Sabes, amiga, lembro-me daquela velhota que toda a família foi levar à estação. Era triste, ninguém fingia sequer que ficava contente por ter lá a avó em casa. Falavam-lhe tudo sem papas na língua, e já só pensavam que, com a chegada da primavera, ela ia para a aldeia e demorava a voltar.
Os netos olhavam-na com um ar desinteressado, a nora nem escondia que não gostava dela. O filho, quase sempre fora de Lisboa por causa do trabalho, quando vinha estava igual aos outros: distante, frio. Para eles, a avó era só um peso. E ela sentia-o estava sempre ali, a contar os dias até poder ir para a terrinha, o seu consolo.
Nesse ano, a primavera chegou mais cedo. Muitas vezes via-a sentada à porta do prédio, de mãos estendidas ao sol, a olhar para o céu azul. Magrinha, embrulhada num casaco gasto, umas botas que já viram melhores dias parecia um pardalinho molhado, sabes?
Se em casa ninguém tinha paciência para ela, no bairro era diferente. Os vizinhos cumprimentavam-na sempre, perguntavam como estava, ajudavam-na a subir as escadas até o quinto andar. Uns miúdos dos prédios ao lado até lhe carregavam o saco das compras se a apanhavam a voltar do supermercado.
Mas ela nunca parava. Mesmo com a idade, cozinhava, lavava roupa, limpava fazia tudo em casa. E a nora só dizia, sempre que chegava do trabalho:
Estás todo o dia em casa, faz tudo tu.
Raramente os netos lhe dirigiam a palavra. E quando levavam amigos, a avó ficava fechada no quarto, sem fazer barulho. Uma vez ouviu uma frase que lhe doeu:
Avó, fazes-nos passar vergonha.
Nunca lhes respondeu, nunca se queixou. Ficava calada. Só à noite, quando todos dormiam, chorava baixinho de solidão e mágoa.
No dia da viagem, levaram-na à estação de Santa Apolónia de táxi. Não levava muita coisa: um saco já velho e um embrulho pequeno de roupas. Ia devagarinho, apoiada na bengala, pelo cais, até se sentar num banco a descansar. Quando o comboio chegou, levantou-se e entrou.
Sentou-se junto à janela, com olhos calmos e doces a olhar em frente. Quando o comboio arrancou, tirou do saco uma fotografia amarrotada. Estavam lá o filho, a nora, os netos todos a sorrir. Agora, só ali via aqueles sorrisos. Beijou com delicadeza o retrato e guardou-o de novo.
Desceu na estação da aldeia e seguiu, devagar, caminho fora. Um senhor ofereceu-lhe boleia e deixou-a quase à porta. O portão rangeu, e ela entrou na casa velha pelo caminho de sempre. Ali era tudo dela. Ali sentia-se em casa se calhar já não precisava das pessoas, mas aquelas paredes, o muro torto, o alpendre de madeira sempre lhe faziam falta.
Para ela aquela aldeia era tudo. Nasceu ali, viu os filhos crescerem ali, ali enterrou o marido; foi ali que viveu quase toda a sua vida com alegrias e mágoas.
Na casa, abriu as portadas, acendeu o fogão a lenha e sentou-se no banco junto à janela. Ficou a lembrar-se dos filhos a correrem descalços pelo soalho, das refeições feitas à volta daquela mesa, das gargalhadas que enchiam a sala. Nesses tempos, era a mãe a mais importante para alguém.
Como sempre, o sol entrava pela janela. A primavera era quente, e o coração ficava mais calmo. A avó sorriu, baixinho, para si mesma.
Na manhã seguinte, não acordou mais. Ficou ali, finalmente, onde sempre quis estar na sua casa, na sua terra.
Em cima da mesa ficaram as fotografias antigas. E por cima de todas, uma nova, um bocado amarrotada. A tal, onde todos sorriam.
Enquanto estamos cá, ainda temos tempo. Para dizer obrigado, pedir desculpa, dizer a quem amamos o quanto gostamos deles.
Porque quando alguém se vai, já não volta. E pode ficar uma dor no peito que custa a carregar depois.
Por isso, vive com esperança. Sê sincera. Faz o bem de coração. Ama e dá valor a quem tens por perto.
Não guardes as palavras bonitas para amanhã porque amanhã pode nunca chegar.
