A mãe foi libertada em condicional após cumprir a pena no lugar do filho; ele vendeu a casa e nem lhe permitiu entrar.

Querido Diário,

Hoje parei diante do pequeno portão de ferro que conheço tão bem, encostando as costas na grade de ferro forjado. Tinha corrido para o autocarro como quem foge da própria sombra e já não sentia mais forças. Ao ver a fumaça cinzentaazul a subir da chaminé, apertei o peito: o coração batia tão forte que parecia que iria partir-me as costelas. Apesar do ar fresco, o suor escorria pela minha testa; enxugueime num gesto rápido e empurrei a porta de entrada com determinação.

Com o olhar experiente notei que o arranjo da despensa estava ainda remendado. O filho, Tiago, já não me escrevia, mas não havia mentido: a casa da família ainda se mantinha, como prometera. Subi os degraus da varanda num salto, pronta para abraçar o meu querido Tiago.

Mas a porta abriuse para um estranho, de semblante sombrio, com um pano de cozinha enrolado no ombro.

Procuram alguém? perguntou com voz rouca, fitandome.

Fiquei paralisada.

E o Tiago, onde está?

O homem coçou o queixo nervosamente, fixandome sem cortesia. O seu olhar dizia tudo: casaco gasto, ténis rasgados, mala manchada vestes de quem luta para sobreviver. Não se faz passeio quando se está em pleno inverno; ele parecia ter saído da prisão.

Tiago é meu filho. Onde está? Está bem?

Ele encolheu os ombros, indiferente.

Provavelmente está. Vocês mesmos devem saber. Quase fechou a porta, mas hesitou. Tiago Silva?

Assenti apressada. Ele me lançou um olhar compreensivo.

Comprei esta casa há quatro anos. Entrem, se quiserem

Não, não! agitei as mãos, quase a cair dos degraus. Sabe dizerme onde o encontro?

Ele balançou a cabeça. Dirigime à porta. Poderia ter ido à amiga Dulce, mas ela tem a língua afiada: encheriame de grosserias. E o coração de mãe sentia que algo terrível lhe tinha acontecido ao filho.

Caminhando devagar até a paragem, afundeime em pensamentos sombrios. O que teria acontecido? Tiago era tão confiante Quatro anos antes, confiara num amigo e se metera numa fraude. Se eu não fosse culpada, ele teria cumprido uma pena muito maior. Condenaramme a cinco anos; três dias antes libertaramme por bom comportamento e ainda pagaram a passagem.

Senteime num banco de cimento e murmurei:

Onde te encontrar, meu menino?

As lágrimas subiam aos olhos. O coração acelerou quando, há três anos, as cartas do filho deixaram de chegar. Agora os meus piores temores confirmavamse: havia até vendido a casa. Limpeime as bochechas com um lenço.

De repente, um carro preto parou à minha frente. O homem sombrio, agora proprietário da casa, entregoume um papel:

Encontrei este endereço nos documentos. Se quiser, levoa à cidade.

Segurei o papel como se fosse um salvavidas.

Obrigada, rapaz, não se preocupe; dou conta. Reanimada, dirigime ao velho autocarro que se aproximava.

Meiohora de percursos, angústias e desvios pela cidade; finalmente cheguei à porta do terceiro andar de um prédio decadente. Pressionei o intercomunicador diversas vezes, prendendo a respiração. Iam abrira para me dar talvez uma notícia terrível. As lágrimas não cessavam.

Quando a porta escancarouse, a alegria explodiu: ali estava Tiago, despenteado, um tanto embriagado, mas vivo! Gritei de emoção, querendo abraçálo, mas ele não parecia feliz. Recuou, mantendo a porta entreaberta:

Como é que me encontraste?

Desconcertada com a frieza do acolhimento, não soube responder. Tiago virouse e empurroume em direção à escada:

Desculpa, mãe, mas não podes entrar. Vivo com uma mulher que odeia expresidiários. Arranjate, não tenho um tostão.

