A Minha Família

A minha família

Ó meu Deus, Martinha, como estás linda! exclamou Graça, completamente rendida, ao entrar no quarto da filha.

Marta estava de pé diante do espelho, enquanto a sua amiga e cabeleireira extraoficial, Filipa, acabava de ajeitar-lhe a grinalda. As últimas ganchas encaixavam-lhe no cabelo, e Marta virou-se para a mãe.

A sério, mãe? Fiquei bem?

Maravilhosa, filha! És a noiva mais bonita de Portugal! Graça sorriu ao dizer isto, lembrando-se que a sua própria mãe lhe dissera o mesmo, noutros tempos. Pelos vistos, todas as mães têm um discurso igual em dias de casamento.

Escolher o vestido foi uma novela. Marta era picuinhas com roupa. Pouco lhe importava a moda ou opinião alheia; queria gostar ela, e pronto. Tinha um gosto apurado e a sorte de um corpo que tudo encaixava bem, por isso nunca ouviu críticas ao seu estilo. O vestido de noiva, claro, também não foi escolhido por catálogo. Descotado e volumoso? Nada disso. Queria algo diferente, único. As consultoras da loja estavam fartinhas. Como agradar a esta noiva tão exigente? Salvou-as a dona do ateliê, a simpática Catarina.

Olha que acho que tenho aqui exactamente o que procuras.

Desapareceu por dois minutos e voltou com um porta-vestidos misterioso. Mal Catarina desembrulhou a peça, Marta ficou de boca aberta. Era mesmo aquilo.

Linhas simples, sem rendas nem flores ou folhos. Só tecido nobre e corte perfeito. Marta girou uma vez diante do espelho não restavam dúvidas! Parecia feito à medida. Nem ajustes precisava.

Que dizes?

Fico já com ele!

Catarina sorriu, com um ar ligeiramente nostálgico, que disfarçou num piscar de olhos. Para quê estar a contar que, afinal, tinha comprado aquele vestido para si própria e… nunca chegou a casar? Sem confiança e amor não há casamento. E quando falta um, o outro vai pelo cano. Ah, foi duro, aquele Pedro… Enfim, vida nova!

E tenho aqui um véu deslumbrante a combinar. Vou buscar apressou-se Catarina.

Marta piscou o olho à mãe:

Não te disse que encontrava o que queria?

Graça assentiu, coração cheio. Tão feliz! E saber que aquelas horas ficariam para sempre entre as suas melhores recordações…

Graça recordou-se do próprio casamento. Na altura não se comprava um vestido qualquer, aquilo era só para quem tivesse sorte. Ou enfiavas no corpo o modelo disponível na loja de noivas, ou tinha de ser feito de raíz. O vestido de Graça tinha sido feito por uma amiga da mãe, a costureira lá do bairro. A tia arranjou tecido, outra uns botõezinhos, e por aí fora. Estava lindo, mas, ironia das ironias, felicidade não trouxe. Divorciou-se pouco depois de Marta fazer dois anos. O novo amor foi passageiro e, extra, o pai da Marta mal se fez notar, a não ser para pagar a pensão de alimentos isso ninguém podia pôr em causa, senão falavam mal dele na tasca. Um clássico português! Mas conversar com a filha? Isso nunca.

Eu cá não preciso de complicações dizia ele.

Graça não forçou. Pai desinteressado não faz falta, mais vale nenhum. Arranjou outra relação, na esperança de dar à Marta um referencial masculino; azedou rapidamente. O tal, António, gostava muito de Graça, mas de crianças, nada. Um dia sugeriu que Marta ficasse a viver com o pai e Graça tratou logo de lhe fazer a mala para fora de casa.

Não te preocupes, filha, vivemos as duas. E ninguém nos faz falta.

Marta, pequenina, entendeu só uma coisa: a mãe escolheu-a a ela. E essa certeza ficou gravada a fogo. Por isso, na adolescência e depois, nunca houve dramas. Para Marta, mãe era insubstituível, o maior apoio.

