O Preço da Segunda Oportunidade
Ricardo estava de pé diante de Mafalda, o corpo ligeiramente inclinado para a frente, insistindo com suavidade para que ela se abrisse e contasse tudo. A voz saía-lhe baixa, quase carinhosa, como se tivesse medo de afugentar a mulher ao menor sobressalto.
Conta-me, por favor! Prometo que não me vou zangar murmurou ele, mas os olhos denunciavam uma inquietação que não combinava com o tom sereno. Mafalda estremeceu involuntariamente naquela expressão reconhecia de novo aquela velha sombra de desconfiança que sempre lhe gelava a espinha. Até porque, naquela altura, já estávamos separados acrescentou, mais em surdina.
Mafalda suspirou fundo e mordeu o lábio inferior, sentindo a raiva crescer por dentro como estava farta daquilo! Sempre a mesma pergunta, as mesmas dúvidas sufocantes Fechou os olhos por um instante, tentando recompor-se, mas as emoções transbordaram.
Nada. Nada aconteceu! Deixa de repetir a mesma pergunta todos os dias, Ricardo, por favor respondeu, sem conseguir controlar o volume da voz. Por um momento, cruzou-lhe pela cabeça a amarga dúvida de por que aceitara tentar outra vez. Os amigos tinham-no avisado: pessoas como o Ricardo dificilmente mudam. Mas ela, teimosa, preferiu acreditar que o amor deles podia vencer tudo e ignorou todos os conselhos.
De repente, o tom de Ricardo mudou bruscamente. Toda a suavidade deu lugar a uma irritação ríspida, que já nem tentava ocultar.
Então eu vou perguntar à Mariana disparou de forma cortante. A nossa filha não me mente.
Aquelas palavras foram como uma bofetada. Mafalda sentiu as faces a arder, a voz tremeu-lhe de fúria:
Força! Só não te esqueças que ela só tem cinco anos e, no último ano, ficou com meio mundo! respondeu, endireitando-se de rompante e fechando os punhos. Só de pensar no marido arrastar a filha para o meio da discussão, um nojo imenso tomou conta dela. Era eu que tinha de trabalhar para garantir tudo à Mariana! Basta de perseguição! Com quem falei ou deixei de falar, isso agora não te diz respeito! Ricardo, sinceramente, já me cansaste. Já uma vez fui embora achas que não sou capaz de ir outra vez?
Ricardo ficou imóvel por um breve momento, apanhado de surpresa pela força da resposta. Uma expressão de confusão cruzou-lhe o rosto, mas depressa a trocou por um sarcasmo mordaz:
Tens dinheiro sequer para o bilhete?
Mas, mal viu como Mafalda empalidecera subitamente, apressou-se a corrigir-se:
Desculpa, não era isso que queria dizer. Mas surpreende-me a tua teimosia. Eu disse que não me ia chatear. Pense nisso, Mafalda, a sério.
Sem hesitar, Mafalda agarrou na primeira coisa que achou uma almofada do sofá e atirou-a ao marido, que já se afastava. A almofada não lhe fez nada, apenas magoou o orgulho. Ricardo ainda ia disparar uma resposta ácida, mas nesse instante apareceu Mariana ao fundo do corredor.
A menina, num vestidinho cor-de-rosa às folhinhas, correu logo para o pai. Os olhos brilharam de felicidade e soltou uma gargalhada de pura alegria ao abraçar-lhe as pernas:
Papá, papá, voltaste! Tinha tantas saudades tuas!
Ricardo lançou a Mafalda um olhar triunfante, quase vitorioso, como quem diz Viste de quem ela gosta mais?. Atirou-lhe um sorriso curto, autossuficiente, e voltou-se para a filha, mudando instantaneamente de expressão agora era só ternura e delicadeza.
Vamos, princesa, brincar um bocadinho? murmurou, pegando-lhe ao colo. Atirou-a ligeiramente ao ar e apanhou-a, arrancando-lhe outra risada pura Vamos deixar a mamã descansar um pouco, ela anda tão cansada.
