A Mulher de Pedra
Levaram Dona Amália Cabral para o hospital de ambulância, depois de a encontrarem estatelada numa poça daquelas que só Janeiro em Lisboa consegue oferecer: fria, parda e pegajosa. Não havia ânimo sequer para se levantar, quanto mais caminhar pelo Rossio fora. Uns senhores compadecidos e algo atónitos com o porte da senhora lá a içaram para dentro da ambulância e seguiram a trote até às Urgências do Hospital de Santa Maria.
A Dona Amália, toda ela uma monumentalidade em fato de calça mala de pele no colo, brincos de prata pesados a puxar-lhe as orelhas e maquilhagem a dar ênfase aos olhos de peixe e ao beiço generoso chegou sentada na cadeira de rodas, porque de maca recusou-se peremptoriamente. Quando voltou a si, deu logo um raspanete ao condutor, por cheirar a tabaco que até fazia impressão, ralhou com a enfermeira, acusando-a de lentidão, e proibiu terminantemente o puto de estágio de sequer encostar um dedo nela.
Também nem queria! murmurou o rapaz, amuado.
Vá, meu menino insolente, meta-se comigo e logo vê quem toca em quem! atalhou ela, instalando-se melhor na cadeira. Depois, com ares de coruja brava, ajeitou a bolsa, enrugou o sobrolho franzido ao meio da cara de granito mal talhado e vasculhou a sala com olhos de quem fiscaliza de surpresa.
O rosto, percorrido de capilares exigentes de camadas de base, revelava um mapa de rugas acentuadas pelo calor e suor do hospital. Andemos, andemos. Aqui não posso esperar, está um corrente de ar medonha! anunciou, olhando para o corredor apinhado.
A rececionista nem piscou, etiqueta imaculada ao peito, arrancou os papéis ao enfermeiro e despachou-o, dizendo que a Dona Amália ficava agora entregue a quem lá estava.
Crise hipertensiva, perdeu os sentidos na rua não bateu com a cabeça a tensão agora debitava o estagiário.
Tá bem, Rui. Vá, desaparece, que isto já está pior que a estação de São Bento! A enfermeira, igualzinha a ele nas feições, com certeza mãe do bacano.
É preciso dar um empurrãozinho à família, pensou Amália, absorta.
A cabeça latejava mais que bateria em desfile de Carnaval, os braços caíam-lhe mortos no colo e a mala, tida como um mundo, quase trepava do colo para o chão. Força para a apanhar? Só se viesse dos santos. Nem falar lhe animava. A língua, inchada, seca, colada ao céu-da-boca. Sede era tudo o que lhe restava.
Dêem-me por favor um pouco de água pediu alto, embora sem destinatário certo, mas ninguém ligou.
Ao lado, senhores e senhoras empurravam macas, faziam perguntas, mexiam em gente meio inerte. Os médicos zigzagueavam em bata branca, estetoscópio ao pescoço a escapar pela gola, a ler papéis entre duas portas, a despachar doentes numa salinha ao fundo. Enfermeiras por aqui e além, atarefadas mas indiferentes à presença de Amália.
Quem é Cabral? Onde está Cabral? perguntou uma médica, como Amália pensava delas.
Sou eu respondeu e repetiu mais alto, porque já havia hábito de não a ouvirem. Sou eu!!
Pronto, cá está o frasco para as análises, WC naquele corredor, sangue a seguir. Tire esse chapéu, não estamos na Serra da Estrela!
Mal se lembrava de que ostentava um chapéu peludo, ao estilo de personagem de comédia antiga. Logo entendeu por que pingava suor testa abaixo.
Desfez-se do chapéu à pressa, embicou-o na mala cheia de dossiês e papéis. Amália Cabral, diretora de uma empresa de renome em vidros e caixilharias, não viera fazer turismo ao hospital. Tinha negócios, orçamentos, prazos e stock para despachar. Não era para se pôr em cama.
A enfermeira pôs-lhe o frasquinho das análises entre as mãos.
Sempre foi assim: mulher grande, robusta, forte como o Douro em cheio. No colégio já intimidava de tamanho, na adolescência cresceu mais do que as colegas e, em adulto, só mesmo no desporto se sentia igual entre iguais. Tensão de disco? Jogue-se, lance-se peso, vai tudo ao calhas! Só dor se acumulou no ombro para o resto da vida. Tropeou em amores confundiu galanteria barata com paixão genuína e daí umas feridas mais ao coração. Mas de lá fez-se rocha. Mulher de pedra, murmuravam.
