FELICIDADE TÃO ESPERADA
O dia de hoje foi o mais feliz de todos para Beatriz. Dava para ver o brilho no rosto dela! Não era para menos afinal, há doze anos que tentava, sem sucesso, ser mãe. E agora, finalmente, uma notícia que enche de alegria: ela ia ter um bebé! Que mulher não entende o tamanho dessa felicidade? Qualquer mãe confirma.
Beatriz estava mais leve que uma folha ao vento, a tropeçar nos sorrisos e nos sonhos. Mal podia parar de acariciar a barriga, falando baixinho com o bebé que ainda nem três meses tinha conversa íntima, com promessas de amor que só mãe entende.
A Beatriz e o Luís conheceram-se nos tempos de faculdade, entre cafés no Campo Grande e discussões acaloradas sobre o melhor pastel de nata de Lisboa. Acabaram o curso juntos e, três meses depois, casaram-se com direito a arroz, banda e tias descontroladas. Foram felizes, mas meia dúzia de meses depois, Beatriz começou a preocupar-se. Luís, sempre calmo, repetia: “Calma, mulher, tudo há-de vir. Vamos ter miúdos só não sabemos quando.”
Dois anos mais passaram, esperança a esmorecer. Ela procurou um médico, mas não apareceu nada preocupante nos exames. Luís fazia os possíveis para a animar passeios à beira-rio, jantaradas, mil cuidados mas Beatriz foi ficando cada vez mais reclusa, com aquele vazio. Doze anos passaram-se como uma novela sem final feliz, faltava-lhes o tal pedacinho de família.
Num certo dia de julho, quente como se Portugal tivesse sido torrado a sol, Beatriz saiu para caminhar Luís estava no escritório, a fazer contas à vida. Ia absorta, cabeça baixa, perdida em pensamentos sobre futuros possíveis e memórias do que não foi.
De repente, ouviu uma vozinha mesmo ali ao lado:
És tu a minha mãe?
Beatriz parou como se o tempo tivesse congelado. Parecia ter sido atingida por um raio. Ergueu os olhos e viu um menino pequenino, talvez com três anos, do outro lado da vedação, agarrado aos ferros, olhar fixo nela.
Sem perceber a situação, Beatriz ficou estática. Aos poucos, tomou coragem e aproximou-se. Logo viu que era o lar de crianças ao longe, outros miúdos corriam e brincavam.
Olhava intensamente para o menino, tentando encontrar palavras. O pensamento a mil. Sabia que aquele instante podia mudar o rumo da história dela. Depois de muito olhar, perguntou:
Não te lembras da tua mãe? Como era ela?
Não, nunca a vi. Por isso espero aqui todos os dias. Ela há-de reconhecer-me se passar por mim.
Pois é verdade, sim senhor, disse Beatriz, já com o coração aos pulos talvez pudesse mesmo ser a mãe que o menino esperava.
Como te chamas?
Chamo-me Duarte.
A determinação à portuguesa tomou conta dela. Não tinha dúvidas: ia fazer de tudo para adoptar aquele menino. Talvez o destino a tivesse levado àquele portão naquele dia.
Eu tive um filho há uns anos, mas perdi-o confessou suavemente, sem saber bem porquê. Também se chamava Duarte e continuo a procurá-lo. Achas que podes ser tu?
O menino, de repente, encheu-se de alegria e gritou, radiante:
Sim, sim! És tu! És a minha mãe! Reconheci-te!
As mãozinhas atravessaram a vedação e Beatriz corresponderu com um abraço apertado, a unir tudo o que faltava.
Pronto, vamos já contar à diretora. Assim sabe que nos encontramos! Vais para casa comigo!
Viva! festejou o menino.
De mãos dadas, entraram no edifício do lar.
Finalmente, o nosso Duarte vai ter mãe! anunciou a funcionária, entre sorrisos e olhos marejados.
Papéis, entrevistas, reuniões, espera eterna para Beatriz tudo passou num borrão. Mas Duarte percebeu tudo, acreditou sempre que a mãe tinha chegado. Entretanto, Beatriz preparou Luís para a revolução familiar: juntos decoraram o quarto, compraram móveis, roupinhas, brinquedos e tudo o resto. Luís não teve coragem de dizer não, nem quis, ao ver aquela felicidade inédita nos olhos dela.
E quando o dia chegou, não podiam estar mais radiantes: o Duarte tornou-se oficialmente filho deles. Voltaram para casa de mãos dadas, tão felizes que até os vizinhos repararam. A casa também mudou doze anos de silêncio trocados pelos passos pequenos, pelas gargalhadas e pelo grito “Pai, olha!” que ecoava das paredes. Beatriz renasceu. Deu ao Duarte todo o amor acumulado há anos. Luís foi para ele o melhor pai do mundo.
O tempo passou, Duarte cresceu e trouxe ainda mais alegria para os pais. Até que numa manhã, Beatriz sentiu-se mal-disposta. Apanhou Luís de sobressalto e juntos foram ao médico e receberam a notícia impossível de acreditar: Beatriz ia mesmo ser mãe!
Não havia palavras para tamanha felicidae. A família esperou, entre ansiedade e planos, até ao grande dia: nasceu uma menina saudável, Leonor. Agora, sim, a família estava completa.
Beatriz sempre pensou que o milagre de Leonor só aconteceu porque, um dia, não passou ao lado de um menino triste atrás de uma vedação. Gestos generosos sempre recebem recompensa. A felicidade não bate à porta a horas certas chega para quem está de coração aberto e ama sem restrições.