Matita, está na hora! Ou ainda te atrasas… Graça ajeitou-lhe a grinalda e deu-lhe um beijo na testa. Sê feliz, filha!

E Marta, sempre pronta para uma piada, levantou os braços.

Mãe! Ainda me pões a chorar, e a Filipa mata-me. Teve uma hora a maquilhar-me natural e vai estragar tudo!

Num abraço apertado, Marta segredou:

Vou tentar…

O dia do casamento voou. Graça, ao entrar sozinha no apartamento, sentiu um vazio enorme. Agora sim, estava por sua conta. Marta ia morar com o marido na casa da avó, a que Graça lhes tinha cedido. O Jorge, agora marido da Marta, não tinha casa própria. Quando sugeriu irem viver com os pais dele, Graça só abanou a cabeça e, quando o genro se despediu, entregou à filha as chaves do apartamento.

Nem penses nisso, filha. Vivam os dois. À parte de toda a gente.

E os inquilinos?

Já há muito que combinámos tudo. Saem até ao casamento.

Mas esse dinheiro… Era teu. E nós já tínhamos tudo programado para alugar mais tempo.

Tu sabes lá o que eu preciso. Trabalhando, desenrasco-me. Vocês fiquem onde é vosso.

Marta até dançava, de chaves na mão.

Mãe, obrigada! O sonho de uma casa própria ficou, assim, bem mais perto…

Casa?

Uma casa grande, cheia de luz. Para todos termos espaço, três quartos para crianças, no mínimo! Marta corou e aproximou-se da mãe. Demasiado?

Oh filha, o que vier, é bem-vindo. O importante é saúde!

Tão bom saber que me compreendes…

E ótimo é saber que os teus filhos vão ter uma avó nova em folha! riu Graça, beijando a filha. Casa é casa. Sê feliz!

Graça não se pôs a contar do maravilhoso jantar de apresentações oficiais com os pais do Jorge. Resolveram fazer tudo como manda a tradição: em casa da noiva. Trabalhar na cozinha era o seu pequeno prazer, mas desde que vivia só com Marta, não tinha muitas oportunidades.

Os sogros pareceram-lhe boas pessoas mas foi só impressão. A futura sogra, depois de mexer na comida uma meia hora, torceu o nariz.

Estranho… estas comidas não são como as nossas…

Graça ergueu as sobrancelhas. O peixe assado da receita da avó e o cabrito, feito a baixa temperatura, não deixavam ninguém indiferente. O sogro do Jorge não disse piu, só comia e repetia. Já Maria de Fátima, a sogra, começou as perguntas:

A Marta cozinha?

Vai ter de aprender muita coisa. E o Jorge? É filho único, como a vossa filha?

É.

E educou-a sozinha, sem pai?

A vida é assim…

Pois, isso marca. Uma rapariga, sem o exemplo de um homem em casa, não é fácil estar preparada para uma família, sabe? Ela é um doce, mas habituar-se à vida familiar vai ser difícil.

Graça ficou calada, Marta lançou-lhe um olhar de nada de cenas, mãe. Avisara, antes de tudo, que Jorge era diferente dos pais.

Ele é mesmo bom, mãe. Vais ver. Não te zangues, por favor. Ele também sofre com isto.

A arrumação da loiça foi atrasada por Maria de Fátima querer um assunto de mulheres.

O sogro olhou para Graça, cúmplice, quase a pedir desculpa, mas manteve-se à parte.

Eu sei que a Marta foi criada sozinha, e que o pai estava afastado, mas tem historial de doenças na família? Alguma razão para se terem separado? Bebia? Era problemático?

Não, nada disso.

Diz-me tudo, é para perceber se os netos vão herdar problemas, entende? Já que é médica, compreende como isto é importante. Sei que Marta foi criada só por si, mas família é família…

Graça só faltava rebentar. Já era demais! Ia responder à letra, mas, nesse instante, Marta apareceu à porta a pedir calma metodicamente, e Graça engoliu o que queria disparar.