Começou pelas gestões em prédios, aprendeu num instante, adaptou-se com a viragem dos tempos vieram as empresas, as reformas, o rebuliço. Na obra ninguém a punha de lado. Com os operários era respeitada, muitos até achavam que fosse homem, de tão imponente. Só mais tarde a levavam a sério porque era das suas. Exigente e dura mas, no essencial, justa.
A empresa Janelas Para o Mundo foi a sua menina. Quem ali mandava era ela: dura por fora, pragmática, nunca para festas ou chá das cinco, mas dava aos seus braço e amparo. Mandava a consultas, sugeria restaurantes, obrigava a exames, distribuía prendas no Natal, tudo menos vestir-se de Mãe Natal porque isso, numa senhora com a minha figura, é ridículo.
Sabia de tudo gravidez da secretária antes de ela comprar o teste, marido ausente de outra, filhos a entrar ou não na faculdade. Quando era preciso, ajudava. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.
Sem amigas chegadas, tornara-se mais fácil assim: sem mágoas coladas às costas, sem biliardas de sussurros pelas costas. Se despedia alguém, era porque já tinha alternativas para ele. Se não aceitasse, problema dele, as mãos dela ficavam limpas.
Tirano? Antes um comboio de alta velocidade a fazer Lisboa-Porto. Quem se atravessasse, era atropelado sem apito nem compaixão. Comboio e tudo por causa do seu vagão favorito: o filho, Tiago. A razão de todo o esforço.
Aqueles que não aguentavam a pressão iam-se, mas esses eram poucos, ainda mais em tempos de precariedade: ao redor de Amália formou-se um núcleo duro de fiéis à sua direção uma muralha humana.
Agora, deitada numa enfermaria de hospital, só podia rogar para que não deixassem deslizar os acordos com fornecedores.
O quê?! Ah, tirem-me daqui, não vou fazer nada disso! Atirou o frasco ao chão. Tenho crise hipertensiva, preciso é deitar-me! Sabem ler ou quê?
Menos barulho, pá! interveio um senhor desmazelado, ligando-se à conversa. Se quiser, faço por si, mas o chapéu é para mim! Olhe que, para mim, mocetonas como a senhora são um encanto!
Ajude-se a si mesmo! disparou Dona Amália, afastando-se com a cadeira de rodas até bater nas paredes recém pintadas.
Oiça lá, minha senhora, está a estragar a parede! foi o repto de uma funcionária farta da vida, ferrando a ver se ela de facto pertencia ali. Luz, esta é tua?
Ninguém é de ninguém! Tenho de sair daqui. Qual é a morada deste hospital, preciso de chamar um táxi!
Mas onde vai? Sente-se, o médico vai vê-la já! respondeu da mesma maneira a quem há pouco era essa.
Mas Amália já ligava discretamente.
Tiago? Maria, passa-me o teu pai! O tom de Dona Amália era habitual. Isto é importante. Estou no hospital, tenho reuniões amanhã. Preciso do Tiago.
Não gritava, não precisava. Era só explicar o necessário, voz segura, facts na mesa. Maria, a nora, foi ao WC, bateu à porta.
Oi mãe, está no hospital gritou.
Já vou, aguarda dez minutos! Tiago desligou a água do duche, mas virou costas. Sabia perfeitamente o que a mãe queria, mas se ainda telefonava, era porque estava viva. Dez minutos não matariam ninguém. Que espere.
Lembrava-se bem: se era mãe, era em modo executivo. Chegava a casa, dava um visto aos trabalhos de casa, emendava o necessário de lápis e mandava-o corrigir até ficar perfeito. Depois, explicava ao de leve para que servia estudar futuro, filho, futuro. Nunca gosto de ti, nunca és o melhor. Mordeu a língua com isso?
Aos 19, Tiago já tinha feito as contas: ela não o amava, era só obrigação parental pôr comida, pagar explicações, dar-lhe acesso ao que ela não teve. Amor, nada.
Voltando ao hospital: Amália percebeu que Maria rematou um ele liga depois, daqui a dez minutos.
Sou de ninguém. Nada de ninguém concluiu, melancólica. Era de si. O filho ligava quando quisesse; a nora temia abdicar do sofá para se tornar em cuidadora da senhora-montanha. Melhor assim. Nada de amarras.
