A minha sogra exigiu que eu trabalhasse mesmo doente, mas desta vez disse um não firme e defendi os meus limites

Dona Judite, a sério, hoje não consigo mesmo, estou muito mal sussurrou Mariana, quase sem forças, com os olhos semicerrados devido à luz intensa que invadiu o quarto juntamente com a sogra.

Não consegues? o tom da senhora soava como corda retesada. Pois olha, gostava de saber quem consegue então. Eu na tua idade, com quarenta graus de febre, estava a trabalhar na fábrica. Ninguém tinha pena de mim. E cá estou eu, sobrevivi!

Mariana tentou erguer-se, mas a cabeça rodopiava tanto que voltou a recostar-se, sentindo a testa húmida de suor frio. O termómetro de manhã acusava 38,7 graus. O corpo parecia em ruínas, e doía até engolir água.

Chamei o médico, murmurou. Preciso mesmo de ficar deitada hoje.

Chamaste o médico?! Dona Judite abriu a janela de par em par, sem cerimónias. Estás muito mimada, é o que é. Olha bem para ti, tão nova e feita madame! Na minha altura, já tinha dois filhos nos braços, trabalhava, cuidava da casa, e tu nem consegues olhar por ti.

Mariana ficou calada. Não tinha forças para discutir. Nem já encontrava sentido nisso há três anos que morava naquele apartamento e sabia que, para a sogra, ela e o Leandro nunca passariam de convidados ali. Dona Judite era a proprietária não só da casa, mas também da vida deles, gostava de repetir.

A loiça está toda por lavar, já reparei continuou a sua ronda, espreitando para a cozinha. O chão está uma vergonha! O que vai dizer o Leandro quando chegar? De certeza que não é para isto que ele gosta de voltar para casa.

Amanhã limpo tudo, prometo. Mariana mal conseguiu pronunciar; a garganta ardia-lhe.

Amanhã, amanhã! Sempre a adiar. Eu nunca me dei a esses luxos! Trabalhava por turnos, a casa limpinha, o jantar sempre a sair. Vocês, os novos, pensam que estão no mundo só para receber mimos. Ficas doente e todos têm de andar atrás de ti!

Cerrou os olhos e tentou abstrair-se daquele discurso. No dia anterior, mal conseguira chegar da escola era professora , mas o relatório tinha de estar pronto. Quando se deitou, já nem forças tinha para aquecer uma sopa.

Onde está o Leandro? perguntou a sogra, de regresso à sala.

Está a trabalhar. Só chega logo.

Pois, claro. O meu filho a partir-se a trabalhar, e tu aqui estendida. Boa vida, hã?

Também trabalho, murmurou Mariana. E pago tudo com ele.

Pagam? Dona Judite riu-se. Não pagam nada desta casa. Vivem aqui de borla. Não venhas falar em juntos e afins. Se não fosse eu, andavam ainda a pagar renda por tascos minúsculos.

Mariana calou-se. Essa era sempre a cartada da sogra. Logo após o casamento, Leandro sugeriu ficarmos com a minha mãe até termos estabilidade e ela aceitou nunca imaginou que o até se arrastaria anos. E todos os dias sentia: aquela casa nunca seria dela.

Olha, vou ao Pingo Doce buscar umas coisas, já que tu não podes ir. Mas vê lá se ao fim do dia está tudo apresentável. Não quero que o Leandro veja esta desordem. E abre as janelas, está uma estufa!

Assim que a porta se fechou, Mariana deixou-se finalmente chorar, em silêncio, afogada, a cara enfiada na almofada. Nem era pela dor física ou pela febre, era por não ter o direito sequer a ficar doente, por sentir-se obrigada a desculpar-se por se sentir mal, sempre a ser acusada de preguiça, sem espaço para ser humana.

O médico veio duas horas depois uma médica idosa do centro de saúde do bairro. Olhou-a com pena, mediu-lhe a temperatura e passou-lhe uma baixa de uma semana.

Tens uma gripe forte, minha menina disse, preenchendo os papéis. Precisas de repouso total, líquidos e descanso. Nada de fazer esforços. O corpo precisa de forças para combater isto.

