Mamã Catarina

Mãe Catarina

Então, andas aí a fazer barulho com as lágrimas? Já está tudo molhado lá fora e tu ainda teimas em aumentar a humidade!

Uma mulher robusta, enorme como um solar de aldeia, sentou-se com esforço no banco ao lado de Beatriz.

Que calor hoje, valha-nos Deus! E ainda por cima choveu de manhã, como se já não bastasse. Agora está este abafamento, parece uma estufa! E ainda só vamos a meio do dia, e eu já estou toda ensopada, só visto!

A mulher tirou da mala uma garrafa de água, lutou um pouco com a tampa, mas lá conseguiu abri-la.

Queres um pouco? estendeu a garrafa a Beatriz. Ouvi dizer que a água acalma, dizem até que é remédio santo para o desgosto Comigo não resulta. Bebo litros e continuo na mesma.

Beatriz olhava, aflita, para aquela vizinha inesperada do banco da estação. Que falta lhe fazia agora mais esse castigo? Que mal terá feito ao destino para que, além de todos os seus pesares, ainda tivesse de aturar aquilo! Ou melhor, aquela…

Nunca simpatizara com pessoas de porte avantajado. Traziam-lhe uma certa tristeza. Como se pode viver assim, pensava ela. Bastava algum exercício, controlar o apetite, pensar um bocadinho nos outros Era tudo tão pouco estético! Aqueles excessos de tecido, roupa gigante, suor, cheiro Credo! Beatriz lembrou-se de um dia no spa com as amigas, quando viram uma mulher assim dentro da piscina.

Eu hoje já não entro na água, meninas! Já chega. Leonor, a melhor amiga de Beatriz, pôs-se de pé, alongando o corpo bronzeado quase perfeito, fruto de horas no ginásio com PT.

Porquê? Combinámos passar a tarde toda aqui!

Com isto ali dentro? Leonor apontou, repugnada, para trás de si. Só de olhar já me enoja, quanto mais estar ao lado.

Seguiu-se um discurso que Beatriz preferia esquecer. Ficou chocada com as palavras da amiga, mas sem nunca conseguir discordar por completo. Não se pode viver assim, pensava. Se não se gosta de si, então fique-se em casa, nisso Leonor tinha toda a razão.

Agora ali estava ela, sentada ao lado de uma mulher ou seria antes um monte de mulher? e, como se não bastasse, a mulher não se calava! Mas Beatriz não tinha força para se levantar. Já ali estava há horas, primeiro entre lágrimas, depois presa à parede de pensar em nada. Fora da estação, não tinha para onde ir.

Apesar de si própria, acabou por escutar as palavras aleatórias daquela estranha, ficando por um instante quase imóvel.

Tão bonita! Sem bagagem, sem mala então não vais a lado nenhum. Estás à espera? Ou não tens para onde?

Beatriz desviou os olhos da parede e olhou finalmente para a mulher.

O rosto redondo, bochechas coradas como boneca de faiança, iluminou-se num sorriso aberto que desapareceu de repente, quando Beatriz engasgou num soluço e desatou a chorar com toda a força. Que raio de magia estaria naquela mulher que, sem dar tempo ao tempo, a apertou num abraço largo? Beatriz nunca soube explicar. Chorou, encostando a cabeça despenteada e cortada à última moda no ombro da desconhecida, molhando num instante o tecido leve da blusa. Estranhou não sentir cheiro de suor, só o perfume suave a flores campestres. De onde viria aquele aroma? Seria do pó ou do sabão onde a mulher lavava a roupa? Ou mesmo ervas do campo? O cheiro era forte e meigo, exactamente igual ao das mãos da mãe de Beatriz, cuja memória se desfizera há demasiado tempo. Morreram-lhe cedo: a mãe faleceu num acidente quando Beatriz tinha cinco anos. Dela só recordava um prado coberto de flores, a mãe a tecer-lhe uma coroa e aquele cheiro de mãos de quem colhe e aconchega.

Porque te assustas? Quem te fez mal?

Beatriz balançou a cabeça, negando, mas depois acabou por acenar.

Gente de poucas vergonhas! Fazerem mal assim a uma criança a mulher remexeu na mala, tirou um embrulho de sandes e uma maçã grande e vermelha. Vá, anda cá!

Desembrulhou a sandes e o cheiro quase a fez desmaiar de fome. Não comia há quase um dia e não tinha um tostão para comprar nada.

Segura! Isto é fiambre de peru, saudável e foi a minha mão que fez. Vá, toca a comer, que estás tão magrinha que até assustas!

