Feia Leonor
Ó Senhor, mas aquilo é homem, onde?! Só pode ser engano! A Leonor não vê bem onde se vai meter?! Baixote, magricela, feioso como as dívidas do jogo!
Também não exageres tanto! De altura não se safa, isso tens razão Mas, enfim, cara feia nunca matou ninguém! E a Leonor também não é flor que se cheire.
Pois. Mas consegue imaginar os filhos daqueles dois?! Um susto!
As jovens mães, encostadas na bancada do prédio, ocupadas a empurrar suavemente os carrinhos e a suspirar perante os seus bebés corados, olhavam de soslaio para Leonor e o namorado. Quem haveria de os comparar aos filhos futuros e invisíveis dessa tal Leonor?
Leonor, descarregando sacos cheios de compras do carro do noivo para levar à mãe, sorriu às vizinhas e apressou-se:
Tomás, amor, não te esforces tanto! Deixa cá pegar nalgum! tentou-lhe tirar um saco das mãos, mas ele não deixou.
Passarinha, segura é a porta da entrada! Peso não é trabalho de mulher. Não deixo!
As vizinhas lançavam olhares cúmplices.
Olha para ele! Trabalho pesado não é para mulher, diz ele! Isso agora é tudo graça de namorado. Depois do casamento, quero ver!
Leonor e Tomás desapareceram pela porta e as vizinhas continuaram com a lengalenga: a altura, o tamanho dos pés, o formato do nariz, a matrícula do carro do noivo e o modo de andar da rapariga. Afinal, falar da vida alheia custa pouco e alimenta o espírito de maledicência.
Mas Leonor não tinha tempo para mexericos. Corria para junto da mãe que não via há quase duas semanas. Primeiro uma viagem de trabalho, depois as obras na casa nova. A mãe recomendava: que poupasse, que não viesse por tudo e por nada. Frigorífico cheio, telemóvel a funcionar, e o casamento à porta.
Ainda assim, não aguentou. Desde pequena que nunca suportara estar longe da mãe.
À Leonor a mãe teve-a aos trinta e cinco. Nasceu de uma Joaquina, nariguda e desajeitada, simples empregada numa mercearia, em quem familiares e vizinhos já tinham perdido as esperanças de casar. “Ficou pra tia”, diziam. Crianças, nem por sombra!
Mas Joaquina baralhou as cartas. Foi de férias ao Algarve e voltou de lá com um marido. Nem mais nem menos, um homem de fazer virar cabeças: alto, largo de ombros, olhos cor de azeitona. Ao pé dele, Joaquina parecia um pardal junto a um leão de juba farta. Diziam: casal desparelhado.
Só que, depois do Alexandrino entrar na vida de Joaquina, quem andava de casaco de pele era ela.
O marido era trabalhador e perspicaz. Sabia poupar e multiplicar o dinheiro. Nunca lhe pesou gastar com a mulher, que amava perdidamente. Joaquina desabrochou, mudou de corte de cabelo, andava elegante, afastou as poucas amigas interesseiras que tinha.
Nunca teve realmente amigas próximas. Era esquisita para os grupos e ninguém a escolhia para dançar, preferindo não ter por perto quem lhes estragasse o humor.
Nas visitas fugazes das vizinhas pelo café ou para garantir que os ovos ou o arroz que vinham para o supermercado seriam deles, Joaquina mantinha distância. Evitava mexericos, mais perigosos que faca afiada: nunca se sabe onde acertam, nem como magoam.
Sabia bem que muitos achavam que Alexandrino não era homem “à altura”. E, assim, fechou a casa, reservando o ninho a familiares, para não largar a felicidade.
Mas bem podia não recear, pois só via Joaquina em si próprio. Alexandrino conhecia como poucos a verdade do provérbio “o que conta é o interior”. Perdeu os pais em pequeno, nem três anos tinha; uma curva numa estrada molhada depois de um casamento, e ficou órfão à custa do azar do pai.
Ficou com a avó, que nunca superou a morte do filho e se entregou ao vinho. Alexandrino, com oito anos, fazia a própria comida, passava as próprias camisas para não dar nas vistas na escola e estudava a sério. A beleza, que todos notavam, apenas lhe trouxe problemas. Destacava-se demasiado e o assédio dos adultos era incómodo.
Cresceu teimoso e azedo. Carinho não conheceu. Para a avó interessa mais o garrafão. Gente? Só suspiros por ele ser bonito, mas ninguém sequer perguntava se era feliz.
Ninguém, exceto a senhora da padaria. Também ela mãe solteira de dois rapazes, sabia bem o que era crescer sem mãe. Vivera num colégio de órfãos, mas dava aos filhos calor e abrigo, dinheiro curto mas pão fresco, batatas fritas e chá com mel, que o vizinho apicultor trazia.
