Ao sair do Hospital de São João, em Lisboa, Olívia topou um homem na porta.
Desculpe murmurou ele, mantendo o olhar sobre ela por um instante.
Logo depois, o mesmo olhar tornouse frio e desdenhoso; o homem virouse e, como se nunca a tivesse visto, seguiu o seu caminho.
Quantas vezes Olívia já se pegou sob esse tipo de mirada? As meninas esbeltas e longilíneas eram observadas de forma diferente. Quando um homem avistava uma mulher magra, os olhos deixavam de ser vazios para se tornarem pegajosos e ávidos. Essa injustiça a magoava profundamente. Como poderia ser culpada por ter nascido assim?
Quando era pequenininha, todos elogiavam as suas bochechas rosadas, os seus passos delicados e o seu corpinho redondo. Na escola, ao formar filas nas aulas de educação física, ela sempre ficava a primeira entre as meninas. Sofria provocações de um colega gordo, chamado Bicho alcunha que os outros usavam como zombaria. Não preciso enumerar os apelidos mais cruéis; as crianças são, como se sabe, bastante duras. Os professores percebiam as gozações, mas nada faziam.
Olívia tentou diversas dietas, mas a fome era constante e ela acabava desistindo; os quilos perdidos voltavam rapidamente. Era simpática, porém o excesso de peso manchava a primeira impressão. Sonhava em ser professora, mas abandonou o desejo, temendo que, de qualquer forma, as crianças lhe lançassem mais insultos. Terminada a escola, ingressou no Instituto de Ciências da Saúde.
Quando alguém está doente, pouco lhe importa a aparência de quem lhe presta socorro; o que conta é aliviar a dor. No curso, não havia rapazes, e as raparigas viviam preocupadas consigo mesmas, namorando e casando. Olívia permanecia só. Nas aulas, as colegas pediam que ela sentasse na primeira fila, usandoa como escudo para não chamar a atenção do professor.
Olívia admirava, com saudade, os vestidos elegantes nas vitrines das lojas de moda. Nunca os vestiria. Optava por blusas largas e saias amplas, tentando esconder as imperfeições. Nos estudos, sobria-se nas injeções, que realizava com destreza e sem dor, ganhando a preferência dos pacientes idosos.
Certa tarde saiu ao patinódromo com as amigas. Os rapazes lançavam-lhe piadas ásperas: Olha lá, vai para a cantina da fábrica de carne! riam, fazendoa chorar por dentro.
A mãe tentou apresentála a alguns rapazes amigos. Olívia chegou a aceitar alguns encontros. Um rapaz, ao vêla, fezcomo se nada lhe interessasse e afastouse. Outro, antes de sequer a conhecer, tentou apalpála. Ela empurrouo, e ele caiu de costas numa poça. Que estás a fazer? gritou ele, estou a tentar ser feliz. As lágrimas apertaram o peito de Olívia. Não quis mais sair em encontros; preferia ficar sozinha.
Na sua página de rede social, colocou como avatar a Fiona de Shrek. Quando um homem lhe perguntou como era na vida real, ela respondeu: É assim, só que não sou verde. Ele levoua a brincadeira, escreveu: Deve estar cansada de admiradores insistentes e resolveu espantaros com essa foto, e propôs um encontro. Olívia imediatamente cortou a conversa.
Num corredor do serviço, um menino de seis anos correu em direção a ela.
Aonde vais? Aqui há doentes, não se pode fazer barulho disse, segurando-lhe a mão.
Queria deslizar no linóleo confessou o menino.
Com quem vens?
Com o papá, a avó. Onde fica a casa de banho? perguntou.
Vamos, conduziuo Olívia até ao fim do corredor. Vaite calhar?
Ele lançoulhe um olhar indulgente. Não se ofendeu. Pouco depois ouviuse o som de água a correr; o menino saiu à sua procura.
Agora vamos, vais levarme à ala onde a avó está? perguntou.
Ele suspirou e seguiua. Pararam à porta de uma ala. O menino fez cara séria, colocou o dedo na boca. Olívia observava, contendo um sorriso.
É aqui, parece apontou para a porta da quarta ala.
Parece? Não viste o número? Ou não sabes contar? questionou Olívia, percebendo que era uma ala masculina.
Eu sei, não sou pequeno. Até letras conheço. respondeu o garoto, apontando para a porta número cinco.
Ah, traquinas brincou Olívia, fingindo irritação.
Ele riu alto.
Como te chamas?
Ilhéu respondeu antes que a porta da quinta se abrisse, revelando um homem alto e simpático.
O homem fitou o menino.
