Beleza Falsa
Não acredito! Diz-me que não é verdade! Maria olhava para mim incrédula, com os olhos tão abertos que pensei que iam saltar das órbitas. Levantou as sobrancelhas até à raiz do cabelo e ficou com a boca entreaberta, como se eu lhe tivesse contado o acontecimento mais insólito do mundo. Mas tu eras completamente apaixonado pela Eva! Sempre disse que o vosso namoro era exemplo para todos até sonhava ter uma relação como a vossa!
É mesmo verdade, Maria respondi, fitando a janela, onde a chuva caía furiosa, escorrendo em gotas frias pelo vidro e formando pequenos rios. Era como se o céu quisesse imitar o vazio e tristeza que eu sentia por dentro. Já não tinha forças. Aquela sensação de que tudo o que tínhamos construído ao longo de cinco anos se esfumara e só restava um buraco enorme dentro de mim, aquele mesmo lugar onde um dia cabiam tantos sonhos, risos, carinhos Cerrei os punhos até as articulações ficarem brancas; a voz fugiu-me entre um sussurro e um grito: Acabou. Percebes, Maria? Acabou mesmo
Mas porquê? insistiu, inclinando-se na minha direção, ansiosa para perceber tudo. Ela esperou por ti tanto tempo, foste ao Porto trabalhar durante meio ano e ela sempre fiel! Não aceitou nenhum convite, ninguém conseguiu conquistá-la.
Como sabes isso, se moras em Coimbra? repliquei, forçando um sorriso triste. Ou será solidariedade feminina à distância?
Moro, sim, mas não te esqueças dos meus amigos em Lisboa respondeu, relaxando na poltrona e cruzando os braços, mas com o olhar preocupado. Sei que ela andou mesmo a dedicar-se à aparência. Nada de pormenores, mas mudou o cabelo, pôs-se a fazer exercício, encheu o guarda-roupa novo Tudo isto enquanto estavas fora. Ela esforçou-se imenso, Miguel.
É exatamente por isso que nos separámos! saltei para o corredor à procura do meu telemóvel no casaco. Mexi nervoso nos bolsos, até o encontrar. Voltei apressado para a sala. Queria que a Maria visse com os próprios olhos. Lembras-te de como era a Eva antes?
Claro. Uma miúda doce. Cabelos louros, lisos, até meio das costas Olhos azuis enormes, boca perfeita. Só não tinha aquele peito gigante que tu nunca ligaste
Exato. Sempre me bastou. Para mim, ela era o ideal! quase gritei, mas logo baixei o tom para um sussurro áspero. Apertei o telemóvel na mão, tentando engolir a revolta. Eu sempre lhe disse que adorava cada traço. Bastou eu sair em trabalho e apareceram as amigas a enfiar-lhe na cabeça que eu a poderia deixar caso não mudasse. Pior: ela acreditou! Não quis acreditar em mim, acreditou nelas. E quis transformar-se não porque sentia vontade, mas porque lhe meteram o medo de que eu deixaria de gostar dela.
Foi assim tão mau? hesitou Maria, sentindo a ansiedade crescer por dentro. Apertou com força a almofada da cadeira, franzindo o cenho enquanto tentava imaginar a dimensão da coisa.
Vê tu mesma! entreguei-lhe o telemóvel abruptamente. No ecrã estava a nova Eva irreconhecível.
O cabelo, aquele orgulho que a fazia diferente de todas as outras, estava agora cortado a direito, curtíssimo, pintado num loiro platinado berrante. Os lábios, completamente artificiais e inchados, davam-lhe um ar estranho, quase caricato, que não tinha nada a ver com o rosto suave de antes.
Estava magérrima. Perdera mais de uma dezena de quilos e o corpo parecia demasiado frágil; ossos salientes, pele baça e olheiras tão fundas que parecia não dormir há semanas. E, para cúmulo, tinha-se submetido a uma operação ao peito logo ela, que sempre soube o que eu pensava destas mudanças, eu que adorava o mais natural possível.
