Ilusão de traição
Tens mesmo a certeza de que queres que eu vá contigo? perguntou Gonçalo, inclinando ligeiramente a cabeça com aquele sorriso morno e ligeiramente trocista. Os olhos dele brilhavam de curiosidade, mas a voz soava surpreendida, como quem ainda espera uma saída de emergência. Quer dizer, claro que quero conhecer a tua família, mas
Claro que sim! respondeu Mafalda, ajeitando uma madeixa de cabelo atrás da orelha, as bochechas ruborizadas de nervosismo. Ela puxou gentilmente a mão de Gonçalo, entrelaçando os dedos nos dele com aquele cuidado de quem acabou de polir as unhas. Eles têm de te conhecer! Já lhes falei tanto sobre ti que a minha mãe já te trata como mais um lá de casa. Chegou ao ponto de perguntar ontem qual é a tua comida preferida, imagina!
Gonçalo sorriu, sem insistir nos receios. Havia qualquer coisa de reconfortante em perceber o quanto Mafalda gostava genuinamente de o apresentar à família. Ela, com a sua energia aos vinte anos, o sorriso espevitado e aquele olhar luminoso, era como um dia de primavera que aparece num outono teimoso. Em poucos meses, já se sentia parte daquele mundo lançado ao riso, passeios espontâneos e optimismo sem filtros.
O domingo estava solarengo, mas com o ar a prometer geada: céu lavadinho de azul, aquele friozinho que faz pensar que o Inverno já anda por perto. Mafalda vestiu o seu vestido preferido de flores miudinhas bem juvenil e fresco, como ela , e Gonçalo, para não fazer má figura, pôs umas calças de ganga e uma camisa impecável: nem demasiado formal, nem à vontade de mais, a tentar aquele equilíbrio à português entre respeito pelos sogros e amor-próprio.
Durante o caminho, Mafalda ia alternando entre olhar para Gonçalo, como quem mede se ele está mesmo convencido, e desfiar a bainha do vestido de nervoso miudinho.
Estás nervosa? perguntou Gonçalo, notando que ela já quase lhe arrancava um botão dos nervos.
Um bocadinho admitiu, baixando o olhar. É que isto é mesmo importante para mim. Quero que corra tudo lindamente. Sei que vais agradar à família, mas depois há a Matilde A minha irmã. Ela tem cá um ciúme, porque, pronto, não tem namorado nem ninguém. Fico logo em pânico
A Matilde era cinco anos mais velha alta, magra, cabelo escuro apanhado naquele rabo-de-cavalo sempre perfeitinho. Entre o último ano da faculdade de Direito e um estágio num escritório cheio de papelada, destilava seriedade pela casa toda. E Mafalda ainda alimentava aquele medo secreto: e se Gonçalo se encantava antes pela irmã mais velha? Isso era que não podia acontecer, de todo!
Quando entraram no modesto apartamento em Oeiras, Mafalda viu logo que Matilde estava arranjadíssima, coisa pouco habitual. Vestido com decote atrevidote, saltos altos, maquilhagem a dar só o justo destaque às feições. Estava em frente ao espelho do corredor, a pôr uns brincos, surpresa de haver ali gente tão cedo.
Ah. Matilde virou-se, arqueou uma sobrancelha, a voz fria como uma limonada sem açúcar. Vieram mais cedo só vos esperávamos lá para daqui a uma hora.
Safámo-nos antes mafaldou Mafalda, voz a tremer. Mas ias sair, era?
Ia lanchar com as amigas ao restaurante do costume, Matilde ajeitou-se ao espelho, lançando um olhar fugaz a Gonçalo. Realmente, a mana teve sorte! Queria despachar-me antes de vocês chegarem.
Gonçalo, a estudar o ambiente carregado da casa, tentou aliviar a tensão com um sorriso simpático:
Está muito elegante hoje, Matilde.
Mafalda sentiu logo o couro apertar. Conhecia aquele tom polido, mais de apreço genuíno do que de flirt, mas sabia que Matilde sabia tirar partido do próprio charme. E aquela pontadinha de ciúmes entrou-lhe logo pela garganta abaixo.
Claro! respondeu ela, a voz mais afiada que costume. Tens sempre de roubar as atenções. Até quando trago o meu namorado a conhecer a família, é competição, não é?