Não como carne Beatriz engoliu em seco, desviando o olhar.

O que disseste? a mulher empurrou-lhe a sandes para a mão e partiu a maçã ao meio.

Nada Beatriz fitava aquelas mãos fortes sem um pingo de vaidade, pensando que talvez apanhar o comboio não tivesse sido boa ideia. Abocanhou com avidez o pão e quase gemeu de prazer.

Está bom? Ainda bem! O resto são tolices

A mulher ajeitou-se, observando Beatriz comer, os olhos logo pousando no segundo pedaço de sandes.

Come! Força nisso! E conta-me: que te aconteceu para estares na estação, sozinha, sem malas, e, corrija-me se estiver errada, sem dinheiro?

Beatriz acenou e limpou as lágrimas.

Agora não chores. Conta tudo direitinho. Depois choramos juntas, e com sorte ainda havemos de rir.

Contar não queria, mas a mulher não lhe deu escolha. Talvez não valesse de nada, mas era a sua vida; não tinha outra.

Beatriz fugira de casa na véspera, depois de o pai lhe dizer que não era filha dele, mas que ia ter um filho “de verdade”. As palavras dele ainda a atormentavam. Aquela pessoa que a tinha criado, que ela chamara pai tantos anos afinal não era pai nenhum! Nunca dera a entender que fosse adotada.

Com a madrasta, Beatriz nunca tinha conseguido proximidade. Como seria possível, se Mariana era só uns anos mais velha? Logo ao conhecer a futura enteada, repressão disfarçada num sorriso: Que gracinha!

Farpas, intrigas, lágrimas Um folhetim barato. Beatriz percebia, mas nada podia fazer. E não queria. Contava com o pai, protetor. Quando finalmente percebeu que tudo mudara e mudaria para sempre, já era tarde.

O ponto final foi a conversa no gabinete: o pai pôs documentos na mesa, convidou-a a lê-los e lançou-lhe a frase que desabou o seu mundo. Não era o pai dela. Adotou-a em bebé. Nunca chega a saber de quem era filha de sangue. Nem queria perguntar mais.

Acordada pela dor, Beatriz vagueou sem rumo e, ao alvorecer, lembrou-se da estação. Acabou ali. O telemóvel já sem carga e nem vontade de falar teria. Amizades, só de circunstância: de tanto mudar de terra, nunca criara laços. As poucas amizades não seriam apoio aquela vida era um reflexo de um velho desenho animado: Gosta de ti! Deixa os outros! Terás sucesso! Uma diabrura simpática, a quem ela chegou a comprar um porta-chaves até o perder.

A mulher ouvira tudo, sem interromper. Quando Beatriz terminou, estendeu-lhe lenços de papel e remexeu outra vez na infinita mala.

Olha, menina. Convém falar com o teu pai, mas isso pode esperar. O telemóvel ainda funciona?

Está sem bateria.

Pois então toma.

Deu-lhe um telemóvel antigo, de botões grandes.

Que foi? Old school? Eu gosto. Foi presente da minha filha. Dá para ligar e ouve-se tudo bem. Liga. Ou manda uma mensagem a dizer que estás viva. Até pode não ser pai exemplar, mas não merece andar a contar os minutos à tua custa.

Vigiou enquanto Beatriz escrevia a mensagem. Endireitou-se, batendo na blusa já molhada das lágrimas alheias.

Chamam-me tia Catarina. Vivo na aldeia, longe daqui. Queres vir comigo? Se não tens para onde ir, não é má opção. Que dizes?

Para quê?

O quê, menina?

Para quê me quer ajudar? Sou-te uma estranha. Porque quer ajudar-me?

Um sorriso largo e os dedos quentes e macios no queixo dela.

Porque, filha, crianças alheias não existem. Não se pode deixar um miúdo ao abandono.

Mas já não sou criança

Ai és sim! Vá, toca a levantar! Ainda temos de comprar bilhete; se perdemos o comboio, é só mais tempo de espera.

Assim chegou Beatriz a casa de Catarina Alves.

No caminho, a mulher não perguntou mais nada. Mais tarde explicaria a Beatriz:

Invadir a alma de alguém não se faz sem tino. Cada um fala da dor ao seu tempo. Basta dar espaço, e um dia ouve-se tudo. Sem mentiras.

Beatriz adormeceu no comboio regional, só acordou quando tia Catarina lhe tocou no ombro.

Acorda, menina, chegámos!

Na plataforma, Catarina acenou a alguém. Beatriz sobressaltou-se quando outra mulher, alta e magra, quase a derrubou num abraço.