Mafalda ficou junto ao lava-loiça, apertando o pano de cozinha com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Sentia-se esmagada por uma amargura surda: Agora até vira a pequena contra mim, passou-lhe a ideia devoradora pela cabeça. Engoliu em seco, contendo as lágrimas que ameaçavam saltar. Não, não aguentava mais. Agora sim, tinha uma decisão.
Já tinha tudo planeado mentalmente. Daqui a uma semana recebia finalmente o certificado do curso de especialização só faltava buscá-lo. E assim que recebesse o documento, comprava logo o bilhete de avião. Para onde fosse, o importante era ser longe dali. Ricardo tem a mania que ela não tem dinheiro e que não vai sair dali mas está enganado. No século XXI, basta ir a uns sites de empregos, procurar teletrabalho, e as ofertas chovem mais depressa do que se consegue responder.
Largou o pano e caminhou lentamente até à janela, deixando o olhar percorrer a rua movimentada: gente apressada, carros, vidros iluminados das lojas acendendo para a noite.
Pronto, ao menos uma coisa boa este Porto tem sussurrou, contemplando a Baixa. Aqui o diploma vale mais, vai ser fácil arranjar trabalho, em qualquer cidade.
Pela primeira vez em muito tempo, sentiu um pequeno sopro de confiança. O plano estava feito, a decisão tomada. Só faltava esperar pelo certificado, fazer as malas e, finalmente, recomeçar
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Porque é que ela quis dar-lhe uma segunda possibilidade? Mafalda nem sabia bem. Talvez porque ele tinha dito com tamanha sinceridade que mudara! Jurava que não cometeria os mesmos erros, ia ser o melhor marido e o melhor pai do mundo. Os olhos cheios de esperança, a voz trémula de emoção e ela quis acreditar, desejou tanto acreditar que a vida podia mesmo mudar. Chegou a imaginar férias no Algarve, passeios no Jardim da Cordoaria, festas em família, sonhos e projectos a dois.
Mas a ilusão não durou. Só o primeiro mês foi diferente Ricardo ajudava com a pequena, fazia o jantar, recebia-a à porta sorridente. Depressa o tempo trouxe de volta os velhos hábitos os ciúmes doentios, os interrogatórios diários: Onde foste?, Porque demoraste?, Estiveste ao telefone com quem?
Separaram-se da primeira vez não por traição, mas por sufoco. Ricardo sufocava-a com desconfianças, com cenas de ciúme até ao ridículo. Mafalda nem podia trabalhar em qualquer escritório há homens, logo, tema de discussão. As visitas aos pais tornaram-se fontes de stress o vizinho do lado é solteiro, logo, problema. Pois dizia ele só porque te segura a porta!. Lembrava-se desses argumentos com ironia amarga.
Com as amigas nem falar começou por resmungar, até que começou a proibir:
As tuas amiguinhas só querem uma coisa atirava com desdém sempre que Mafalda propunha um encontro. Só querem saber de engatar homens, flirtam à descarada
Elas são livres e têm direito à vida! ripostava Mafalda, sentindo crescer a indignação. Ficava magoada: as amigas só queriam conversar.
Que façam isso sozinhas! Nada de dar maus exemplos a mulheres casadas! atirava ele, com os braços cruzados como um juiz.
As amigas foram desaparecendo, aos poucos, primeiro pararam de ligar, depois desapareceram de vez. Mafalda tentava explicar, mas ouviu sempre a mesma coisa: Como assim não podes estar connosco um par de horas? O que é isso de não te deixar?. Gradualmente, ficou totalmente só. Pais numa cidade vizinha, amigos já não, colegas nem vê-los E a Mariana ainda pequenina, a quem tinha de dar tudo: comida no prato, brincadeira, colo, sono tranquilo.
Um dia, ao jantar, Ricardo disse, de supetão:
Está na altura de termos outro filho.
Mafalda ficou gelada, com a colher suspensa. Tinha passado meia hora a tentar que Mariana comesse as últimas colheres da sopa a miúda torcia o nariz, fez birra, depois entornou o prato na toalha e desatou a rir. Com esforço, limpou tudo, levantou os olhos para o marido ele via bem o cansaço dela, via-lhe o esgotamento, mas ainda assim vinha com aquela conversa.
Então, agora até tens tempo livre continuou ele, recostando-se na cadeira. Até vi que falaste com a tua irmã sobre formações para quê? Nem vais trabalhar.