Mafalda suspirou Matilde, já com a paciência esgotada Eu pretendia sair, sequer esperava cá estar. Mas tens sempre de complicar, não é?
E vens assim vestida só para beber uma meia de leite com as amigas, pois claro! Mafalda deu mais um passo, olhos quase a faiscar És capaz de ser sincera? Vestiste assim para impressionar o Gonçalo. Morrendo de inveja por não teres namorado, tinhas logo de tentar abafar o meu momento!
Que ideia tão disparatada! Matilde revirou os olhos, já a perder o tom zen. Eu visto-me assim porque me apetece. Olha, não projectes em mim as tuas inseguranças.
Gonçalo olhava de uma para outra, já arrependido de não ter aceite só ir lanchar ao café. Não percebia como é que, em cinco minutos, estavam já a discutir. Será que foi por causa de um elogio?
Mafalda, se calhar podíamos arriscou ele, num tom apaziguador Pronto, se calhar era só falarmos todos juntos e acalmar um bocado?
Mas já ninguém o ouvia; a tempestade tomava conta da sala.
Tu és tão previsível! gritou Mafalda, já quase a chorar Tudo tem de girar à tua volta, não é? E eu sou só o figurante…
Cresce, Mafalda! atirou Matilde, voz já de gelo Isto nunca foi uma competição. Tens mesmo uma imaginação fértil
Para ti! Para mim não! gritou Mafalda, com as lágrimas à porta.
Nisto, aparecem os pais. O pai, o senhor Mário, de camisola de lã e jornal Expresso na mão, parou à entrada a franzir o sobrolho. A mãe, dona Graça, saiu da cozinha a esfregar as mãos num avental cheio de nódoas de molho de tomate, cara de cansaço acumulado.
Mas o que é isto agora? perguntou o pai, mais por hábito do que curiosidade, como quem já viu isto demasiadas vezes.
Vejam lá a Matilde! Arranjou-se toda só para roubar o Gonçalo! Para mostrar que é melhor do que eu! exclamou Mafalda, entre o queixume e a tragédia shakespeariana.
Dona Graça suspirou, com um olhar de quem atura estas cenas desde a Expo 98.
Matilde, não podias poupar um bocadinho no glamour? A Mafalda avisou que vinha com o rapaz! Podias ter escolhido roupa mais discreta.
Eu só queria ir lanchar e sair! respondeu Matilde, já a perder o filtro. Não contava conhecer ninguém! Fartei-me deste circo: tudo culpa minha, pronto! A Mafalda faz sempre destas novelas.
Mafalda apontou-lhe um dedo como quem fazia justiça na TVI.
Vêem?! Ela faz-se sempre de vítima!
Gonçalo, quase sem saber para onde se virar, arriscou dar um passo à frente.
Se calhar devíamos todos respirar fundo, ver um episódio de Conta-me Como Foi e conversar sem acusações
Ninguém ouviu. Mafalda, em fúria, agarrou o vestido da irmã e puxou. O tecido deu um estalo nada apetecível.
És doida?? murmurou Matilde, olhos húmidos mas com aquele tom de quem nunca desiste. A precisar de umas sessões de terapia, estás
E tu? rebateu Mafalda Pensas que não percebo o teu jogo? Achas que não vejo como olhas para o Gonçalo?
Ó Mafalda, a sério! Matilde recuou, já sem paciência Nem o conheço, não me interessa nada! Isso tudo é coisa da tua cabeça.
Os pais ainda tentaram ser árbitros, mas o seu campeonato era outros.
Matilde, tens de ser sensível. A Mafalda é tua irmã, vê lá se tens mais tino, disse dona Graça, a exibir aquela calma de quem já lavou muita louça.
Eu? Sensível? Eu só queria beber o chá! a voz de Matilde era uma corda esticada.
Já ninguém se ouvia. Mafalda virou-se para Gonçalo:
Diz-lhe, Gonçalo! Diz à Matilde que ela está errada!
Gonçalo hesitou, tentando não olhar de frente para ninguém:
Mafalda, isto é mesmo um mal-entendido. Não vejo mal nenhum no comportamento da Matilde e odeio que isto tenha dado asneira.
Mafalda pareceu magoada:
Então estás do lado dela? Depois de tudo o que te contei? Depois de querer que o dia fosse especial?