Ilhéu, que demoraste! exclamou, ao notar Olívia. Um breve olhar avaliou a sua aparência e, num instante, perdeu o interesse.
Ele brincava? indagou o homem.
Olívia já conhecia esse tipo de olhar indiferente e desdenhoso.
Não brincava. Não o critiquem respondeu, afastandose.
Vamos despedirnos da avó, já é hora ouviuse ao fundo.
No dia seguinte, Ilhéu e o pai visitaram novamente a avó. O homem passou por Olívia sem a notar. Ela mostrou-lhe a língua. Nesse instante Ilhéu se virou, riu e levantou o polegar. Olívia sorriu e acenou.
Entrou na quinta ala.
Está bem vestida hoje, Dona Helena. O neto esteve aqui? perguntou.
Viuo? É um menino maravilhoso. Quero saber como será quando crescer.
Ainda tem muito caminho pela frente. Ainda vai fazer a babá dos bisnetos respondeu alegremente.
Deus nos ajude. A alma dói por ele. Creceu sem a mãe.
A mãe? Olívídea confusa.
Não, está viva. Fugiu e abandonounos. explicou Helena, com um suspiro.
Você disse nos? Olívia.
Ilhéu não é meu neto de sangue, mas amamoo como tal. O meu filho casouse com uma linda, que confessou ter um filho fora do casamento. O meu marido sofreu um infarto e eu fui parar ao hospital. Dois anos atrás, a mãe de Ilhéu recebeu uma proposta de trabalho no estrangeiro e foi embora, trabalhando como modelo. As mulheres que o filho conhece são todas belas e egoístas. Ilhéu não as aceita.
Olívia passou o dia absorvida pela história de Helena. Quando entrou para fazer a injeção, derramou um pouco de água pelo nariz.
Dona Helena, não se preocupe, lembra? disse Olívia severamente.
Não me preocupo. Olhe. entregoulhe um desenho. Representava um menino segurando as mãos dos pais. Não havia dúvidas de quem eram.
Ilhéu procura a mãe. Acho que ele desenhoua, Olívia.
Não, ele desenhou a mãe dele corrigiu Olívia.
Ele já não se lembra da mãe. Era magra. Mas aqui a mãe está grande, mais alta que o pai. Não é? insistiu Helena, soluçando.
Olívia percebeu que o menino havia desenhado a mãe maior que o pai. Até uma criança entende que eu sou grande demais para ele. Nunca serei a mulher ideal para um homem bonito como o pai de Ilhéu. Pensou, sentindose diminuta.
De então em diante, sempre que Olívia visitava Helena, trocavam frases curtas. Quando Ilhéu voltou ao hospital, aproximouse imediatamente de Olívia.
Boa tarde. As suas mãos são boas? perguntou.
Não sei respondeu ela, tímida.
A avó disse que está em boas mãos. Ilhéu fezum olhar maroto. Ela vai sair logo, não é? E eu faço aniversário na próxima semana.
Acho que a avó vai embora mesmo. Quantos anos tem?
Seis respondeu o menino, orgulhoso. Quero convidara para a festa.
Olívia aceitou, porém pediu permissão ao pai. O pai de Ilhéu, ao encontrara, disse:
Lembrome, filho. Convidovos ao aniversário do meu filho. Ele terá seis anos. Aqui está o endereço e o telefone. No sábado, às dez da manhã, esperamos por vocês, se não tiverem outros planos.
Olívia, ruborizada, respondeu:
Temos os seus contactos. Não tenho planos para o fimdesemana.
Pensou: Preciso perder mais uns quilinhos.
Em casa contou à mãe sobre Ilhéu.
Vá, as crianças percebem mais que os homens. Talvez se dê alguma coisa entre ti e o pai dele. Não olhes para mim. O menino procura mãe.
Mas o pai nem me olha. disse Olívia, desanimada.
Não exageres. Para ele também importam os sentimentos da criança. Caso contrário já teria casado com outra modelo.
No sábado, Olívia penteouse, vestiu um vestido simples, tingiu levemente os cílios. No espelho fez caretas, mas concluiu: Se não me embelezar, não emagrecerei. Comprou o presente já na semana anterior, pensando no aniversário de Ilhéu.
Ao tocar a campainha, o coração disparou.
Olívia chegou! exclamou Ilhéu, abraçandoa com o que o seu braço permitiu. Ela acariciou o seu cabelo curto e entregoulhe o embrulho colorido.
No centro da sala, uma mesa festiva já estava posta. Sentado ao lado, estava João, ao lado uma jovem loira de cabelos dourados. Do outro lado, um senhor idoso, o avô de Ilhéu. A loira, modelo, arqueou a sobrancelha ao ver Olívia entrar.
