NORA
14 de abril
Hoje foi um daqueles dias que deixam qualquer coração de mãe balançado de emoções e lembranças. Passei a manhã toda a preparar o jantar de domingo a família toda vinha cá, os meus rapazes com as noras. Decidi fazer um pato assado, daqueles mesmo suculentos, e pus a travessa a fumegar no centro da mesa, que decorei com todo o cuidado.
O mais novo casou-se há pouco tempo, e a cerimónia foi modesta. Pois, agora a juventude opta por assim; uma celebração simples, só com quem importa. Eu, confesso, teria feito algo em grande. Quando casei com o António, nem festa houve uma ida ao Registo Civil e estava tratado. Só conseguimos comprar as alianças, simples, um ano depois. Sonhava era mesmo poder dar aos meus filhos um casamento inesquecível, mas cada um sabe de si.
A nora mais nova, a Leonor, é um doce de rapariga, com boas maneiras, daquelas que dá gosto conversar e que tratam o sogro e a sogra com o respeito que se quer. O meu filho, o Gonçalo, anda outro desde que está com ela: arranjou trabalho de jeito, deixou a moleza e, finalmente, começou a olhar para o futuro. Durante tanto tempo vivia sem ambições, a receber tudo pronto, e eu francamente começava a ficar preocupada. Mas nada como uma mulher sensata ao lado.
Há apenas um senão na Leonor é demasiado arranjadinha! Está sempre perfeita: o cabelo impecável, unhas arranjadas, vai a salões de beleza, faz massagens, tudo e mais alguma coisa. Não me sai da cabeça que uma mulher casada devia primeiro pensar na casa, nos filhos (quando os houver), no marido só depois, nela própria. E quanto dinheiro se gasta nessas vaidades! Em vez de uns sapatos novos para o Gonçalo, vai gastar em manicure? Não é assim que me ensinaram.
Eu própria sempre deixei as minhas necessidades para o fim. Depois do António morrer, continuei a ajudar os meus filhos em tudo o que podiam mesmo já crescidos, o dinheiro fazia-lhes falta e jamais pensava em mim.
Os meus pensamentos foram interrompidos pela campainha chegaram os jovens. A Leonor entrou como uma estrela: penteado de revista, mãos irrepreensíveis, maquilhagem quase nenhuma, mas dava para ver que é obra de quem sabe o que faz.
Leonorinha, estás tão bonita! disse-lhe, não disfarçando uma pontinha de crítica. Esse conjunto é novo, não?
Comprei ontem, com o bónus de trabalho, sorriu ela, cheia de orgulho.
Senti necessidade de partilhar a velha sabedoria das mães portuguesas:
O melhor é ires pondo algum de parte. Nunca se sabe o dia de amanhã!
Ela não respondeu. Gosto dela, é franca e bem-intencionada, mas tenho para mim que às vezes se vive o dia negro porque passamos a vida a preparar-nos para ele.
De resto, o convívio correu bem. Ainda assim, tentei puxar com tacto o assunto dos gastos supérfluos aposto que a Leonor percebeu que falava para ela.
Dona Ana, há quanto tempo não faz um tratamento de beleza? perguntou-me, de repente.
Eu? hesitei. Nunca fui. Só trato das mãos em casa para estarem limpas. Para mim, basta.
Ninguém mais deu importância ao diálogo, mas a verdade é que a pergunta me ficou. Pensei no quão pouco olhei para mim em toda a vida. Criei dois filhos que, graças a Deus, têm a vida encaminhada e, mesmo assim, continuo a sentir que não mereço gastar um tostão em mim.
No regresso, a Leonor questionou o Gonçalo:
E a tua mãe, faz alguma coisa por ela?
Ela gosta de cozinhar, vai ao café com as vizinhas, vê novelas. Não lhe faz falta mais nada.
Mas a Leonor não ficou convencida. Comparou-me à mãe dela, sempre com corte de cabelo novo, vestido elegante, e que nunca deixava de comprar o passe do teatro municipal.
E, nos dias a seguir, a Leonor telefonou-me e insistiu em passearmos juntas, tomar um café, e até me sugeriu irmos as duas ao salão. Ela ia à esteticista e propôs-me fazer uma massagem ou manicure.
Ora essa, menina! Vai lá tu, que eu espero cá fora.
Mas pode vir, metade de uma hora passa num instante. Fazia-lhe bem, Dona Ana, experimente!
Acabei por ceder. A Leonor avisou o salão para me receberem como uma rainha e disse-lhes para não me falarem de preços ela tratava de tudo.
Quando lá entrei, ainda hesitei:
É só um bocadinho, sim? E já agora, quanto é que isto custa?
Respondeu uma simpática funcionária, dizendo que aquele dia era especial: quem trouxesse amiga, não pagava nada.
Enquanto a Leonor se sentou com o telemóvel, eu lá fiquei entregue aos cuidados das profissionais. Quando dei por mim, já tinham passado duas horas, sentia-me leve, lavada por dentro e por fora. Serviram-me café, chá de ervas, trataram-me como uma princesa.
Depois, fomos as duas até à pastelaria mais próxima. Pedi um café com leite, daquelas chávenas grandes, e sentámo-nos à conversa.
Que tal fazermos disto um hábito? propôs a Leonor. Quando se é cliente, há sempre descontos.
Olhe, gostei muito. Afinal, isto não é um capricho vazio, é puro prazer. Deviam ensinar logo cedo.
E porque nunca experimentou antes?
Enfim os filhos eram pequenos, o meu António era muito austeros, tudo era uma despesa desnecessária.
Mas agora pode!
De vez em quando, sim, por tua causa.
E assim, nos fomos aproximando. A Leonor ia comigo aos salões, sugeria roupas novas (dizia-me valores pela metade para eu não refilar). Convenceu o Gonçalo a levar-me a jantar fora, depois fomos todos juntos ao cinema, e no Natal recebi como prenda dela um passe para a temporada do Teatro Nacional.
Até as minhas vizinhas repararam e disseram:
Dona Ana, está com outro ar!
E eu, orgulhosa e algo envergonhada:
É graças à juventude, que nos leva atrás!
Hoje parece-me que, só agora na reforma, comecei realmente a sentir o que é viver a juventude uma mãe de dois homens adultos, finalmente a aprender a cuidar de si.