Gonçalo passou a mão pela testa:
Não estou do lado de ninguém. Só não percebo porque se arranjaram este drama todo. Podia ter sido um jantar lindo em família, mas
Matilde sorriu amargamente:
Realmente. Obrigada por mais um jantar inesquecível, Mafalda.
Enquanto mexia no rasgão do vestido, parecia menos altiva e mais cansada. Cansada de sempre ser o saco de boxe, de viver à espera da próxima crise emocional da irmã.
Mafalda congelou, olhou para ambos, e a revolta deu lugar a um princípio de remorso. Mas não se desculpou. O orgulho era teimoso.
Dona Graça ancora-se ao lado da filha mais velha:
Matilde, deixa lá ver o que se faz ao vestido
Deixa, mãe. Troco de roupa e vou sair. Já devem estar à minha espera.
O pai largou finalmente o jornal, voz mais firme do que o costume:
Está bem, mas era bom que se entendessem. Mafalda, pede desculpa à tua irmã. E tu, Matilde, sê mais compreensiva. A tua irmã é manteiga derretida.
Mas já era tarde. As sementes da mágoa estavam lançadas e começavam a enraizar-se.
A partir desse dia o lar ficou frio. Algum tempo depois Gonçalo mudou-se para casa da Mafalda (a dele estava em obras, ou assim dizia) e ficou-lhes com o antigo quarto de Matilde, que se mantinha longe. Entre as duas irmãs, porém, só geada. Cada palavra, cada olhar, analisado à lupa e contaminado pela desconfiança.
Certa manhã, Mafalda apanhou Matilde na cozinha, a fazer chá enquanto sublinhava um código penal nesse dia tinha um daqueles exames que decidem carreiras.
Andas a fazer de propósito, ferveu Mafalda à porta. Basta estares ali ocupada para chamar a atenção do Gonçalo quando ele aparece, não é?
Matilde pousou a chávena, olhou-lhe para as olheiras, os cabelos já a ganhar uns brancos, e pela primeira vez pareceu velha.
Mafalda, só quero beber o chá. Hoje o dia vai correr-me mal e daqui depende o meu futuro.
É o exame, ou é só para te pores à frente do Gonçalo? Mafalda tentou manter o tom rijo, mas já soava frágil.
Oh, já não se aguenta! Matilde virou costas, mas sem perder a dignidade Porquê fazer disto sempre uma novela? Tens inveja? Então aproveita pelo menos o que tens.
Sempre foste melhor em tudo! explodiu Mafalda, à beira de um ataque de choro Mais velha, mais esperta, gira, tudo. E vais ver, ainda me ficas com o Gonçalo!
Matilde recuou abalada, mas recompôs-se.
Se acreditas nisso, nem vale a pena ficar.
Retirou-se. Começou a arrumar as malas e, mesmo a tempo do drama habitual, Mafalda ficou a vê-la mas não pediu desculpa: o orgulho, pois claro, é o último a morrer.
No dia seguinte, Matilde foi para casa da amiga, a Susana que, já conhecendo o histórico das irmãs, nem perguntou muito. Um escape, durante umas semanitas.
Os primeiros dias fora foram duros. Mas à medida que Matilde se perdia entre resumos e cafés, sentiu um alívio estranho e gostoso: finalmente podia respirar sem tropeçar em acusações.
Os pais ligaram-lhe um par de vezes, mais para lamuriar do que para saber como estava: sempre a insinuar que a culpa era de Matilde, claro. Cansada, deixou de atender os telefonemas.
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Passaram-se dois meses. Mafalda e Gonçalo ainda moravam juntos, mas a relação era agora uma coleção de remendos rasgados: ciúmes, acusações, dramas a cada telefonema. Gonçalo, paciente, tentou mostrar-lhe que o problema não era Matilde, mas as inseguranças dela. Não funcionou.
Numa noite, arrumou as coisas.
Não consigo mais disse ele, parado à porta. Voz sem raiva, sem força. Só cansaço Tu não me deixas viver. Cada gesto, cada frase minha, é interrogatório. Acabou-se.
Vais embora? Por causa dela? Mafalda parou no meio do corredor, mãos penduradas Por causa da Matilde?
Não. Por tua causa. Porque crias fantasmas e depois culpas-me por não os conseguir combater.
