A Catarina partiu Os filhos vieram da cidade para a aldeia para o velório. Ainda bem que ao menos agora apareceram, sussurravam os vizinhos. Ao menos acompanharam a mãe no último adeus. O velório chegou ao fim e os filhos, com as famílias, já se preparavam para regressar a casa. De repente, entrou em casa a tia Lídia, irmã da Catarina. Tia Lídia, está na hora de irmos embora, começou o filho mais velho. É preciso fechar a casa. Também devia ir embora. Ir embora?! espantou-se a irmã da Catarina. Mas eu estou em casa! Não tenho de ir a lado nenhum. Todos olharam para Lídia, surpresos.
A Rita e o Diogo casaram-se e mudaram-se para a casa da mãe dele.
O casamento foi simples. Decidiram guardar o dinheiro que tinham juntado para outras coisas em vez de comprarem casa logo.
Antes disso, cada um tinha vivido no seu canto o Diogo com a mãe, a Rita numa residência de estudantes. Em casa da Rita não podia ficar porque a mãe andava na má vida…
O pai nunca conheceu.
A mãe do Diogo quis dar espaço ao casal para viverem sozinhos, tirou férias e foi para a aldeia, para a casa da irmã Catarina.
Já era hábito ir lá descansar. A Catarina vivia sozinha. O marido já não estava e os filhos, dois rapazes, quase nunca a visitavam. E telefonavam ainda menos.
Telefonar podiam bem, nunca se sabe quando a mãe precisa de ajuda. Mas, claro, cada um com a sua vida e as suas preocupações
Catarina sentia-se magoada. Afinal, custa muito pegar no telefone para falar com a mãe?
E ela nunca lhes pediu nada. O que podia, fazia sozinha. Se necessário, pedia a algum vizinho, ou então vinha o sobrinho com a irmã.
O Diogo era desenrascado. Antigamente ia muito à aldeia com a mãe, mas agora casou-se. Provavelmente acabaria por esquecer a tia, tal como os filhos dela já tinham feito. Nunca levaram as mulheres à casa da mãe, só as viram no casamento eram de Lisboa. Não tinham nem netos. Diziam que ainda era cedo.
Lídia, vieste! Minha irmã! sorriu Catarina.
Estavam bem as duas. Desde sempre tinham estado juntas, até que a Lídia foi para Lisboa e lá casou. A Catarina ficou na aldeia. Ambas ficaram viúvas no mesmo ano, nunca mais tiveram outro marido.
Vais ficar a tomar conta disto. As minhas férias só são na próxima semana. O Diogo não veio? Podiam ter vindo com a mulher à aldeia. Ou foram de lua-de-mel ao Algarve?
Não, eles poupavam dinheiro. O casamento foi só o registo. A Rita quase não tem família. A mãe só liga à vida louca. Ela já saiu de casa há muito tempo. É boa rapariga, tenho pena dela.
Então por que não os trouxeste contigo?
Deixei-os tranquilos. Jovens, precisam adaptar-se um ao outro sem a minha presença. Ao menos um mês descansam sem mim. Já achei que ele nunca casava. Trinta anos Graças a Deus, casou. Que sejam felizes.
Eles já se conhecem muito bem. Não faz mal virem à aldeia. Que ele traga a mulher. Liga-lhes. A casa é grande, há espaço para todos. Se não gostarem, voltam para Lisboa.
Dois dias depois, Diogo e Rita chegaram. A tia ficou feliz. Dos próprios filhos nem sinal.
Fico tão contente! Os meus nem aparecem, por mais que chame Só têm desculpas, trabalho, compromissos lamentou Catarina.
A Rita gostou de voltar ao campo. Tinha saudades de ir em pequena à casa da avó. Quando a avó faleceu, Rita tinha 15 anos. Teve de se desenrascar sozinha
Catarina continuava a trabalhar. Lídia tratava das refeições, gozava o descanso. Diogo arranjou a vedação do quintal e consertou o telhado do galinheiro. Rita passava o dia todo na horta.
Deixa isso, Rita, quando estiver de férias trato disso. Descansa.
Não me custa nada, eu fazia isto todas as férias na casa da avó. Gosto da terra. Quando a Lídia estiver de férias, que descanse.
As férias passaram num instante. As visitas voltaram para Lisboa, a Catarina ficou de novo sozinha. Fizeram tudo o que havia para fazer. Depois ficou triste nem à noite tinha ânimo. Um dia, ligou ao filho mais velho.
Que se passa?
Nada, só para saber de ti. Não vêm cá um dia destes?
Não temos tempo. Liga ao teu irmão, ele ainda vai ao Algarve de férias, se calhar não foi.
Ligou ao mais novo, mas a mesma resposta. Vai para o Algarve, não tem tempo para a mãe. Enfim. O Diogo prometeu que vinha
Os anos passaram. Diogo e Rita compraram um apartamento. Não se esqueciam da tia Catarina, iam lá muitas vezes. Ajudavam nas lides da casa, levavam os filhos. Por vezes, os miúdos passavam o verão todo com as avós, Catarina e Lídia, já ambas reformadas.
Catarina nunca conheceu netos dos filhos. O mais novo criou o filho da mulher, não era dele. O mais velho sempre ocupado a carreira primeiro, depois já era tarde. Assim eram os filhos: nunca tempo para a mãe ou para ter filhos. Uma vez por três ou quatro anos, visitavam e a mãe que ficasse contente!
Ainda bem que tinha Diogo, Rita e a irmã.
Assim continuaram até Catarina adoecer. Fez tratamentos, mas precisava de dinheiro. Ligou ao filho mais novo, explicou a situação.
Oh mãe, nunca foste a termas na vida, agora também não começavas! Fica em casa, com a saúde recuperas na tua cama. As paredes ajudam.
Diogo e Rita pagaram a estada de Catarina nas termas.
Mandaram as duas irmãs, assim faziam companhia uma à outra e era mais animado
Catarina partiu quatro anos depois. Os filhos vieram de Lisboa para a aldeia para o velório.
Ainda bem que ao menos agora vieram, cochichavam os vizinhos. Ao menos acompanharam a mãe.
No final, já se preparavam para voltar à cidade, enquanto a tia Lídia estava com a família do Diogo em casa.
Tia Lídia, bem, está na hora começou o filho mais velho. Vamos fechar a casa. Também devia ir embora.
Ir embora? admirou-se Lídia. Mas esta é a minha casa! Não tenho para onde ir.
Todos olharam para Lídia, surpresos.
Esta é a casa da mãe! disse o mais novo. Agora é nossa. Vamos vendê-la. Se quiser alguma recordação, leve um vaso ou um serviço de chá. Isto vai tudo embora.
Guardem algo da vossa mãe, mas a casa, a minha irmã deixou-ma em vida, quando voltou das termas, logo quando adoeceu.
A casa? Deixou-lhe? Mas nós somos os filhos
Lembraram-se tarde! Onde estiveram quando ela precisou? Nem uma vez vieram enquanto esteve doente! Filhos
Os irmãos foram-se embora, nem desculpas deram. Agora já não tinham onde ir, a quem telefonar
Lídia ficou na casa da irmã. Arrenda o apartamento. Ajuda o filho e a família. E eles vão visitá-la, ajudam também. Uma família bonita e unida, só falta a Catarina
Mas ela estará sempre presente. Na memória de todos.