Olhei para ela no aeroporto e apeteceu-me dar meia volta e sair dali admiti de voz trémula. Bati com o punho na parede, encolhi-me de dor, mas o ardor nas articulações nem se comparava à revolta dentro do peito. Como é possível alguém mudar assim por dentro de meio ano? Como? Porquê? Ela não percebeu que era dela que eu gostava?!
Passei algum tempo a andar pela sala, pelos corredores, a falar baixo, alto, a gesticular, a parar e a começar de novo. Senti o rubor de raiva subir-me pelo rosto.
A Maria sempre compreendeu bem os meus pesadelos e nervos, sobretudo desde que tornei aquele estágio no Porto obrigatório. Sempre me queixei à Maria: detestava aquela separação, custava-me deixá-la sozinha em Lisboa, mas precisava de terminar o mestrado e aquilo era fundamental para o futuro. Liguei-lhe todos os dias, quis manter a ligação E quando regressei, mal reconheci a pessoa à minha frente.
Talvez ela só quisesse agradar-te sugeriu Maria, levantando-se e posando a mão no meu braço. Se calhar alguém lhe plantou a ideia de que só assim seria suficiente para ti?
Mordi o lábio e encolhi os ombros.
Agradar? Mas ela perdeu-se! Amava a pessoa real, aquela que me fazia rir todos os dias. Agora já não sei quem é.
O que mais me pesava era como a Eva se recusava a aceitar videochamadas. Quando propunha matar saudades, ela inventava sempre uma desculpa, sorria a dizer que estava a preparar uma surpresa irresistível. No início achei graça, mas depressa a inquietação tomou conta de mim será que ela tinha outro? Os ciúmes roíam-me o coração e perturbavam o sono.
Cheguei ao ponto de pedir a um colega para saber o que se passava. Pedi descrição e cuidado, não queria parecer controlador. O amigo prometeu que tentava saber algo.
Dois dias depois ligou-me:
A Eva anda mesmo a preparar uma surpresa disse-me, meio embaraçado. Só acho que não vais gostar. Mas uma coisa posso garantir: ela continua à tua espera.
Essas palavras acalmaram-me ligeiramente. Respirei fundo, penteei com a mão o cabelo e até sorri. Ela continuava minha, o resto logo se veria Talvez estivesse a exagerar nas preocupações. Decidi que recusar a foto que o colega queria enviar não tinha sido inteligente. Talvez se tivesse visto antes, pudesse ter impedido esta transformação. Ou teria largado tudo e voltado logo Mas agora era tarde.
No dia de regresso, estava tão nervoso que mal me reconhecia. Olhava sempre para o relógio, batia com os dedos na poltrona do avião, brincava com a ponta do casaco no taxi. As mãos suavam, o coração batia tão forte que parecia que saltaria do peito. Fui criaando imagens na cabeça: ela à minha espera no aeroporto, sorriso largo, corre para mim, agarro-a, sentimos o cheiro um do outro. Em casa, chá quente, sofá, contamos as nossas histórias destes meses tantas saudades.
Mas quando a vi congelei. Aquela não era a Eva que eu amava. Demorei uns segundos a perceber o que via. Senti um arrepio pelo corpo todo, como se o chão me faltasse.
Miguel! Que saudades! abriu os braços. Dei um passo atrás, instintivo, e ela ficou parada, sorriso desconcertado, a dor espelhada nos olhos. Que foi? Nem imaginas o quanto trabalhei para te surpreender! Isso não te deixa feliz?
Sinceramente, não sei onde estás, Eva Cadê a minha namorada? as palavras saíram arrastadas, num tom quase indiferente. Não cabia em mim: raiva, tristeza, frustração. Nem estás doente ou será que simplesmente perdeste o juízo? O que foi feito do teu cabelo, da tua silhueta? Sempre disseste que nunca mudarias assim
Queres dizer que estava gorda, não? atirou, ofendida, enquanto as lágrimas subiam aos olhos. As amigas atrás começaram a rir baixo, como se gostassem de gozar com a dor dela.