Tentei falar da venda da casa, mas a porta fechouse como um tiro ao coração. Não chorei mais. Cabisbaixa, desci os degraus. Dulca tinha razão: tinha criado um patife. Tive que aceitar as críticas, sem teto.

De volta à aldeia, o destino foi cruel: Dulca havia morrido há seis meses; a sua casa agora era habitada por netos quase estranhos. Sob uma garoa fina, refugieime na paragem do autocarro a refletir sobre o futuro.

Os faróis de um carro iluminaramme: o mesmo homem, novo dono da casa, gritou:

Sobe, estás encharcada!

Recusei, soluçando: não tinha onde ir, e aquele desconhecido mostravase tão atencioso. Ele forçoume a subir ao carro.

Conversámos. Eu contei a minha amarga história, omitindo apenas a visita ao filho por pudor. O condutor, André, propôsme ficar na sua casa, pelo menos por algum tempo. Assim, voltei ao antigo lar, agora pertencente a André, e lá permaneci.

André trabalhava do nascer ao pôrdosol: possuía uma serraria em plena expansão; eu cuidava da casa: cozinha, roupa, tarefas domésticas. Familiarizavame rapidamente com os eletrodomésticos modernos. André, ainda jovem e divorciado, não pensava em nova família.

A sua presença foi exatamente o que eu precisava: sob a sua asa materna, André, órfão criado na assistência, encontrava finalmente o calor de um lar. Sempre que eu falava em partir, ele dizia:

Onde irias? Aqui és a tua casa!

Pouco a pouco, o meu coração aqueciase. Um filho de sangue não substitui outro, é verdade, mas André mostravase uma bondade rara, quase como um filho verdadeiro. Com a aproximação do inverno, decidi levarlhe o almoço à serraria a poucos passos, e às vezes ele ficava demasiado ocupado para voltar a comer.

Aquele dia trouxeme um termo de caldo verde fumegante e uns bolinhos de bacalhau. Expulsou um estranho do escritório, estendeu uma toalha limpa. André riu:

Lurdes, és um general: sem discussões! E se ofender?

Franzi as sobrancelhas:

Queres contratálo como chefe de equipa? Dá para ver na cara: é um ladrão. Confia no meu instinto, a prisão ensinoume a ler as pessoas.

Ele abanou a cabeça:

Vamos, mãe! Tem um currículo sólido. Não podemos confiar só numa impressão.

Eu tinha razão: um mês depois a serraria sofreu perdas enormes; o indivíduo vendia madeira às escondidas e desaparecia com um camião inteiro. André, cabisbaixo, reconheceu o erro.

Ao recrutar nova equipa, decidiuse: já que a avó entende do negócio, ela ajudaria. De agora em diante, eu assistia às entrevistas: André interrogava, eu observava, anotava um veredicto que ele depois me entregava. Folhas completas: bebum agressivo, ladrão comprovado, preguiçoso alcoólico conciso, preciso.

Identificava também os bons operários, mesmo que desleixados. Contudo, num candidato hesitei: segurei o formulário, as mãos tremiam.

André olhou o visitante: era o homem que tinha vendido a casa! Tiago ficou estupefacto, observando a mãe sentada ao lado do patrão, franzindo a testa, brincando com o boné. A esposa dele o tinha enviado ao trabalho; a serraria pagava bem. Não esperava encontrar a mãe ali; pensavaa desaparecida.

No silêncio, André pegou o papel do veredicto. Eu escrevi duas palavras, depois corri para fora. Tiago deume um sorriso irónico: claro que o contratariam, a mãe confessaria por ele.

André leu em voz alta:

Tipo maldito. Agitouo como se fosse uma mosca. Fora! Confio no juízo da mãe.

Hoje, ao fechar este diário, percebo que as voltas do destino podem trazernos alívio onde menos esperamos, mas também nos ensinar que a verdadeira família não nasce apenas de sangue. Aprendi que, mesmo quando tudo parece perdido, a solidariedade de quem nos aceita como somos pode reconstruir a nossa vida.

Lurdes Silva.

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A mãe foi libertada em condicional após cumprir a pena no lugar do filho; ele vendeu a casa e nem lhe permitiu entrar.