A mãe traz a filha ao abrigo para escolher um cachorrinho, mas a menina fica parada na cela do cão mais triste e não quer seguir sem ele…

Lúcia segura firmemente a mãozinha da filha de dois anos, a pequena Lurdes, enquanto atravessam o limiar do abrigo municipal de animais na Rua da Junqueira, em Lisboa. Os raios matinais de sol entram pelas amplas janelas, iluminando as jaulas alinhadas, de onde os olhos dos animais lançam olhares esperançados aos visitantes. No ar misturamse sons típicos do local latidos, miados chorosos, o farfalhar da palha e o tilintar das garras no chão.

Então, minha menina diz Lúcia, sorrindo calorosamente vamos escolher um amigão?

Lurdes acena com a cabeçinha e o rosto se ilumina de excitação. Sonha há tempos ter o seu próprio cãozinho e, todos os dias, observa pela janela como as crianças do bairro brincam no patio com os seus bichinhos.

Nos pensamentos de Lúcia, o dia de hoje tem outra cor. Ela imagina que vão adotar um filhote adorável talvez um golden retriever ou um labrador alegre que cresça ao lado de Lurdes, obediente, saudável e bonito o pet perfeito.

Caminham entre os filhotes brincalhões, os cães adultos elegantes e os gatinhos peludos. Lúcia aponta para os animais mais simpáticos, porém a menina parece não notar nenhum deles.

De repente, Lurdes para como se algo a prendesse ao chão.

No canto mais afastado, na penumbra de uma jaula, está um cão que faz Lúcia apertar os lábios para não deixar escapar um gemido. É um pitbull em condições deploráveis pelos emaranhados, pele inflamada, corpo exausto. Ele se volta para a parede, como se se envergonhasse da própria aparência.

Lurdes, vamos embora pressase Lúcia. Olha, os filhotes são muito fofos.

Mas a menina encosta o focinho ao gradeado.

Mamã, o que se passa com ele? Está doente? sussurra.

Sim, querida, está doente responde o funcionário do abrigo, com um suspiro. Ele chamase Tásio. Está aqui há mais de seis meses. Mas o homem calase, sem terminar a frase.

Lúcia franze a testa. Para ela, os pitbulls são sinónimo de agressão e perigo, e ainda por cima doentes. E se for contagioso? E se for imprevisível?, pensa.

Lurdes, venha diz mais firme. Há muitos outros cães aqui.

Mas a menina senta-se bem na frente da jaula, como se estivesse ali para ficar.

Eu quero este declara, decidida.

O quê? Lurdes, isso não dá. Olha como está doente. Além disso, pitbulls são perigosos.

O trabalhador, que se apresenta como Tiago, balança a cabeça com tristeza.

Tásio não é mau. Ele está quebrado. Quando era filhote, foi abandonado porque não era bonito comparado aos outros. Foi encontrado já enfermo, com infecções. Uma família o adotou, mas devolveuo semanas depois, dizendo que era demasiado apático.

Lúcia sente o coração dividido entre compaixão e razão. Em casa tem uma criança, ordem, conforto. Por que levar tantos problemas?

Precisa de uma cirurgia de pele cara, muito cara continua Tiago. O abrigo não tem fundos. Se nos próximos trinta dias não encontrar dono ele pausa.

Vão eutanasiaro? murmura Lúcia, quase inaudível.

Infelizmente, sim.

Lurdes permanece sentada, sem desviar o olhar do cão.

Cãodinho chamalhe baixinho. Olha pra mim.

Nada muda.

Eu sou a Lurdes. E tu, quem és?

Lúcia tenta erguer a filha, mas algo a impede.

O nome dele é Tásio diz Lúcia.

Tásio repete a menina, admirada. Nome bonito. Tásio, vamos ser amigos.

Então ocorre o milagre. O cão ergue lentamente a cabeça e cruza o olhar com Lurdes. Nos seus olhos há um pesar tão profundo que o coração de Lúcia aperta.

Posso tocarte? pergunta a menina.

Não sei hesita Tiago. Ele tem medo das pessoas, não deixa chegar perto.

Podemos tentar? a voz da menina soa tão sincera que negar seria impossível.

Tiago abre a porta da jaula com cuidado. O estalo da tranca faz Tásio recuar para o canto, gemendo baixinho.

Lurdes, não! grita Lúcia.

Mas a menina já avançou. Agachase no meio da jaula e estende a mãozinha trêmula ao cão.

