O Último Raio de Luz

O ÚLTIMO RAIAR DE LUZ

A chefe do serviço de clínica geral era notada por todos: os homens olhavam-na com admiração, e as mulheres, por vezes, deixavam transparecer um leve ciúme. A ela, elegante e de olhos escuros, a bata branca assentava-lhe como uma segunda pele. Prendia o cabelo atrás, num rolo impecável, e a touca engomada aumentava-lhe ligeiramente a estatura. Talvez fossem as palmilhas dos sapatos, ou a suavidade do andar, mas o som abafado dos tacões nunca incomodava nos corredores. Parecia ter uns quarenta e cinco anos, mas ninguém no hospital sabia dizer a sua idade ao certo. A rígida e íntegra Dona Teresa Andrade causava respeito em colegas e utentes.

Não faltaram homens pacientes ou colegas que tentassem cortejá-la, oferecendo-lhe flores ou caixas de chocolates, lançando convites para jantares. Mas bastava um olhar severo para os travar no lugar. Circulavam muitas conversas e suposições à volta da sua vida: diziam que teria vivido um desgosto de amor, que o marido teria morrido, talvez no mar ou na guerra, e que perdera um filho… Ninguém sabia ao certo o que era verdade e o que eram apenas invenções.

O que sabiam, era que vivia sozinha. Não permitia grande proximidade com ninguém e não cultivava amizades dentro do hospital. Contudo, de má língua ou de feitio difícil, não lhe podiam chamar.

Na juventude, Teresa apaixonara-se como ninguém por um colega de curso, belo e encantador, de nome Artur Andrade. Era-lhe impossível viver sem ele. Mas Artur, sempre rodeado de atenções, acabaria por se cansar da sua devoção e preferiu outras companhias, deixando-a entregue à solidão.

Desde então, Teresa não deixou mais ninguém entrar no seu coração. Talvez nunca tivesse deixado de amar Artur, talvez apenas tivesse medo de sofrer novamente.

Naquele final de tarde, Teresa parou junto ao balcão das enfermeiras.

– Filomena, por favor, dê-me o processo do senhor Álvaro Pessoa, do quarto cinco. Quero preparar-lhe a alta para amanhã.

De processo junto ao peito, regressou ao seu gabinete.

“O homem melhorou bem. Agora depende só da sua vontade em recuperar totalmente, e dos recursos que o corpo dele permitir… Vamos ver quando nos voltamos a cruzar”, pensou, enquanto preenchia no computador a ficha de alta, com exames, tratamentos, análises…

Faltava meia hora para o fim do turno.

Teresa fechou o gabinete à chave e parou, notando a presença de uma mulher ao fundo do corredor, que falava em tom baixo ao telemóvel, virada para a janela.

– Não, não morreu. Está mais vivo que nunca, acredita. Não fiques zangada. Disse-lhe, sim… Como? Achas que ele não sabia? Falamos à noite… disse a mulher, antes de desligar o telefone e desaparecer em direção às escadas.

Teresa entrou no quarto cinco. Em outra ocasião, ao ver as camas vazias, teria certamente feito algum comentário sobre o mal das idas ao cigarro, mas calou-se ao notar as costas pesadas de Álvaro, sentado de costas à janela.

– Senhor Álvaro, amanhã… começou ela, mas quando ele voltou a cabeça, com um olhar de dor e tristeza, as palavras morreram-lhe na boca.

– Sente-se mal? Diga-me, o que dói? sentou-se perto dele, sem se impor.

– Não me pode deixar ficar mais uns dias? É que Não tenho para onde ir balbuciou.

– Então não vê? A mulher pôs-no na rua. Disse-lhe na cara: Acabou-se. Vou dar-me a outro, com ele ficarei fiel para sempre. E ao Álvaro, adeus. comentou Vasco, o senhor grisalho da cama do canto.

– É verdade? perguntou Teresa, baixo.

“Então a mulher ao telefone era ela, a mulher de Álvaro. Queria a morte dele, e sem a ter, entregou-se a outro, roubando-lhe o lugar em casa enquanto estava doente”, ligou tudo Teresa.

Álvaro Pessoa, homem robusto de mais de cinquenta e já com os cabelos prateados, fitava a janela, disfarçando a emoção.

Teresa olhou também para fora. Abril ia já alto. Os botões dos plátanos no jardim do hospital prometiam em breve uma explosão de verde. Mas o céu continuava cinzento, com ameaças de friagem. Nem sol se via.

– Mas não tem mesmo onde ir? E os amigos? Filhos? quis saber, gentil.