Mafalda sentiu-se enjoada. Queria tanto crescer, aprender, ter esperança
Quero aprender, quero sentir que valho alguma coisa balbuciou, tentando evitar que a voz se partisse em tristeza.
Tempo livre não te vai faltar: quando vier o rapaz, logo vês! cortou Ricardo, como se já estivesse decidido.
Mafalda sentiu-se esmagada. Outro filho? Mal aguentava com a Mariana! O dia era uma maratona: faz comida, põe a dormir, brinca, consola, volta a alimentar E Ricardo não estava a brincar não era ironia, era fixação séria.
Ali percebeu que o melhor era tomar precaução sem ele saber. Arranjar tempo, um plano, proteger-se a si e à filha. Dentro da cabeça rodava-lhe o pensamento: não podia continuar assim.
O golpe final foi quando Ricardo proibiu Mafalda de ir ao aniversário do irmão. Está lá muito homem, isso não é seguro. Mafalda protestou, explicou era família, era só família! mas Ricardo manteve-se inflexível.
E ela partiu.
Enquanto Ricardo estava no trabalho, Mafalda fez as malas para ela e para a filha, as mãos tremiam mas não hesitou. Chamou o irmão, ele percebeu logo tudo arranjou uma carrinha, ajudou-a em silêncio.
Saíram à socapa, quase a medo. Antes de ir, Mafalda deixou um bilhete na cozinha: Desculpa, não dá mais. A Mariana merece paz.
Entregou o pedido de divórcio nesse mesmo dia.
Foi em tribunal, claro. Ricardo suplicava por reconciliação, gritava, acusava-a de tudo era má mãe, não sabia dar valor ao que tinha, só pensava nela. A juíza, mulher de idade com olhar cansado, ouviu-os sem pressa, mandou Ricardo calar-se sempre que começava, deu espaço a Mafalda.
Não vejo alternativas que justifiquem manter este casamento disse a juíza, tranquila. Sinto muito por si, Mafalda. Cinco anos de stress constante não são vida para ninguém.
Mafalda apenas assentiu, aliviada. Pela primeira vez em muitos anos, sentia que tomara a decisão certa.
Depois do divórcio, foi viver com os pais, arranjou trabalho, e pouco a pouco começou de novo a ser feliz. O início foi duro: mudanças, viagens com a Mariana, explicações à família. Mas assim que entrou em casa dos pais, sentiu o peso a sair-lhe dos ombros.
Inscreveu-se num curso de design gráfico sonho antigo, sempre desprezado por Ricardo. Agora, aprendia tudo com prazer: programas de design, esboços, brincava com cores e fontes. O entusiasmo do estudo dava-lhe energia, fazia acreditar no futuro.
Fez novas amizades: colegas do curso, uma senhora do emprego, a mãe de uma coleguinha da Mariana Com o tempo, até voltou a aceitar convites para beber café: nada de especial, só conversas, sorrisos, e Mafalda surpreendeu-se livre. Verdadeiramente livre, sem medo de olhares, sem receio de proibições.
Às tardes gostava de sentar-se na varanda dos pais, a beber chá de lúcia-lima na sua caneca florida preferida. Ao lado, no quintal, Mariana brincava com os primos: jogavam às casinhas com tábuas velhas, davam pedaços de broa aos pombos. As gargalhadas cristalinas da filha faziam-lhe o coração palpitar de ternura.
“É assim que tem de ser”, pensava, de chá na mão e sorriso nos lábios. “Sem berros, sem desconfianças, sem medo de respirar. Só a vida, só felicidade, só crescer a ver a Mariana feliz.”
Começou a acreditar que finalmente poderia sorrir, que as coisas estavam a compor-se. O plano era acabar o curso, aceitar pequenos trabalhos de design, talvez alugar um T2 perto dos pais Mas, passado um ano, Ricardo voltou a cruzar-se no seu caminho.
Mafalda estava no mercado do Bolhão, com calma a escolher maçãs para um bolo. Passava os dedos na fruta, avaliando cor, firmeza, punha na cesta só as melhores. O bulício à volta era o seu cenário habitual; os pregões, as risadas, sentia-se em casa.