A Marta tem ótima herança genética, qualquer dúvida dou dados médicos. E não vou perguntar pela vossa árvore genealógica. Acredito que os jovens saberão fazer as suas escolhas. Maria, compreendo a preocupação, mas espero que essa ansiedade não leve o Jorge a repensar tantas vezes a vida…

Pegou no bolo de bolacha e desviou a conversa, chamando a sogra para levar o chá à sala. Apanhou um olhar de agradecimento do sogro e, naquela noite, ficou claro não havia assunto, ponto final.

Nunca mais tiveram discussões dessas. Marta e Jorge eram ambos trabalhadores e pagaram o casamento do próprio bolso, contaram pouco com ajudas.

Dois anos depois, venderam a velha casa, compraram um terreno nos arredores de Lisboa e começaram a construir o lar de família. A Marta, já grávida, transformou-se em patroa da obra, a dar ordens aos empreiteiros, que se riam dela, mas faziam tudo como queria. Não acabaram antes do bebé nascer e, por isso, Jorge levou a mulher e a recém-nascida, Leonor, para casa de Graça para desespero da sogra, claro.

Graça, desculpa, mas aqui é melhor para a Marta, e até para mim disse Jorge, pousando a filha na cama onde Graça lhes tinha acomodado.

Fizeste muito bem, Jorge. Deviam era ligar menos ao que as pessoas dizem! Anda, troca-lhe a fralda, faz-se homem!

Tenho receio

Parvoíces. Ninguém nasce ensinado. Instinto é o que interessa.

Jorge ficou um pai de mão cheia desde o primeiro banho, para surpresa da sogra, que rodopiava pelo hospital:

Isso de tratar dos bebés é função de mulher!

Pois sim, Graça piscou o olho ao genro, que pegava na bebé como um troféu.

Nem disse o quanto lhe custava não tomar conta da pequena Leonor. Avós acham que ninguém sabe tão bem como fazer, esquecidos de que também já foram principiantes.

A Leonor cresceu saudável, fizeram o jantar de inauguração da nova casa e, passado pouco tempo, Marta pensou no segundo filho. Mas não se adivinha tudo…

Mãe, a Leonor está com febre alta! Não passa!

Chama o INEM! Vou já!

Na viagem, Graça rezou baixinho para que não fosse grave. Não teve sorte: a miúda ficou internada dois dias nos cuidados intensivos. A Marta não saiu do hospital. Graça revezava-se entre beijos, sopa e palavras de consolo. O Jorge rebolava entre trabalho e hospital, sempre à beira dum ataque de nervos. Graça confortava-o também.

A sogra chegou, fez perguntas tipo croquete em esplanada:

O que é isto? Como é que ficou assim? Hereditariedade ou infecção? É culpa de quem?

Ó Fátima, podes calar-te? explodiu Graça, pela primeira vez. Isso agora pouco importa!

A sogra ficou muda. Ao ver o estado de Marta e Jorge, encolheu-se.

A Leonor acordou ao fim de dois dias, a pedir imediatamente a mãe. Foi transferida para o quarto e todos respiraram de alívio. Uns dias depois, Graça foi visitar a neta, brincar e supervisionar se Marta comia.

Mãe, espera. Queríamos falar contigo explicou Marta.

Graça percebeu de imediato: mais um a caminho.

Ajudas-nos?

Claro, filha. Já devias saber que sim!

Jorge, da cama, fez sinal:

Não te importas mesmo?

Importo! Mas não tenho alternativa, parece o destino! Só é por pouco tempo, até a Leonor estar bem. Como quem tira fruta conforme a época.

Mãe!

Que foi? Não sou agricultora! Isto é só ajuda pontual, não venho para cá morar. Vocês têm a vossa vida.

Eu era feliz se estivesses sempre por perto

Mas estou sempre. Só não vou acampar no vosso sofá.

Já de tarde, arrumando as malas para ir ajudar por uns dias, tocou o telefone:

Graça? Achas normal seres tu a ires? Eu estou disponível, eu é que tenho jeito para crianças, tu tens trabalho.

Fátima, eu só faço o que me pedem. Não fui eu que escolhi.

