A minha mãe ficou doente e vem morar connosco. Vais ter de tomar conta dela! anunciou o João, entrando decidido na cozinha enquanto eu, Mariana, pousava o telemóvel onde acabara de ver as mensagens do trabalho.
Olhei-o, surpresa e cansada, a tentar segurar a irritação.
Desculpa? perguntei, fazendo um esforço para soar neutra.
João cruzou os braços, postura de quem já deliberou e está irredutível.
Falei com a minha irmã e com o médico hoje de manhã. Já está tudo tratado. A mãe precisa de apoio contínuo. No mínimo, dois ou três meses, talvez mais.
Senti o peito a apertar devagar. Não raiva ainda não , mas aquela suspeita fria de que, para ele, era evidente que só podia ser assim.
E quando é que decidiste isso? disfarcei a voz trémula.
Foi hoje. E, honestamente, quem mais se pode responsabilizar? A Rita está em Braga, tem dois filhos pequenos, emprego a tempo inteiro E nós temos casa grande, tu estás quase sempre em casa…
Eu trabalho cinco dias por semana, João. Das nove às sete. Às vezes ainda mais tarde. Tu sabes.
Ele encolheu os ombros.
A mãe não é exigente. Só precisa que alguém esteja por perto, lhe prepare a comida, dê os medicamentos, ajude a ir à casa de banho Tu dás conta disso.
Eu olhava para ele e a pergunta martelava-me dentro: como consegue achar normal que o meu tempo, as minhas necessidades, o meu descanso valham menos que a urgência da mãe?
Nunca pensaram numa cuidadora? sugeri baixinho.
Ele afastou-se com impaciência.
Sabes quanto custa? Uma de confiança, no mínimo mil euros por mês. Não temos esse dinheiro.
E tu, tirar uma licença sem vencimento? Ou trabalhar menos horas por um tempo?
João olhou para mim como se eu sugerisse largar tudo e viver no campo a plantar batata.
Mariana, tenho responsabilidades, não posso abandonar o trabalho. E eu não percebo dessas coisas medir tensão, dar injeções, controlar horários…
E eu percebo? não gritei; limitei-me a perguntar, seca.
Ele hesitou, e pela primeira vez naquela conversa, pareceu perder parte da segurança.
És mulher murmurou, mesmo acreditando no que dizia. Tens isso… no instinto. São sempre vocês que melhor lidam com estas coisas.
Assenti devagar, para eu ouvir, não para ele.
Pois, o instinto.
João não percebia nada. Encostei o telemóvel à mesa, e reparei como me tremiam ligeiramente os dedos.
Então é assim: tu pedes licença, ficas dois meses em casa, eu continuo a trabalhar a tempo inteiro. Tratamos ambos da tua mãe, eu mais ao fim do dia e fins de semana, tu durante o dia. Que tal?
João ficou de boca aberta, depois fechou-a.
Mariana… estás a falar a sério?
Completamente.
Mas… eu já disse, não dá!
Então arranjamos uma cuidadora. Metade-meio, ou faço 60%-40% se quiseres. Mas não vou assumir tudo sozinha e muito menos sem sequer me perguntarem.
Caímos num silêncio espesso, o relógio da parede marcava os minutos.
João pigarreou.
Ou seja, recusas-te.
Não, fixei nele o olhar. Recuso é ser cuidadora gratuita, trabalhar a tempo inteiro e ainda por cima não ter direito sequer a opinar.
Ele demorou a responder. Tentou perceber se falava a brincar. Finalmente, semi-resignado:
Sabes que é a minha mãe?
Sei disse, calma, a voz quase sumida. Por isso é que proponho coisas para ninguém perder a saúde nem tu, nem ela, nem eu.
João virou costas e saiu da cozinha com um estrondo de porta.
Fiquei sentada frente à minha chávena de chá frio. Uma ideia rondava-me a cabeça, repetitiva, sóbria:
Já começou.
Já sabia que era só o início. João ia ligar à irmã, a seguir à mãe; logo logo tocaria à porta a Dona Albertina vive a dez minutos e sabe sempre de tudo. Iam chamar-me fria, ingrata, egoísta, mulher que esqueceu o que é família.
Mas de súbito, por entre o ruído, compreendi uma coisa simples e serena: nunca mais vou pedir desculpa por querer dormir mais do que quatro horas, por precisar do meu trabalho, por também ter direito à minha vida que não é um hospital permanente.
Levantei-me, abri a janela. O ar frio entrava, cheirando a asfalto molhado e a fumo distante.
Inspirei fundo e pensei: Podem dizer o que quiserem. O importante é que já disse o meu primeiro não.
