Inês nunca lhe passou pela cabeça sugerir ao Sérgio que fosse morar consigo. Namorarse é uma coisa, conviverse é outra bem diferente. No sábado, Inês aguardava o Sérgio para a caminhada de sempre. Abriu a porta, fez o gesto de receber, e deu de cara com ele carregando duas malas enormes.
Sérgio, o que se passa? indagou ela, meio perplexa.
Inês, posso entrar? Já explico.
Entraram no salão. Sérgio deixou as malas no corredor e sentouse no sofá.
Sabes, a senhorita da casa onde estou a alugar decidiu vender o apartamento. Têm uma semana para eu me mudar.
E agora?
Agora não tenho onde ficar. Não dá para arranjar outro apartamento à hora e ainda não tenho dinheiro para isso.
Inês começou a perceber onde o rapaz queria chegar.
Sérgio, penso nós estamos numa relação séria. Já nos vemos há meio ano, conhecemonos bem. Será que não tentamos viver juntos?
Juntos? repetiu ela, surpresa.
Pois, a tua casa tem três quartos, há espaço de sobra. Eu ainda trabalho, então dividimos as despesas de comida e tudo mais.
Sérgio, nunca falámos sobre isso.
E por que conversar antes? A vida já nos dá as pistas.
Inês sentiuse atolada. Não estava preparada para tal reviravolta.
Preciso de um tempo para pensar.
Pensar? Mas nós gostamos um do outro.
Amar e viver sob o mesmo teto são coisas distintas.
Por que diferentes? Na nossa idade já devemos decidir.
Decidir o quê?
O futuro da relação. Se nos encontramos, deveríamos estar juntos, não?
Inês lançoulhe um olhar às malas empilhadas no corredor. Era como se o Sérgio já tivesse decidido por ela, trazendo a bagagem e impondo a situação.
E se eu disser que não?
Contra quê? Contra a felicidade?
Contra alguém que aparece com as malas sem sequer pedir licença.
Inês, não estou a fazer nada de mal. As circunstâncias simplesmenteseapresentaram.
As circunstâncias não aparecem, são criadas.
O que queres dizer?
Que devias ter falado comigo antes de trazeres a bagagem.
Sérgio ficou calado, ponderando.
Muito bem. Então falemos agora. Proponhonos viver juntos.
Recusome.
Porquê?
Porque gosto de viver sozinha. Gosto da nossa companhia, mas não de dividir o quotidiano.
Mas porquê? Combinanos bem.
Combinanos para encontros, passeios, merendas ao parque, mas não para dividir a louça e o despertador.
Qual a diferença?
O quotidiano exige hábitos, ordem, concessões. Eu não quero adaptarme. Estou bem como está.
O Sérgio pareceu abatido.
E se eu sugerir casamento formal?
Pra quê?
Para ter tudo à portuguesa, certinho, como se deve.
Casamento não muda nada. Ainda assim não quero viver contigo.
Então qual o sentido da nossa relação?
O mesmo de antes: encontramosnos, conversamos, partilhamos momentos.
E depois?
Continuamos a encontrarnos.
Mas isso não parece sério!
Por quê? Esse tipo de relação encaixame.
Eu quero estabilidade.
Que tipo de estabilidade procuras? perguntou Inês, sentandose à sua frente.
A típica, de família. Acordar ao lado da pessoa amada, planejar o futuro.
Eu não quero partilhar o pequeno-almoço todos os dias. Não quero encaixarme nos planos de ninguém.
Mas estás só!
Não, tenho as minhas filhas, as amigas, tenstu. Solidão e viver só são coisas diferentes.
Não percebo a diferença.
A diferença está em eu escolher quando e com quem socializo. Se morarmos juntos, essa escolha desaparece.
Inês, aos sessenta e poucos anos é altura de pensar em quem vai estar ao teu lado na velhice.
Penso nisso, mas não tem de ser um marido.
Quem então?
As filhas, uma cuidadora, a Segurança Social. Há opções.
Mas não são o que eu quero!
Pode não ser o que pretendes, mas funciona para mim.
Sérgio levantouse e passeou pela sala.
Então, estás a sugerir que eu continue a viver numa casa de aluguer, e a encontrarte só nos finsdesemana?
Proponho que vivas como te convém, e que nos encontremos quando ambos quisermos.
E se eu não puder arrendar outro apartamento?
Essa é a tua responsabilidade, não a minha.
Cruel, Inês.
Honesto. Não sou responsável pelos teus problemas de habitação.
Mas ainda nos vemos!
Sim, vemosnos. E isso não me obriga a resolver a tua vida.
Sérgio sentouse de novo no sofá, pensativo.
Inês, se eu encontrar um apartamento, continuamos a conversar?
Claro, se ainda quiseres.
E enquanto procuro, posso ficar contigo por uns dias?
Não.
De jeito nenhum?
De jeito nenhum.
O homem percebeu que Inês estava a levar a sério. Pegou nas malas e dirigiuse para a porta.
Parece que vou ter de procurar tanto casa quanto um novo romance.
Talvez.
Inês, não vais arrependerte?
Não.
Sérgio saiu e nunca mais a telefonou. Inês voltou à sua vida tranquila, sem marido ao lado. Aos sessenta e poucos anos, valorizava mais a paz do que um relacionamento, e a liberdade acima de qualquer companhia
E tu, o que farias nesta situação? Deixa a tua opinião nos comentários e dá um like!