Não tenhas medo, Tásio sussurra Lurdes, com a voz delicada. Não te vou magoar, só quero ser tua amiga.

Tásio observa a pequena por alguns minutos, depois aproximase cautelosamente. Cheira a mão estendida, dá um leve lambido na ponta dos dedos.

Lurdes explode em risos:

Mamã, olha! Ele está a beijar!

Um lampejo de esperança acende no peito de Lúcia. Pela primeira vez em meses, vê nos olhos de Tásio um brilho de vida. Ele olha a menina com ternura, como se temesse machucála, e delicadamente lambe a sua mão.

Mamã diz Lúria, acariciando a cabeça do cão ele está tão triste. Precisa muito de uma família.

Nunca vi algo assim comenta Tiago, maravilhado. Olhem! Está a sorrir! Vejam, realmente está a sorrir!

De fato, a expressão de Tásio parece iluminarse de dentro. O rabo começa a abanar, os olhos já não refletem mais dor.

Mas está doente suspira Lúcia. E o tratamento é muito caro

Eu pago afirma de repente, surpreendendo a própria voz. Eu mesmo.

Tiago abre um largo sorriso:

Só tem um mas. As regras do abrigo exigem que o animal complete todo o tratamento antes de ser entregue a um novo dono.

Lúcia concorda, entendendo a lógica. Passamse apenas alguns dias quando o telefone toca.

Lúcia? a voz de Tiago aparece preocupada. Podes vir? Tásio deixou de comer, está a gemer o tempo todo. Achamos que pode estar a puxarse para o teu filho.

Já vamos responde Lúcia, sem hesitar.

No abrigo, Tásio jaz no canto, olhando fixamente para a parede. Quando vê Lurdes, como que renasce salta, abana o rabo e solta um gemido de alívio.

Tásio! grita a menina, agarrada ao vidro. Sentiate falta!

Levemnos para casa ordena Tiago. É exceção, mas será melhor para ele aqui do que lá. O tratamento pode continuar numa clínica privada.

Em casa, Tásio se esconde debaixo da cama e não sai por horas. Lúcia duvida da decisão: e se for perigoso? E se? Mas Lurdes se deita no chão e começa a contar ao cão, em voz baixinha, as brincadeiras do dia, a sopa que vão preparar, onde ficará a sua tigela.

Ao cair da noite, o cão sobe cautelosamente e aninhase ao lado da menina. Quando Lurdes dorme no sofá, Tásio repousa ao pé dela.

Pois bem reflete Lúcia, observandoos parece que agora temos mesmo um cão.

A cirurgia corre bem. O tratamento prolongado dura um mês e os resultados são impressionantes: a doença recua, o pelo volta a crescer, os olhos brilham novamente. O mais importante, porém, é a mudança na alma do animal. Ele mostrase carinhoso, aceita tudo que Lurdes lhe oferece roupa, comida com colher. Lúcia senteo leal e agradecido, como se compreendesse que lhe deu uma segunda vida.

Sabes, conta Lúcia a uma amiga, enquanto observa Tásio brincar suavemente com Lurdes eu pensava que estávamos a dar-lhe uma chance de viver. Mas acabou por nos ensinar a amar sem condições.

Passa um ano. Tásio transformouse num cão forte, de pelagem brilhante e olhar sereno. Os vizinhos, que antes olhavam com desconfiança ao pitbull perigoso, agora admiram a sua boa índole.

Lurdes cresceu ao lado de um amigo fiel, que lhe ensinou empatia e um vínculo verdadeiro. Ela não lembra todos os detalhes daquele dia no abrigo, mas sabe, com certeza, que Tásio e ela precisam uma da outra.

Mamã pergunta um dia, abraçando o cão por que ninguém quis adotálo?

Porque não sabiam olhar com o coração responde Lúcia. Só viam a aparência. Tu, porém, viste a alma.

Tásio ronrona satisfeito, acomodandose confortavelmente. O medo já não tem mais espaço na sua vida. Agora tem um lar, uma família que o ama.

Às vezes, os amigos mais sinceros chegam disfarçados de perigo. O essencial é conseguir enxergar o coração que está por trás da casca, pronto a receber amor.

E tu? Já tens alguma história de um animal especial que encontrou um lar? Partilha nos comentários essas narrativas trazem sempre esperança.

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A mãe traz a filha ao abrigo para escolher um cachorrinho, mas a menina fica parada na cela do cão mais triste e não quer seguir sem ele…