– Cada um tem a sua vida. Um ou dois dias, vá lá, mas depois andaria a pedir pouso. Sei há muito que ela via outros. Julguei que passava

– Álvaro, mais uns dias não lhe vão adiantar nada. E há mais gente a precisar desta cama. hesitou Teresa. Escute, tenho uma casa numa aldeia, a uns oitenta quilómetros de Lisboa. A estrada é boa, a casa resistente, mas precisa mãos e força. Já lá não mora ninguém há anos. Amanhã trago as chaves e explico-lhe o caminho, combinamos tudo. levantou-se e saiu sem lhe dar tempo de recusar.

– Vá, Álvaro! Não recuses, homem. Tua mulher nem às unhas da senhora Teresa chega, disse-lhe Vasco, sorrindo.

A primavera foi chegando a sério à beira do Tejo. O frio deixou lugar ao sol, e os dias começaram a aquecer. Num domingo, Teresa entrou no velho Honda e fez-se à estrada a caminho da aldeia.

Ao chegar, surpreendeu-se: o portão pintado de azul forte, o telhado remendado, o degrau da entrada novinho em folha. Parou o carro e desligou o motor. Logo, Álvaro apareceu no alpendre, de t-shirt, calças de ganga, descalço. Nada restava no rosto bronzeado do homem enfraquecido que saíra do hospital. Parecia outro, os ombros direitos, músculos nos braços. Tinha o ar de quem voltara a viver.

– Bom dia! Venho só ver se está tudo bem consigo. Não se aborrece aqui? perguntou, saindo do carro.

– Aborrecer? Quem me dera! Só cá moram três velhotas, que não podiam estar mais contentes por haver mais gente na aldeia. E os veraneantes mal aparecem. respondeu, ainda divertido com a surpresa.

– Vejo que o ar do campo lhe fez bem. Está a trabalhar?

– O meu trabalho? riu-se. Nada de especial. Fui militar, mas cá fora só sabia dar ordens. Trabalhei como segurança. Sinceramente, não sinto falta de nada. A reforma chega-me bem.

– Então mostre-me o que fez na casa! Teresa aproximou-se, desligando finalmente o motor.

– Ficou baralhado, perdoe-me Entre, entre disse Álvaro, abrindo as portas da casa.

No interior, o soalho polido estava forrado de tecidos antigos tecidos à mão. Os raios de sol criavam padrões dançantes nas carpetes. Nas janelas, dois vasos de sardinheiras floridas. O velho relógio pendular marcava as horas com um tique-taque reconfortante.

– Foi a Dona Ermelinda, que mora lá em baixo, que me trouxe as flores. Dão logo outra graça à casa, não acha? notando o olhar de Teresa.

– E este cheiro bom, é de quê? perguntou, curiosa.

– Fiz sopa de couve portuguesa na lareira, e batatas assadas. Aceita um prato? animou-se Álvaro, feliz pela primeira vez ao ver um sorriso sincero no rosto de Teresa. Não foi fácil apanhar-lhe o jeito. Nunca vivi no campo. Foi preciso aprender tudo. As vizinhas deram-me dicas. Por vezes ficava tudo cru, outras vezes queimava-me tudo! explicou, entre risos na cozinha.

Teresa sentiu um súbito impulso para se espreguiçar, levantar os braços até sentir a coluna estalar, como fazia em criança. A energia da casa envolveu-a, trazendo à tona memórias de tempos idos, de risos e cheiros de infância em casa dos avós. Não voltara ali desde que a mãe morrera. Nunca tivera coragem. Nem vender conseguira, fosse pelas recordações carregadas naquelas paredes. Assim, a casa resistira, como herança dos avós, onde a mãe voltava todos os verões. Agora também ela partira.

Lembrou-se dos sacos cheios de compotas, cogumelos e conservas, que transportavam de regresso a Lisboa. Comiam tudo no inverno, recordando o verão. O tempo voara.

– Dona Teresa quanto tempo posso ficar? Pode dizer sem reservas Álavro interrompeu-lhe os devaneios.

– Venha por quanto quiser. Já não cá vinha há quase dez anos. Não conseguia. Venho vê-lo outra vez, se não se importar. Está aqui como na altura da minha mãe quente, reconfortante Nunca quis, nem soube, tomar conta da casa, da terra também não. baixou os olhos, embaraçada. Álvaro respeitou o silêncio.

– Trouxe-lhe mantimentos, quase me esquecia e rapidamente foi buscar o saco ao carro.