Ó mãe Catarina! Já ia a perder o segundo comboio à tua conta! Pensei que não voltavas hoje. Como está a Nanda?

Bem, arranjei-lhes casa. Vou lá espreitar depois.

E o médico?

Diz que faz tudo. É novo, mas sabe das coisas.

E esta? A rapariga olhou para Beatriz, sobrancelha levantada.

Agora não é tempo para perguntas, Sofia! Viemos de viagem e só pensamos em comer.

Está bem… Bora!

O velho Renault pareceu absurdo a Beatriz, que riu.

Que foi?! É tuning, foi o meu irmão Pedro que fez!

Aerografia. Beatriz corrigiu maquinalmente, sorrindo para o desenho do Gato Manel.

Olha-me esta entendida! Sofia abriu a porta. Conheceste-a onde?

Na estação.

Como eu Sofia olhou-a melhor. E desenhas, ou é só crítica?

Estudei artes na escola.

Vai gostar de ti, o Pedro! Ele aprendeu tudo sozinho.

Bem bonito, parece mesmo o trabalho de um profissional.

Hás-de dizer-lho. Anda, está tudo à nossa espera.

Quem?

Depois vês!

Conduzindo com a pressa de quem não conhece fim de semana, Sofia fazia Beatriz cerrar os olhos nas curvas.

Não voltes a dar gás, Sofia! Catarina sorriu. Eu já me habituei, mas a menina ainda não!

Habituar-se-á! Sofia travou com força diante do portão de uma casa grande. Chegámos!

Beatriz ficou estupefacta com a multidão de crianças a correr para o carro.

São meus, menina! Catarina saiu do carro com esforço. Não te preocupes, vivo sozinha. Eles é que me vêm sempre visitar. Moram todos por perto, por isso a casa está sempre cheia. Anda!

Criançada ruidosa, puxões e festas. Mãos grandes a distribuir mimos.

Meus tesouros!

Beatriz demorou quase uma semana a perceber as relações familiares. Só quando Sofia levou o filho mais novo para cuidar, é que lhe explicou tudo.

Vês este quintal? Aqui moram vários dos nossos. São a Eugénia, Manuel, Tânia, todos têm filhos. Viste-os quando chegaste. Na rua seguinte moram mais dois Olga e Verónica. A Olga tem dois pequenos. A Verónica, casámos há mês. No fundo da aldeia moro eu, com o Pedro e a Nanda. O filho dela, Tiago, nasceu com problema no coração. Vê se a operação resolve

Sofia, já me perdi.

Isso é normal, com o tempo fica fácil. Nós somos muitos!

Tia Catarina é mesmo heroína, criar tanta criança

Sofia riu-se alto.

Ela não nos deu à luz, menina. Também fui acolhida, como tu.

Beatriz parou, espantada.

Como assim?

Tal e qual. É uma longa história, anda daí.

A casa de Sofia era modesta mas acolhedora. Na cozinha, enxotou a gata e fez sinal para Beatriz sentar-se.

Pousa-te à vontade. Vou deitar o João e venho.

Beatriz notou o cuidado doméstico. Cortinas brancas com flores bordadas à mão.

Gostas? São as preferidas da minha Vitória.

Quem?

Minha filha mais velha. Na gravidez, era o que me entretinha, a bordar. Fiz as da Vitória com miosótis, as do João com papoilas, as da Lídia com margaridas.

Lindo! Beatriz passou o dedo no tecido.

Aprendi tudo com a mãe Catarina. Cheguei aqui sem saber nada.

Foste acolhida? Como assim?

Sim. Os meus pais bebiam. Nem me lembro muito da infância. A mãe dizia, quando se sofre tanto, o cérebro apaga para não enlouquecer…

Amnésia dissociativa

O quê?

Esquecimento da dor, li nos livros. Queria ser psicóloga antes Mas adoeci e tive de estudar a pagar. O meu pai pagava, mas agora

Estiveste doente?

A coluna. Operaram-me. Agora está melhor.

E então? Continua.

Pois. A minha mãe batia tanto, que às vezes ficava na cama uma semana. Fugi aos treze anos. Não dava mais.

E foste parar onde?

A lado nenhum. Amigas não tinha. Fui para a estação. Dinheiro só para dois bolos. Foi lá que a mãe Catarina me encontrou. Alimentou-me e trouxe-me com ela.

Como eu

Isso mesmo. Parece que tem faro para encontrar meninas como nós. Depois lutou muito, fez-se minha mãe legal. Primeiro a mim, depois ao Pedro ele era ainda bebé. E foi assim…

A tia Catarina tem filhos dela?

