UMA VIDA INCRÍVEL
No casamento da minha amiga Filipa, festejámos durante dois dias seguidos: havia comida, bebida e alegria em abundância. O noivo era tão elegante como um galã de novela e, para além da beleza desmedida, tinha uma simplicidade que surpreendia toda a gente. Nós, convidados, analisávamos atentamente o Vasco: olhos de um azul intenso como o céu de Lisboa, pestanas ridiculamente densas e longas para um homem (porquê, Santo Deus, herdam logo eles tal fortuna?! A natureza é mesmo traiçoeira!), queixo firme, nariz romano e uma pele aveludada sem uma única borbulha, com um tom moreno digno dos dias de verão em Cascais. A cereja no topo do bolo: quase dois metros de altura e uns ombros largos como um atleta olímpico. Se não gostássemos tanto da Filipa, tínhamos logo iniciado uma disputa por aquele maravilhoso espécime de homem ali à nossa frente. O Vasco era mesmo um regalo para os olhos.
Eh pá, onde é que tu arranjaste tal beleza? cercámos logo a Filipa, cada uma de nós a tentar exibir o ar mais infeliz do mundo, só para o caso de o Vasco ter um primo igualmente atraente à disposição.
Ai, meninas, vocês nem imaginam! Eu o Vasco apaixonei-me mesmo foi pela simplicidade dele. O Vasco é de uma aldeia da Beira Interior, foi criado pela avó, sabe fazer de tudo, é um rapaz cheio de jeito para os trabalhos manuais. Conhecemo-nos por acaso, quando os meus pais compraram uma casa de férias lá na aldeia dele. Ele é atencioso, bondoso e uma rocha de confiança. Sabem gerir bem qualquer coisa, um verdadeiro homem! Demorei uns bons meses a convencê-lo a mudar-se para Lisboa comigo, foi precisa muita conversa e algum jeitinho, confesso, mas lá consegui.
O Vasco revelou-se rápido a adaptar-se à nova vida: aprendeu sobre vinhos e azeites, perfumes portugueses, política, viagens pela Europa, a Bolsa de Lisboa, desporto e o essencial das artes do Porto à capital. Perdeu o sotaque da terra, pegou no carro que o meu sogro nos emprestou e começou a trabalhar numa empresa do pai, com um cargo respeitável. Sobre quem nos ofereceu a casa, nem comecem! Façam as contas…
No segundo ano de casados, o Vasco desenvolveu um gosto estranho por meias brancas. Não tirava aquelas meias por nada, usava pela casa, nas visitas a amigos, por baixo das galochas, mesmo quando andava descalço em chão sujo, achava-se sempre em condições com as benditas meias brancas.
A Filipa nunca foi grande fã das ditas meias, mas lá se resignava, limpava o chão duas vezes por dia e enchia a despensa de lixívia. E assim, o Vasco ganhou o alcunha de “Meinha”.
A infidelidade do Vasco descobriu-se quando a Filipa já estava de oito meses de gravidez. E, como se não bastasse, a amante do Vasco também se encontrava no mesmo estado
O Meinha foi posto fora de casa, despedido, amaldiçoado e chorado num único dia. Depois veio o arrastar dos dias cinzentos daquele outono farto de chuva. Filipa ficava estendida na cama, agora descomunal, a olhar o teto, olhos secos:
Chorar, choro depois. Agora não posso, faz mal ao bebé.
A Filipa parecia a estátua do Dom José no Terreiro do Paço, imóvel no seu silêncio, enquanto nós fazíamos turnos ao lado dela, a apoiar a amiga com a nossa presença calada.
Dava uma vontade de desfolhar os livros dos destinos e arrancar as páginas da traição deste romance. Mas era preciso silêncio e esperar.
No dia da alta do hospital, fizemos uma festa, balões e tudo, minutos à porta da maternidade de Santa Maria, implorando às enfermeiras para celebrar com um copinho de chá connosco ali ao ar livre, quase no meio do trânsito do Campo Grande, a desejar felicidade e saúde a todos. O novo avô era dos mais entusiastas: na véspera, emocionado e prometendo às auxiliares limpar tudo depois, escreveu a giz por baixo da janela da Filipa, enormes letras tremidas: Obrigado pelo neto!. Depois tentou cantar, mas foi travado amavelmente pela segurança do hospital, que lá lhe fez companhia no posto, brindando com um copito de aguardente sem perturbar a ordem pública.
No dia da alta, o avô estava fresco, revigorado e chorou de felicidade e orgulho. Lá chorámos todos em coro, rimos, beijámos a Filipa, olhámos discretamente para o envelope azul do pequeno Igor, sem ousar comentar o nariz romano do pai. Só a Filipa não verteu lágrimas, nem na maior alegria:
Depois. Não vá o leite estragar-se!
