Quando me despedi do meu irmão na estação de comboios de Lisboa, a minha mãe estava profundamente emocionada, temendo que talvez fosse a última vez que se encontrariam nesta vida, considerando a idade avançada dela. Na ânsia de ver o meu irmão e a minha irmã pela última vez, iniciei uma jornada surreal. Primeiro, fui visitar o meu tio Joaquim, que agora morava numa aldeia onde as ruas tinham nomes que pareciam desenhados por sonhos. Era tempo de ir visitar a casa da minha tia Clara. O tio Joaquim, entre risos e aromas de café forte, fez uma piada sobre o meu casamento próximo, marcado para daqui a seis meses. Respondi-lhe com um convite que soou como eco num corredor de azulejos. Ele advertiu-me, com um olhar cúmplice, para que tivesse atenção ao seu sinal de nascença oculto por detrás do pulso. Ao nosso redor, o tempo estava luminoso, quase dourado.
Ao chegar, fomos recebidos com um abraço silencioso e pão quente pela tia Clara e pelo seu marido, o senhor Manuel. Na manhã seguinte, eu e a minha prima mais nova, Mafalda, decidimos caminhar até o Atlântico, onde o mar parecia uma tapeçaria ondulada. Depois de nos refrescarmos nas águas, regressámos para almoçar, entre sorrisos e a lentidão própria dos dias de verão. Mafalda, com o olhar inquieto de alguém que sonha acordado, convenceu-me a voltar ao mar pela tarde, e a seguir ir ao cinema de bairro, onde só passavam filmes que pareciam recortes de lembrança. Ao sair da água, dois jovens apareceram como se tivessem emergido de um quadro surrealista, perguntando com sotaque do Norte como poderiam chegar à Rua dos Cedros. Mafalda explicou, enquanto o segundo rapaz me observava com atenção estranha, perguntando: “Desculpe, chama-se Leonor?”
Senti-me deslocada, como se a pergunta tivesse vindo de outro tempo, e levantei as sobrancelhas. Ele apressou-se a explicar: “Vive em Lisboa e tem uma amiga chamada Beatriz, minha irmã. Vi-a nas fotografias dela e fiquei curioso sobre si.” Só então reparei no sinal de nascença que parecia dançar no braço dele. Decidimos todos juntos ir ao cinema e depois flutuar por uma caminhada ao longo do rio, onde os lampiões pareciam olhos que observavam tudo. Ao despedir-nos, o jovem disse que ele e o amigo estavam a terminar uma viagem de negócios, e que partiriam no dia seguinte. Pediu-me o número de telefone e permissão para ligar, ao que assenti, sentindo que tudo era ligeiro e impossível.
Dez dias depois encontrou-se comigo e com a minha mãe no aeroporto de Porto, onde cada passo ecoava como um acorde de fado. E seis meses mais tarde, numa noite cheia de cravos vermelhos e vinho verde, casámo-nos, como se tudo tivesse acontecido num sonho que se repete.