O Jorge nem me ouviu. Está encantado contigo, não percebo. Não percebo como é que uma mãe fica de parte!

Pergunta a ele, não a mim.

Ai que frustração! Devias recusar acusa a Fátima. Dizes que tens demasiado que fazer

Fátima, quando foi a última vez que viste a Leonor?

Para quê? Tu estás sempre lá. Não dá para levar nada, tu já fizeste!

Pronto, já percebeste. Tenho que ir, adeus.

Graça suspirou montar uma ponte entre sogras é uma ciência tão complicada como acertar nos doces de nata! Mas, no fim, as duas lá se foram adaptando.

Três anos depois…

Avó, hoje vais levar-me ao ballet ou vai a avó Fátima?

Hoje sou eu. A avó Fátima vai passear com o Tiaguinho. A mãe vai trabalhar.

Almoço vai ser na tua casa?

Claro.

Viva! Vais fazer bolinhos como da última vez?

Gostaste? Então faço sim. Graça olhou com ternura para a neta no banco de trás.

Avó…

Sim, princesa?

E ao Jardim Zoológico, no fim de semana, vamos contigo ou com a avó Fátima?

Vamos todos! Até levamos o avô connosco para apanhar ar.

Compras-me balões?

Balões, gelados, algodão-doce…

Uau! Mas a Tiaguinho também tens de dar balão, combinado?

Combinado!

Avó…

Sim?

Posso contar-te um segredo? É mesmo secreto!

Podes.

Vou ter mais um irmão ou irmã.

Graça fez aquela cara de quem apanha susto e amor ao mesmo tempo. A verdade estava ali, nas entrelinhas dos sorrisos de Marta, mas nunca anunciado. Desde que Graça recusara mudar-se para casa da filha, partilhando de longe a ajuda com Fátima, o respeito entre todos cresceu. Agora, Marta pedia primeiro opinião ao Jorge antes de tudo.

Nada disto foi fácil no início, houve lágrimas e discussões, mas safaram-se todos. Uns tiveram de aprender a calar-se, outros a ceder. O mais importante era a saúde dos miúdos. E Leonor e Tiago tinham, afinal, duas avós e um incrível avô.

Como sabes isso? Graça baixou o volume do rádio.

Ouvi a mãe e o pai ontem a falarem. Pensavam que eu dormia. Avó, posso desejar que seja uma mana?

Porque perguntas?

Se for mano ele vai ficar triste se eu disser que não o queria

Graça sorriu e fez festinhas ao cabelo da neta:

E tu gostas do Tiaguinho?

Adoro!

Então, se for mano, vais adorá-lo também. Combinado?

Combinado!

Pronto, deixamos lá ver. Sabes uma coisa?

O quê?

Sempre quis ter irmãos, e se fossem dois, melhor ainda!

A sério?

Bem a sério.

Então posso esperar tanto por mana como por mano.

Na rua de Marta, Graça virou para estacionar.

Sabes? Ter um irmão ou irmã é como receber um presente grande no Natal. Só vemos o que está lá dentro quando abrimos…

Já me compraste prenda?

Para o Natal, ainda não. Mas para o aniversário segredo! Já comprei.

Conta-me!

E a avó Fátima também já comprou! Mas não digo mais nada.

Bolas!

Olha que o teu aniversário está quase aí, logo, logo vês.

Vá, está bem. a Leonor correu para o portão com o seu coelhinho preferido no braço (esse, oferecido por Graça; o urso tinha vindo da avó Fátima).

Graça pegou na mochila de piscina da neta e acenou à sogra, que passeava Tiaguinho.

Olá avó!

Olá, boneca! Fátima sorriu. Vamos passear.

E nós vamos de ballet, depois de nos vestirmos.

Graça, ao ver Leonor colada à avó Fátima, contando-lhe tudo em modo metralhadora, pensou: Como é difícil e, afinal, simples isto das famílias. Basta gostar e querer bem. Ser família é isso dar e receber e, com alguma sorte, nunca perder esse lugar.

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