Não. Já viste como é. Sabes porquê?

Pensei que era só robusta…

Não, Beatriz. É diabetes. Há muito tempo. O coração também não ajuda. Escondeu as doenças para não a proibirem de acolher as crianças. Quando já não deu mesmo, foi a irmã, que é médica, a ajudar em segredo Mas agora já sabes.

Beatriz assentiu.

Em nova era linda, dizia-se. Muitos pretendentes… mas queria estudar medicina. Não entrou. Estava decidida a tentar de novo, mas apaixonou-se e foi atrás dele. Não nos contou muito, mas sei que passou mal. Era violento. Uma vez, no hospital, o médico espantou-se com as marcas antigas. Costelas, dedos. Ela atalhou “foi o marido”. Depois soube pela irmã, a tia Valentina, que ele chegou a ser preso por lhe bater tanto. Ela fugiu, cuidou dos pais até partirem, e ficou sozinha. Não podia ter filhos. Começou a adoecer ainda cedo. E depois lá apareci eu A mãe diz que nunca nos procurou, mas nós tínhamos é de a encontrar. Cada história dava um livro de romance, menina. Mas a verdade é que nunca recusou ninguém. Sempre ajudou os que cá chegaram. Tratava dos papéis, dos subsídios, das casas. Aqui toda a gente a conhece. Quem tem casa para vender, pergunta-lhe primeiro. Sabe da lei como poucos; aprendeu com tanto processo, quase podia ser advogada.

E dinheiro? Como é que aguenta tanta despesa?

És esperta O governo ajuda porque, com a guarda legal, as crianças têm direitos. Quem fica sem pais legais pode receber casa do Estado. E a burocracia, nem te conto. Mas o segredo chama-se Paulinho.

Paulinho?

Catarina encontrou-o após a Eugénia. Andava perdido na cidade, fugido de casa, meio doente, maltratado. Quando a mãe o encontrou, já ninguém conseguia descobrir quem ele era, apesar de o procurarem por todo o lado. Mas ele encontrou-a. Levou-a pela mão para casa. No dia seguinte, vieram-nos bater à porta…

Quem?

O pai. Quase morremos de susto, carrinha preta, homens de fato mas afinal era boa gente. O senhor Simão nunca o abandonou apesar das suas necessidades. Tem uma fortuna, empresas, casas. Paulinho vive lá, vigiado e acompanhado. Às vezes escapa-se, entra em crises, mas com Catarina acalma logo, sem remédios. Simão ofereceu-lhe tudo para se mudar e cuidar do filho, mas ela não quis. Não deixava os outros. Fez-se amiga, como o Gato Manel do carro. Agora ele ajuda-nos. Com apoio, com dinheiro e com bons advogados. Catarina costuma brincar que finalmente lhe saiu na rifa não um príncipe, mas um rei bondoso, justo, como nos contos. Até tem os seus interesses, mas ajuda nunca falta. Isso aqui é que é novela das antigas, Beatriz, acreditavas se te contassem?

Nunca! Parece impossível…

Mas é a nossa vida. Se não fosse a mãe, muitos de nós não tínhamos chegado até cá. De onde nos tirou, só mesmo um anjo Sofia viu as horas e levantou-se. Já me perdi na conversa. O Pedro está quase a chegar para almoçar, e o meu marido, Tiago, também.

Vou andando

Para onde? Sofia tirou sopa da geladeira. Põe os pratos na mesa. Só vais depois de comeres! A mãe Catarina foi ajudar a Eugénia, estão a costurar para os miúdos. Não queres ficar sozinha, pois não?

Para Beatriz, tudo aquilo era um sonho. Uma casa cheia, crianças, alegria, homens cansados mas de bem, cheios de riso e beijos à chegada, apanhados pela Sofia com sorriso e toalha a fingir. Nunca vivera nada assim. O jantar em casa sempre fora solitário, horários desalinhados, cada um no seu mundo. Com a madrasta, optava por comer no quarto ou na rua. Sentia agora um desejo imenso de conhecer aquela felicidade: casa, filhos, pessoas por quem ser querida Emoções vieram-lhe aos olhos sem se conter.

Ei! Eu já temperei a sopa! Sofia abraçou-a, passando-lhe um pano. Vá, chega de lágrimas. Já estás em casa. Ninguém te faz mal.

Foi nesse dia que Beatriz, pela primeira vez, contou tudo a alguém. Sobre a mãe, o pai, a madrasta. Não foi como à Catarina, em resumo, mas tudo mesmo. Sentia que a dor ia cedendo, aliviando. Sofia ouviu sem pressa.