Ó mãezinha, quanto devo?
É do coração! Quem vende cara ao sol e nega aos outros, não sabe viver! Não me ofendas!
A Alexandrino, além do pão, dava sempre um pãozinho de leite.
Leva e come na escola! dizia, passando-lhe a mão pela carapinha. Esse gesto de ternura, gratuito, aquecia o peito do rapaz todo o dia e fazia do mundo um lugar menos hostil.
Alexandrino tentou recusar, mas rapidamente percebeu que magoava a boa da dona Augusta e passou só a agradecer. Depois passou a ajudar na padaria após as aulas, e, sem perceber, começou a considerar aquela mulher quase como mãe.
Mais tarde, a vida clarificou; a avó morreu do coração, e Augusta, sem hesitar, ficou com Alexandrino.
Sempre foste meu filho. Legalizemos só o papel.
Alexandrino ganhou, assim, mãe e irmãos. O azedume fugiu, pois agora havia quem o afastasse se quisesse voltar.
Com o curso técnico completo, Alexandrino arranjou trabalho, renovou a casa da avó, mas em amores nada lhe corria. As raparigas aproximavam-se, mas depressa desistiam. A que mais gostava, nem desculpa deu:
És demasiado bonito, Alexandrino. Vais-me trocar. Deixar-me. Se for só a mim, ainda vá, mas e se for com um filho? Bonitos como tu, nem querem família! Olha como as raparigas te caem em cima!
O fel velho voltou ao peito, mas correu procurar o conselho certo.
Filho, não era para ti. A tua anda por aí, a aguardar por ti. Não percas a fé! Sem fé, nem azeitonas se apanham! Espera, meu querido. Tudo vai acontecer!
Augusta sabia sempre apaziguar-lhe a alma. Ele sossegava-se, convicto de que sabia esperar.
Mas o tempo passava, e nada. Voltou a desanimar até Augusta o convencer: “Vais ver o mar pela primeira vez”.
Ó Alexandrino, o mar tem que se ver! É
É o quê, mãe?
Grande, meigo, furioso! Sempre diferente! Vais ver vai!
Foi nessa viagem que conheceu Joaquina. Ninguém reparava na rapariga apoiada no paredão, a olhar o Atlântico agitado depois de uma tempestade Só Alexandrino ficou hipnotizado; tão parecida era a rapariga com a sua mãe Augusta. Ao conhecer melhor, percebeu que recebera da vida novo presente: tão doce e terna quanto Augusta, feita de amor não gasto. Alexandrino soube: era aquilo o seu milagre.
A filha foi criada entre mimo e receio.
Não a vamos mimar demais, pois não, Alexandrino? temia Joaquina.
Não, não. A nossa Leonor é um amor.
Ele acreditava tanto, que Leonor só podia corresponder com estudo e jeito meigo.
Sai à mãe! elogiava Augusta à neta. Tão boa como a Joaquina! Cuida dessas meninas, meu filho. Felicidade é amor dentro de casa!
Alexandrino manteve laços quentes com Augusta e os irmãos. Por isso, quando sentiu que a saúde faltava, falou primeiro aos irmãos não queria preocupar a mãe, nem a esposa.
Fizeste bem. Vamos arranjar solução!
Dias depois já tinha médico marcado; o diagnóstico assustou, mas não deixou Alexandrino cair.
Proibido desistir! Tens a tua filha! Estamos cá para o que for preciso! A medicina avança.
A luta foi dura: dez anos de tratamentos, resistência surpreendente e fome de vida.
Outro já teria desistido. Você é de fibra! admiravam os médicos.
Ele sorria, vertiginoso, pensando que toda a sua força vinha de Joaquina e de Leonor, que todos os dias lhe levava a lancheira ao hospital.
Não me apetece, filha resmungava ele.
Tens que comer, papá! Está salgado, porque a mãe chorou a fazer a sopa. Mas prometi-lhe que não tornava a chorar, porque tu vais melhorar e voltar para nós! Disse bem?
Disseste, passarinha É isso, sim.
Alexandrino regressava sempre a casa, apesar dos prognósticos. Porque esperavam por ele.
Partiu sereno, em casa, no ombro da Joaquina. Adormeceu e não acordou mais. Ela ficou com ele nos braços até ao nascer do dia, recordando uma vida inteira.
Não tenho de que me queixar, Alexandrino Fui mesmo feliz ao teu lado. Obrigada, meu amor.
Na manhã seguinte, Leonor, ainda ensonada, atravessou o corredor para ir ao quarto dos pais e soltou um piu fino, como pardal encurralado.
Shhh, filha. O pai já não sente dor. Está em paz. Ouves? Não chores… Joaquina não lutava mais contra as lágrimas. Estou aqui contigo.