Tentou pôr-se de pé, encostou-se à parede a cadeira fugiu e Amália foi ao chão feita saco de batatas. Lá se foi o frasquinho, mala de marca esbarrada no ladrilho, chapéu a aconchegar-lhe a face.
Bolas! gritou o senhor de ar de sem-abrigo, correndo a ajudá-la, metendo-lhe sub-repticiamente o porta-moedas no bolso e o anel de âmbar ao dedo.
Esse homem era-lhe vagamente familiar Seria do bairro? Velho amigo? Não conseguia recordar
Já só ouvia ao longe: Mantenham-se à direita, mantenham-se à direita
Normalmente, Amália ia de carro para o escritório, sempre com o motorista, o senhor Romão, fiel escudeiro que a levava há anos do Campo de Ourique até ao Parque das Nações. Ao menor sacão, Romão abria a porta, compunha-lhe o casaco, fechava e punha logo o noticiário ou música clássica a tocar. Era assim desde sempre.
Naquele dia, porém, Romão ficou retido no estacionamento: um camião do lixo, em manobra arrojada, deixou-lhe o pára-choques feito acordeão.
Ó Dona Amália, chamo já um táxi! Isto hoje está de génio, até parece sexta-feira 13! Romão, de mãos à cabeça.
Não preciso. Vou de metro. E lá foi, a senhora imensa de chapéu de pelo e mala a lazer pelo Campo Pequeno fora.
Entrar no metro de Lisboa é uma experiência. Gente à molhada, apinhada de cá para lá, todos apressados, sempre alguém a gritar mantenham-se à direita! e foi o que a Dona Amália fez, à risca.
Agora, deitada na enfermaria, cheirando a medicamento, perfume barato e, inexplicavelmente, a torradas de manteiga e bolachas de canela, deixava-se estar. Não era hábito, mas o corpo mandava.
Recordou a noite de Natal em que comprou uma grinalda de luzes para o filho. Tristão, de olhos ainda inchados do recreio do Jardim de Infância, vestia o seu fato motard encarnado, mas fingia indiferença só para não exibir emoção perante a mãe.
O que trazes na caixa? perguntou Tiago, curiosidade fingida de adulto em miniatura.
Uma coisa maravilhosa: luzes para a nossa árvore! Vai ficar lindo!
No percurso para casa, Tiago sonhou com as luzinhas a iluminar a árvore magra do hall. No dia, nada de luz. Festival natalício gorado. A mãe meteu tudo para trás do armário, como quem varre emoções debaixo do tapete. Só dias depois recuperou o espírito de Natal graças a uns senhores da oficina. Mas o momento tinha passado ainda para mais, Tiago ficou doente, nunca contou aos amigos da turma.
E agora, enquanto via as luzes difusas da avenida indiferente do outro lado da janela dos Olivais, sentia-se apagada. Lâmpada fundida.
Entra a enfermeira, toda ela em farda cor-de-rosa, uma miniatura junto ao dólmen que era Amália.
Feche os olhos, vou tirar-lhe a máscara de pestanas, senão arde nos olhos. Não abra, espera!
Mãos frescas, algodão húmido no rosto e a mulher de pedra desfaz-se inteira de ternura. Tão raro, esse vagar.
De súbito, um rasgão de memória: mãe lavava-lhe a cara em menina, no colo do pijama de flanela, paninho húmido, cheiro a limpeza e ar da Serra de Sintra. Amália quis resistir, mas a enfermeira insistiu.
Deixe-se estar, tem de descansar. Está exausta, mulher. Só um bocadinho, olhe, já está, o cabelo, vou ali ajeitar-lhe as travessas.
Amália choramingou e procurou a mala para pagar o mimo. Mas o porta-moedas? Evaporado. Como da outra vez, há mais de vinte anos, quando lhe abriram a mala no metro e além do dinheiro levaram a foto do Tiago em pequeno, uma moeda de um escudo de coleção tantas vezes acarinhada, e o roteiro de compras para o jantar. Chorou como criança, não pelas notas mas pela perda a primeira mala de couro azul, o orgulho de negociante, agora com cicatriz irreparável.
E agora, outra vez roubada. Suspeitava do amigo do átrio. Mas pouco podia fazer.
Não se mexa, vou buscar o tensiómetro garantiu a enfermeira.
Amália adormeceu, engolida por um sono espesso, como molengar em mousse de chocolate do bom.
Tiago saiu da casa de banho e esqueceu-se da mãe. Maria, preocupada, tentou ligar-lhe mas Amália já não atendia. Maria sugeriu procurar a mãe. Tiago, entre goles de cerveja e trocos de amendoim, observou que a minha mãe é daquelas que até já deve ter cama reservada nos Cuidados Intensivos, fica descansada.