E foi o não mais sonoro da minha vida de doze anos de casamento.
Na manhã seguinte acordei ao som da chave, lenta, hesitante, a abrir a porta. Passos arrastados e o habitual tossir quebrado da Dona Albertina.
Deitada, ouvi o ritual: o casaco, a mala, os sapatos. Só que agora já soava a invasão, não a rotina.
João? Estás aí? chamava a voz da Dona Albertina, já gasta, mas sempre autoritária.
Estou, mãe. Vem para a cozinha, já pus a chaleira ao lume.
Fechei os olhos: Nem me avisou que a trazia já hoje. Fez, ponto.
Levantei-me, enrolei o robe, fui até ao corredor.
Dona Albertina mirrada, encolhida no seu velho casaco azul de lã, que já deve ter quinze anos olhou-me com aquele sorriso magro, cansado, carregado de uma certa superioridade.
Bom dia, Mariana. Desculpa a hora, mas o médico disse quanto mais cedo eu vier, melhor.
Assenti.
Bom dia, Dona Albertina.
João surgiu da cozinha com uma bandeja chá, tostas, comprimidos num pires.
Mãe, vai deitar-te enquanto acabo de te preparar as coisas. Já pus lençóis frescos no sofá da sala.
E as malas, quem arruma? Mariana, ajudas-me, não é?
Senti um zumbido a latejar-me nas têmporas.
Claro, mas só depois do trabalho.
Depois? Então e quem fica comigo hoje?
Tenho reunião, mãe interveio João. Mas à hora de almoço venho cá. Mariana não consegues tirar o dia?
Olhei-o longamente.
Hoje tenho apresentação ao cliente. Não posso faltar.
E a seguir à apresentação? insistiu Dona Albertina.
Chego a casa ao final do dia, como sempre.
E mais silêncio. Dona Albertina sentou-se pesadamente.
Fico sozinha o dia todo, então?
João olhou para mim parecia implorar.
Respondi calma:
Dona Albertina, deixo-lhe a comida feita para o dia, as caixas dos comprimidos marcadas, tudo arrumado. Se for preciso algo, ligue-me, atendo mesmo em reunião.
Ela fez beicinho.
E se me enganar nos remédios? E cair?
Liga ao INEM, é o mais seguro.
João abriu a boca para protestar, depois resignou-se.
Dona Albertina olhou para ele:
Ouviste?
Ouvi, mãe. E a Mariana tem razão. Se alguma coisa correr mal, é melhor chamar assistência.
Até eu me surpreendi a ouvi-lo dizer A Mariana tem razão. Há quanto tempo não o ouvia?
Dona Albertina lá foi para o quarto, porta fechada devagar.
João voltou-se para mim.
Podias, pelo menos…
Não, não podia. Nem vou.
Desci à cozinha, bebi água de um trago.
João veio atrás.
Mariana, eu sei que é difícil. Mas é a minha mãe.
Eu sei.
E está mesmo doente.
Também acredito.
Então porque…
Porque se cedo agora, fico sempre a única responsável. Percebes?
Ele nada disse.
Amo-te, João. Mas não quero que o nosso casamento acabe porque alguém decidiu que o outro não tem direito a uma vida própria.
Ele baixou os olhos.
Vou falar à Rita outra vez. Talvez possa cá vir aos fins-de-semana.
Era ótimo.
E tu não ficas chateada comigo?
Esbocei um leve sorriso.
Já estou chateada. Mas não quero que isso dure para sempre.
Vou tentar melhorar.
Olhei o relógio.
Tenho que ir preparar-me. A apresentação é daqui a duas horas.
Fui para o quarto. Ele ficou na cozinha a olhar para a chávena.
O dia passou surpreendentemente bem. A reunião correu melhor do que esperava, o cliente até elogiou e prometeu um bónus. Saí do escritório perto das sete, sentindo um alívio imenso.
No metro, enviei mensagem ao João:
«Como está a mãe?»
Resposta instantânea:
«Está a descansar. Desde as três cá em casa. Fiz o jantar. Esperamos por ti.»
Fixei a janela escura, refletindo. Esperamos por ti. nem me lembrava da última vez que aquela frase soou assim, tão da casa.
Quando cheguei, esperavam de facto. A mesa com salada, bacalhau no forno, batatas. Dona Albertina sentada, livro no colo. Olhou para mim.
Mariana, chegaste.
Cheguei.
Senta-te. O João fez tudo. Até a loiça lavou.
Olhei João, ele encolheu os ombros: Nada demais.
Sentei-me.
Dona Albertina tossiu.