Obrigada, doutora sussurrou Mariana.

Vives aqui sozinha?

Com o meu marido. E a sogra passa por cá de vez em quando.

Pronto, então que te ajudem. Não tenhas vergonha de pedir apoio. Ficar doente não é vergonha nenhuma. Não tentes armar-te em heroína, que só complicas. A saúde está primeiro, ouviste?

Depois que a médica saiu, tentou dormir, mas a cabeça estava pesada de mais. Pensava em como contar a Leandro sobre a baixa; ele, provavelmente, ia ficar nervoso, não por ela, mas por antever outra chatice com a mãe. Quase sempre, preferia não bater de frente com a dona Judite, mesmo que isso a deixasse sozinha.

Quando Leandro chegou, já de noite, vinha cansado mas bem-disposto. Deu-lhe um beijo na testa, mas logo franziu o sobrolho:

Ainda com febre alta?

Quase trinta e nove de manhã. O médico veio, deu-me baixa por uma semana.

E a minha mãe, passou por cá?

Passou, sim.

O que é que ela disse?

O de sempre: que sou preguiçosa, que devia tomar conta da casa em vez de me deitar.

Leandro suspirou, pesado. Já sabes como ela é… Foi outra educação, outro tempo.

Leandro, eu estou mesmo doente virou-se para ele, mostrando-lhe os olhos vermelhos. Não estou a fingir, custa-me até falar. E já não aguento ouvir sempre o mesmo: que sou fraca, mimada. Estou cansada.

Ele pegou-lhe na mão: Compreendo… Por favor, tenta não dar importância. Ela vai para casa dela daqui a pouco e tudo volta ao normal.

E quando ela voltar? Vai ser igual…

Mariana, não vamos falar disso agora. Precisas de descansar. Vou aquecer-te a sopa e fazer chá. Vais ver que passas melhor a noite.

Ele foi para a cozinha, e Mariana ficou novamente sozinha. Sabia que ele a amava, que aquilo custava também a ele. Mas por algum motivo, não ficava mais leve. Entre ela e a mãe, Leandro escolhia invariavelmente não escolher. Sempre lhe pedia para ser paciente, não contrariar, não fazer ondas. E o facto de ela se sentir magoada, desgastada? Parecia não contar.

Os dias seguintes foram vividos num nevoeiro a febre não cedia, o corpo doía sempre, a cabeça latejava só de pensar em levantar-se. Leandro saía de manhã cedo, regressava tarde, deixava-lhe água, chá e comprimidos à mão. Passava quase todo o tempo sozinha.

Ao terceiro dia, depois de tomar o antibiótico, ouviu o toque da campainha. A princípio pensou estar a sonhar, mas o toque fez-se ouvir de novo, insistente.

Arrastando-se ao longo da parede, foi até à entrada e abriu a porta. Era a Dona Mercês, vizinha do quinto andar, sempre de lenço na cabeça e sorriso meigo.

Bolas, menina, estavas a dormir? Eu só vim pedir um fósforo, fiquei sem, mas já vi que não estás em condições.

Eu tenho, Dona Mercês Mariana mal conseguia endireitar-se.

Deixa lá os fósforos! Põe-se deitada, que isso é febre. Eu ajudo.

Levou-a de novo para o quarto, aconchegou-lhe as almofadas, foi até à cozinha e voltou com um chá quente de limão com mel.

Bebe, miúda. Vai-te saber bem para a garganta.

Obrigada Mariana sorriu fracamente, sentindo o calor do chá percorrer-lhe a garganta.

E ninguém te ajuda por aqui?

O meu marido trabalha de manhã à noite.

Os homens são um caso à parte, riu-se a vizinha ajudam como sabem, mas falta-lhes aquele toque. Tu precisas de gente por perto, não só de chá e comprimidos.

Mariana calou-se, apenas sorvendo o chá devagar, satisfeita só por ter ao lado alguém que não a julgasse.

A tua sogra já cá veio ver como estavas?

O nome fez Mariana estremecer.