De facto, Dona Amália sempre amou com ações: trocou janelas na escola do filho; pôs obras nas casas de amigos, pagou-lhe o melhor Ginásio da Amadora, deu-lhe Erasmus a Paris e fez da Maria a nora quase filha: roupa de marca, consultas de ortopedia, roupa de lençol para os netos mas nunca um gosto de ti.
Quando Tiago anunciou casamento, Dona Amália só disse: “Óptimo”, pagou o restaurante, comprou vestido à Maria. Nunca festa de arromba e tradição, só qualidade e eficácia.
Agora, deitada no hospital, Amália ressuscitava uma solidão antiga. Não deixava ninguém entrar. Maria era nora, não filha e de resto, não queria confusões.
O telefone tocou das finanças, dos fornecedores, dos clientes: Amália atendeu três chamadas, depois avisou que estava internada. Procurem o adjunto. Fez-se silêncio.
Entregaram-lhe camisa de noite e robe do hospital: ridículo, mas esta era a nova farda, os sapatos de salto arrumados debaixo da cama, a lingerie rendada (única extravagância, encomendada a dedo por não haver tamanho cá) escondida pela camisa desbotada.
A vizinha de cama olhava para Amália de alto a baixo e ela, desconfortável, puxou a manta.
A enfermeira veio cravar a veia para sangue, telefonema atrás de telefonema trabalho, sempre mais, como se estivesse no escritório.
A enfermeira voltou.
Liguei para sua filha, vem cá hoje, Maria, não desanime, recupere, fique deitada.
Não é minha filha, é nora, e duvido que
Vai, prometeu. E eu sou a Catarina, lembra-se? Dividimos cama no hospital, um dia murmurou a enfermeira, baixita e franzina.
A revelação chocou Amália: recordou-se. Catarina foi a única que esteve com ela na maior desgraça único aborto, único segredo, o único homem que lhe disse que era bonita. Ficou só, suportou tudo. Catarina, agora enfermeira, sentou-se ao lado, partilhando alegrias e tristezas em resumo.
Rápido passou a manhã, pequeno-almoço, o ronco ritmado da vizinha, D. Zita, devoradora de torradas, sempre debaixo de nervos porque o marido estava noutro piso do hospital.
Amália foi à copa buscar chá para Zita, reparou no linóleo descascado, nos armários gastos, nas janelas a precisar de mãos de mestre tinha de trazer ali o Joaquim para lhes dar jeito nisto Já ia, de pantufas, distribuir chá pelas doentes, dona de todo o hospital naquele momento.
Entrou Maria, ar engraçado de avental azul descartável, sacos de supermercado pendurados em cada mão, galochas de borracha aos pinotes.
Ora viva, ando a chamar, não vou para aí berrar! Vim ver a Dona Amália! Largou o saco aos pés da cama. Zita anuiu, sorridente, e voltou ao seu quinhão de bolachas.
Não era preciso, Maria, vou tratando de mim
Ora essa! a nora mergulhou no saco. Pijama, roupão, camisola quentinha, higiene, bolinhos do Pingo Doce. Nem as cuecas vos trouxe, que não cabiam!
Dona Amália, toda uma montanha portuguesa, sentiu a franja tremer, o peito a oscilar de emoção debaixo da camisa de hospital.
Ó tia, deixe-se disso! Maria fugiu em busca do médico.
Amália ficou imóvel a olhar para o leito, para as roupas, para a vida que, de repente, parecia colar-se toda numa peça só, menos fragmentada e dolorosa.
Nessa noite chorou sem saber se de alívio, se de exaustão.
No dia seguinte, surpreendentemente, devolveram-lhe o porta-moedas, o anel. O ladrão, soube-se, morreu de ataque cardíaco era o Nuno Borges, antigo atleta, um dos poucos que lhe dissera uma vez que ela era linda. Mentiu, ela acreditou. Agora, ele partira ela permanecia.
E de pedra, Amália não tinha nada: era só uma mulher muito grande, feita de vida dura, que um dia deixou de saber ser leve. Mas agora, com Catarina, Zita, Maria com neto a caminho, com primavera à espreita, com negócios e janelas e promessas de esquecer não mais o dizer gosto de ti talvez reaprendesse a ser carne e osso, e deixasse o granito para as estátuas dos Descobrimentos.