Pensei talvez fosse melhor procurar mesmo uma cuidadora. Pelo menos durante o dia. O João não pode estar sempre a faltar ao trabalho
Ergui o olhar devagar.
Acho sensato.
Eu ligo à Rita disse João. A ver se conseguimos dividir os custos.
Dona Albertina suspirou.
Nunca pensei depender de estranhos a este ponto…
Não são estranhos, mãe murmurou João. Somos família. Mas cada um precisa do seu espaço.
Fitei-a. Ela calou-se, assentiu.
Talvez esteja mesmo na altura de aprender.
O telefone tocou era a Rita.
João atendeu.
Olá, mana Sim, estamos em casa Ouve, precisamos de ajuda. Não só financeira. Vem cá ao fim de semana. Temos que ver isto juntos.
Desligou.
Vai cá vir.
Acenei com a cabeça.
De repente, reparei que, pela primeira vez em muitos anos, já não tinha medo de voltar a casa.
Não porque estivesse tudo sossegado.
Mas porque finalmente começaram a ouvir-me.
Três semanas depois, Dona Albertina já não tossia tanto. As pernas já não inchavam, até ganhou coragem para ir buscar chá sozinha. Sobretudo, a casa estava sossegada não de silêncio desconfortável, mas de um entendimento novo entre todos.
No sábado, a Rita chegou de Braga, com duas malas e a filha ao colo.
Mãe Mariana, João Desculpem ter demorado.
Dona Albertina, sentada à janela, virou-se devagar.
Vieste mesmo.
Claro que vim respondeu a Rita, pôs a filha no colo do João e ajoelhou-se diante da mãe. Eu prometi.
Fiquei à porta da cozinha, meramente observando.
A Rita tirou um papel da carteira.
Encontrámos esta cuidadora: tem formação, vinte anos de experiência, vem das nove às sete, cinco dias por semana. Fins de semana, tratamos nós.
Dona Albertina leu o anúncio, olhou para o filho.
E o dinheiro?
Dividimos os três disse João. Eu, a Rita e a Mariana. Por igual.
Igualzinho repetiu Dona Albertina.
Mãe, nenhum de nós pode largar tudo. E precisas de apoio especializado. Por isso todos pagamos.
Pela primeira vez, falei:
Já combinámos tudo com a cuidadora. Chama-se Olívia Matos, tem cinquenta e oito anos, muita experiência. Amanhã passa cá.
Dona Albertina ficou pensativa. Depois olhou-me, sem mágoa, olhos diretos.
Mariana podias simplesmente dizer não e ir embora. Muita gente fazia.
Encolhi os ombros.
Podia. Mas todos perdíamos especialmente a senhora.
Ela olhou as mãos.
Acho que só agora percebo. Sempre achei que só por ser mãe, todos tinham de hesitou, a escolher palavras. Arredar a vida para mim. Agora vejo que tenho de aprender a arredar-me eu.
A Rita apertou a mão da mãe.
Só queremos que todos respirem melhor, mãe. Só isso.
Dona Albertina olhou os filhos, depois para mim.
Desculpa, Mariana disse, num quase sussurro. Julguei mesmo que podia exigir.
Senti dentro do peito um alívio antigo.
Aceito o pedido de desculpa, Dona Albertina.
Ela sorriu, sincera desta vez.
Então amanhã conhecemos a Olívia. Fará bem não ser rainha aqui.
João soltou uma gargalhada leve.
Não és rainha. És a nossa mãe. Vamos cuidar-te, mas à nossa maneira com respeito.
Quando a Rita foi embora, e a Dona Albertina já dormia, ficámos eu e o João na cozinha, luz baixa, copo de vinho.
Achava mesmo que te ias embora murmurou ele.
Olhei-o, surpreendida.
A sério?
Sim. Quando disseste não, temi que te despedisses de tudo.
Girei o copo na mão.
Pensei nisso. Sinceramente.
E o que te fez ficar?
Demorei.
Quis saber se eras capaz de assumir responsabilidade não só falar.
Ele abaixou os olhos.
Aprendi muito este mês. E ainda estou a aprender.
Eu noto.
Ele olhou-me.
Obrigado por me dares hipótese.
Sorri-lhe.
E obrigada por aproveitares.
Tocámos nos copos, quase em silêncio.
Do lado de fora caía, finalmente, o primeiro grande nevão do ano oiço-o bater nos vidros, cobrindo o bairro de branco.
No quarto da Dona Albertina, o candeeiro aceso de noite.
E no nosso, pela primeira vez em muito tempo, não cheira a remédios nem ansiedade cheira a casa. A nossa casa.