Álvaro respirou fundo. Era a primeira vez que via Teresa sem bata ou touca. O vestido leve dava-lhe um ar jovial, o cabelo, apanhado, deixava fugir algumas madeixas. Nunca lhe parecera tão simples e próxima. Olhou para as mãos, ainda marcadas pelo trabalho da terra, e sentiu o peso dos anos acumulados.

Teresa partiu já ao lusco-fusco, deixando pela casa o aroma subtil do seu perfume. A cada objeto tocado por ela, ficava-lhe o cheiro. Era inquietante e, de uma forma há muito esquecida, fazia pulsar o seu coração. E talvez nunca soubesse como seria, caso a vida fosse outra. Agora, quase agradecia à esposa por o deixar só. Passou a noite sem pregar olho, perdido em pensamentos e sonhos tardios.

Dois meses depois, Teresa voltou. Trouxe mais géneros, de presente uma cana de pesca nova. Álvaro, orgulhoso, mostrou o que fizera: o muro puxado a cal, as damas das aldeias vizinhas que vinham agora pedir-lhe consertos, pagos em leite, ovos, natas, pequenas trocas típicas de gente da terra.

A casa, cheia de vida, parecia inflar de peito, não ficava atrás das melhores.

No inverno vai provar pickles e azeitonas feitas por mim vangloriou-se Álvaro. Teresa reparou, sorrindo, que a saúde dele melhorara muito, tinha perdido barriga e estava elegante. Sentia-se pequena sob o seu olhar.

O sol já mal tocava o cume da mata distante, pintando de laranja tudo ao redor.

– Já volto disse Álvaro, saindo apressado.

Teresa vagueou pela casa. Já não era só dela; havia objetos e odores novos por todo o lado. Notou que Álvaro tardava. Procurou-o, cruzou o quintal, e encontrou-o sentado, encostado à cerca, meio desmaiado.

– Álvaro! correu até ele, ajoelhando-se.

Sentiu o pulso, forte mas irregular; voou até ao carro pela mala dos remédios, voltou a correr para dentro de casa por um copo de água. O vestido esvoaçava-lhe à volta das pernas à medida que corria. Se lhe pudesse dar uma injeção pensou, e voltou com comprimidos e água ao jardim.

Quinze minutos depois, Álvaro conseguiu levantar-se, com a ajuda de Teresa. Sentaram-se na cama.

– Deve ter apanhado demasiado sol, desculpe queria ir buscar-lhe frascos de pepinos Fica, pediu, tímido, finalmente a tratá-la por tu.

Teresa, sem saber que responder, ficou ali, de pé, a pensar. Ele encostou-se ao seu ventre, deixava escapar um gemido.

A felicidade é assim: chamamo-la, ansiamos por ela, tentamos encontrá-la, e habituamo-nos a viver sem. Entendemos viver sós, sem mais traições ou medo da perda. Mas, por vezes, os caminhos encontram-se por acaso, e daí para a frente seguem em conjunto.

E o amor? Ah, esse tem muitas caras. No começo, é ardente, cego; queremos possuir por inteiro. Com o tempo, é brando, quente e silencioso, como o último raio de um poente sobre o AlentejoMas depois, com o tempo, aprende-se a notar-lhe outras formas: a da ternura atenta, do gesto discreto, do silêncio partilhado depois do susto. Teresa sentou-se ao lado de Álvaro na velha cama e, pela primeira vez em muitos anos, deixou a mão repousar sobre outra mão. Não disseram mais nada. O relógio ao longe bateu suavemente as nove; lá fora, cigarras faziam-se notar no lusco-fusco e, através da janela entreaberta, entrava o perfume a madressilva.

O medo, fiel companheiro de ambos, já não incomodava tanto. Nem fantasma de solidão, nem passado com nome e rosto, nem promessas de eternidade. Bastava o agora, o calor breve mas inteiro de duas presenças que se reconheciam ao fim de tanto desencontro.

No dia seguinte, ao despedirem-se à porta, Teresa olhou nos olhos de Álvaro. Não era a promessa do sempre apenas o simples convite de um regresso.

E, nesse último raiar de luz, foi como se o tempo lhes desse de volta tudo o que tinham perdido. Os pássaros começaram o seu canto da tarde, e no rosto de Teresa surgiu um sorriso claro, daqueles que só nascem quando o peso do mundo começa, devagarinho, a desvendar-se em leveza.

Da estrada, ao partir, olhou para trás e sentiu, enfim, o que é ter casa: não um sítio, mas um instante, uma companhia onde o coração descansa. E, pela primeira vez em décadas, soube: acontecesse o que fosse, já não seria tarde.

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