De repente, sentiu-se observada um arrepio subiu-lhe pela espinha, obrigando-a a voltar-se.
Lá estava ele, Ricardo, parado ao fundo da banca do legumes.
Parecia outro: mais magro, traços duros, olheiras. A roupa larga, o olhar o mesmo perscrutador, atento, sempre a avaliar.
Mafalda chamou, aproximando-se devagar. O tom era suave, quase tímido. Procurei-te tanto.
Ela, instintivamente, afastou-se um passo, abraçando o cesto das compras ao peito, como se fosse escudo. Os dedos enfiaram-se no cabo, brancos de força.
Porquê? balbuciou, tentando parecer segura.
Eu mudei adiantou ele, contornando a distância devagar, mas sem ousar encurtá-la mais. Juro, percebi o que perdi. Preciso de ti. Preciso de vocês.
Mafalda engoliu a amargura atravessada na garganta. Na mente, imagens felizes: o primeiro passeio de mão dada à chuva, o sorriso da Mariana a descobrir a primeira andorinha, as noites em silêncio onde Ricardo lia histórias à filha Tanta ternura, todos tão distantes.
Dá-me só uma oportunidade pediu Ricardo, baixando o olhar. Uma. Eu provo-te que sou outro. Que já não sou como antes. A sério.
Conseguiu convencê-la da sua sinceridade. Mariana sentia saudades do pai era impossível não perceber. A menina perguntava todos os dias: Quando é que o papá volta?, desenhava famílias de três, calada no quarto, e Mafalda via-se a doer de cada vez.
Acabou por aceitar mas deixou claro: nada de novo casamento, pelo menos por uns tempos. Ela olhou-o nos olhos, impôs:
Nada de papelada. Só depois de me sentires mesmo segura. E quero ter a minha família, os meus amigos, o meu trabalho entendido?
Claro, claro acenou Ricardo, tão depressa que até pareceu suspeito. Vai ser tudo como quiseres. Prometo.
Ele levou-as para outra cidade, ainda mais longe. Mafalda até gostou da novidade: cidade nova, tudo fresco, vida nova Mas depressa percebeu a manobra estava completamente isolada. Sem amigas, sem conhecidos, família a horas de distância, tudo controlado pelo fuso horário, pelas rotinas impostas por Ricardo.
Ele sugeria, casualmente:
Ligamos à tua mãe no fim de semana? Agora já devem estar acordados. Ou deixamos para mais logo?
Estava sempre por perto quando ela telefonava, fingia-se desinteressado mas fazia perguntas: O que é que o teu pai disse? A tua mãe quer saber alguma coisa?
O pior mesmo era a obsessão de Ricardo por saber do passado: estava convencido de que Mafalda tinha conhecido alguém naquele ano de separação.
Diz-me só, houve alguém? Não me vou passar. Mas gostava de saber.
Mafalda cansava-se de repetir: entre trabalho e filha, não havia nem tempo, nem cabeça, nem vontade Mas ele insistia: Mudaste tanto, tenho a certeza que houve alguém. Inspeccionava o telemóvel, perguntava por cada telefonema, queria saber tudo.
Certa noite, com Mariana já a dormir, ele perde completamente a paciência.
Então? Andas sempre a escrever a alguém! gritou, arrancando-lhe o telefone das mãos. É o teu amante, é?
Dá-me já isso! Mafalda saltou, sentindo o sangue a ferver de raiva e as mãos a tremer. É a Rita, minha amiga, vamos levar as crianças ao parque. Já te falei dela!
Pois sim e porque raio mandas emojis? Estás a dar graça, não?
O que se passa contigo? quase gritou, mas controlou-se para não acordar Mariana. Porque é que não confias em mim? Dei-te uma segunda oportunidade, acreditei! Achava que tinhas mudado. Mas vê-se que és o mesmo o mesmo de sempre. Mais suspeitas, mais controle. Nada mudou!
Ricardo, de telemóvel em punho, hesitou. Uma expressão de dúvida, quase arrependimento, cruzou-lhe fugazmente o rosto. Mas logo endureceu:
Se não tens nada a esconder, mostra a conversa! Tens medo de quê? Então mostra lá.