Não vale a pena disfarçar, já sei que estava, pronto, larguei-me um bocado mas agora não te vais envergonhar de mim na rua! Olha para mim, agora sim sou moderna não sou melhor assim?
E quem disse que agora saio contigo seja onde for? Pareces outra pessoa! Adorava quem eras, a verdadeira! E nem sequer achaste que devias falar comigo antes? Costumávamos conversar sobre tudo
Uma das amigas dela, a de sempre, agora de tom vitorioso, decidiu intervir:
Oh, Miguel, se a Eva fosse para capa de revista agora, todo o país parava para olhar! riu-se, batendo-lhe nas costas e olhando para mim com ar instigador. Nunca ninguém se virou tanto para ela como agora até perder-lhe a conta dos pretendentes! E foi tudo por ti, agradece-lhe!
Virei-me para ela, furibundo.
Não, não foi por mim, foi por ela e pelas vossas inseguranças fitei a Eva, voz embargada e severa. Não me metam ao barulho neste pesadelo!
Dei-lhe um passo mais perto e, em baixo tom, confessei:
Tu sabias bem o valor que dou à naturalidade. Foi sempre isso que mais apreciei. O que fizeste não é a Eva que conheci. Até já tinha planeado pedir-te em casamento este mês Comprei o anel, imaginei o momento, tudo. Só que agora já não consigo.
A Eva empalideceu, lágrimas grossas desciam-lhe pelo rosto. Tremeu ligeiramente, tentou chegar-se a mim, mas as amigas travaram-na, sussurrando-lhe que deixasse estar.
Deixa-o ir, Eva! Ele passa Vai voltar com o rabo entre as pernas dizia uma, com ar convencido. Agora tens tudo: beleza, atenção, arranjas melhor. Mereces mais.
A Eva ficava a olhar para mim, as lágrimas misturadas com rímel a sulcarem-lhe o rosto, o vazio a crescer-lhe dentro. Julgara que assim me faria feliz, e só perdeu o mais precioso.
Eu juro que sempre quis casar-me mesmo com ela Via tudo: o pedido, o abraço, as gargalhadas Ao vê-la assim, desfez-se tudo dentro de mim. Não reconhecia a mulher que estava à minha frente.
De repente, revoltou-se em mim uma pergunta antiga: porque será que tantas mulheres querem tanto mudar de aparência? Quantas vezes lhe disse, dia após dia, o quanto a achava linda, incrível, única? Amava cada hábito, cada mania, os gestos mais estranhos, a gargalhada, o modo como se vestia sempre de azul às segundas-feiras. E ela, em meia dúzia de meses, trocou tudo isso para me agradar? Para agradar a quem?
E o pior de tudo e aqui as palavras saíram-me aos solavancos, e as lágrimas caíram , foi perceber que, afinal, muito disto também foi obra das amigas dela, especialmente uma. Quis armar-se em mais natural, mais genuína e veio bater-me à porta! Arrogante, convencida. Disse-me “sou melhor do que ela”, quase a vender-se. Por pouco não a corria à vassourada escadas abaixo. Fiquei completamente desiludido, destruído.
Maria, ao ver-me desabar, agarrou-me o braço e olhou-me nos olhos:
Tu não és culpado. Foste sempre honesto, cuidaste dela, estiveste presente. Foste vítima de inveja alheia, de manias absurdas disse ela, apertando-me a mão. Só te peço que penses: se ainda sentes alguma esperança, se ainda há amor, falem os dois, honestamente. Pergunta-lhe o que a levou a isto, explica-lhe o que sentiste. Talvez ainda não seja tarde para recomeçarem. O importante é não engolires o que sentes só para agradar aos outros.
Fiquei um pouco calado, a olhar pela janela. Lá fora a chuva tinha parado. Os últimos raios do sol iluminavam Lisboa em tons dourados.
Talvez a Maria tenha razão. Preciso de tempo, de perceber o que ficou de nós. Mas mais do que isso, aprendi uma coisa: Nunca se muda quem se ama. E nunca vale a pena renunciar à nossa verdade para agradar a outros porque podemos perder aquilo que a vida tem de mais genuíno.