Filipa manteve o silêncio durante mais dois meses, até que decidiu visitar o Vasco. Não levou fósforos nem lixívia, mas ia cheia de vontade de gritar, acusar, descarregar a dor que a prendia à cama, deitar cá para fora o sofrimento acumulado, largá-lo em cima do traidor. Do destruidor do seu sonho, da família que imaginara: ela, a tricotar meias para os dois amores, Igor risonho, o Vasco a passear de mãos dadas com o filho, ela nos braços do seu homem.
E ainda queria encarar a sem-vergonha que se deitava com o marido dos outros. Tinha de enfrentar aquele olhar, certamente insolente e muito bonito. Era nesses olhos que queria cuspir, se fosse preciso, e, se nada bastasse, arrancava-lhos.
Onde encontrar esse palco de escândalo soube por acaso, a caminho do jardim com o filho ao colo, quando as velhas lá do bairro em Almada a detiveram, informaram-na que o Vasco era um desavergonhado, deram-lhe de cor as indicações até ao ninho dos amantes e conselhos práticos de como desforrar-se. Filipa ficou atordoada, a chorar por dentro, quase virou costas e foi-se embora, mas qualquer coisa a fez ficar.
E aqui está ela, Filipa, de pé à porta de um prédio antigo na Ajuda. Só faltava subir ao quinto andar ou atirar-se de boca e fazer um escândalo.
Ao subir, pensava: Com a minha sorte, vão estar todos fora e eu perdi o meu tempo! No segundo andar achou até boa ideia, era melhor que não tivesse ninguém em casa. Ao terceiro ouviu um choro de criança a ecoar lá de cima.
Abriu-lhe a porta uma rapariga magricela de olhos inchados, nada a ver com a figura de uma sedutora que rouba maridos de outras.
Enquanto Filipa observava embasbacada os quarenta quilos de rival, daquelas que o vento leva, a criança chorava desalmadamente dentro.
Bom dia, Filipa. O Vasco já cá não está, deixou-nos há duas semanas. Não faço ideia por onde anda murmurou a rapariga, sentando-se no chão e desatando a chorar.
A Filipa perdeu a vontade de gritar. Apeteceu-lhe atravessar o corredor para acalmar aquele miúdo a berrar, dar um sermão à mãe desnaturada. Depois, claro, rematar com: Quem se mete nessas andanças, corre riscos, amor! Sim, tinha de se lembrar de dizer isto. E olhar bem de cima, com ar de quem tem toda a razão do mundo.
O bebé estava só com fome: olhos inchados, veia levantada na testa, voz gasta. O pequeno berrava de fome, no limite das forças, enquanto a esquisita da mãe se largava a uivar no chão.
Como a viu remexer os armários da cozinha à procura de leite, vasculhar o frigorífico vazio disto a Filipa só se lembrou depois, com dificuldade. Encontrou em cima da mesa um papel com uma frase assustadora e inacabada: Peço desculpa pela minha vi….
A rapariga do chão soluçava, contava à Filipa como se fosse uma amiga, que tinha de abandonar aquele apartamento alugado em poucos dias. Que o dinheiro nunca chegou, o Vasco desaparecera, o leite estava a acabar. E que sentia muita vergonha, mas que não sabia. Pedia desculpa, que podia dar-lhe um estalo se quisesse, era só pegar. E o menino chamava-se Paulo, para a Filipa nunca esquecer. O Paulo era nove dias mais velho que o Igor.
Filipa teve de correr para casa dentro de 20 minutos o Igor ia pedir mama. Descer não foi fácil: levava dois sacos carregados, a rapariga seguia ao lado, embalando o Paulo já reconfortado. Filipa corria e calculava onde ia arranjar espaço lá em casa para mais duas camas.
Três anos depois estávamos todas no casamento da Clara, quatro anos mais tarde, celebrámos o da Filipa. O marido da Filipa odeia meias brancas diz que a vida é para ser colorida e adora a mulher, o filho e as duas filhas. A Clara já é mãe de quatro rapazes, e o marido ainda sonha com uma princesinhaE, para surpresa de muita gente, o Paulo corria solto no meio das miúdas, o Igor atrás dele, e já ninguém perguntava de onde vinham ou a quem pertenciam ali, naquelas tardes de verão, eram todos filhos da Filipa, da Clara, da vizinha Luísa, e do avô que sempre chorava nos discursos. Havia sardinhas a pingar nos pratos, gargalhadas a atravessar janelas abertas, música má e boa no rés-do-chão, crianças a criar memórias num lar de portas escancaradas sem pedir licença.
Quando alguém perguntava à Filipa como conseguia rir tanto depois de tudo depois do Meinha e das meias brancas, depois do chão lavado tantas vezes e do amor destruído ela respondia só com um sorriso largo e certo, olhos já sem receios:
Porque aprendi que, depois do pior, o melhor chega. E às vezes, vem acompanhado.
E voltava-se para os seus, sem nunca esquecer que, no fundo, uma vida incrível é feita de amores imperfeitos, laços improváveis, coragem para recomeçar e festas sem hora de terminar.







