Diário,
Hoje senti necessidade de pôr no papel o que me vai cá dentro. A minha nora está muito irritada comigo à conta do apartamento e começou a virar o meu filho contra mim.
O meu António acabou por se envolver com uma rapariga que lhe dá a volta ao miolo de uma maneira que não entendo. Ultimamente, ela anda a pô-lo contra mim. Vai sempre dizendo que eu não me preocupo com a felicidade deles, que só penso em mim. Imaginem, ela chegou a esta conclusão só porque me recusei a trocar de apartamento com eles.
O meu José partiu há alguns anos e fiquei só com o nosso filho. Criei o António com todo o carinho, sempre preocupado que nada lhe faltasse e dei-lhe uma boa educação. Antes de casar ele vivia connosco, claro. Começou a trabalhar logo na universidade e arranjou emprego assim que acabou o curso, sem demoras.
Tenho um orgulho imenso no António. O rapaz é esforçado e vai trilhando o seu caminho com mérito. Eu e a minha falecida mulher nunca tivemos posses para lhe comprar casa; vivemos sempre de forma simples. Só conseguimos comprar o nosso T2 em Benfica já depois dos quarenta. Até essa altura, alugávamos, por isso nunca foi possível juntar para dar-lhe outro apartamento. Mas, ao fim ao cabo, também ninguém nos deu nada fizemos por merecer o que temos.
Quando o António apareceu entusiasmado por se estar a apaixonar, fiquei feliz. Sempre procurei ter boa relação com quem viesse a ser minha nora: nunca lhe atirei nada à cara, nunca lhe fiz cobranças. O mais importante para mim era ver o António feliz com ela. No início simpatizei imenso com a Mariana, mostrava-se humilde, simpática, educada… mas só depois do casamento percebi quem ela realmente era.
Logo após a boda, lá foram em lua-de-mel, e ao voltarem, Mariana despediu-se. Explicou que tinha saído porque o chefe era insuportável e queria arranjar melhor, mas a verdade é que já lá vão dois anos e trabalho, nem vê-lo. Continua em casa, sem iniciativa nenhuma, pendurada no ordenado do António, enquanto esbanja dinheiro em cabeleireiros e roupa nova das melhores lojas do Chiado.
Custa-me a acreditar que não tenha conseguido emprego em mais de vinte e quatro meses. Para mim, ela mente quando diz que vai a entrevistas. Deve adorar esta vida de madame, a viver do trabalho do meu filho.
Perguntei-lhes, uma vez, se pensavam em ter filhos.
Filhos? Como? Neste T1 minúsculo em Moscavide? respondeu Mariana, com ar indignado.
Olha que podiam ir pondo de parte para dar entrada num empréstimo na Caixa, sugeri-lhe eu.
Não há nada para poupar, mal chega para as despesas saiu-lhe logo.
Contive-me para não lhe dizer que, se ela trabalhasse, já podiam ter dado esse passo há muito. Se realmente quisessem esforçar-se por uma casa nova, eu ajudava! Até já tenho algum dinheiro guardado para esse efeito. Mas neste cenário, sei que Mariana gastaria tudo em futilidades.
Ultimamente, Mariana começou a dizer que o tempo corre e que é preciso pensar num herdeiro, mas eu pergunto: como criar uma criança nesta situação? O António está a dar-lhe razão.
Ó mãe, estivemos a pensar: porque não trocas de apartamento connosco? Não precisamos assinar nada, cada um fica com o que tem e pronto. Assim não nos preocupamos com créditos e a mim já me chega um T1 para si.
Dói-me lembrar destas palavras do meu filho. Sei que não foi ideia dele. Disse-lhe que não quero sair da minha casa, que árvore velha não se transplanta.
Mais uns aninhos e já tem netos disse-me Mariana com aquele sorrisinho cínico.
Rejeitei logo aquela solução milagrosa. Não quero sair de Benfica para Moscavide como se fosse um fardo velho.
Depois disto, o António voltou a tocar no assunto algumas vezes e cada vez me sentia mais magoado. Nunca imaginei que o meu filho, que sempre foi honesto, viesse a ser influenciado desta forma.
Vamos embora, António, vê-se mesmo que a tua mãe não quer saber se temos filhos ouvi Mariana a dizer quando cá vieram da última vez Nem um dedo mexia para ajudar!
Desde esse dia, o meu António deixou de me ligar, não atende o telefone, não responde a mensagens. Não percebo como ele se deixa levar assim; sempre foi inteligente, mas agora, quando está com a Mariana, parece que perde o tino…
No fim de contas, aprendi uma coisa: há quem entre na nossa família a querer dividir e cegar quem mais amamos. Mas não podemos ceder só porque nos pressionam. O que conquistei foi a muito custo. Não é por pressão, nem por chantagem emocional, que vou desistir do pouco que tenho.