Não! Mafalda agarrou o telefone e recuou, protegendo-se. Chega. Estou farta. Aviso já: não admito mais isto. Nada de controlos, nada de revistas. Se querias tudo igual ao passado, mais valia teres assumido desde o princípio!
Vais para onde? o tom tornou-se ameaçador, ele avançou um passo. Não tens dinheiro, nem trabalho Nem casa consegues arranjar!
Enganas-te respondeu, direita, com convicção nova. Fiz o curso de design gráfico, tenho já contactos e portefólio. A Rita arranjou-me trabalhos pequenos mas é só o começo. Agora estou pronta. Deixar-te? Já não tenho medo nenhum.
Nesse preciso momento ouviu-se a vozinha de Mariana do quarto:
Mamã? Porque estás a falar alto?
Mafalda correu até à filha, sentou-se na cama e abraçou-a, aconchegando-lhe o cabelo:
Está tudo bem, amorinho sussurrou com ternura, tentando esconder os nervos. A mamã acha que está na altura de uma aventura nova. Vamos para um sítio cheio de sol, onde se pode correr e brincar sem parar. Gostavas?
Mariana, mesmo meio a dormir, sorriu e afagou-lhe o rosto.
Ricardo, parado na porta, olhava para ambas. Pela primeira vez, parecia desorientado, sem saber o que dizer como se só agora percebesse que ela podia mesmo sair, desta vez para sempre.
Vais mesmo partir? perguntou, num fio de voz.
Vou respondeu Mafalda, firme, sem desviar o olhar. E desta vez para sempre. Eu e a Mariana precisamos de paz, de sentir que estamos seguras. E contigo isso não é possível. Lamento, Ricardo.
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Ricardo tentou de tudo: manteve o riso nervoso, depois passou a súplica, prometeu, ameaçou mas Mafalda manteve-se intransigente. Sempre que ele tentava reatar ao telefone ou por mensagens ela respondia, implacável: Acabou mesmo. Decisão final.
No início, Mariana ficou abatida com a separação. Perguntava muito: O papá vem?, Vamos vê-lo?, às vezes chorava, enroscada na mãe. Mas Mafalda protegeu-a, envolveu-a em cuidados, procurou uma casa acolhedora mesmo ao lado do Jardim de Arca dÁgua: luz, espaço, janelas para as árvores. As mudanças ajudaram: pinturas no quarto, almofadas coloridas, uma estante nova, tudo pequenos motivos para sorrir.
Inscreveu Mariana na escola de artes próxima. A menina mostrou logo vontade: adorava desenhar. Ao terceiro dia já tinha duas amigas no grupo riam, pintavam, partilhavam ideias. Aos poucos, as recordações das discussões dos pais desapareciam, dando lugar a entusiasmo por tudo o que era novo.
Durante algum tempo, Ricardo ligava todos os dias: perguntava, ria, ouvia as histórias da miúda sobre o dia e as aulas. Mariana respondia, partilhava tudo. As chamadas, porém, foram ficando mais espaçadas cada vez menos, até uma simples mensagem: Bom dia, princesa, Porta-te bem! E as transferências, míseros trinta euros, nem chegavam para os materiais da escola. Ricardo percebeu que não conseguia pôr Mafalda na defensiva usando a filha. E as suas manipulações já não tinham efeito.
Mafalda, finalmente, sentiu que voltava a respirar. Pela primeira vez em anos, sentia leveza. Ao fim da tarde, passeavam pelo parque, davam pão aos patos, apanhavam folhas outonais, soltavam papagaios de papel que Mariana escolhera feliz numa loja no Marquês. A menina corria, falava alto, mostrava folhas douradas, e Mafalda dava consigo a pensar que não via a filha tão despreocupada há muito tempo.
A cada sorriso solto de Mariana, Mafalda tinha a certeza: fiz a escolha certa. Sim, custou conseguir trabalho, criar uma nova rotina, inventar tudo outra vez. Mas a paz e liberdade agora valiam tudo. O mundo delas finalmente existia: seguro, sereno, repleto de novas oportunidades. E, acima de tudo, sem medo, sem suspeitas, sem nunca mais voltar atrás.