Pois Agora escuta-me tu.

Diz.

Não guardes rancor ao teu pai. Criou-te, foste filha dele. Sabe-se lá desde quando perdeu a esperança… Agora deve estar fora de si de alegria e, por isso, reage mal. Aposto que já fez teste de paternidade?

Como sabes?

É dos negócios, não para quieto. Gente dessas toma decisões à força, não para pensar nas emoções. Mas olha que não quero ofender ninguém.

Porque disseste que nem todos sabem lidar com a alegria?

Sofia lavou pratos, pensativa.

A mudança às vezes é tão grande, que uma pessoa perde a mão. A nossa Nanda, quando Simão lhe comprou casa, até perdeu o juízo de contentamento. Festejos sem fim, a mãe Catarina tentava segurar mas nada. E bebeu, e o marido com ela. Quando soube que estava grávida do Tiago, parou obrigámo-la. Trancámos-na. O marido também deixou de beber. Agora nem tocam numa pinga.

E ela?

A Nanda bateu-se, gritou que não queria ter o filho. Mas acabámos por ajudar. Nasceu, com vários problemas. O coração, inclusive Dizem que pode ser operado.

Mas porque?

Porque não deixou? Quando acordou, não deixou ninguém aproximar-se. Nanda é a nossa miúda selvagem. Ninguém lhe toca. Cresceu numa casota de cães até aos quatro anos. A mãe só a conseguiu levar ao convencer o cão leal dela o Bolotas. Só assim foram as duas. Sozinha não ia.

Nesse instante abre-se a porta e espreita uma menina.

Ó tia Sofia! Vieram buscar a Beatriz! A avó mandou-a voltar já!

Os olhos pedem desculpa.

Acordei? Esqueci-me, desculpa

Não, querida. Ele está com o pai no quarto. Vai ter com eles. Obrigada!

A pequena sumiu, Sofia explicou:

É filha da Nanda. Boa rapariga. Vai, Beatriz. Precisas que te acompanhe?

Não, vou só. Pela primeira vez, Beatriz abraçou Sofia. Obrigada!

A mim? O quê! Não te esqueças: aqui tens casa. Quando precisares, saberás onde te acolhem.

É tão estranho, Sofia Tanta gente aqui sem ser de sangue, a viver como família

Não é estranho, não. Família não é só laço de sangue. É da alma também, sabias? E quem mede o que é mais forte?

O pai veio buscar Beatriz, perdido de vergonha. Ela desconhecia que Catarina tinha ido à cidade, falado calmamente com ele. O resultado estava ali: pedido de perdão, vontade de voltar com ela para casa.

Não, pai. Não quero. Não quero atrapalhar. Assim é melhor.

Alugo-te um apartamento.

Beatriz olhou Catarina e acenou.

Seria uma ajuda, nos primeiros tempos, sim. Vou procurar emprego e tentar a faculdade a tempo parcial. Preciso de me aguentar.

Trato disso tudo.

Não, pai. Agora resolvo eu. Está na hora de tomar conta da minha própria vida.

Por já não confiares em mim?

Beatriz abanou a cabeça.

Não, pai. Porque me ensinaste a ser independente. Agora estou a pôr em prática o que aprendi contigo.

O pai pagou-lhe a universidade. Beatriz acabou o curso, tornou-se uma das melhores psicólogas de crianças de Lisboa. A agenda cheia por meses. Mariana teve um rapaz; Beatriz desejou-lhes felicidades, mas visitá-los-ia raramente, não por mágoa mas porque a casa da família de Catarina, essa sim, era lugar verdadeiro de pertença. E quando Catarina adoeceu com um AVC, Beatriz largou tudo e foi cuidar dela na aldeia. Seis meses pesados e, ao mesmo tempo, os mais felizes. Rodeada de quem realmente a queria, encontrou, finalmente, a sua casa.

Com muita luta, a família conseguiu pôr Catarina de pé, mesmo que a fala nunca mais fosse nítida, nem os passeios fáceis. Então Pedro e Tiago fizeram-lhe um banco à porta: Catarina ali passava os dias, rindo dos cumprimentos solenes das crianças.

Que tal o trono, majestade? Um cházinho?

Os netos-emprestados corriam à volta.

Avó, viste-me a baloiçar? O Manel marcou um golo! Que grande, parecia já da Selecção!

Beatriz só voltou para a cidade quando Catarina estava tão bem quanto possível.

Meses depois, no dia do casamento, a primeira pessoa que convidou foi Catarina.

Mãe Catarina, vais estar ao meu lado?

Sempre, minha menina. Sempre…

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