Olha, deixa-me contar-te o que se passou com a Inês e o Rui, que casaram há cerca de um ano. Os pais de ambos fizeram questão de organizar uma festa de arromba, já sabes como é tanto os do lado da Inês como os do Rui queriam que fosse algo memorável. Como eram ambos filhos únicos, as famílias não pouparam esforços: queriam o casamento mais elegante, com aqueles toques tradicionais que se veem nos filmes, roupa branca, carruagem, tudo ao estilo português.
Os noivos até tinham tentado convencer os pais de fazer algo mais simples, como um churrasco com os amigos logo a seguir à cerimónia, mas as mães nem sequer quiseram ouvir falar disso; sonhavam em ver a filha e o filho numa festa de sonho, com vestido branco, um cortejo de carros antigos, enfim, o verdadeiro conto de fadas.
Como perceberam que não haveria maneira de escapar ao grande baile, Inês e Rui meteram mãos à obra e trataram de tudo com muita responsabilidade. Foram semanas entre manicuras, maquilhagem, escolha do vestido de noiva e do fato do noivo, além de mil detalhes que até cansa só de pensar. Os pais prometeram pagar tudo, menos o vestido dela e o fato dele, para cada um sentir aquela responsabilidadezinha. Escolheram o melhor restaurante de Lisboa, definiram o bouquet para a noiva, e o bolo foi feito pela amiga da mãe do Rui, que em tempos tinha uma pastelaria e sabia bem o que fazia.
Os pais ainda trataram da lista de convidados com todo o cuidado, queriam chamar toda a família, até aquelas pessoas com quem falam pouco. Argumentavam que eram pessoas com bons empregos, logo, podiam oferecer presentes generosos, e com o dinheiro recolhido os noivos iriam comprar um carro ou até guardar para uma entrada de apartamento. Depois de algumas discussões, decidiram não chamar parentes demasiado distantes. Uns arranjaram desculpas para não ir, outros confirmaram, e no fim, a lista ficou mais como os noivos queriam: cheia de amigos do peito.
No dia da boda, a previsão era de chuva mas, olha, esteve um sol radiante. A Inês estava deslumbrante naquele vestido de seda com renda portuguesa; o Rui não tirava os olhos dela ficou encantado o dia todo. A alegria era geral, com o fotógrafo a fazer disparos sem parar e toda a gente ansiosa pelo banquete.
Depois das fotos, entraram numa carruagem branquinha, símbolo de tradição e romance, e seguiram até ao restaurante. O champanhe correu como água, as felicitações também. A maior parte dos convidados levou envelope com dinheiro, como é hábito cá, mas alguns mais velhotes não resistiram e ofereceram mantas, lençóis e louças.
O bolo, um espetáculo de três camadas decorado com flores e renda, deixou toda a gente de boca aberta pela elegância. A festa foi um verdadeiro luxo já de manhã é que cada um foi regressando a casa com sono e os noivos seguiram para o quarto de hotel já reservado.
No dia seguinte, quando chegaram a casa, a mãe da Inês veio contar-lhe que havia um envelope vazio, o que deixou Inês de rastos. O envelope fora entregue por uma amiga muito próxima Maria Isabel e era fácil perceber quem tinha sido, porque todos os outros estavam identificados. O momento ficou ainda pior porque, antes do casamento, Maria Isabel tinha garantido à Inês que era de bom tom oferecer pelo menos mil euros e prometeu que a apoiaria com um bom presente.
Menos de um ano depois, Maria Isabel tornou-se noiva e convidou Inês e Rui para o seu casamento. Já foi direta: pediu que lhe dessem dinheiro, porque o casal contava com os envelopes para pagar as despesas. Inês ficou a matutar: dar outro envelope vazio, como resposta? O Rui sugeriu dar ainda mais para a pôr na vergonha. A mãe achou melhor pôr o valor mínimo e não voltar a falar do assunto, porque assim não se vinga nem estraga a amizade. E agora, com o casamento à porta, a Inês ainda está indecisa sobre o que fazer. Está um dilema, mesmo ao estilo das histórias portuguesas com trocas de prendas e pequenas disputas.