Veio, claro.

E ajudou?

Só criticou, Dona Mercês. Disse que parecia que fingia.

A vizinha encolheu os ombros.

Eu conheço a Dona Judite há muitos anos. Mulher de fibra, é verdade, mas dura como tudo. Para ela, sofrimento é medalha. Acham que só se cresce a sofrer e a aguentar sem se queixar. Mas sabes que mais? Toda a gente tem direito a uns dias maus. A pedir ajuda. Ninguém é de ferro, Mariana.

Mariana sentiu os olhos humedecerem, comovida com aquelas palavras tão simples.

Eu esforço-me, dou tudo… Mas parece que nunca chega. Que nunca sou suficiente.

Ouve bem Dona Mercês inclinou-se, séria. Não tens de provar nada a ninguém. Não há cláusula na vida a obrigar-te a tudo, nem à sogra, nem a ninguém. Cuida de ti; primeiro tu, senão ninguém cuida.

É fácil de dizer… mas ela tem razão: moramos na casa dela…

E então? Isso não lhe dá o direito de tratar-te mal. Uma casa são só paredes. O que importa é o respeito. Sempre houve bocas entre sogras e noras, e sempre vai haver. Mas uma coisa é uma graça, outra é abuso.

E se me defendo? O Leandro só pede para eu não criar confusão. Não piques a mãe, diz ele…

Não gastes energia a discutir. Não vale a pena, ela nunca vai ouvir. Ouve, faz que sim com a cabeça, mas constrói uma parede mental. Uma barreira: as palavras dela batem, caem, não te atingem. Não têm nada a ver contigo, percebes? É ela que está zangada com a vida.

Mariana ficou calada, ponderando. Parecia tão simples e tão difícil ao mesmo tempo.

E o Leandro? murmurou. Ele nunca me defende.

A Dona Mercês sorriu com tristeza.

Olha, os homens muitas vezes não o fazem, preferem evitar chatices. Mas quando deixares de esperar por isso e começares a defender-te, ele vai ver-te de outra maneira. Ganhas força, e ele, quando sentir, vai alinhar.

Acha?

Sei. Não é de um dia para o outro, mas funciona. O mais importante é saberes que o respeito começa em ti. Só podemos exigir que nos respeitem se nos respeitarmos primeiro.

Levantando-se, endireitou o lenço e aconchegou-lhe a manta.

Descansa e lembra da parede, sim? Não deixes ninguém abalar o teu valor.

Naquela tarde, Mariana pensou muito no que ouvira. Queixar-se nunca resolvia nada. Talvez dizer que não fosse o primeiro passo para se proteger.

Quando Leandro chegou, pediu-lhe para se sentar:

Preciso falar contigo.

Já sei, mãe ligou-me… Disse que a trataste mal.

Não tratei mal! Só disse que não podia ir à horta dela carregar sacos de batatas. Mal me consigo aguentar em pé! Ela passou-se…

Ela fica fula, mas tu sabes… é o jeito dela. Só não quero problemas.

Leandro, desculpa, mas eu cansei-me. Não posso continuar a fazer de conta que está tudo bem quando não está. Quando for preciso, vou dizer que não.

Ele ficou em silêncio, pensativo.

Mas e se ela se fartar e nos mandar embora?

Então vamos respondeu Mariana, surpreendida pela determinação. Arranjamos um T1 qualquer, apertamos o cinto, mas paz de espírito não tem preço.

Vou pensar, disse ele, e saiu da sala.

No dia seguinte, a febre baixou finalmente e, mesmo fraca, Mariana já conseguia andar pela casa. Decidiu dar uma volta à rua para apanhar ar. Quando voltou, encontrou novamente Dona Mercês no prédio, carregada de sacos.

Queres ajuda?

Ai filha, tu ainda agora estás a recuperar, mas vá, pega só num! sorriu.

No elevador, a vizinha comentou:

E a guerra com a sogra?

Tive de lhe dizer que não ia ajudar na horta. Ficou uma fera.

Fizeste muito bem. Agora tens de te manter firme.