Saiu, fechando com cuidado a porta atrás de si. Deixou Mafalda sentada no chão, costas à parede, finalmente a chorar choro atrasado, mas necessário.
Nessa noite Mafalda deitou-se a pensar: e se, afinal, Matilde não tinha realmente culpa de nada? E se, de todas as traições, a única verdadeira vinha dela própria? Quantas pessoas afastou com os seus sustos e ciúmes?
Os pais, ao saber do desgosto amoroso, preocuparam-se mas sobretudo com a logística. A casa tornou-se ainda mais pesada: Mafalda, mergulhada em auto-piedade, já nem levantava louça da mesa. Dona Graça bem tentava puxar por ela para ajudar na casa, mas ouvia sempre um suspiro de diva de novela:
Oh mãe, não posso, a minha vida acabou! Como queres que pense em limpar a casa se nem respirar me apetece!
Dona Graça suspirava, apanhava sozinha a roupa do estendal, lavava panelas, olhava o monte de camisas eternamente por passar a ferro. Mafalda enfiava-se no quarto, entre redes sociais e Netflix, como se fosse possível maratonar as dores.
Foi quando os pais pegaram no telefone para ligar à Matilde.
Matilde não atendeu logo, ocupada na biblioteca. Quando viu a chamada perdida, hesitou. Já tinha aprendido a viver só, sem dramas, sem acusações. Cada chamada de casa dava-lhe vertigens entre saudades e alívio.
Acabou por ligar de volta.
Matilde, filha, disse Graça num tom mais doce do que nas últimas duas décadas, um toque de cansaço a raspar-lhe a voz. Pensámos se calhar podias voltar
Matilde apertou o telemóvel. Custava aquela nostalgia, mas tentou ser prática:
Para quê?
Ora bolas a Mafalda está mesmo mal, filha. E eu e o teu pai estamos a ficar velhotes para isto tudo. Ajuda-nos, sim?
Mãe, agradeço, mas já me organizei. Tenho o meu emprego, casa, vida feita. Não posso fingir que nada aconteceu, que a minha irmã não rasgou o vestido e não me fez sentir um estorvo.
Mas agora o Gonçalo já não está! Vai tudo voltar ao normal. Vocês podiam fazer as pazes
Não percebes, mãe Não é sobre o Gonçalo, é sobre tudo o resto. E se aparecer outro? Volta tudo ao mesmo.
A mãe calou-se. Demorou uns segundos antes de sair o próximo suspiro, mais carregado do que um pastel de nata depois do almoço.
Então vais mesmo deixar-nos? voz dorida.
Não é deixar. É seguir o meu caminho. E olha estou a namorar.
Silêncio. Matilde quase ouvia a mãe a mastigar a novidade.
Namoras? Com quem? E nunca apresentaste?
É o Tiago, trabalha em informática, já vivemos juntos. Estou feliz. E não faço tenções de vos o apresentar, pelo menos para já desculpa.
Pois. Pronto, felicidades então.
Obrigada, mãe.
Quando desligou, sentiu-se estranhamente leve. Olhou à volta: os colegas na biblioteca, o cheiro a café da máquina a encher o ar finalmente uma vida tranquila e sem dramas, construída por ela.
Lá fora, Tiago esperava-a, encostado à entrada.
Correu bem? perguntou, atento.
É, foi a minha mãe.
Quiseram que voltasses?
Pois. Mas já não volto. Agora estou bem aqui, contigo.
Ele sorriu, apertou-lhe a mão.
Vamos, olha que ficámos de combinar a escapadinha de fim-de-semana com o pessoal!
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Mafalda, sozinha sem Gonçalo nem Matilde, lá começou a perceber: talvez, só talvez, nunca tivesse sido Matilde a culpada. As imagens do vestido rasgado assombravam-na a cara de choque da irmã, o rasgão, as próprias mãos tremidas. O orgulho, esse, é que não largava mais.
E à medida que se fechava no seu drama, a casa ia desandando. Os pais, sem paciência nem juventude, suspiravam. Um dia, dona Graça entrou de rompante:
Mafalda, chega! Passas a vida fechada no quarto. Mete mãos à vida! Não podes viver eternamente à conta dos outros.
