediu-nos desculpa e prometeu que, da próxima vez, vai pensar melhor antes de escolher com quem casar.
A vida ensinou-me que, por muito que tentemos ajudar a família, não podemos deixar que nos pisem ou sacrifiquemos a nossa felicidade pelos outros. Toda a gente merece respeito, mas não à custa da própria dignidade.