Nunca ficaram sós. Os irmãos de Alexandrino ajudavam, Augusta vinha, a família uniu-se no luto, sabendo que sozinhos ninguém aguenta a dor toda.
Anos passaram. Leonor crescia, mas, a cada ano, evitava mais o espelho. Sabia-se feia e nada podia fazer: nem o nariz encurtar, nem os olhos arredondar. Nem as cenouras que comia por ter lido que fazia crescer, resultaram.
Na escola, era o alvo fácil de chacota. Joaquina enxugava-lhe as lágrimas, murmurando-lhe ao ouvido:
Ainda hás de ver, filha, quem vai ser feliz. Tempo ao tempo!
Concluiu o liceu, entrou na Universidade, mas nem aí encontrou quem reconhecesse o seu coração manso ou bondade. Os rapazes preferiam as vistosas; à Leonor pediam apontamentos antes dos exames. Cadernos impecáveis, pois nas aulas nunca se distraía grata por cada oportunidade de aprender.
Que será, mãe? suspirava Joaquina, vendo a filha especialista e respeitada, mas perdida no amor.
Ora, mandá-la ao mar, claro! sorriu Augusta. Uma vez resultou. Por que não repetir? Que dizes?
Mãe, mas ela assim sozinha não vai
Vamos todos. Chama-se os rapazes, as mulheres, e as crianças verdadeira invasão familiar! Ela acaba por fugir de nós, como da última vez fugiu da casa da aldeia para a vila! ria Augusta, recordando traquinices dos netos. Os nossos petizes venceriam qualquer um! São muitos, ela é só uma vai querer espaço próprio!
Vamos nessa! decidiu Joaquina.
O destino, claro, trocou-lhes as voltas.
Leonor foi ao mar, mas teimou em não sair de perto da família. Toda a gente insistia, ela não cedia.
Não quero andar sozinha! sentenciava.
À família só restou aceitar.
Mas o destino preparava nova travessura. E, mal voltou à cidade após as férias, encontrou o seu destino não na praia dourada, mas mesmo à porta de casa. Chegando do trabalho, estacionou o carro, e apanhou um daqueles aguaceiros de fim de tarde.
Descalçou as sabrinas novas, compradas no dia anterior, e foi, descalça, a caminho de casa, onde Joaquina a esperava em sobressalto. Já junto ao portão, uma viatura passou numa poça de água e Leonor ficou encharcada dos pés à cabeça.
Caramba! murmurou, já pronta para chorar, mas desatou a rir. O condutor, ao parar para pedir desculpa, ficou especado a olhar para a sua gargalhada.
O destino sorriu, pôs mais um risco na sua caderneta de tarefas cumpridas, e seguiu viagem, certo de que Leonor e Tomás se entenderiam.
Assim foi.
E, anos depois, as mesmas vizinhas, sentadas espreitando os netos no pátio do prédio, cochicham, ao ver Tomás chegar de carro:
Viste a parka dessa desgraçada?! O meu nunca me trouxe nada, e a ela, toma lá!
Tu outra vez?
Não lhe fica bem esse casacão! Não fica!
Tu és tramada! Olhos gulosos, língua venenosa! Por que raio te inquieta a felicidade daquela miúda? O marido pode não ser bonito, mas é carinhoso! Ama os miúdos, estraga-os de mimo! E tu verde de inveja!
Pois estou! Como pode alguém ter tudo, sem merecer? Olha-me para eles feiúchos, e os filhos parecem anjos! Como pode ser?
Genética! O pai da Leonor era bonito, minha querida. Isto, minha santa, é só a natureza a deixar-se levar!
Ai sim? E porque será que ela nunca deixa de sorrir? Sempre agradece, nunca manda ninguém passear! Que rapariga é esta? Não devia andar amarga, a odiar o mundo por ter nascido sem beleza nenhuma?
Podia, mas não é obrigada! E tu, invejando, não ficas mais bonita!
Vai-te catar! Como é que se arranja um marido assim? Que segredos terá?
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Jamais! Eu a aprender com ela? Jamais!
Pois vai roendo os dentes! De inveja também se morre!
Enquanto isso, Leonor não dava importância aos mexericos. Tinha os seus para cuidar! A mãe começava a fraquejar, Augusta planeava mudar-se perto para ajudar com os bisnetos. Os tios pediam auxílio. Tomás oferecera-se para ajudar nas obras dos primos. E os miúdos, sempre a precisar de atenção.
Salvador! Benedita! Para casa! A avó já tirou o bolo do forno! Não a façam esperar!
E viria mais um serão de confidências, música e histórias à volta da mesa, contadas por Joaquina aos netos.
E a vida continuava.