E o que queres que faça? murmurou Mafalda, esgotada O Gonçalo foi-se, a Matilde também. Vocês nunca me entendem. Sempre a dar razão a ela.
O pai conseguiu finalmente intervir:
Olha, filha, tu é que empurraste as pessoas para longe. Criaste uma muralha à tua volta agora tens de encontrar a porta de saída.
Mafalda encolheu-se. Ele nunca falava assim, directo.
Talvez, sussurrou. Mas o que faço agora?
Começa devagarinho, disse dona Graça, sentando-se ao pé dela e pousando-lhe uma mão no ombro. Ajuda-me amanhã a limpar a casa. Depois telefona à tua irmã, pede desculpa. Não esperes milagres, mas mexe-te.
Eu não peço desculpa! Não fiz nada de mal! disparou Mafalda, agarrada ao resto do orgulho.
A mãe abanou a cabeça, com aquele olhar de quem já sabe que vai ter de continuar a lavar sozinha a loiça. E pensou para os seus botões: Vai ser dura, a vida, para esta rapariga teimosaMas nessa noite, deitada na cama, Mafalda não conseguiu adormecer. O silêncio pesava-lhe nos ouvidos, o eco das suas palavras a reverberar no escuro como sussurros de culpa antiga. Reviu a última reunião em família, as discussões, o rosto exausto dos pais, o olhar ferido de Matilde e finalmente sentiu, mais fundo do que nunca, uma tristeza maior do que o orgulho.
Levantou-se. Destapou o telemóvel, hesitante. Escreveu: Desculpa. Apagou. Reescreveu: Preciso de falar contigo. Apagou de novo. Durante minutos, lutou com as palavras, mas, ao fundo, sentiu um ardor desconhecido: vontade de mudar. De respirar sem veneno.
Finalmente, em poucas linhas, sem dramatismos, enviou: Matilde, falhei contigo. Falhei connosco. Espero que estejas bem. Se algum dia quiseres falar, estarei aqui.
Depois pousou o telemóvel e, pela primeira vez em muito tempo, dormiu um sono leve.
***
Semanas passaram-se. Pequenos gestos mudaram em casa: Mafalda ajudava à mesa, conversava aos poucos com os pais sobre as tarefas. Lavou a chávena de chá de Matilde, que continuava esquecida no escorredor, como se esperasse o regresso da dona. Em cada gesto, sentia um pouco menos de peso nos ombros.
Até que numa tarde cinzenta de sábado, quando já não esperava nada, ouviu a mensagem chegar.
Era da irmã:
Recebi a tua. Demorei a responder porque precisei de tempo. Estou bem. Também gostava de conversar, nem que seja por telefone. Tenho saudades tuas, apesar de tudo.
O mundo de Mafalda ficou suspenso por um segundo. Depois, um sorriso tímido quebrou-lhe a tristeza no rosto. Teve vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Correu para a sala, onde a mãe dobrava roupa e o pai fingia ler jornal sem óculos.
Mãe posso usar o telefone fixo? perguntou, quase sussurrando.
Claro que sim, filha.
Retirou-se para a varanda, digitou o número de Matilde de cor o mesmo desde a infância e ficou à escuta. O coração batia-lhe forte, misto de medo e esperança.
Do outro lado, a voz conhecida, segura, respondeu:
Olá, Mafalda.
E ali, entre palavras simples, ouviram-se realmente talvez pela primeira vez na vida. Falaram dos dias maus, dos ciúmes, dos sonhos antigos de infância, daqueles natais em que partilhavam segredos e bolachas. Riram das birras, choraram baixinho.
No final, Mafalda respirou fundo e disse aquilo que finalmente precisava:
Desculpa, Matilde. Eu tive medo de te perder. Mas percebi que perdi muito mais ao não te ouvir. Quero mesmo recuperar a minha irmã.
Matilde calou-se, sentiu a sinceridade nas palavras, e devolveu devagar:
Demorou, mas eu também quero. Sempre quis.
O orgulho da infância desapareceu no vento da noite lisboeta. E apesar de muitas coisas ficarem por resolver porque laços de irmãs são assim mesmo, entrelaçados em nós e desenlaces , Mafalda soube, naquele momento, que um novo capítulo se abria.
e, lá dentro, finalmente, a primavera voltava a nascer.