O problema é que o Leandro ficou chateado… diz que estou a criar problemas.

Dona Mercês sorriu e encostou-se ao corrimão:

Os homens odeiam mudanças. Preferem silêncio à felicidade dos outros. Mas tu estás certa, Mariana. Mais vale uma discussão de vez em quando do que viver sempre anulada. Um marido que te pede só para aguentar não está realmente a proteger-te.

Mariana concordou em silêncio. Sempre ouvira dizer que o tal marido almofada não escolhe ninguém e acaba por trair ambas.

Mas eu amo-o murmurou.

E é para amar. Mas amor sem respeito não chega. Quem não te respeita, só te faz tropeçar.

À noite, Leandro jantou calado. Depois baixou os talheres, suspirou e olhou para Mariana:

Mãe ligou de novo. Disse que te tens portado mal, que me faz falta tomar rédeas da casa.

Mariana aguardou, o peito apertado.

Pela primeira vez, pensei que ela pode estar errada. Isto não é justo. Não tinha o direito de te tratar assim e eu devia ter-te defendido.

Ela sentiu um nó na garganta.

Achas mesmo isso?

Acho. Devia ter-te protegido mais. Estive sempre a evitar conflitos, mas não é justo para ti. Chegou a hora de pôr travão nisto.

Obrigada, sussurrou, emocionada.

Nos dias seguintes, Leandro falou com a mãe. Disse-lhe claramente que não permitia mais faltas de respeito nem críticas à esposa, e que, se continuasse igual, eles iriam sair da casa.

Dona Judite ficou magoada, fez ameaças. Mas Mariana sentiu algo mudar. Pela primeira vez, alguém tinha dito basta.

Passaram-se alguns dias sem notícias dela. Até que, numa manhã, toca à campainha. Era a sogra, visivelmente cansada, mais velha.

Posso entrar? perguntou, quase envergonhada.

Claro.

Entraram, sentaram-se na cozinha, em silêncio.

Estive a pensar no que o Leandro me disse começou Judite. E no modo como tratei contigo estes anos. Sempre achei que a vida só se faz a puxar aos limites, porque foi isso que aprendi. Mas não pode ser assim…

Mariana ouviu, surpresa.

Desculpa, Mariana. Não sou de pedir desculpas, nunca fui, mas quero tentar mudar. Fui injusta, demasiado exigente… Mereces o teu espaço.

Mariana emocionou-se.

Obrigada… A sério.

E não quero expulsar-vos da casa. Prefiro que aprendamos a conviver. Preciso de tempo, mas vou tentar.

Discutiram regras claras: visitas avisadas, respeito pela privacidade, opiniões só quando pedidas. Mariana sentiu esperança fosse o que fosse dali para a frente, ao menos agora o sentiria com dignidade.

No prédio, a Dona Mercês encontrou-a e sorriu:

Então? Vai melhor?

Muito. Estou a aprender a dizer “não”, a respeitar-me. E finalmente o Leandro também percebeu.

Fico tão feliz, Mariana. Amor próprio é meio caminho andado!

Mariana subiu até casa sentindo-se não só melhor, mas mais leve, com espaço para respirar. Pela primeira vez em anos, acreditou que era possível mudar as suas circunstâncias. Que valia a pena defender-se, mesmo que tremesse por dentro.

À noite, depois do jantar, Leandro abraçou-a na cozinha:

Que dia tiveste?

Bom. E tu?

A mãe ligou. Quis saber se precisavas de alguma coisa. E disse que só aparece se tu quiseres.

Mariana sorriu, sem ironia. Era sinal de progresso.

Foram para a sala, sentaram-se no sofá, falaram de tudo e de nada. Coisas simples. Mas Mariana sentiu, ali no seu cantinho, que finalmente a casa era dela também. Pela primeira vez, não tremia com cada passo na sala, nem se sentia uma visita permanente. Havia futuro. E, sobretudo, havia paz com quem mais importava ela mesma.

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A minha sogra exigiu que eu trabalhasse mesmo doente, mas desta vez disse um não firme e defendi os meus limites