Conheçam a minha salvadora, Olívia. Este é o meu marido, Boris. Este é o nosso filho, e disse Helena, apresentandoa a todos.
A loira fez uma cara de desdém; ao tentar servir o vinho, o copo derramouse nas pernas da mulher, que quase caiu. O caos se instalou.
Mesmo com os pedidos de desculpa, a loira levantouse para ir embora. Olívia também se levantou.
Não se ofenda, mas começou João.
Por que devo ofenderme? respondeu Olívia, preparandose para sair. Acho que é hora de ir embora.
A mãe preparou um bolo caseiro. Não a irritemos. Depois levoa a casa. disse João.
No carro o silêncio reinou.
Não precisei de companhia. Eu mesma teria chegado interrompeu Olívia.
Minha mãe não me perdoaria se eu não a acompanhasse. Você tem aparecido muito nos meus caminhos. Não me surpreende se a minha mãe quiser casarnos.
Não te adoro, nem tu a mim. Não pretendo casarte. Olívia respondeu, a voz trêmula. Não se preocupe, evitarei estar à sua vista.
De repente o carro parou diante da casa. Olívia tentou abrir a porta trancada.
Abram logo! gritou.
João inclinouse e beijoua. Olívia se afastou bruscamente.
O quê? Está cansado de loiras? Dezinflouse com as gordas? Decidiu brincar comigo por diversão? Ah, claro. Devo agradecer a atenção? seus olhos ardiam, a voz carregada de raiva.
Ela não fazia ideia de quão bela estava naquele instante. João, encantado, tentoua puxar. As loiras, convencidas da sua superioridade, mantinhamse frias.
Desculpe, não sei o que me passou. Não queria magola. Só pareceu que recuou.
Nunca me beijou ninguém na vida, exceto quando me feliz. Olhemme com compaixão, rejeitamme sem sequer tentar conhecerme. exclamou, saindo do carro.
No fim de agosto, o tempo esfriou bruscamente, com chuvas e ventos. As folhas caíam rapidamente. Três semanas após o aniversário de Ilhéu, Olívida não via João. Chegando do trabalho, tirou as botas molhadas.
O teu rapaz chegou? perguntou a mãe, entrando na entrada.
Que rapaz?
Um homem elegante, parecia preocupado. Pediute para ligarlhe.
Olívia ligou imediatamente.
Sou eu, fui ao teu filho. Ilhéu está doente. Podem vir? Precisamos de injeções dizia a voz.
Vou já! respondeu ela, vestindose apressada.
Saindo do prédio, recordouse de não ter perguntado se tinham álcool gel, seringas etc. Correu à farmácia e comprou tudo.
Ilhéu ficou radiante ao vera. O suor escorria-lhe pela testa, sinal de febre a baixar. Lavouse as mãos, preparouse para a aplicação. Prescreveramlhe antibióticos e vitaminas.
Lembra que tenho mãos seguras? Não tenhas medo disse Olívia, vendo o pânico nos olhos do menino. Ele fechou os olhos com força e depois, sorrindo, confessou que sentiu só um leve incômodo.
João observavaa com interesse; ninguém a tinha notado assim. Ela corou, ficou tímida e ainda mais bonita. O coração batia como ave feliz.
João a conduziu até à casa novamente.
Olívia, vamos ao café? Ainda não conversámos.
Fazes isso pelo filho? Não. Se eu esperar, não me amarás. Não se pode amarme. Sou gorda.
Gorda? És aconchegante, suave e bondosa. As crianças nunca se enganam; não se pode enganaras. Tu agradas ao Ilhéu e a mim. Acho que podemos construir uma família forte.
E se a mãe de Ilhéu voltar?
Não voltará. Enviounos a recusa da criança e o acordo de separação. Casouse novamente; o filho não lhe interessa. Ele é meu. Então, aceitas sair comigo?
Sim respondeu Olívia, sem hesitar.
Para cada pessoa há alguém que lhe pertence, um outro lado, seja bom ou mau, mas sem ele tudo fica ainda pior. Não importa a aparência; às vezes as metades nunca se encontram, e quando o fazem, não reconhecem a alma gêmea porque não percebem o coração que bate em sintonia.
O verdadeiro amor, afinal, é o que transforma o patinho feio num cisne branco, revelando a delicada e vulnerável alma que está dentro de cada pessoa. Essa é a lição que Olívia aprendeu: a beleza exterior pode ser eclipsada, mas a dignidade e a bondade interior são que, finalmente, fazem de nós alguém verdadeiramente amado.







